O conto “A Cartomante” de Machado de Assis narra um triângulo amoroso fatal entre Camilo, Rita e Vilela. A trama começa quando Camilo, um jovem ambicioso, e Rita, uma mulher casada com o advogado Vilela, iniciam um relacionamento extraconjugal. O marido, Vilela, amigo de infância de Camilo, contrata-o para cuidar de processos judiciais após a morte de sua mãe, o que intensifica a proximidade entre os amantes.
Os sentimentos de culpa e o medo de serem descobertos atormentam Rita. Em um momento de angústia, ela decide procurar uma cartomante, Madame Simão, em busca de respostas e conforto. A cartomante, com astúcia e observação, prevê que Rita terá um caso amoroso com um homem de cabelos escuros e que isso não afetará seu casamento, oferecendo uma falsa sensação de segurança à personagem.
Camilo, por sua vez, também se vê aflito e, após receber uma carta enigmática de Vilela, decide procurar a mesma cartomante. Ele busca confirmação de que seu segredo está a salvo e a cartomante lhe assegura que não há perigo. Confiante nas palavras da vidente e na ingenuidade do amigo, Camilo decide ir ao encontro de Vilela.
No entanto, ao chegar à casa do amigo, a realidade se impõe de forma brutal. Camilo encontra Rita já assassinada, e Vilela, em um estado de fúria irreconhecível e movido pela vingança, assassina Camilo com dois tiros, concretizando o trágico desfecho do adultério. A obra explora, assim, a complexidade das relações humanas, a traição e as consequências da crença cega no destino ou em forças sobrenaturais.
A obra “A Cartomante” explora a fragilidade da razão humana frente às paixões e a ilusória busca por um destino predeterminado.
Joaquim Maria Machado de Assis (1839 – 1908) é amplamente considerado o maior nome da literatura brasileira. Cronista, poeta, romancista, contista e teatrólogo, Machado de Assis transitou por praticamente todos os gêneros literários, deixando um legado inestimável. Sua vida testemunhou a transição do Brasil de Império para República, e ele foi um agudo observador e comentador das profundas mudanças sociais e políticas de seu tempo. Sua obra é marcada por um profundo realismo e psicologismo, explorando as complexidades da alma humana e as contradições da sociedade carioca do século XIX, com um estilo irônico e analítico.
“A Cartomante” é um dos mais célebres contos de Machado de Assis, publicado originalmente na coletânea “Várias Histórias” em 1899. A obra é um primor da literatura brasileira, exemplificando a maestria machadiana na construção de enredos concisos, mas de grande profundidade psicológica. O conto é um estudo sobre o adultério, a culpa, a crença no sobrenatural e as consequências imprevisíveis das ações humanas, tudo embalado na ironia sutil e na análise penetrante características do autor. Ele reflete a fase realista de Machado, onde a análise dos comportamentos sociais e individuais ganha destaque.
| Tempo | Cronológico, com momentos de retrospecção sobre o início do caso. |
| Espaço | Rio de Janeiro do século XIX, incluindo a casa de Rita e Vilela, e a residência da cartomante. |
| Narrador | Terceira pessoa, onisciente e onipresente, com voz irônica e crítica. |
| Linguagem | Culta, formal, com uso de ironia, digressões e profunda análise psicológica. |
O estilo de Machado de Assis em “A Cartomante” é exemplar do Realismo brasileiro, com uma linguagem precisa e uma observação crítica da sociedade. O autor emprega a ironia de forma magistral, especialmente ao ridicularizar a credulidade dos personagens e a futilidade de suas preocupações morais. A análise psicológica é aprofundada, revelando as motivações, angústias e contradições internas de Camilo e Rita. A presença do narrador onisciente permite ao leitor uma visão privilegiada dos pensamentos e sentimentos dos personagens, enquanto as digressões, típicas de Machado, oferecem reflexões sobre a condição humana, o destino e a sorte. A ambiguidade da cartomante, que nunca entrega uma resposta direta, mas suas previsões são interpretadas pelos personagens como confirmações de seus desejos, é um recurso que realça a cegueira humana.
“A Cartomante” está inserida no contexto do século XIX, um período de grande efervescência cultural e social no Rio de Janeiro. A obra reflete a sociedade carioca da época, com seus valores burgueses, a rigidez das aparências e a hipocrisia das relações sociais. Machado de Assis tece uma crítica sutil à crença no sobrenatural e ao papel do destino na vida humana, mostrando como as pessoas buscam validação externa para suas próprias escolhas e fraquezas. A figura da cartomante representa a exploração da credulidade alheia, enquanto o desfecho trágico questiona a ideia de um destino imutável, sugerindo que as ações e escolhas individuais, por mais que se tente justificar com presságios, são as verdadeiras moldadoras da vida e da morte. A traição e a vingança são apresentadas como facetas da natureza humana, independentemente de qualquer intervenção mística.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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