Em A Cidade e as Serras, somos conduzidos pela narrativa de Zé Fernandes, que busca provar ao leitor a superioridade da vida campestre em relação à agitação urbana. Para tanto, ele nos apresenta a trajetória de seu amigo, Jacinto, um herdeiro de vastas riquezas obtidas em Portugal, mas que nasceu e cresceu em Paris, cidade que considerava o ápice da civilização e o único lugar onde a verdadeira felicidade poderia ser alcançada. Jacinto, em sua juventude, chegou a formular uma equação: “Suma Ciência X Suma Potência = Suma Felicidade“, acreditando que a combinação de tecnologia e erudição o levaria à plenitude.
No entanto, mesmo com todo o conforto de seu palacete no número 202 da Avenida dos Campos Elísios, equipado com os mais avançados recursos tecnológicos da época e uma vasta biblioteca, Jacinto se encontrava profundamente infeliz, entristecido e até fisicamente curvado. Suas amizades eram superficiais, a tecnologia frequentemente falhava, e seus livros já não lhe despertavam interesse. A “Suma Potência” com que sonhava se traduzia em melancolia e angústia existencial, levando seu perspicaz empregado Grilo a diagnosticar: “Sua Excelência sofre de fartura”.
A reviravolta ocorre quando Jacinto recebe a notícia de um desabamento em sua propriedade em Tormes, Portugal. Embora relutante em deixar Paris, ele decide ir para lá para supervisionar as reformas. Inicialmente chocado com a rusticidade do local, Jacinto começa a ser seduzido pela beleza da natureza e pela simplicidade da vida serrana. Ele decide permanecer, reencontrando sua vitalidade e dedicando-se a melhorar as condições de vida de seus empregados, estabelecendo novas relações de trabalho e transformando a propriedade.
Finalmente, Jacinto se apaixona por Joaninha, prima de Zé Fernandes, e decide se instalar definitivamente nas serras. Da modernidade parisiense, ele mantém apenas o telefone, reconhecendo sua utilidade. Assim, Jacinto encontra a “Suma Felicidade” que tanto buscava, mas não na metrópole civilizada, e sim no contato com a natureza e suas raízes. Zé Fernandes considera sua tese comprovada, mas a obra, no fim, prega um equilíbrio entre a preservação das tradições e um projeto modernizador, como sugere o título “A Cidade e as Serras”, com sua partícula conciliadora.
A busca pela felicidade humana através da confrontação entre o progresso da vida urbana e a simplicidade da vida rural.
Eça de Queirós (1845-1900) foi um proeminente escritor, advogado e diplomata português, considerado um dos maiores nomes do Realismo em Portugal. Sua obra, vasta e influente, é marcada por uma aguda observação social e um estilo narrativo sofisticado. Eça dividiu sua produção literária em fases, iniciando com influências românticas, passando pelo Realismo-Naturalismo em obras como O Crime do Padre Amaro e O Primo Basílio, e culminando em uma terceira fase, mais “pós-realista”, onde permitiu maior liberdade imaginativa, como exemplificado em A Cidade e as Serras e Os Maias.
A Cidade e as Serras, uma das últimas obras de Eça de Queirós, foi publicada postumamente em 1901, um ano após a morte do autor. O romance é um desenvolvimento da ideia central de um conto anterior de Eça, “Civilização”, de 1892. A obra é um marco na trajetória do escritor, representando uma espécie de reconciliação de Eça com a sociedade portuguesa, após as críticas e polêmicas levantadas por romances mais incisivos de sua fase realista. Nela, Eça revisita temas caros à sua produção, como a comparação entre campo e cidade e as relações entre a elite e a classe trabalhadora, mas com uma perspectiva mais equilibrada e menos mordaz.
| Tempo | A ação principal se passa no final do século XIX, embora haja referências ao início do século, que contextualizam a origem da família de Jacinto. |
| Espaço | Paris, a metrópole que simboliza a civilização e a modernidade, e Tormes (e Guiães), nas serras de Portugal, representando a vida rural e as tradições. |
| Narrador | Em primeira pessoa, por Zé Fernandes, que é amigo e observador das transformações de Jacinto. |
| Linguagem | Predominantemente descritiva e detalhada, característica do Realismo, mas com nuances do Expressionismo (na descrição da cidade) e do Impressionismo (na descrição da paisagem campestre). |
A Cidade e as Serras é uma obra que se enquadra na terceira fase de Eça de Queirós, caracterizada por um sincretismo estético notável. Embora mantenha elementos do Realismo-Naturalismo, como a observação minuciosa da sociedade e a crítica social, Eça explora novas vertentes. A descrição da vida urbana em Paris, com suas hipocrisias e a desilusão de Jacinto, por vezes assume tons expressionistas, chocantes e intensos. Em contraste, a representação da paisagem campestre de Tormes é permeada por um lirismo e uma suavidade que remetem ao Impressionismo, com foco nas cores e sensações da natureza. O próprio título do romance, “A Cidade e as Serras”, é um recurso estilístico que antecipa a busca por um equilíbrio, em vez de uma oposição binária, refletindo a tese final da obra.
A narrativa de A Cidade e as Serras se desenrola no final do século XIX, um período de intensas transformações na Europa, marcado pelo avanço da Revolução Industrial, da tecnologia e do urbanismo. Em Portugal, o século foi palco da vitória dos liberais sobre os absolutistas, defendendo uma monarquia moderada. A obra reflete esse embate entre o velho e o novo, entre as tradições e o progresso desenfreado. Eça de Queirós, por meio da história de Jacinto, tece uma crítica social à superficialidade das relações humanas na vida urbana parisiense, à ilusão de felicidade atrelada unicamente ao consumo e à tecnologia, e à exploração social presente mesmo nas áreas rurais. A “reconciliação” de Eça com a sociedade portuguesa, percebida nesta fase de sua obra, não significa um abandono da crítica, mas uma abordagem mais matizada, propondo a harmonização entre o desenvolvimento e a preservação dos valores autênticos.
Em exames vestibulares, questões sobre A Cidade e as Serras frequentemente abordam a fórmula de Jacinto (“Suma Ciência X Suma Potência = Suma Felicidade”) e sua refutação ao longo do romance. Outro ponto recorrente é o motivo da mudança de Jacinto de Paris para Tormes, bem como as consequências dessa transformação em sua percepção de felicidade. A oposição entre a cidade e o campo (Paris vs. Tormes) e o papel do narrador Zé Fernandes em conduzir essa discussão são temas centrais. Além disso, as questões podem explorar o Realismo e as características da terceira fase de Eça de Queirós, incluindo o sincretismo estético e as críticas sociais presentes na obra.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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