Sala de estudos

Redemocratização: o que cai no ENEM e nos vestibulares

Do fim do regime militar à Constituição de 1988: entenda a abertura política, as Diretas Já, a eleição de Tancredo Neves e a volta do voto direto, com linha do tempo e questões no estilo ENEM.

Estudante estilo Pixar segurando uma bandeira do Brasil diante de uma urna de votação, cercado por uma multidão alegre em clima de festa democrática
Estudante estilo Pixar segurando uma bandeira do Brasil diante de uma urna de votação, cercado por uma multidão alegre em clima de festa democrática
Direto ao assunto
  1. Resumo rápido
  2. O que foi a redemocratização?
  3. Por que o regime militar entrou em crise?
  4. A abertura “lenta, gradual e segura”
  5. 1979: a Lei da Anistia e a volta dos partidos
  6. A sociedade volta às ruas: greves e Diretas Já
  7. Linha do tempo da redemocratização
  8. 1985: Tancredo, Sarney e a Nova República
  9. A Constituição de 1988: a “Constituição Cidadã”
  10. Antes e depois: o que mudou com a redemocratização
  11. 1989: o voto direto volta
  12. Mapa mental
  13. SAQ — Perguntas e respostas curtas
  14. Questões comentadas
  15. Dica do professor
  16. Atenção / cuidado
  17. Conexão com outras áreas
  18. Incidência

Resumo rápido

A redemocratização foi o processo que tirou o Brasil do Regime Militar (1964–1985) e devolveu ao país a democracia: eleições diretas, liberdade de imprensa, partidos políticos livres e uma nova Constituição. Não aconteceu de um dia para o outro. Foi uma transição longa, que começou dentro do próprio governo militar, com a chamada “abertura lenta, gradual e segura”, e só se completou com a Constituição de 1988 e a primeira eleição direta para presidente, em 1989. É um tema 🔥 Quente no ENEM e nos vestibulares, porque aparece ligado à ditadura, aos movimentos sociais, à cidadania e à história recente do Brasil — e cai muito em questões que pedem para interpretar o sentido de um acontecimento, e não apenas decorar datas.

Em resumo: o regime militar começou a perder força nos anos 1970, com a crise econômica e o crescimento da oposição. O general Ernesto Geisel iniciou a distensão; o general João Figueiredo sancionou a Lei da Anistia, em 1979, e restabeleceu o pluripartidarismo. A sociedade voltou às ruas com as greves do ABC e a campanha das Diretas Já, em 1984. A emenda das diretas foi derrotada no Congresso, mas a oposição venceu a eleição indireta de 1985 com Tancredo Neves, que morreu antes de tomar posse. Assumiu José Sarney, que convocou a Assembleia Constituinte. A Constituição de 1988, chamada de “Constituição Cidadã”, ampliou os direitos dos brasileiros e preparou o caminho para a eleição direta de 1989.

Se você guardar só uma ideia desta matéria, guarde esta: a redemocratização foi uma transição negociada, feita ao mesmo tempo por dentro do governo e por pressão da sociedade. Por isso ela avançou aos poucos, teve idas e vindas e deixou marcas que duram até hoje — como a própria Constituição de 1988, que continua em vigor.

O que foi a redemocratização?

Redemocratização é o nome que os historiadores dão ao processo de retorno à democracia depois de um período autoritário. No caso brasileiro, esse período autoritário foi o Regime Militar, instalado com o golpe de 31 de março de 1964, que derrubou o presidente João Goulart. Durante mais de vinte anos, o Brasil viveu sob governos de generais, com censura à imprensa, perseguição a opositores, eleições indiretas para presidente e governadores biônicos, isto é, governadores escolhidos de forma indireta, sem voto popular.

A redemocratização, portanto, não foi apenas a troca de um presidente por outro. Foi a reconstrução das regras do jogo político: voltar a ter partidos livres, sindicatos atuantes, imprensa sem censura, eleições diretas e direitos garantidos por uma Constituição democrática. Esse processo se estende, na cronologia mais usada nas provas, de 1974 — início do governo Geisel e da distensão — até 1989, quando os brasileiros voltaram a eleger diretamente o presidente da República. Alguns autores estendem o marco final até a promulgação da Constituição, em 1988; outros, até a posse do primeiro presidente eleito pelo voto direto, em 1990. Nas questões de vestibular, o mais importante é entender a sequência dos fatos, não brigar por um único ano de fechamento.

Um ponto central para entender o caso brasileiro é que a transição foi controlada, pelo menos no início, pelos próprios militares. Diferente de outros países, em que a ditadura caiu de repente, por uma revolução ou por uma derrota militar, no Brasil os generais planejaram a saída aos poucos, tentando manter o controle do ritmo e evitar punições aos agentes do regime. Essa característica explica várias marcas do período: a Lei da Anistia de 1979, que perdoou os dois lados — opositores e agentes da repressão —, a derrota da emenda das Diretas Já e a eleição indireta de 1985. Ao mesmo tempo, a pressão da sociedade — operários, estudantes, artistas, Igreja, Ordem dos Advogados do Brasil e imprensa — foi empurrando a abertura para além do que os militares planejavam. A redemocratização é, assim, o resultado desse encontro entre a abertura “por cima” e a mobilização “por baixo”.

Por que o regime militar entrou em crise?

Nenhum regime cai apenas porque o tempo passou. O governo militar começou a perder sustentação por uma combinação de crise econômica, desgaste político e crescimento da oposição. Entender esses três fatores é o que permite responder às questões mais elaboradas do ENEM, que quase sempre pedem a causa de um processo, e não só a data dele.

A crise econômica: o fim do “milagre”

Entre 1968 e 1973, o Brasil viveu o chamado “milagre econômico”, com crescimento alto e inflação sob controle, mas concentrando renda e aumentando a dívida externa. Em 1973, a primeira crise do petróleo quadruplicou o preço do barril e abalou a economia mundial. O Brasil, que importava a maior parte do petróleo que consumia, viu a dívida externa disparar e a inflação voltar a subir. Nos anos seguintes, o governo Geisel tentou manter o crescimento com o II Plano Nacional de Desenvolvimento, financiado com empréstimos externos. O resultado foi mais endividamento. No início dos anos 1980, uma segunda crise do petróleo e a alta dos juros internacionais levaram o país à recessão, ao desemprego e a uma inflação que, em 1983, já passava de 200% ao ano. Um regime que se apresentava como eficiente na economia perdia, assim, seu principal argumento.

A crise bateu diretamente no bolso do trabalhador: salários corroídos pela inflação, desemprego nas indústrias e carestia. Não por acaso, foi nesse momento que o movimento operário renasceu, com as grandes greves do ABC paulista, em 1978, 1979 e 1980. A conta econômica virou conta política: ficou difícil defender um governo que não entregava nem crescimento nem estabilidade.

O desgaste político e o crescimento da oposição

Mesmo com a repressão, a oposição legal crescia. O partido de oposição consentido pelo regime, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), venceu as eleições para o Senado em 1974, assustando os militares. A Igreja Católica, por meio das Comunidades Eclesiais de Base, a Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Brasileira de Imprensa e o movimento estudantil passaram a denunciar a tortura, os desaparecimentos e a censura. Aos poucos, falar de democracia deixou de ser assunto proibido e virou demanda pública.

Além disso, o próprio regime estava dividido. De um lado, os generais da chamada “linha moderada”, como Geisel e Golbery do Couto e Silva, defendiam uma abertura controlada. Do outro, a “linha dura”, ligada aos órgãos de repressão, resistia a qualquer afrouxamento e chegou a promover atentados para sabotar a abertura — o mais conhecido foi o do Riocentro, no Rio de Janeiro, em 1981, quando uma bomba explodiu no colo de um militar durante um show, frustrando o atentado planejado contra o público. O episódio expôs a divisão interna e enfraqueceu ainda mais os defensores da ditadura.

A abertura “lenta, gradual e segura”

Foi o general Ernesto Geisel, presidente de 1974 a 1979, quem anunciou a distensão, ou seja, o afrouxamento do regime. A fórmula que ele usou ficou famosa: a abertura seria “lenta, gradual e segura”. Lenta, porque não tinha pressa; gradual, porque avançaria por etapas; segura, porque não ameaçaria os militares nem a “ordem” que eles diziam defender. Na prática, isso significava: o governo conduziria a transição, no seu ritmo, sem abrir mão do controle.

Geisel tomou algumas medidas importantes. Em 1978, o Congresso aprovou a emenda que revogou os Atos Institucionais, incluindo o AI-5, o ato mais duro da ditadura, que permitia fechar o Congresso, cassar mandatos e suspender direitos políticos. Com o fim do AI-5, a partir de 1º de janeiro de 1979, voltaram a vigorar o habeas corpus e algumas garantias individuais. Mas a abertura de Geisel teve limites claros: em 1977, diante de uma derrota eleitoral iminente, ele fechou o Congresso e impôs o chamado “Pacote de Abril”, que criou a figura do senador biônico — um terço dos senadores passaria a ser eleito indiretamente — e manteve a maioria governista. Ou seja, abria com uma mão e fechava com a outra. Por isso, os historiadores dizem que a distensão de Geisel foi uma abertura controlada, e não uma democratização imediata.

O governo seguinte, do general João Figueiredo (1979–1985), herdou a promessa de “fazer deste país uma democracia”. Figueiredo é lembrado como o presidente da abertura: foi em seu governo que aconteceram a anistia, a volta do pluripartidarismo e as eleições diretas para governadores, em 1982. Mas também foi sob Figueiredo que a crise econômica se agravou e que a linha dura tentou, com atentados, frear a transição. O próprio Figueiredo, no fim do governo, já não tinha forças para impor um sucessor militar — e foi aí que a oposição percebeu que a hora da virada tinha chegado.

1979: a Lei da Anistia e a volta dos partidos

O ano de 1979 é um dos mais cobrados nas provas sobre redemocratização, porque concentra duas medidas decisivas. A primeira foi a Lei da Anistia, sancionada em 28 de agosto de 1979. Ela permitiu o retorno ao Brasil de exilados e banidos políticos — nomes como Leonel Brizola e Miguel Arraes voltaram ao país — e libertou presos políticos. Ao mesmo tempo, a lei foi “ampla, geral e irrestrita” também para os agentes do Estado envolvidos na repressão: na prática, perdoou os dois lados e impediu, por décadas, a punição de torturadores. Esse caráter recíproco da anistia brasileira é um dos pontos mais debatidos até hoje e aparece com frequência em questões que pedem uma avaliação crítica da transição.

A segunda medida foi o fim do bipartidarismo, em novembro de 1979. Desde 1965, o Brasil só tinha dois partidos: a ARENA, do governo, e o MDB, da oposição. Com a nova Lei Orgânica dos Partidos, o pluripartidarismo voltou. Surgiram, entre outros, o Partido Democrático Social (PDS), herdeiro da ARENA; o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), herdeiro do MDB; o Partido dos Trabalhadores (PT), nascido do novo sindicalismo do ABC, com Luiz Inácio Lula da Silva; o Partido Democrático Trabalhista (PDT), de Leonel Brizola; e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). A estratégia do governo era dividir a oposição em vários partidos, mas o efeito de longo prazo foi o oposto: a vida partidária brasileira renasceu, com identidades próprias, programas e lideranças novas.

Também em 1979, as greves operárias voltaram com força e o movimento sindical conquistou espaço. O novo sindicalismo, diferente do sindicalismo controlado pelo Estado nos anos anteriores, defendia autonomia frente ao governo e aos patrões, negociação direta e direito de greve. Foi dessa experiência que nasceu o PT, em 1980, e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983 — sinais de que a sociedade civil estava se reorganizando por conta própria, e não apenas esperando a abertura “de cima”.

A sociedade volta às ruas: greves e Diretas Já

Se a abertura começou dentro do governo, foi a mobilização popular que a transformou em redemocratização de fato. Dois movimentos são essenciais para as provas: as greves do ABC e a campanha das Diretas Já.

As greves do ABC e o novo sindicalismo

Em 1978, metalúrgicos de São Bernardo do Campo, Santo André e São Caetano do Sul — o chamado ABC paulista — pararam as fábricas exigindo reposição salarial. As greves se repetiram em 1979 e 1980, enfrentando a repressão e a intervenção nos sindicatos. A liderança de Lula, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, ganhou projeção nacional. Para o ENEM, o ponto é este: as greves mostraram que a classe trabalhadora voltava a ser protagonista político, depois de anos de arrocho salarial e de sindicatos sob tutela do Estado. Elas também ligam a redemocratização a outro tema quente: a história do trabalho no Brasil.

As Diretas Já (1983–1984)

A maior mobilização popular da história do Brasil até então foi a campanha das Diretas Já, entre 1983 e 1984. O objetivo era aprovar a Emenda Dante de Oliveira, que restabeleceria as eleições diretas para presidente já em 1984. Comícios gigantescos tomaram as ruas: em janeiro de 1984, a Praça da Sé, em São Paulo, reuniu uma multidão; em abril de 1984, o comício da Candelária, no Rio de Janeiro, reuniu mais de um milhão de pessoas. Artistas, jogadores de futebol, jornalistas, políticos de vários partidos e gente comum vestiam amarelo e pediam “diretas já”.

Apesar da pressão popular, a emenda foi votada em 25 de abril de 1984 e não alcançou os dois terços dos votos necessários na Câmara dos Deputados. Faltaram 22 votos. Foi uma derrota amarga, mas não o fim da transição. A campanha tinha mudado o clima do país: a ideia de que o Brasil precisava voltar a votar para presidente já era consenso nacional, e a oposição percebeu que poderia vencer mesmo dentro das regras do jogo indireto. Foi assim que nasceu a Aliança Democrática, unindo o PMDB ao PDS dissidente, em torno da candidatura de Tancredo Neves.

Vale notar um detalhe que as provas adoram: as Diretas Já não conseguiram eleições diretas imediatas, mas aceleraram o fim do regime. O candidato do governo, Paulo Maluf, representava a continuidade; Tancredo, a mudança dentro da ordem. Em janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral — o mesmo mecanismo indireto criado pela ditadura — elegeu Tancredo presidente. A ditadura, ironicamente, foi derrotada pelas suas próprias regras.

Linha do tempo da redemocratização

AnoAcontecimentoPor que importa
1974Início do governo Geisel e da distensão; vitória do MDB nas eleições para o SenadoComeça a abertura “lenta, gradual e segura”
1978Revogação do AI-5; greves do ABCFim do instrumento mais duro da ditadura; renascimento do movimento operário
1979Lei da Anistia; fim do bipartidarismo e volta do pluripartidarismoRetorno dos exilados; renascimento da vida partidária
1982Eleições diretas para governadoresOposição vence nos principais estados; a ditadura perde espaço
1984Campanha das Diretas Já; emenda Dante de Oliveira derrotada no CongressoMaior mobilização popular do período; derrota que abriu caminho para a Aliança Democrática
1985Tancredo Neves eleito pelo Colégio Eleitoral; sua morte e a posse de José SarneyFim do Regime Militar e início da Nova República
1988Promulgação da Constituição Federal“Constituição Cidadã”: direitos ampliados e regras democráticas
1989Primeira eleição direta para presidente desde 1960O voto direto volta; fecha-se o ciclo da transição

1985: Tancredo, Sarney e a Nova República

A eleição de 15 de janeiro de 1985 foi indireta, feita pelo Colégio Eleitoral, mas seu resultado foi uma vitória da oposição: Tancredo Neves, do PMDB, derrotou Paulo Maluf, do PDS, com folga. O país respirou aliviado. Tancredo, político experiente e conciliador, simbolizava a transição pacífica: prometia a convocação de uma Assembleia Constituinte e a redemocratização completa, sem revanchismo.

O desfecho, porém, foi dramático. Na véspera da posse, marcada para 15 de março de 1985, Tancredo foi internado às pressas, com fortes dores abdominais. Ele nunca chegou a tomar posse. Quem assumiu, primeiro interinamente e depois em definitivo, foi o vice, José Sarney, ex-presidente do PDS que havia rompido com o governo e aderido à Aliança Democrática. Em 21 de abril de 1985, Tancredo morreu, sem ter exercido a Presidência. A comoção nacional foi imensa, e a data virou um símbolo: o presidente eleito para encerrar a ditadura morreu antes de governar.

O governo Sarney (1985–1990) ficou conhecido como Nova República. Suas primeiras medidas foram políticas: restabeleceu as eleições diretas para presidente e para prefeitos das capitais, devolveu o direito de voto aos analfabetos e legalizou os partidos comunistas, que estavam na clandestinidade. Em 1986, convocou eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, que escreveria a nova Constituição. Na economia, o governo tentou combater a inflação com o Plano Cruzado, em 1986, que congelou preços e trocou a moeda — o cruzeiro virou cruzado. O plano funcionou por alguns meses, mas fracassou em 1987, e a inflação voltou com força. Ainda assim, politicamente, o governo Sarney cumpriu sua tarefa principal: conduzir o país até a nova Constituição, sem retrocesso autoritário.

A Constituição de 1988: a “Constituição Cidadã”

Promulgada em 5 de outubro de 1988, a Constituição Federal é o marco jurídico da redemocratização. Ao promulgá-la, o presidente da Assembleia Constituinte, Ulysses Guimarães, chamou-a de “Constituição Cidadã”, por causa da ampliação dos direitos. Ela é a sétima Constituição do Brasil e a que está em vigor até hoje — um recorde de longevidade para uma Constituição brasileira, o que mostra a estabilidade do arranjo democrático construído na transição.

Entre os avanços, destacam-se: o voto direto, secreto e universal, com voto facultativo para analfabetos e para jovens de 16 e 17 anos; a liberdade de expressão, de imprensa e de associação; o fim da censura; a garantia de direitos trabalhistas, como o seguro-desemprego, o 13º salário e a licença-maternidade de 120 dias; a proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas; e a criação de instrumentos como o habeas data e o mandado de injunção, que permitem ao cidadão cobrar direitos na Justiça. A Constituição também definiu o Brasil como um Estado democrático de direito, com separação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, e estabeleceu eleições diretas para presidente, governadores, prefeitos, senadores, deputados e vereadores.

É importante entender o que a Constituição de 1988 representa para as provas: ela não foi apenas um documento jurídico, mas o pacto político que fechou a transição. Ao garantir direitos sociais e liberdades individuais, ela respondeu tanto às demandas dos movimentos sociais quanto à necessidade de estabilidade institucional. Por isso, questões do ENEM costumam associar a Constituição de 1988 à cidadania, aos direitos humanos e à participação popular — e não apenas à sua data.

Antes e depois: o que mudou com a redemocratização

AspectoDurante o Regime MilitarApós a redemocratização
Eleição para presidenteIndireta, pelo Colégio EleitoralDireta, pelo voto popular (a partir de 1989)
Partidos políticosBipartidarismo imposto (ARENA e MDB)Pluripartidarismo livre
Imprensa e expressãoCensura prévia e perseguição a jornalistasLiberdade de imprensa garantida pela Constituição
Sindicatos e grevesIntervenção estatal e repressão a grevesLiberdade sindical e direito de greve garantidos
VotoAnalfabetos não votavam; eleições restritasVoto universal, incluindo analfabetos e jovens de 16 e 17 anos
Presos e exilados políticosPrisão, exílio e banimentoAnistia de 1979 e retorno dos exilados

1989: o voto direto volta

Em 1989, os brasileiros voltaram às urnas para eleger diretamente o presidente da República — algo que não acontecia desde 1960, quando Jânio Quadros foi eleito. A eleição teve 22 candidatos no primeiro turno, um sinal da liberdade partidária reconquistada, e foi decidida no segundo turno, em dezembro de 1989, com a vitória de Fernando Collor de Mello sobre Luiz Inácio Lula da Silva. Collor tomou posse em 15 de março de 1990, encerrando o ciclo da transição: pela primeira vez desde o golpe de 1964, o presidente do Brasil chegava ao cargo pelo voto direto.

É comum as provas perguntarem por que 1989 é considerado o fechamento da redemocratização, mesmo com a Constituição já promulgada em 1988. A resposta é que a democracia só se completa quando o povo escolhe diretamente seus governantes. A Constituição criou as regras; a eleição de 1989 colocou essas regras em prática. Juntos, os dois marcos — 1988 e 1989 — formam o ponto final da transição e o ponto de partida da democracia brasileira atual, com todos os seus avanços e problemas, como a desigualdade social, a crise econômica dos anos seguintes e os desafios da participação política, que continuam em debate até hoje.

Para estudar este tema na sala de estudo, vale relacionar a redemocratização com outros conteúdos de História: o Regime Militar, a Era Vargas, a República Populista e os movimentos sociais. As questões raramente cobram a redemocratização isolada; quase sempre ela aparece como consequência da ditadura ou como origem da democracia atual.

Linha do tempo ilustrada da redemocratização do Brasil em quatro cenas: retorno dos exilados em 1979, passeata das Diretas Já em 1984, posse presidencial em 1985 e celebração da nova Constituição em 1988
Linha do tempo ilustrada da redemocratização do Brasil em quatro cenas: retorno dos exilados em 1979, passeata das Diretas Já em 1984, posse presidencial em 1985 e celebração da nova Constituição em 1988
Cidadãos e parlamentares estilo Pixar aplaudindo em um salão de assembleia diante de um grande livro aberto que simboliza a Constituição de 1988, com bandeiras do Brasil ao fundo
Cidadãos e parlamentares estilo Pixar aplaudindo em um salão de assembleia diante de um grande livro aberto que simboliza a Constituição de 1988, com bandeiras do Brasil ao fundo

Mapa mental

  • Redemocratização (1974–1989): retorno do Brasil à democracia após o Regime Militar (1964–1985)
    • Causas da crise do regime
      • Crise econômica: fim do “milagre”, crise do petróleo, dívida externa, inflação e desemprego
      • Desgaste político: vitória do MDB em 1974, denúncias de tortura e censura
      • Divisão interna: “linha moderada” x “linha dura”; atentado do Riocentro (1981)
    • Abertura “lenta, gradual e segura”
      • Geisel (1974–1979): distensão, fim do AI-5 em 1978, mas Pacote de Abril (1977)
      • Figueiredo (1979–1985): anistia, pluripartidarismo, eleições para governadores em 1982
    • 1979: virada
      • Lei da Anistia (28/08/1979): retorno dos exilados; perdão aos dois lados
      • Fim do bipartidarismo: surgem PMDB, PDS, PT, PDT, PTB
    • Sociedade nas ruas
      • Greves do ABC (1978–1980) e novo sindicalismo; nascimento do PT e da CUT
      • Diretas Já (1983–1984): comícios da Sé e da Candelária; emenda Dante de Oliveira derrotada em 25/04/1984
    • 1985: fim do regime
      • Tancredo Neves eleito pelo Colégio Eleitoral; morre em 21/04/1985 sem tomar posse
      • José Sarney assume; Nova República; eleições diretas e voto do analfabeto restabelecidos
    • 1988–1989: consolidação
      • Constituição de 1988 (“Constituição Cidadã”): direitos, liberdades, voto direto e universal
      • Eleição direta de 1989: primeira desde 1960; vitória de Fernando Collor

SAQ — Perguntas e respostas curtas

  1. O que foi a redemocratização? O processo de retorno do Brasil à democracia após o Regime Militar (1964–1985), com eleições diretas, partidos livres, fim da censura e uma nova Constituição.
  2. O que significava a abertura “lenta, gradual e segura”? A fórmula do governo Geisel para uma transição controlada pelos próprios militares: sem pressa, por etapas e sem ameaçar a ordem nem punir os agentes do regime.
  3. O que determinou a Lei da Anistia de 1979? O perdão a presos e exilados políticos, permitindo o retorno dos banidos, e, ao mesmo tempo, o perdão aos agentes da repressão — por isso é chamada de anistia recíproca.
  4. Por que a campanha das Diretas Já é tão importante? Porque foi a maior mobilização popular do período e transformou a eleição direta para presidente em consenso nacional, mesmo com a derrota da emenda no Congresso em 1984.
  5. Por que a emenda Dante de Oliveira foi derrotada? Porque não alcançou os dois terços dos votos necessários na Câmara dos Deputados, em 25 de abril de 1984, apesar dos comícios gigantescos nas ruas.
  6. Quem foi eleito presidente em 1985 e quem assumiu de fato? Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral, mas morreu em 21 de abril de 1985 antes de tomar posse; assumiu o vice, José Sarney.
  7. Por que a Constituição de 1988 é chamada de “Constituição Cidadã”? Porque ampliou os direitos individuais, sociais e políticos dos brasileiros, como a liberdade de expressão, o voto universal e os direitos trabalhistas.
  8. Por que 1989 fecha o ciclo da redemocratização? Porque foi a primeira eleição direta para presidente desde 1960, colocando em prática as regras democráticas criadas pela Constituição de 1988.

Questões comentadas

Questão 1. A abertura política anunciada pelo governo Geisel foi definida como “lenta, gradual e segura”. Essa definição revela que a transição brasileira foi, em seu início:

A) uma ruptura revolucionária conduzida pelos movimentos sociais.
B) um processo controlado pelo próprio regime, que pretendia ditar o ritmo da democratização.
C) uma imposição imediata da oposição, aceita sem resistência pelos militares.
D) um acordo internacional que obrigou o Brasil a democratizar-se de imediato.
E) uma decisão do Congresso, tomada contra a vontade do presidente.

Gabarito: B. A fórmula “lenta, gradual e segura” mostra exatamente o caráter controlado da distensão: o governo abria aos poucos, sem perder o comando do processo. As alternativas A e C erram ao sugerir ruptura ou imposição imediata; D inventa uma obrigação externa; E inverte os papéis, pois o Congresso estava subordinado ao Executivo no período.

Questão 2. A Lei da Anistia, de 1979, é frequentemente apontada como um marco ambíguo da redemocratização. Isso se deve ao fato de ela ter:

A) punido apenas os agentes da repressão, deixando os opositores presos.
B) permitido o retorno dos exilados, mas mantido a censura à imprensa.
C) beneficiado tanto opositores do regime quanto agentes do Estado envolvidos na repressão.
D) proibido a formação de novos partidos políticos.
E) restabelecido imediatamente as eleições diretas para presidente.

Gabarito: C. A anistia foi “ampla, geral e irrestrita” para os dois lados: libertou presos políticos e permitiu o retorno dos exilados, mas também impediu a punição de torturadores. Por isso, até hoje, ela é debatida como um pacto que facilitou a transição, mas deixou impunes crimes da ditadura. As demais alternativas contradizem o texto da lei ou antecipam medidas que só vieram depois.

Questão 3. As greves do ABC paulista, no fim dos anos 1970, e a campanha das Diretas Já, em 1984, têm em comum o fato de:

A) terem sido organizadas pelo governo militar para testar a abertura.
B) expressarem a reorganização da sociedade civil e a pressão popular pela democratização.
C) terem alcançado imediatamente todos os seus objetivos.
D) contarem com o apoio unânime dos partidos governistas.
E) defenderem a manutenção das eleições indiretas.

Gabarito: B. Greves e Diretas Já são exemplos da mobilização “por baixo”: trabalhadores, estudantes, artistas e partidos de oposição pressionando o regime. Nem todas as reivindicações foram atendidas de imediato — a emenda das diretas, por exemplo, foi derrotada —, mas a pressão mudou o clima político e acelerou a transição. As outras alternativas invertem o sentido dos movimentos.

Questão 4. Em janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito presidente pelo Colégio Eleitoral, derrotando Paulo Maluf. Esse episódio é paradoxal porque:

A) a ditadura foi derrotada usando o próprio mecanismo indireto que ela havia criado.
B) Tancredo era o candidato oficial do governo militar.
C) a eleição foi direta, com voto de toda a população.
D) o Colégio Eleitoral havia sido extinto em 1979.
E) Maluf representava a oposição ao regime.

Gabarito: A. O paradoxo está aí: a oposição venceu dentro das regras do jogo indireto, com a Aliança Democrática unindo PMDB e dissidentes do PDS. Tancredo era o candidato da oposição, a eleição foi indireta, o Colégio Eleitoral existia, e Maluf era o candidato da situação. Entender esse paradoxo é o que diferencia quem decora de quem interpreta.

Questão 5. A Constituição de 1988 ficou conhecida como “Constituição Cidadã”. Essa denominação se justifica, sobretudo, pela:

A) manutenção da censura e do bipartidarismo.
B) ampliação dos direitos e garantias individuais, sociais e políticos.
C) proibição do voto aos analfabetos.
D) concentração de poderes nas mãos do presidente.
E) exclusão dos direitos trabalhistas do texto constitucional.

Gabarito: B. A expressão, usada por Ulysses Guimarães na promulgação, refere-se à ampliação de direitos: liberdade de expressão, fim da censura, voto universal (incluindo analfabetos e jovens de 16 e 17 anos), direitos trabalhistas e proteção ao meio ambiente e aos povos indígenas. As demais alternativas descrevem o oposto do que a Constituição estabeleceu.

Questão 6. A eleição presidencial de 1989 é considerada o fechamento da redemocratização porque:

A) foi a primeira eleição indireta realizada no Brasil.
B) restaurou o bipartidarismo e a censura prévia.
C) marcou o retorno do voto direto para presidente, interrompido desde 1960.
D) elegeu Tancredo Neves para a Presidência.
E) foi realizada ainda sob a vigência do AI-5.

Gabarito: C. Desde 1960 os brasileiros não elegiam diretamente o presidente. Em 1989, com as regras da Constituição de 1988, o voto direto voltou, com 22 candidatos no primeiro turno e segundo turno vencido por Fernando Collor. As alternativas A, B e E descrevem situações opostas à realidade, e D confunde 1989 com a eleição indireta de 1985.

Dica do professor

Monte uma linha do tempo com apenas oito datas — 1974, 1978, 1979, 1982, 1984, 1985, 1988 e 1989 — e, ao lado de cada uma, escreva uma frase com o sentido do acontecimento, não só o nome dele. Por exemplo: “1979 — anistia: volta quem foi exilado, mas ninguém é punido”. Na hora da prova, o ENEM quase nunca pergunta “em que ano aconteceu X”; ele mostra um texto ou uma charge e pergunta o que aquilo significa. Quem estudou pelo sentido acerta; quem só decorou datas trava. E faça este exercício: para cada marco, pergunte “isso foi abertura por cima ou pressão por baixo?”. Essa chave resolve a maioria das questões sobre o tema.

Atenção / cuidado

Cuidado com quatro confusões clássicas. Primeira: Diretas Já não conseguiu as eleições diretas imediatas — a emenda foi derrotada em 1984; as diretas para presidente só voltaram em 1989. Segunda: Tancredo Neves foi eleito, mas nunca tomou posse nem governou; quem assumiu foi Sarney. Terceira: a Lei da Anistia não puniu torturadores — ela perdoou os dois lados, e esse é justamente o ponto mais cobrado nas questões críticas. Quarta: a Constituição de 1988 não encerrou todos os problemas do Brasil — desigualdade, inflação e crise econômica continuaram nos anos seguintes. Não romantize a transição: ela foi real e importante, mas negociada, gradual e cheia de limites.

Conexão com outras áreas

Em Sociologia, a redemocratização se conecta aos movimentos sociais, à cidadania e aos direitos humanos: greves, campanhas e organizações civis são o motor da participação política. Em Geografia, o tema aparece na urbanização e na industrialização do ABC paulista, que criaram a base operária do novo sindicalismo, e nas desigualdades regionais que a Constituição tentou enfrentar. Em Língua Portuguesa e Redação, o período rende temas de argumentação sobre democracia, liberdade de expressão e memória histórica — e a “Constituição Cidadã” é um repertório forte para redações sobre cidadania. Em Filosofia, o debate sobre anistia e justiça de transição levanta a pergunta: é possível reconciliar um país sem punir os crimes do passado? Levar essas conexões para a prova é o que transforma um conteúdo de História em repertório para várias áreas.

Incidência

Incidência: 🔥 Quente. A redemocratização está entre os temas mais recorrentes de História do Brasil no ENEM e nos vestibulares, sempre articulada ao Regime Militar, aos movimentos sociais e à Constituição de 1988. Revise este conteúdo junto com a ditadura militar e a Nova República para fechar o ciclo completo da história política brasileira recente.