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Revolta da vacina

Um texto sobre a guerra da vacina

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OS DIAS DE FÚRIA QUE TOMARAM CONTA DA CIDADE

O Centro do Rio viveu dias de tensão e violência. Manifestantes ensangüentados corriam pelas ruas, onde bondes eram virados e incendiados. Numa janela, um rapaz que assistia ao embate entre a multidão que protestava e policiais morreu ao ser atingido por uma bala perdida na cabeça. No total, 30 pessoas morreram, 110 ficaram feridas e 945 foram presas, sendo mais de 400 enviadas para fora da cidade. Os tumultos, que poderiam ter acontecido recentemente no Rio, na verdade ocorreram durante a Revolta da Vacina.

O episódio, que transformou a cidade numa praça de guerra durante mais de uma semana, chegando a ser comparado a uma guerra civil, vai completar cem anos em 10 de novembro. E o curioso é que há pontos em comum entre o Rio daquela época e o dos tempos atuais. Em 1902, Rodrigues Alves assumiu a presidência do país com dois objetivos bem claros: acabar com as epidemias e reformar a capital da República aos moldes das cidades européias.

Mais de 600 cortiços, segundo relatos da época, foram derrubados no Centro para a construção de avenidas. Sem ter para onde ir, os desalojados ocupavam os morros. Era a expansão das favelas, como ainda ocorre hoje.

O jovem médico Oswaldo Cruz recebeu a dura missão de combater as epidemias. Ele foi chamado para o cargo depois que o médico particular de um dos ministros do governo J.J. Seabra, Sales Guerra, recusou o convite. Sales indicou o sanitarista, que aceitou a missão.

Oswaldo Cruz foi chamado de Czar dos Mosquitos

Uma das tarefas de Oswaldo Cruz foi combater a febre amarela. O povo não acreditava que um simples mosquito fosse o transmissor da doença. Já o sanitarista era adepto da teoria defendida pelo médico Carlos Juan Finlay, que combatera a doença em Cuba exterminando o mosquito Stegomyia fasciata e isolando os doentes.

Assim como no combate à dengue, Oswaldo Cruz contratou uma brigada de mata-mosquitos, que vistoriou jardins, porões, telhados, ralos e caixas d’água, removendo focos de larvas de mosquito. Ele mapeou a febre amarela na cidade e atualizou as estatísticas epidemiológicas.

Mesmo assim, foi duramente criticado pela imprensa, pelo povo e pela comunidade médica. Os adversários do governo aproveitaram para apelidá-lo de Czar dos Mosquitos. Suas ações tomavam as páginas dos jornais e eram alvo dos chargistas. Apesar de todas as resistências e chacotas, a epidemia de febre amarela foi considerada encerrada em 1907.

A segunda linha de ação do diretor de Saúde Pública foi combater a peste bubônica, transmitida pela pulga do rato. Um esquadrão de 50 homens percorreu a cidade espalhando raticida e removendo lixo. Se hoje o governo estimula a entrega de armas em troca de dinheiro, naquela época Oswaldo Cruz criou um cargo: apanhador de ratos.

Um funcionário público ficava circulando pelas ruas e pagava até 300 réis por rato apanhado pela população. Claro que apareceram espertinhos que criavam animais para vendê-los. No entanto, a ação de Oswaldo Cruz deu resultado.

Mas foi a vacina contra a varíola que pôs o Rio de Janeiro em pé de guerra, num levante jamais visto.

— A revolta não pode ser vista apenas como sendo uma reação à vacina. Ela bagunçou a vida de muita gente. Os donos de cabeças-de-porco ficaram furiosos com a destruição de seus cortiços, as pessoas criticavam as ações de Oswaldo Cruz, os monarquistas queriam o poder de volta, assim como os militares — explica o escritor Moacyr Scliar, que também estudou medicina e saúde pública.

Os números mostram que ele estava certo’, diz Scliar

Para Scliar, as primeiras campanhas de saúde pública foram autoritárias e mal recebidas pela população. Daí o fato de Oswaldo Cruz ser o homem mais atacado pelos caricaturas de revistas políticas da época.

— Os números mostraram que ele estava certo. Mas pagou um preço muito alto por isso — comenta o escritor.

Com um regulamento sanitário, logo apelidado de Código de Torturas, Cruz tornou a vacinação obrigatória. As casas eram invadidas e as pessoas imunizadas à força. O povo dizia que a vacina podia matar ou deixar a pessoa com cara de bezerro, ou que era feita com sangue dos ratos capturados durante o combate à peste bubônica.

A vacina era aplicada com uma espécie de estilete, nos braços ou nas pernas. Para as mulheres, isso era um ofensa ao pudor.

No dia 31 de outubro de 1904, o Congresso aprovou a vacinação contra a varíola, feita com êxito na Europa. O texto vazou para a imprensa e começou a confusão. No dia 10 de novembro, o povo tomou as ruas da cidade. Por mais de uma semana, elas ficaram cheias de barricadas. Bondes foram incendiados e lojas acabaram saqueadas e depredadas. A Escola Militar da Praia Vermelha aliou-se ao povo. Em 16 de novembro, a lei foi revogada, mas os tumultos continuaram até dia 18. Apesar de tudo, mais uma vez a iniciativa do sanitarista deu resultado e a varíola desapareceu no Rio meses depois.

Para Scliar, a população aprendeu a lição e hoje as mães correm para os postos de saúde para vacinar seus filhos.

Doenças comuns na cidade incluíam febre amarela, peste bubônica e malária

Cidade Maravilhosa, nem de longe. O Rio de Janeiro de fins do século XIX e início do século XX era uma cidade pestilenta. Tanto que era conhecida como túmulo dos estrangeiros. Em 1895, o navio italiano Lombardia atracou para uma visita de cortesia. A tripulação foi recebida pelo presidente Prudente de Morais com uma grande festa. A visita, no entanto, terminaria em tragédia.

Dos 340 tripulantes do navio, 333 pegaram febre amarela. Morreram 234 doentes. O caso, é claro, teve uma péssima repercussão para a imagem da cidade. Se hoje, por vezes, agências internacionais não recomendam o Rio como ponto turístico a ser visitado, naquela época isso também acontecia. A propaganda de uma companhia de viagem européia, por exemplo, dizia aos possíveis clientes do Velho Mundo: “Viaje direto para a Argentina sem passar pelos perigosos focos de epidemias do Brasil”.

Febre amarela, peste bubônica, varíola e malária, entre outras doenças. O Rio era foco de todas essas enfermidades. Isso sem contar que a cidade era suja e malcuidada. Daí a missão do presidente Rodrigues Alves: acabar com as epidemias no Rio de Janeiro que tanto atrapalhavam o lado econômico — no caso, as exportações de café — e remodelar a cidade, livrando-a do mau cheiro e transformando-a numa espécie de Paris com ares praianos.

O presidente nomeou dois homens que teriam imensos poderes: Pereira Passos, como prefeito, e Oswaldo Cruz, como diretor de Saúde Pública. Ao contrário de muitos políticos que estipulam prazos para atingir objetivos e acabam não cumprindo suas promessas, o sanitarista disse que, se tivesse liberdade de ação, exterminaria a febre amarela em três anos. Ele cumpriu sua missão muito bem, apesar das duras críticas.

As vielas da cidade eram estreitas e cheias de lixo e rato. O comércio não tinha qualquer higiene e vendia-se de tudo em quiosques espalhados pelas ruas, principalmente no Centro. Não havia noções de higiene. Um tipo de habitação comum eram os cortiços, conhecidos como cabeças-de-porco. O apelido teve origem no fato de a maior casa de cômodos do Centro ter sobre os portões, em vez das habituais estátuas, uma enorme cabeça de porco. O lugar abrigava nada menos que duas mil pessoas aproximadamente.

Apelidada de bota-abaixo pelo povo, a reforma da cidade começou com a remoção da população dos cortiços, considerados focos de proliferação de doenças. Nenhuma política de habitação foi pensada para alojar os que ficaram sem casa. Acostumados a viver no Centro, esses moradores se recusaram a ir para o subúrbio, preferindo subir os morros e formar as favelas.

Os engenheiros mudavam a paisagem urbana, colocando tudo abaixo para alargar ruas. Uma das principais obras foi a abertura da Avenida Central, a atual Rio Branco.

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