“A Mulher que Escreveu a Bíblia”, de Moacyr Scliar, é um romance provocador que subverte a narrativa bíblica tradicional através da paródia e da carnavalização. A trama se inicia no consultório de um historiador que se tornou terapeuta de vidas passadas. Ele atende uma mulher que, durante uma sessão de regressão, descobre ter sido uma das setecentas esposas do lendário Rei Salomão, no século X a.C.
Essa mulher, cujo nome não é revelado e que é descrita como “a feia” entre as esposas de Salomão, possui uma habilidade singular e preciosa para a época: ela sabe ler e escrever. Diante dessa capacidade rara, o Rei Salomão lhe confere uma incumbência de proporções épicas: a de registrar a história da humanidade, um trabalho que, na ficção de Scliar, culmina na escrita da Bíblia Sagrada.
O romance, vencedor do Prêmio Jabuti de Melhor Romance em 2000, é apresentado de forma engenhosa. O terapeuta se apaixona por sua cliente e, antes que ela desapareça com outro homem, ela lhe deixa um extenso manuscrito. Este manuscrito constitui o coração do livro, narrando as experiências da mulher do passado, com ecos claros da vida da mulher do presente. Ambas são filhas de homens poderosos, tidas como feias, preteridas pela beleza de suas irmãs, mas que, no fim, conquistam o amor através da astúcia do pensamento, da força da inteligência e do charme de suas personalidades.
Através dessa fábula, Scliar revisita e reinterpreta passagens de livros bíblicos como o Gênesis e o Livro de Reis, oferecendo uma perspectiva satírica e humanizada sobre mitos e figuras sagradas. O autor brinca com a noção de autoria e explora a influência profunda dos textos bíblicos na cultura ocidental, revelando as paixões e características humanas que eles tão bem capturam.
A releitura satírica dos mitos bíblicos através da perspectiva feminina e da valorização do intelecto sobre a beleza.
Moacyr Scliar (1937-2011) foi um dos mais prolíficos e respeitados escritores da literatura brasileira contemporânea. Nascido em Bom Fim, uma comunidade judaica em Porto Alegre, Scliar teve sua vida intelectual profundamente moldada por sua mãe, que o incentivou intensamente à leitura. Formado em Medicina, dedicou-se à saúde pública e lecionou em universidades, mas foi na literatura que deixou seu legado mais marcante.
Autor de mais de setenta livros, sua obra abrange romances, contos, ensaios e crônicas. Scliar era um leitor ávido da Bíblia, que considerava a maior obra literária de todos os tempos, e frequentemente a utilizava como fonte de inspiração para suas narrativas, explorando seus valores literários e recontextualizando suas passagens através da paródia e do humor. Seus mestres literários, como ele próprio mencionou, incluíam José de Alencar, Machado de Assis e Franz Kafka.
Lançado em 2000 e agraciado com o prestigioso Prêmio Jabuti, “A Mulher que Escreveu a Bíblia” é um dos romances mais emblemáticos de Moacyr Scliar. A obra se insere em uma rica tradição da literatura brasileira de reinterpretação dos textos sagrados, seguindo os passos de autores como Machado de Assis, Clarice Lispector e Guimarães Rosa. Scliar, com sua escrita fluida e clara, constrói uma narrativa instigante que questiona a autoria e a recepção dos mitos fundadores da cultura ocidental.
O livro convida o leitor a uma reflexão sobre a construção das grandes narrativas e o poder da palavra escrita, ao mesmo tempo em que oferece uma visão irônica e humanizada dos personagens bíblicos. É uma exploração da inteligência feminina e da capacidade de superação, embalada por um senso de humor e uma profunda erudição literária.
| Tempo | O romance transita entre dois tempos: o presente, com o historiador/terapeuta, e o passado bíblico, no século X a.C., durante o reinado do Rei Salomão. |
| Espaço | O consultório do terapeuta no presente e o antigo harém do Rei Salomão, em Israel, no passado. |
| Narrador | A narrativa é conduzida por dois narradores: o historiador/terapeuta, que inicia a história, e a própria mulher (através de seu manuscrito), que relata sua experiência no passado como esposa de Salomão. |
| Linguagem | A linguagem é fluida, clara e envolvente, com uso marcante de ironia literária, paródia e carnavalização, recursos que permitem a reinterpretação satírica dos textos bíblicos. |
O estilo de Moacyr Scliar em “A Mulher que Escreveu a Bíblia” é marcado pela inteligência e pela sutileza. O autor emprega a paródia e a carnavalização como principais recursos literários para recontar passagens da Bíblia Sagrada. A paródia permite que Scliar revisite os mitos bíblicos sob uma ótica crítica e bem-humorada, desconstruindo a sacralidade absoluta e humanizando os personagens.
A ironia literária é outro elemento constante, manifestando-se na própria premissa da obra – uma mulher “feia” e esquecida seria a verdadeira autora de um dos textos mais influentes da história. A fluidez e a clareza da escrita colaboram para a cadência dos fatos e a facilidade de leitura, tornando o romance acessível e cativante. Scliar demonstra sua erudição ao dialogar com a tradição literária que já parodiou a Bíblia, inserindo sua obra em um inventário extenso de releituras criativas.
Embora se passe em grande parte em um contexto bíblico antigo, “A Mulher que Escreveu a Bíblia” ressoa com questões sociais e culturais contemporâneas. Scliar, ao abordar a figura feminina como autora de um texto tão fundamental, propõe uma reflexão sobre a invisibilidade e o papel da mulher na história e na construção do conhecimento. A incumbência de escrever a Bíblia, dada a uma mulher por sua inteligência e não por sua beleza, é uma crítica sutil aos valores sociais que historicamente privilegiam a aparência sobre o intelecto.
O romance também toca na relação entre poder e conhecimento, e como a capacidade de ler e escrever pode ser uma ferramenta transformadora. A ideia de que a “feia” pode ser a mais sábia e influente é um questionamento das hierarquias e preconceitos enraizados. Ao ligar o passado bíblico ao presente através das semelhanças entre as duas mulheres, Scliar “oxigena a narrativa com temas contemporâneos”, como as relações arranjadas e o papel da inteligência na conquista pessoal.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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