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Saiba tudo sobre o movimento antivacina

O movimento antivacina ganha força, graças ao negacionismo, e preocupa a saúde pública

Por  Professora Fernanda Campos

O movimento antivacina tem ganhado força no mundo inteiro, sem considerar os inquestionáveis avanços obtidos com as vacinas na redução drástica da incidência das  doenças contagiosas. Há motivos (discutíveis, para dizer o mínimo) para este avanço, os quais ainda são temas de discussão e  pesquisa, mas a ignorância, a facilidade da disseminação de informações falsas e a  ascensão de políticas populistas têm sido fatores cruciais na disseminação de fake News e desinformação. O grande desafio para o futuro será a  dicotomia entre o interesse da saúde pública e as liberdades individuais. 
A hesitação contra a imunização é prática antiga, ocorria mesmo antes da descoberta  da vacina como a conhecemos hoje.

 

Imunização em manada e vacinas

fonte da imagem :https://hypescience.com/imunidade-de-grupo-vacinas/

A variolização foi uma das primeiras estratégias utilizadas para se evitar a ocorrência de uma doença de importância sanitária nos contextos urbanos. Consistia  na  inoculação do conteúdo purulento retirado da lesão de doentes em indivíduos não imunes e  era realizada desde épocas remotas. Esse tipo de ação, era baseada na observação de que aqueles que  sobrevivessem ao episódio adquiriam imunidade duradora. Foi introduzida na  Europa no início do século XVIII e adotada com certa cautela, pois os inoculados  apresentavam risco de adoecer e disseminar a doença. A variolização também não era bem vista pela Igreja Católica, por considerar a prática  antinatural.

Em 1770, Edward Jenner observou que a inoculação da varíola bovina (cow pox)  tornava as pessoas imunes contra a varíola humana e ainda evitava os inconvenientes da  variolização (disseminação da doença e riscos para os doentes, pois a evolução do vírus bovino em organismo humano é autolimitada). A aplicação da vacina, assim denominada por ser originária da vaca (vaccinae em latim), por apresentar excelente custo benefício e comprovada eficácia, foi adotada pelas  autoridades sanitárias de maneira compulsória, gerando críticas e descontentamento por  parte da população.
O primeiro movimento anti-vacinação organizado  surgiu com o estabelecimento de  leis pró vacinação entre 1840-1853, promulgado pelo governo inglês, que tornava a  vacinação compulsória de crianças e pobres e determinava punições para os refratários.  Essa lei gerou imediata reação negativa da população tendo como argumento principal a  quebra do princípio da liberdade individual  e o medo do estabelecimento da  tirania médica.

No início do século XX, o Rio de Janeiro já era lindo, mas a falta de saneamento básico e as péssimas condições de higiene faziam da cidade um foco de epidemias, principalmente febre amarela, varíola e peste. Estas pragas tropicais deram à capital do país o triste apelido de “túmulo de estrangeiros”. Com medidas impopulares e polêmicas, Oswaldo Cruz, além de ter sido o responsável pela estruturação da saúde pública no Brasil, foi quem saneou o Rio, apesar da oposição da mídia e da manifestação popular, que ficou conhecida como “Revolta da Vacina”.

A população da cidade revoltou-se contra o plano de saneamento, mas, sobretudo, com a remodelação urbana feita pelo presidente Rodrigues Alves (1902-1906), que decidiu modernizar a cidade e tomar medidas drásticas para combater as epidemias. Cortiços e casebres, que compunham inúmeros quarteirões dos bairros centrais, foram demolidos, e deram lugar a grandes avenidas e ao alargamento das ruas, seguindo o modelo de urbanização dos grandes bulevares parisienses. A população local foi desalojada, refugiando-se em barracos nos morros cariocas ou em bairros distantes na periferia. As favelas começaram a se expandir.

Nesse cenário, há exatos cem anos, Oswaldo Cruz assumia a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), cargo que, na época, equivalia ao de ministro da Saúde. Enquanto o prefeito Pereira Passos realizava o “Bota Abaixo”, como ficou conhecida a reforma da cidade, Oswaldo Cruz transformou o Rio em um gigantesco laboratório de combate às doenças, implantando métodos revolucionários.
Em 1904, a cidade foi assolada por uma epidemia de varíola. Oswaldo Cruz mandou ao Congresso uma lei que reiterava a obrigatoriedade da vacinação, já instituída em 1837, mas que nunca tinha sido cumprida. Ciente da resistência da opinião pública, montou uma campanha em moldes militares. Dividiu a cidade em distritos, criou uma polícia sanitária com poder para desinfetar casas, caçar ratos e matar mosquitos.

Com a imposição da vacinação obrigatória, as brigadas sanitárias entravam nas casas e vacinavam as pessoas à força. Isso causou uma repulsa pela maneira como foi feita. A maioria da população ainda desconhecia e temia os efeitos que a injeção de líquidos desconhecidos poderia causar no corpo das pessoas. Setores de oposição ao governo gritaram contra as medidas autoritárias. Quase toda a imprensa ficou contra Oswaldo Cruz, ridicularizando seus atos com charges e artigos.

Guerra da vacina

A indignação levou ao motim popular, que explodiu em 11 de novembro de 1904, conhecido como a “Revolta da Vacina”. Carroças e bondes foram tombados e incendiados, lojas saqueadas, postes de iluminação destruídos e apedrejados. Pelotões dispararam contra a multidão. Durante uma semana, as ruas do Rio viveram uma guerra civil. Segundo a polícia, o saldo negativo foi de 23 mortos e 67 feridos, tendo sido presas 945 pessoas, das quais quase a metade foi deportada para o Acre, onde foi submetida a trabalhos forçados.

Para o historiador Sérgio Lamarão, da Universidade Federal Fluminense, “conduzida de forma arbitrária, sem os necessários esclarecimentos à população, a campanha da vacina obrigatória canalizou um crescente descontentamento popular. Deve ser entendida como uma conseqüência do processo de modernização excludente concentrado, no tempo e no espaço ¬ desencadeado pela reforma do prefeito Passos ¬ e não, como foi considerada pelas autoridades, como uma reação explosiva da massa ignorante ao progresso e às inovações”.

Entre as décadas de 40 e 70, a vacinação teve a sua era de ouro com a descoberta  de novos produtos, desenvolvimento da indústria e a eliminação de várias doenças  epidêmicas. O ápice desta era foi a certificação global da erradicação da varíola em 1980.

Neste período os programas nacionais de imunização foram criados e desenvolvidos  em diversos países, inclusive nos ditos subdesenvolvidos, o que evitou inúmeras mortes,  principalmente das crianças. Pode-se citar alguns exemplos como a poliomielite, doença  viral causadora de epidemias, sendo a manifestação clínica mais temida as que envolvem o sistema nervoso central e periférico, que podem culminar com sequelas motoras permanentes. Desde 1988, a incidência da doença caiu mais de 99% em todo mundo, sendo  eliminada das Américas em 1991 e no Brasil, em 1994. Outro exemplo da eficácia da vacina nas políticas de controle e eliminação de doenças é o caso do sarampo, doença viral altamente contagiosa declarada eliminada das Américas em 2016. De acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde, o número de casos de sarampo no mundo no início da década de 80 chegava a mais de 4 milhões por ano, com o aumento da cobertura vacinal para 90 % (considerando-se a primeira dose da vacina), os casos chegaram para 170 mil em 2017.

No entanto, mesmo com os avanços obtidos e os resultados comprovados, o movimento anti-vacinação tomou força no fim da década de 70. As causas para o fortalecimento desse movimento ainda são motivo de intenso debate e de pesquisas, mas pode-se dizer que os indivíduos antivacina se distribuem em espectros de dois polos: os ignorantes que não entendem o método científico e de conceitos matemáticos como risco e probabilidade e os que se utilizam do uso da desinformação e  coação.

Nos Estados Unidos, a indústria de vacinas vem sofrendo processos judiciais que, adicionalmente à baixa lucratividade do setor, têm inviabilizado a produção e desenvolvimento de imunobiológicos, e por isso muitas empresas têm encerrado a sua linha de vacinas.

Alguns exemplos de surtos causados pela queda da imunidade de crianças e jovens  pela negação da vacinação são cada vez mais frequentes. A prefeitura de Nova Iorque  decretou emergência de saúde pública em alguns bairros da cidade após a deteção de 285  casos de sarampo, na maioria em indivíduos menores de 18 anos.

Com mais de um século de implantação e inúmeros aperfeiçoamentos, é indiscutível  os benefícios alcançados com a massificação das vacinas.

A eliminação e o controle de diversas doenças, que antes causavam grande morbidade e letalidade, evitaram verdadeiras tragédias e beneficiaram principalmente as crianças.

É inquestionável que os avanços na  saúde pública obtidos com a vacinação estão  ameaçados com a crescente diminuição da cobertura vacinal. Novos surtos de doenças que anteriormente estavam controladas vão aumentar; a OMS declarou que o número de casos  de sarampo aumento em 300 % nos primeiros meses de 2019 .

O maior desafio a ser enfrentado pelas autoridades sanitárias, nacionais e  supranacionais, será o controle da informação na internet perante o aumento da influência  dos grupos antivacinação no mundo. Diante das ações a serem tomadas para este  último fim, hoje como no passado, levantam-se as questões: como impedir a circulação de  falsas informações sem ameaçar a liberdade de expressão? E, como preservar o direito  à saúde dos indivíduos sem afetar a liberdade individual de escolha?

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