
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- O contexto: a Revolução Industrial cria um mundo novo
- Liberalismo: liberdade para a burguesia
- Socialismo utópico: mudar o mundo pela reforma e pelo exemplo
- Socialismo científico: Marx, Engels e a luta de classes
- Anarquismo: nem patrão, nem governo
- Nacionalismo: um povo, uma nação, um Estado
- Positivismo: ordem e progresso pela ciência
- Conservadorismo: frear a revolução, defender a tradição
- As revoluções de 1830 e 1848: quando as ideias foram para a rua
- Como o tema cai no ENEM e nos vestibulares
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas e respostas rápidas
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção/cuidado
- Conexão com outras áreas
- Incidência
Ideias sociais e políticas do Século XIX: o que cai no ENEM e nos vestibulares
Resumo rápido
O Século XIX foi o século em que as ideias viraram força política. Depois da Revolução Francesa e da Revolução Industrial, a Europa — e, aos poucos, o mundo inteiro — passou a discutir perguntas que antes quase ninguém fazia em voz alta: quem deve mandar? O que é liberdade? O que é igualdade? O Estado deve proteger os pobres ou deixar cada um se virar sozinho? As respostas a essas perguntas deram origem às grandes correntes de pensamento do século: o liberalismo, o socialismo utópico e o socialismo científico, o anarquismo, o nacionalismo, o positivismo e o conservadorismo.
Para não se perder, guarde a lógica do século em uma frase: a Revolução Industrial criou uma sociedade nova, com fábricas, cidades cheias e uma classe trabalhadora pobre, e cada corrente do Século XIX foi uma tentativa de explicar essa sociedade nova e dizer o que fazer com ela. Os liberais queriam liberdade econômica e política, mas com o poder nas mãos da burguesia. Os socialistas queriam acabar com a desigualdade, seja pela reforma pacífica, como os utópicos, seja pela revolução, como Marx e Engels. Os anarquistas queriam acabar com todo governo. Os nacionalistas queriam unir povos em Estados nacionais. Os positivistas queriam ordem e progresso pela ciência. Os conservadores queriam frear as mudanças e defender a tradição, a Igreja e a monarquia.
Quem estuda para o ENEM e para o vestibular precisa dominar esse tema porque ele aparece em quase todas as provas de História, quase sempre ligado à Revolução Industrial, às revoluções de 1830 e 1848, à unificação da Alemanha e da Itália e, depois, ao movimento operário e à Primeira Guerra Mundial. Revise o assunto junto com a História geral na sala de estudo do cliquevestibular, e preste atenção nas diferenças entre as correntes: é nelas que as questões mais pegam o estudante desprevenido.
O contexto: a Revolução Industrial cria um mundo novo
Nada do que aconteceu no Século XIX se entende sem a Revolução Industrial. A partir do fim do Século XVIII, a Inglaterra, e depois a França, a Bélgica, a Alemanha e os Estados Unidos, passaram da produção artesanal, feita em oficinas pequenas, para a produção em fábricas, com máquinas a vapor, carvão e, mais tarde, aço e eletricidade. A produção cresceu de forma impressionante, as mercadorias ficaram mais baratas, o comércio se expandiu, e a burguesia industrial, dona das fábricas, ficou rica e poderosa. Mas o outro lado dessa moeda foi duro: milhões de camponeses deixaram o campo e foram morar em cidades superlotadas, sem saneamento, trabalhando de 14 a 16 horas por dia, por salários baixíssimos, inclusive mulheres e crianças.
Essa sociedade nova tinha dois grupos principais em conflito. De um lado, a burguesia, que possuía os meios de produção, isto é, as fábricas, as máquinas e o capital. Do outro, o proletariado, os operários, que só possuíam a sua força de trabalho e precisavam vendê-la para sobreviver. No campo, os antigos senhores e camponeses também sentiam as mudanças, com a terra virando mercadoria e a produção voltada para o mercado. Politicamente, o Antigo Regime já tinha sido abalado pela Revolução Francesa, de 1789, que derrubou privilégios da nobreza e proclamou os direitos do cidadão. Mas, depois da derrota de Napoleão, em 1815, o Congresso de Viena tentou restaurar as monarquias e frear as ideias revolucionárias. Foi nesse cabo de guerra entre restauração e revolução que nasceram as correntes do Século XIX.
Os primeiros operários reagiram como podiam. Na Inglaterra, o ludismo, por volta de 1811, quebrou máquinas, porque os operários viam nelas a causa do desemprego e dos salários baixos. Depois vieram os sindicatos, proibidos no início e tolerados aos poucos, as greves e o cartismo, movimento inglês da década de 1830 que pedia o voto para os trabalhadores. Essas lutas mostraram que a questão social, isto é, a pobreza e a exploração dos operários, não era um problema passageiro: era o centro da política do século. Cada corrente de pensamento ofereceu uma resposta diferente para essa questão, e é por isso que estudá-las juntas faz tanto sentido.
Liberalismo: liberdade para a burguesia
O liberalismo foi a primeira grande corrente do Século XIX e a ideologia da burguesia em ascensão. Seus principais pensadores foram Adam Smith, no Século XVIII, e John Stuart Mill e Benjamin Constant, no Século XIX. Na economia, o liberalismo defendia a livre iniciativa, a propriedade privada, a concorrência e a não intervenção do Estado na economia, a famosa ideia do laissez-faire, ou seja, deixar fazer, deixar passar. Para os liberais, o mercado se regularia sozinho, pela oferta e pela procura, e o Estado deveria apenas garantir a ordem, a justiça e a defesa do país, sem atrapalhar os negócios.
Na política, o liberalismo defendia a igualdade de todos perante a lei, a liberdade de expressão, de imprensa e de religião, a divisão dos poderes e o governo representativo, com constituição e parlamento. Mas atenção: esse liberalismo do Século XIX era limitado. O voto, na maior parte dos países, era censitário, isto é, só votava quem tivesse certa renda ou propriedade, o que excluía os operários, as mulheres e os pobres. Ou seja, o liberalismo rompia com os privilégios da nobreza, mas mantinha o poder nas mãos da burguesia. Com o tempo, pressionado pelas lutas operárias, o liberalismo foi se abrindo para o voto mais amplo e para algumas leis sociais, mas sua marca original é essa: liberdade política e econômica, com a propriedade privada intocável.
Na prática, o liberalismo inspirou as revoluções burguesas do início do século, as monarquias constitucionais e as repúblicas liberais. Nas provas, ele aparece quase sempre em contraste com o socialismo: enquanto o liberal defende a propriedade privada e o mercado livre, o socialista defende a propriedade coletiva e a intervenção do Estado ou a revolução. Se a questão falar em livre concorrência, em Estado mínimo e em direitos individuais, pense em liberalismo.
Socialismo utópico: mudar o mundo pela reforma e pelo exemplo
Os primeiros socialistas, chamados depois de utópicos por Marx, surgiram ainda na primeira metade do Século XIX, quando a miséria operária já era visível, mas o movimento operário ainda era fraco. Os principais nomes são o francês Saint-Simon, o francês Charles Fourier e o inglês Robert Owen. Eles criticavam a desigualdade e a exploração nas fábricas, mas acreditavam que a mudança poderia vir de forma pacífica, pela razão, pela educação e pelo exemplo, sem revolução violenta e sem luta de classes.
As propostas eram criativas e, para a época, ousadas. Saint-Simon defendia que a sociedade deveria ser organizada pelos industriais e cientistas, para o bem de todos, e não pelos ociosos, como a nobreza. Fourier imaginou comunidades modelo, os falanstérios, onde as pessoas viveriam e trabalhariam juntas, dividindo os frutos do trabalho de forma mais justa, com liberdade inclusive nas relações afetivas. Owen, que era dono de fábrica, criou na Escócia a comunidade de New Lanark, com jornadas menores, escolas para as crianças, moradia decente e salários melhores, e tentou depois fundar comunidades autossuficientes nos Estados Unidos. Essas experiências mostraram que era possível tratar o operário com dignidade, mas não se espalharam, porque dependiam da boa vontade de patrões e filantropos e não mexiam na estrutura da propriedade.
Por isso, Marx chamou esses pensadores de utópicos: não porque fossem sonhadores bobos, mas porque, na visão dele, suas propostas não atacavam a raiz do problema, que era a propriedade privada dos meios de produção, e não tinham uma força social capaz de mudar a sociedade, que seria o proletariado organizado. Nas provas, o socialismo utópico aparece como reforma pacífica, comunidades modelo e ausência de luta de classes. Se a questão falar em falanstério, em New Lanark ou em mudar a sociedade pelo exemplo e pela educação, é socialismo utópico.
Socialismo científico: Marx, Engels e a luta de classes
O socialismo científico, também chamado de marxismo, foi formulado por Karl Marx e Friedrich Engels, sobretudo no Manifesto Comunista, de 1848, e em O Capital, publicado a partir de 1867. Diferente dos utópicos, Marx dizia que a sua teoria era científica porque explicava a história pelas condições materiais, e não por ideias bonitas. Para ele, a história de todas as sociedades até então era a história da luta de classes: senhores e escravos, senhores feudais e servos, burguesia e proletariado. Em cada época, uma classe dominava e explorava outra, e essa luta empurrava a história para frente.
O ponto central do marxismo é a crítica ao capitalismo. No capitalismo, o operário produz muito mais riqueza do que recebe em salário. Essa diferença, que Marx chamou de mais-valia, fica com o patrão, que é dono da fábrica. Assim, quanto mais o operário trabalha, mais rico fica o patrão e mais pobre, em comparação, fica o operário. A saída, para Marx, não era reformar o capitalismo com leis melhores, mas superá-lo: o proletariado, organizado em partidos e sindicatos, deveria fazer a revolução, tomar o poder, acabar com a propriedade privada dos meios de produção e construir primeiro o socialismo, com o Estado controlado pelos trabalhadores, e depois o comunismo, uma sociedade sem classes, sem Estado e sem exploração, em que cada um contribuiria conforme sua capacidade e receberia conforme sua necessidade.
O marxismo teve um impacto enorme no movimento operário. Em 1864, foi criada a Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional, que reuniu sindicatos e partidos socialistas de vários países, mas rachou depois entre marxistas e anarquistas. No fim do século, surgiram partidos socialistas de massa na Alemanha, na França e em outros países, e o debate entre revolucionários e reformistas dividiu o movimento: uns queriam a revolução, outros queriam chegar ao poder pelo voto e melhorar a vida dos operários por dentro do sistema. Esse debate é fundamental para entender o Século XX, com a Revolução Russa de 1917 e a social-democracia europeia. Nas provas, se a questão falar em luta de classes, mais-valia, propriedade coletiva, revolução proletária e Manifesto Comunista, é socialismo científico.
Anarquismo: nem patrão, nem governo
O anarquismo foi a corrente mais radical do Século XIX. Seus principais pensadores foram o francês Pierre-Joseph Proudhon, que disse que a propriedade é um roubo, o russo Mikhail Bakunin e o russo Piotr Kropotkin. Para os anarquistas, o problema não era só o capitalismo, mas toda forma de autoridade: o Estado, a Igreja, o exército e o patrão. Por isso, eles defendiam o fim do Estado e de qualquer governo, e a organização da sociedade em comunidades livres, cooperativas e federações, sem chefes, com decisões tomadas em assembleias e com a ajuda mútua entre as pessoas.
Os anarquistas discordavam dos marxistas em um ponto decisivo: enquanto Marx aceitava um Estado de transição, controlado pelos trabalhadores, depois da revolução, Bakunin dizia que qualquer Estado, mesmo um Estado operário, viraria uma nova ditadura. Essa divergência rachou a Primeira Internacional, em 1872, e separou os dois movimentos para sempre. Na prática, o anarquismo foi muito forte entre operários e camponeses da Espanha, da Itália, da França e do Brasil, com sindicatos, jornais, escolas libertárias e greves. Uma parte pequena do movimento, no fim do século, adotou a propaganda pelo fato, isto é, atentados contra reis e presidentes, o que deu ao anarquismo uma fama de violência que não representa o conjunto do movimento.
Para a prova, guarde o lema: nem Deus, nem patrão, nem governo. Se a questão falar em fim do Estado, em autogestão, em cooperativas livres, em federalismo e em rejeição a partidos e eleições, é anarquismo. Cuidado para não confundir anarquismo com bagunça: os anarquistas defendiam organização, e muito rigorosa, só que sem autoridade imposta de cima para baixo.
Nacionalismo: um povo, uma nação, um Estado
O nacionalismo foi talvez a força política mais poderosa do Século XIX. A ideia central é simples: cada povo, unido por língua, história, cultura e território, deveria formar o seu próprio Estado nacional. Essa ideia vinha da Revolução Francesa, que tinha trocado a lealdade ao rei pela lealdade à nação, e se espalhou pela Europa com as guerras napoleônicas, quando povos dominados pela França ou por impérios multinacionais passaram a se ver como nações oprimidas.
O nacionalismo teve duas faces. A face unificadora aparece na Itália e na Alemanha. A Itália estava dividida em vários reinos e dominada em parte pela Áustria; entre 1859 e 1870, com Giuseppe Garibaldi, o conde de Cavour e o rei Vítor Emanuel II, o país se unificou. A Alemanha estava dividida em dezenas de Estados; sob a liderança da Prússia e do chanceler Otto von Bismarck, com guerras contra a Dinamarca, a Áustria e a França, unificou-se em 1871, com a proclamação do Império Alemão. A face separatista aparece nos Bálcãs, na Irlanda, na Polônia e em outros povos que queriam se libertar dos impérios austríaco, russo e otomano. No fim do século, o nacionalismo também virou arma dos impérios, com disputas por colônias e rivalidades que ajudariam a provocar a Primeira Guerra Mundial.
Nas provas, o nacionalismo aparece ligado às unificações, às independências latino-americanas, que também beberam nessa fonte, e aos movimentos de 1848, em que liberais e nacionalistas lutaram juntos contra os impérios. Atenção: nacionalismo não é a mesma coisa que patriotismo simples, nem que xenofobia. No Século XIX, ele era, antes de tudo, a ideia de que a nação, e não o rei, é a fonte da legitimidade política.
Positivismo: ordem e progresso pela ciência
O positivismo foi criado pelo francês Auguste Comte, na primeira metade do Século XIX. Comte dizia que a humanidade passava por três estados: o teológico, em que tudo se explicava por deuses; o metafísico, em que tudo se explicava por ideias abstratas; e o positivo, ou científico, em que só valia o que podia ser observado, medido e comprovado pela ciência. Para ele, a sociedade deveria ser estudada como a natureza, com leis, e governada por sábios e técnicos, e não por políticos movidos por paixões.
O lema do positivismo, ordem e progresso, ficou famoso no Brasil, onde foi parar na bandeira nacional, e influenciou militares, engenheiros e educadores no fim do Século XIX. Os positivistas defendiam a ordem social, o progresso material, a educação científica e um governo forte, que garantisse a estabilidade para o desenvolvimento. Por isso, o positivismo agradava a quem tinha medo da revolução: ele prometia mudança, mas sem luta de classes e sem desordem. Ao mesmo tempo, ele ajudou a valorizar a ciência, a escola pública e a técnica em um século obcecado pelo progresso.
Na prova, se a questão falar em ordem e progresso, em ciência como guia da sociedade, em Auguste Comte e na lei dos três estados, é positivismo. Cuidado para não confundir com o liberalismo: o positivista não é contra o Estado, pelo contrário, ele quer um Estado forte e técnico, que garanta a ordem para o progresso acontecer.
Conservadorismo: frear a revolução, defender a tradição
O conservadorismo nasceu como reação à Revolução Francesa. Seu grande teórico foi o irlandês Edmund Burke, ainda no Século XVIII, e seus herdeiros no Século XIX foram líderes como o austríaco Metternich, o organizador do Congresso de Viena. Os conservadores defendiam a monarquia, a Igreja, a tradição, a hierarquia social e a mudança lenta e gradual, nunca pela revolução. Para eles, a sociedade era como um organismo, que crescia com o tempo, e tentar refazê-la de uma vez, com ideias abstratas de liberdade e igualdade, só traria desordem e violência, como o Terror na Revolução Francesa.
Na prática, o conservadorismo sustentou a Restauração europeia depois de 1815, com a Santa Aliança entre Áustria, Prússia e Rússia para esmagar revoltas liberais e nacionalistas, e com a censura, a perseguição a jornais e a repressão a sociedades secretas. Mas o conservadorismo do Século XIX não ficou parado: com o tempo, parte dos conservadores aceitou o parlamento, a constituição e até algumas reformas sociais, desde que a ordem fosse mantida. O exemplo clássico é Bismarck, na Alemanha, que, sendo conservador, criou seguros sociais para os operários justamente para afastá-los do socialismo. Nas provas, se a questão falar em tradição, em monarquia, em Igreja, em mudança gradual e em medo da revolução, é conservadorismo.
As revoluções de 1830 e 1848: quando as ideias foram para a rua
As ideias do Século XIX não ficaram nos livros: elas explodiram nas ruas em 1830 e em 1848. Em 1830, uma onda revolucionária derrubou o rei ultraconservador Carlos X, na França, e levou ao trono Luís Filipe, o rei burguês, em uma monarquia mais liberal. A onda se espalhou: a Bélgica se separou da Holanda e virou um Estado independente, e houve revoltas na Polônia, na Itália e nos Estados alemães, a maioria derrotada, mas mostrando que o espírito de 1789 não tinha morrido.
Em 1848, a chamada Primavera dos Povos, a explosão foi ainda maior. Começou na França, com a queda de Luís Filipe e a proclamação da Segunda República, com voto universal masculino, oficinas de trabalho para os desempregados e forte participação operária. Depois se espalhou pela Europa inteira: Viena, Berlim, Milão, Veneza, Budapeste e Praga tiveram barricadas, assembleias e governos provisórios. Liberais pediam constituições, nacionalistas pediam unificação e independência, operários pediam trabalho e direitos sociais. Por alguns meses, parecia que a Europa inteira ia mudar de uma vez.
Mas 1848 terminou em derrota para a maioria dos revolucionários. Na França, a burguesia, com medo dos operários, reprimiu a revolta de junho de 1848 e, em 1851, Luís Napoleão Bonaparte deu um golpe e virou o imperador Napoleão III. Na Alemanha e na Itália, as unificações não se completaram naquele momento, e os impérios retomaram o controle. Mesmo assim, 1848 deixou um legado enorme: o Manifesto Comunista foi publicado naquele ano, o voto se ampliou em vários países, o movimento operário saiu mais organizado e o nacionalismo virou uma força que ninguém mais conseguiria ignorar. Para a prova, 1848 é o ano-chave para ligar todas as correntes: liberalismo, nacionalismo e socialismo estavam juntos nas barricadas, e foi a divisão entre eles que explica a derrota.
| Corrente | Ideia central | Quem defende | Posição sobre a propriedade privada |
|---|---|---|---|
| Liberalismo | Liberdade individual, mercado livre e governo representativo | Burguesia | Defende, é intocável |
| Socialismo utópico | Igualdade pela reforma pacífica, pela educação e por comunidades modelo | Saint-Simon, Fourier, Owen | Critica a desigualdade, mas não propõe revolução para acabar com ela |
| Socialismo científico | Luta de classes, mais-valia e revolução proletária | Marx e Engels | Quer acabar com ela, com propriedade coletiva dos meios de produção |
| Anarquismo | Fim de toda autoridade: Estado, Igreja e patrão | Proudhon, Bakunin, Kropotkin | Contra, defende cooperativas e autogestão |
| Nacionalismo | Cada povo deve ter seu próprio Estado nacional | Movimentos de unificação e de independência | Não é o centro do debate, varia conforme o movimento |
| Positivismo | Ordem e progresso guiados pela ciência | Comte e seus seguidores | Não questiona, quer ordem para o progresso |
| Conservadorismo | Tradição, monarquia, Igreja e mudança lenta | Metternich e as monarquias da Restauração | Defende, junto com a hierarquia social |
| Ano | Acontecimento | Correntes envolvidas | Resultado |
|---|---|---|---|
| 1815 | Congresso de Viena | Conservadorismo | Restauração das monarquias e repressão a liberais e nacionalistas |
| 1830 | Revolução na França e independência da Bélgica | Liberalismo e nacionalismo | Queda de Carlos X, monarquia liberal de Luís Filipe e Bélgica independente |
| 1848 | Primavera dos Povos e Manifesto Comunista | Liberalismo, nacionalismo e socialismo | Segunda República francesa, barricadas em toda a Europa e, depois, repressão e derrota dos revolucionários |
| 1864 | Primeira Internacional | Socialismo científico e anarquismo | Organização operária internacional, rachada em 1872 entre marxistas e anarquistas |
| 1859–1870 | Unificação da Itália | Nacionalismo e liberalismo | Itália unificada sob Vítor Emanuel II, com Garibaldi e Cavour |
| 1871 | Unificação da Alemanha | Nacionalismo e conservadorismo | Império Alemão proclamado, sob liderança da Prússia e de Bismarck |
Como o tema cai no ENEM e nos vestibulares
No ENEM e nos vestibulares, as ideias do Século XIX quase nunca aparecem sozinhas: elas vêm ligadas a um texto, a uma charge ou a um documento da época. Um tipo clássico apresenta um trecho de Marx sobre a luta de classes e pergunta qual corrente ele representa. Outro tipo mostra um texto liberal defendendo o livre comércio e pergunta o que ele defende. Um terceiro tipo, muito frequente, pede para diferenciar socialismo utópico de socialismo científico, ou marxismo de anarquismo, a partir de uma frase-chave, como falanstério, mais-valia ou fim do Estado. Outro tipo ainda relaciona as revoluções de 1848 com o nacionalismo e com as unificações da Itália e da Alemanha, pedindo a causa ou a consequência do processo.
A dica de ouro é: leia a questão procurando o verbo e o sujeito da ideia. Se o texto defende o mercado livre e o Estado mínimo, é liberalismo. Se defende comunidade modelo e reforma pacífica, é socialismo utópico. Se fala em luta de classes e revolução proletária, é socialismo científico. Se quer acabar com o Estado, é anarquismo. Se fala em povo, nação e unificação, é nacionalismo. Se fala em ordem, progresso e ciência, é positivismo. Se defende tradição e tem medo da revolução, é conservadorismo. Com esse mapa na cabeça, a maioria das questões vira identificação, e não decoreba.


Mapa mental
Ideias sociais e políticas do Século XIX — contexto: Revolução Industrial e Revolução Francesa.
- Revolução Industrial: fábricas, cidades cheias, burguesia dona dos meios de produção, proletariado vendendo a força de trabalho, questão social.
- Liberalismo: liberdade, propriedade privada, mercado livre, Estado mínimo, voto censitário, burguesia.
- Socialismo utópico: Saint-Simon, Fourier, Owen, falanstérios, New Lanark, reforma pacífica, sem luta de classes.
- Socialismo científico: Marx e Engels, Manifesto Comunista de 1848, luta de classes, mais-valia, revolução proletária, propriedade coletiva.
- Anarquismo: Proudhon, Bakunin, Kropotkin, fim do Estado, autogestão, cooperativas, ajuda mútua, nem patrão, nem governo.
- Nacionalismo: um povo, uma nação, um Estado, unificação da Itália e da Alemanha, separatismo nos impérios.
- Positivismo: Comte, lei dos três estados, ordem e progresso, ciência guiando a sociedade, Estado forte e técnico.
- Conservadorismo: Burke, Metternich, tradição, monarquia, Igreja, mudança lenta, Congresso de Viena, medo da revolução.
- Revoluções: 1830, queda de Carlos X e independência da Bélgica; 1848, Primavera dos Povos, Segunda República francesa e derrota dos revolucionários.
SAQ — Perguntas e respostas rápidas
1. O que o liberalismo defendia no Século XIX? Liberdade individual, propriedade privada, livre concorrência, mercado sem intervenção do Estado e governo representativo, com voto limitado no início.
2. Qual é a diferença entre socialismo utópico e socialismo científico? O utópico queria mudar a sociedade de forma pacífica, pela educação e por comunidades modelo, sem luta de classes; o científico, de Marx e Engels, defendia a revolução do proletariado para acabar com a propriedade privada dos meios de produção.
3. O que é a mais-valia, para Marx? A diferença entre a riqueza que o operário produz e o salário que ele recebe; essa diferença fica com o patrão e é a base da exploração no capitalismo.
4. O que o anarquismo defendia? O fim de toda autoridade, Estado, Igreja e patrão, e a organização da sociedade em comunidades livres, cooperativas e federações, com autogestão e ajuda mútua.
5. O que é o nacionalismo do Século XIX? A ideia de que cada povo, unido por língua, história e cultura, deve formar o seu próprio Estado nacional, o que explica as unificações da Itália e da Alemanha.
6. O que é o positivismo? A corrente de Auguste Comte que defende que a sociedade deve ser guiada pela ciência, com o lema ordem e progresso, passando do estado teológico e do metafísico para o estado positivo.
7. O que o conservadorismo defendia? A tradição, a monarquia, a Igreja e a hierarquia social, com mudanças lentas e graduais e medo da revolução, como na Restauração do Congresso de Viena.
8. Por que as revoluções de 1848 são chamadas de Primavera dos Povos? Porque a revolução se espalhou por quase toda a Europa ao mesmo tempo, com liberais, nacionalistas e operários lutando juntos nas barricadas, ainda que a maioria tenha sido derrotada depois.
Questões comentadas
Questão 1. Um panfleto operário do Século XIX afirma que os trabalhadores produzem toda a riqueza das fábricas, mas recebem apenas uma pequena parte dela em salário, e que essa situação só vai mudar quando os próprios trabalhadores, organizados, tomarem o poder e acabarem com a propriedade privada das fábricas. As ideias desse panfleto são características do:
a) liberalismo, que defende o mercado livre e a propriedade privada. b) socialismo científico, que explica a exploração pela mais-valia e defende a revolução proletária. c) positivismo, que defende a ordem e o progresso pela ciência. d) conservadorismo, que defende a tradição e a monarquia. e) nacionalismo, que defende a unificação de um povo em um Estado.
Gabarito: B. Comentário: a ideia de que o operário produz mais do que recebe é a mais-valia de Marx, e a proposta de tomar o poder e acabar com a propriedade privada dos meios de produção é o centro do socialismo científico, diferente do socialismo utópico, que apostava na reforma pacífica.
Questão 2. Uma comunidade do início do Século XIX, fundada por um industrial inglês, oferecia jornada de trabalho menor, escola para as crianças dos operários, moradia decente e salários melhores, sem propor a tomada do poder nem a luta de classes. Essa experiência está associada ao:
a) anarquismo, que defendia o fim imediato de todo Estado. b) socialismo utópico, que buscava mudar a sociedade pelo exemplo e pela reforma pacífica. c) marxismo, que defendia a ditadura do proletariado. d) conservadorismo, que defendia a volta do Antigo Regime. e) nacionalismo, que defendia a independência de um povo.
Gabarito: B. Comentário: a comunidade descrita lembra New Lanark, de Robert Owen, um dos socialistas utópicos, que tentava provar, pelo exemplo, que era possível tratar o operário com dignidade, sem revolução e sem luta de classes.
Questão 3. Um texto do Século XIX defende que o governo não deve interferir nos preços, nos salários e nos negócios, porque o mercado se regula sozinho pela oferta e pela procura, e que o Estado deve apenas garantir a ordem e a justiça. Essa posição corresponde ao:
a) socialismo científico, que defende a propriedade coletiva. b) anarquismo, que defende o fim do Estado. c) liberalismo econômico, que defende a livre iniciativa e o Estado mínimo na economia. d) positivismo, que defende o governo dos técnicos. e) conservadorismo, que defende a intervenção do rei na economia.
Gabarito: C. Comentário: a não intervenção do Estado na economia, a livre concorrência e a ideia de que o mercado se autorregula são marcas do liberalismo econômico, a ideologia da burguesia industrial do Século XIX.
Questão 4. Um militante operário do fim do Século XIX afirma que não adianta trocar um governo burguês por um governo operário, porque qualquer Estado vira uma nova forma de opressão, e que a sociedade deve se organizar em cooperativas livres, sem chefes e sem partidos. Essa posição é a do:
a) liberalismo, que defende o parlamento e a constituição. b) nacionalismo, que defende o Estado nacional forte. c) positivismo, que defende o governo dos sábios. d) anarquismo, que defende o fim do Estado e a autogestão. e) socialismo utópico, que defende comunidades modelo criadas por patrões generosos.
Gabarito: D. Comentário: a rejeição a qualquer Estado, mesmo a um Estado operário, e a defesa de cooperativas livres e de autogestão são o centro do anarquismo, e foi justamente essa divergência que rachou a Primeira Internacional entre marxistas e anarquistas.
Questão 5. Sobre as revoluções de 1848, conhecidas como Primavera dos Povos, é correto afirmar que elas:
a) foram um movimento exclusivamente conservador, em defesa das monarquias absolutas. b) reuniram liberais, nacionalistas e operários contra os impérios e as monarquias da Restauração, proclamaram a Segunda República na França, mas foram derrotadas na maioria dos países. c) unificaram a Alemanha e a Itália de forma definitiva já em 1848, sem nenhuma reação dos impérios. d) foram provocadas apenas pelo positivismo de Auguste Comte, sem participação operária. e) acabaram com o capitalismo na Europa e instalaram o comunismo em todos os países.
Gabarito: B. Comentário: em 1848, liberais que pediam constituições, nacionalistas que pediam unificação e operários que pediam direitos sociais lutaram juntos, mas a divisão entre esses grupos e a reação dos impérios levaram à derrota da maioria das revoltas, com exceção de avanços como o voto na França.
Questão 6. Um discurso político do Século XIX afirma que a sociedade deve ser guiada pela ciência, que a ordem é a condição do progresso e que as decisões devem ser tomadas por técnicos, e não por paixões partidárias. Esse discurso expressa o:
a) positivismo, de Auguste Comte, com o lema ordem e progresso e a lei dos três estados. b) anarquismo, que rejeita qualquer governo técnico. c) socialismo científico, que defende a luta de classes. d) conservadorismo, que defende a tradição religiosa contra a ciência. e) liberalismo, que defende o voto censitário e o mercado livre.
Gabarito: A. Comentário: ordem e progresso, ciência como guia da sociedade e governo técnico são marcas do positivismo de Comte, que via na ciência o caminho para superar tanto a teologia quanto as disputas políticas apaixonadas.
Dica do professor
Monte um quadro de uma linha para cada corrente, com três colunas: o que ela defende, quem ela representa e uma palavra-chave. Liberalismo, burguesia, mercado livre. Socialismo utópico, reforma pacífica, falanstério. Socialismo científico, proletariado, mais-valia. Anarquismo, fim do Estado, autogestão. Nacionalismo, povo, unificação. Positivismo, ciência, ordem e progresso. Conservadorismo, tradição, mudança lenta. Na véspera da prova, revise só esse quadro e a cronologia 1830 e 1848. Se você souber identificar a corrente pela palavra-chave do texto, metade da questão já estará resolvida.
Atenção/cuidado
Cuidado com quatro confusões frequentes. Primeira: não confunda socialismo utópico com socialismo científico; o primeiro é pacífico e reformista, o segundo é revolucionário e baseado na luta de classes. Segunda: não confunda marxismo com anarquismo; o marxista aceita um Estado de transição, o anarquista rejeita qualquer Estado. Terceira: não confunda nacionalismo com nazismo ou com xenofobia; no Século XIX, o nacionalismo era, antes de tudo, a luta de povos por um Estado próprio, e só depois virou arma imperialista. Quarta: não diga que o liberalismo do Século XIX era democrático para todos; o voto era censitário e excluía operários e mulheres na maior parte dos países.
Conexão com outras áreas
As ideias do Século XIX conversam diretamente com a Sociologia, ao discutir classes sociais, desigualdade e movimentos sociais; com a Filosofia, ao retomar o contrato social, a liberdade e a justiça; com a Geografia, ao explicar a industrialização, a urbanização e o imperialismo; com a Economia, ao comparar mercado livre e economia planificada; e com a Língua Portuguesa e a Literatura, na leitura de manifestos, panfletos e romances que retrataram a miséria operária e as barricadas de 1848. Perceber essas conexões ajuda a responder questões interdisciplinares, muito comuns no ENEM.
Incidência
Incidência: 🔥 Quente. As ideias sociais e políticas do Século XIX são um dos temas mais cobrados de História geral no ENEM e nos vestibulares, porque ligam Revolução Industrial, revoluções de 1830 e 1848, unificações, movimento operário e as origens da Primeira Guerra Mundial. Revise o tema junto com a Revolução Industrial e com a Primeira Guerra, para entender o Século XIX como a origem do mundo do Século XX.



