
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- O contexto: por que o Empirismo surgiu?
- O que é o Empirismo?
- John Locke: a mente como folha em branco
- George Berkeley: existir é ser percebido
- David Hume: o hábito, a causalidade e os limites da razão
- Tabelas de revisão
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas curtas com respostas
- Questões comentadas — estilo ENEM, originais
- Dica do professor
- Atenção / cuidado — erros comuns
- Conexão com outras áreas
- Incidência no ENEM e nos vestibulares
Resumo rápido
O Empirismo é a corrente da Filosofia Moderna que defende que todo conhecimento começa na experiência: nada chega à mente sem antes passar pelos sentidos. Para os empiristas, nascemos como uma folha em branco, e é vendo, ouvindo, tocando e vivendo que formamos ideias, conceitos e até as leis que usamos para entender o mundo. Os três nomes centrais são John Locke, George Berkeley e David Hume, e a disputa deles com o racionalismo é um dos temas que mais aparecem no ENEM e nos vestibulares.
Se você gravar uma frase, grave esta: para o empirista, a experiência vem antes da ideia. A razão organiza o que os sentidos entregam, mas não cria conhecimento sozinha, sem contato com o mundo.
O contexto: por que o Empirismo surgiu?
O Empirismo nasceu no século XVII, na Inglaterra, em um momento em que a ciência moderna começava a ganhar força. Galileu observava o céu com telescópio, Newton formulava leis a partir de observações, e os médicos aprendiam anatomia dissecando corpos, não apenas lendo livros antigos. Nesse clima, parecia estranho dizer que a mente já nasce cheia de verdades prontas, como defendiam os racionalistas.
Os empiristas propuseram o caminho inverso: observe primeiro, forme a ideia depois. O conhecimento confiável seria aquele que pode ser testado na experiência, e não apenas deduzido por raciocínio abstrato. Essa atitude moldou a ciência experimental e, até hoje, aparece em questões que pedem para identificar o valor da observação, do experimento e da evidência.
O que é o Empirismo?
Empirismo vem de empeiria, palavra grega para experiência. A tese central é simples e forte: a mente humana, ao nascer, não traz ideias prontas. Tudo o que sabemos deriva, em última instância, de impressões dos sentidos (sensações) ou da reflexão sobre o que sentimos.
Isso não significa que os empiristas desprezem a razão. Eles apenas invertem a ordem: a razão trabalha sobre um material que vem da experiência. Sem sensação, não há ideia; sem ideia, não há pensamento. É por isso que, nas provas, o empirismo costuma aparecer ligado a palavras como observação, experiência, sensação, hábito e evidência.
Um erro comum é confundir empirismo com “achar que só vale o que se vê”. O empirista não nega o pensamento abstrato: ele diz que até as ideias mais abstratas, como a de infinito ou de causa, foram construídas a partir de experiências concretas, combinadas e generalizadas pela mente.
John Locke: a mente como folha em branco
John Locke (1632–1704), autor do Ensaio sobre o entendimento humano, é o pai do empirismo moderno. Sua imagem mais famosa é a da tábula rasa: a mente ao nascer seria como uma folha de papel em branco, sem nenhuma ideia escrita nela. As ideias vão sendo “escritas” pela experiência ao longo da vida.
Locke divide as ideias em dois tipos. As ideias simples chegam diretamente pelos sentidos (a cor vermelha, o som de um sino, o frio do gelo) ou pela reflexão interna (lembrar, duvidar, querer). As ideias complexas são montadas pela mente a partir das simples: a ideia de “maçã” junta cor, cheiro, sabor e forma, que vieram de sensações separadas.
Outra distinção famosa de Locke é entre qualidades primárias e secundárias. As qualidades primárias pertencem ao próprio objeto e não dependem de quem observa: extensão, forma, movimento, número. As qualidades secundárias dependem da relação com nossos sentidos: cor, cheiro, sabor e som. A maçã é redonda (primária) em qualquer situação, mas o “vermelho” e o “doce” só existem na interação com olhos e língua. Essa distinção cai muito em questões sobre a diferença entre o objeto e a percepção que temos dele.
Politicamente, Locke também é fundamental: defendeu direitos naturais à vida, à liberdade e à propriedade, e a ideia de que o governo existe por consentimento dos governados. Por isso ele aparece tanto em Filosofia quanto em História e Sociologia.
George Berkeley: existir é ser percebido
George Berkeley (1685–1753) levou o empirismo a uma conclusão radical. Se só conhecemos o mundo por meio de percepções, dizia ele, não faz sentido falar de uma matéria que existiria por trás das percepções, independente de qualquer mente. Sua fórmula ficou célebre: esse est percipi, “existir é ser percebido”.
Para Berkeley, o que chamamos de “mesa” é um conjunto de ideias: a cor marrom, a dureza ao toque, o som ao bater nela. Tire todas as percepções e não sobra nenhuma “mesa em si” que possamos conhecer. Isso não significa que o mundo some quando fechamos os olhos: Deus, para Berkeley, perceberia todas as coisas o tempo todo, garantindo a continuidade do mundo.
Nas provas, Berkeley costuma aparecer como o empirista mais radical, aquele que nega a existência da matéria independente da percepção. Se a questão falar em “só existem mentes e ideias”, o nome provável é Berkeley.
David Hume: o hábito, a causalidade e os limites da razão
David Hume (1711–1776) é o empirista mais influente — e o mais incômodo. Ele dividiu as percepções em impressões (sensações fortes e diretas, como ver o fogo) e ideias (cópias enfraquecidas das impressões, como lembrar do fogo). Toda ideia legítima, para Hume, deve poder ser rastreada até alguma impressão. Se não houver impressão correspondente, a ideia é suspeita.
O golpe mais famoso de Hume foi contra a ideia de causa e efeito. Vemos o fogo e depois sentimos calor, vemos uma bola bater na outra e depois a segunda se mover — mas nunca vemos a “causa” em si, apenas uma sucessão de eventos. O que chamamos de causa é, para Hume, um hábito da mente: como os eventos sempre se repetiram juntos, passamos a esperar que continuem juntos. A causalidade, portanto, não é algo que observamos no mundo, mas uma expectativa criada pelo costume.
Da mesma forma, Hume questionou a ideia de um “eu” permanente: quando olhamos para dentro, encontramos apenas percepções que passam — uma dor, uma lembrança, um desejo —, nunca um eu fixo por trás delas. E ele também mostrou que não há como justificar racionalmente que o futuro repetirá o passado: isso é o chamado problema da indução. Por isso Hume é lembrado como o filósofo que mostrou os limites da razão e preparou o caminho para Kant, que tentaria responder a ele.
Tabelas de revisão
| Filósofo | Ideia central | Frase para gravar |
|---|---|---|
| John Locke | Mente como tábula rasa; ideias vêm da sensação e da reflexão; qualidades primárias e secundárias. | “Nada está no intelecto que não tenha passado pelos sentidos.” |
| George Berkeley | Só existem mentes e ideias; a matéria independente da percepção é uma abstração vazia. | “Existir é ser percebido.” |
| David Hume | Impressões geram ideias; causalidade é hábito, não observação; sem impressão, sem ideia legítima. | “Vemos a sucessão, não a causa.” |
| Empirismo | Racionalismo |
|---|---|
| Origem do conhecimento: experiência e sentidos. | Origem do conhecimento: razão e ideias inatas. |
| Método: observação, experimento, indução. | Método: dedução, clareza e distinção, matemática como modelo. |
| Representantes: Locke, Berkeley, Hume. | Representantes: Descartes, Espinosa, Leibniz. |
| Risco apontado pelos críticos: ceticismo sobre causas e certezas. | Risco apontado pelos críticos: afastar-se do mundo concreto. |


Mapa mental
EMPIRISMO → origem: experiência e sentidos → Locke: tábula rasa, ideias simples e complexas, qualidades primárias e secundárias → Berkeley: existir é ser percebido, só mentes e ideias → Hume: impressões e ideias, causalidade como hábito, problema da indução → contraste: racionalismo (razão e ideias inatas) → legado: ciência experimental e o desafio que Kant tentou responder.
SAQ — Perguntas curtas com respostas
1. O que é a tábula rasa de Locke? A tese de que a mente nasce sem ideias prontas, como uma folha em branco, e que todo conhecimento vem da experiência.
2. Qual a diferença entre qualidades primárias e secundárias em Locke? Primárias pertencem ao objeto (forma, extensão, movimento); secundárias dependem dos sentidos (cor, cheiro, sabor, som).
3. O que significa “existir é ser percebido”, de Berkeley? Que só conhecemos e só podemos afirmar a existência de algo enquanto percebido por alguma mente; não há matéria fora de toda percepção.
4. Por que Hume diz que não observamos a causa? Porque observamos apenas um evento seguido de outro, nunca a ligação necessária entre eles; a causalidade é uma expectativa formada pelo hábito.
5. O que são impressões e ideias para Hume? Impressões são percepções fortes e diretas (sensações); ideias são cópias enfraquecidas das impressões, usadas no pensamento e na memória.
6. Qual é o problema da indução? Não há justificativa racional para garantir que o futuro repetirá o passado; generalizamos por hábito, não por necessidade lógica.
7. Empirismo é o mesmo que desprezar a razão? Não. A razão organiza, combina e generaliza o material da experiência; ela apenas não cria conhecimento sem contato prévio com o mundo.
8. Como o empirismo se liga à ciência moderna? Pela valorização da observação, do experimento e da evidência como base do conhecimento confiável.
Questões comentadas — estilo ENEM, originais
Questão 1. Um estudante afirma que nunca viu um unicórnio, mas consegue imaginá-lo combinando a ideia de cavalo com a ideia de chifre. Segundo Locke, essa imaginação é possível porque:
a) a mente já nasce com a ideia de unicórnio. b) a mente combina ideias simples vindas da experiência. c) o unicórnio existe como substância independente. d) a razão deduz o unicórnio sem os sentidos. e) a percepção do unicórnio é uma qualidade primária.
Gabarito: B. Para Locke, ideias complexas são montadas pela mente a partir de ideias simples que vieram da sensação. O unicórnio é um bom exemplo: cavalo e chifre são conhecidos pela experiência, e a mente os combina. A alternativa A descreve o inatismo, que Locke rejeita.
Questão 2. “Quando digo que a mesa existe, digo que a vejo e a toco; se nenhum espírito a percebesse, não faria sentido afirmar sua existência.” O trecho expressa a posição de:
a) Descartes. b) Berkeley. c) Espinosa. d) Leibniz. e) Platão.
Gabarito: B. É a tese de Berkeley: existir é ser percebido. A mesa é um conjunto de ideias percebidas; fora de toda percepção, não há matéria conhecida a que recorrer.
Questão 3. Ao observar que, todas as manhãs, o sol nasce após o canto do galo, um camponês passa a esperar o nascer do sol ao ouvir o galo. Segundo Hume, essa expectativa se explica:
a) pela observação direta da causa necessária. b) pelo hábito formado pela repetição constante. c) por uma ideia inata de causalidade. d) pela dedução matemática do movimento. e) pela existência de uma substância solar.
Gabarito: B. Para Hume, nunca observamos a ligação causal em si, apenas a conjunção constante dos eventos. A repetição cria o hábito de esperar o segundo evento após o primeiro.
Questão 4. Um texto de divulgação científica afirma que uma teoria só é aceita quando resiste a testes e observações repetidas, e não apenas porque parece logicamente elegante. Essa exigência se aproxima mais de qual tradição filosófica?
a) Racionalismo cartesiano. b) Empirismo. c) Idealismo alemão. d) Escolástica medieval. e) Ceticismo pirrônico antigo, apenas.
Gabarito: B. A exigência de teste e observação como critério do conhecimento é a marca do empirismo, herdada pela ciência experimental. O racionalismo (A) priorizaria a dedução; a escolástica (D), a autoridade dos textos.
Dica do professor
Monte um quadro de duas colunas — Empirismo × Racionalismo — e, para cada filósofo, escreva uma palavra-chave: Locke = tábula rasa; Berkeley = percebido; Hume = hábito; Descartes = cogito. Na hora da prova, a palavra-chave costuma entregar a alternativa certa antes mesmo de você terminar de ler o texto-base.
Atenção / cuidado — erros comuns
Não confunda empirismo com “só acredito no que vejo”: o empirista aceita ideias abstratas, desde que elas possam ser rastreadas até experiências. Não atribua a tábula rasa a Hume (ela é de Locke) nem a crítica da causalidade a Locke (ela é de Hume). E não diga que Berkeley nega o mundo: ele nega a matéria fora da percepção, mas mantém o mundo como conjunto de ideias percebidas, garantido por Deus.
Conexão com outras áreas
O empirismo conecta-se com a História da ciência (revolução científica e método experimental), com a Sociologia (Locke e o contrato social, base do liberalismo político) e com a Biologia e a Psicologia (a ideia de que aprendemos pela experiência aparece nas teorias da aprendizagem). Em Redação, o debate entre experiência e razão rende bons repertórios sobre método científico, fake news e a importância da evidência.
Incidência no ENEM e nos vestibulares
O Empirismo é incidência alta na Filosofia Moderna: Locke e Hume aparecem com frequência no ENEM, e a comparação com o racionalismo é um clássico das provas da Fuvest, Unicamp e UFRGS. O tema costuma vir em questões interpretativas, com textos-base que exigem identificar o autor pela tese — por isso, gravar as palavras-chave de cada filósofo vale mais do que decorar datas.
Para aprofundar o contraste, veja também Filosofia Moderna: Racionalismo e Filosofia Moderna: Introdução, além das páginas de Filosofia e da sala de estudo do Clique Vestibular.



