
Direto ao assunto
Arte contemporânea é um dos temas mais cobrados de Artes no ENEM: ready-made, Pop Art, Land Art, arte conceitual, body art, instalação, grafite e o mercado de arte aparecem quase todos os anos na prova de Linguagens. O segredo dessas questões não é decorar datas, e sim ler a obra junto com o texto: o que o artista fez de diferente, com que material e para provocar o quê. Abaixo, 10 questões REAIS do ENEM (2017 a 2022), transcritas fielmente, cada uma com sua fonte, sua figura original e resolução comentada. Tente responder antes de abrir o gabarito!
Questão 1
Fonte: ENEM 2022 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
TEXTO I

SILVEIRA, R. In absentia, 1983. Instalação, 17ª Bienal de São Paulo. Disponível em: www.bienal.org.br. Acesso em: 1 set. 2016 (adaptado).
TEXTO II
O termo ready-made foi criado por Marcel Duchamp (1887-1968) para designar um tipo de objeto, por ele inventado, que consiste em um ou mais artigos de uso cotidiano, produzidos em massa, selecionados sem critérios estéticos e expostos como obras de arte em espaços especializados (museus e galerias). Seu primeiro ready-made, de 1912, é uma roda de bicicleta montada sobre um banquinho (Roda de bicicleta). Ao transformar qualquer objeto em obra de arte, o artista realiza uma crítica radical ao sistema da arte.
Disponível em: www.bienal.org.br. Acesso em: 1 set. 2016 (adaptado).
A instalação In absentia propõe um diálogo com o ready-made Roda de bicicleta, demonstrando que
- A) as formas de criticar obras do passado se repetem.
- B) a recorrência de temas marca a arte do final do século XX.
- C) as criações desmistificam os valores estéticos estabelecidos.
- D) o distanciamento temporal permite a transformação dos referenciais estéticos.
- E) o objeto ausente sugere a degradação da forma superando o modelo artístico.
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Gabarito oficial: C
Duchamp pega um objeto banal, sem nenhum valor estético tradicional — uma roda sobre um banco — e o expõe como arte: isso desmonta a ideia clássica de que arte exige técnica, beleza e forma. Regina Silveira retoma esse gesto em 1983, representando (e deformando) o banco e a roda, ou seja, dialoga com Duchamp sem copiá-lo. As duas criações, cada uma a seu modo, desmistificam os valores estéticos estabelecidos. A alternativa A erra porque não há mera repetição da crítica, e sim uma releitura; B fala de recorrência de temas, que não é o ponto; D confunde o diálogo com uma simples mudança de referencial ao longo do tempo; E inventa uma “degradação da forma” que o texto não sugere.
Questão 2
Fonte: ENEM 2021 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

LICHTENSTEIN, R. Garota com bola. Óleo sobre tela, 153 cm x 91,9 cm. Museu de Arte Moderna de Nova York, 1961. Disponível em: www.moma.org. Acesso em: 4 dez. 2018.
A obra, da década de 1960, pertence ao movimento artístico Pop Art, explora a beleza e a sensualidade do corpo feminino em uma situação de divertimento. Historicamente, a sociedade inventou e continua reinventando o corpo como objeto de intervenções sociais, buscando atender aos valores e costumes de cada época.
Na produção desses preceitos, a erotização do corpo feminino tem sido constituída pela
- A) realização de exercícios físicos sistemáticos e excessivos.
- B) utilização de medicamentos e produtos estéticos.
- C) educação do gesto, da vontade e do comportamento.
- D) construção de espaços para vivência de práticas corporais.
- E) promoção de novas experiências de movimento humano no lazer.
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Gabarito oficial: C
O texto diz que a sociedade “inventa e reinventa o corpo” para atender aos valores de cada época — ou seja, molda gestos, vontades e comportamentos. É essa educação do corpo que produz, historicamente, a erotização do corpo feminino retratada na obra pop. As demais alternativas citam coisas que o texto não menciona: exercícios excessivos (A), medicamentos e cosméticos (B), construção de espaços (D) e novas experiências de movimento no lazer (E).
Questão 3
Fonte: ENEM Digital 2020 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

DE MARIA, W. Campo relampejante, 1977. Disponível em: www.ballardian.com. Acesso em: 12 jun. 2018.
Na obra Campo relampejante (1977), o artista Walter de Maria coloca hastes de ferro em espaços regulares, em um campo de 1600 metros quadrados no Novo México. O trabalho faz parte do movimento artístico Land Art, que trata da
- A) constituição da cena artística marcada pela paisagem natural, modificada pela multimídia.
- B) ocupação de um local vazio sem função específica, passando a existir como arte.
- C) utilização de equipamentos tradicionais como suporte para a atividade artística.
- D) divulgação de fenômenos científicos que dialogam com a estética da arte.
- E) exposição da obra em locais naturais e institucionais abertos ao público.
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Gabarito oficial: B
Land Art tira a arte do museu e a leva para a paisagem: o artista ocupa um campo vazio, sem função específica, com hastes de ferro — e é essa ocupação que faz o lugar “passar a existir como arte”. A alternativa A erra ao falar em multimídia; C, em equipamentos tradicionais como suporte; D, em divulgação científica; E descreve apenas onde a obra fica exposta, não o que define a Land Art.
Questão 4
Fonte: ENEM 2020 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

TEXTO I
HIRST, D. Mother and Child. Bezerro dividido em duas partes: 1029 x 1689 x 625 mm, 1993 (detalhe). Vidro, aço pintado, silicone, acrílico, monofilamento, aço inoxidável, bezerro e solução de formaldeído.
TEXTO II
O grupo Jovens Artistas Britânicos (YABs), que surgiu no final da década de 1980, possui obras diversificadas que incluem fotografias, instalações, pinturas e carcaças desmembradas. O trabalho desses artistas chamou a atenção no final do período da recessão, por utilizar materiais incomuns, como esterco de elefantes, sangue e legumes, o que expressava os detritos da vida e uma atmosfera de niilismo, temperada por um humor mordaz.
Disponível em: http://damienhirst.com. Acesso em: 15 jul. 2015. FARTHING, S. Tudo sobre arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011 (adaptado).
A provocação desse grupo gera um debate em torno da obra de arte pelo(a)
- A) recusa a crenças, convicções, valores morais, estéticos e políticos na história moderna.
- B) frutífero arsenal de materiais e formas que se relacionam com os objetos construídos.
- C) economia e problemas financeiros gerados pela recessão que tiveram grande impacto no mercado.
- D) influência desse grupo junto aos estilos pós-modernos que surgiram nos anos 1990.
- E) interesse em produtos indesejáveis que revela uma consciência sustentável no mercado.
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Gabarito oficial: B
O texto II destaca exatamente o arsenal de materiais incomuns — carcaças, esterco, sangue, legumes — com que os YABs constroem suas obras. É esse uso provocador de materiais e formas que abre o debate sobre o que é (ou não é) arte. A recessão é só o contexto em que o grupo chamou atenção, não a causa do debate (C); A generaliza uma “recusa” a todos os valores, que o texto não afirma; D e E deslocam o foco para influência estilística e consciência sustentável, ausentes do texto.
Questão 5
Fonte: ENEM 2020 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

A obra de Joseph Kosuth data de 1965 e se constitui por uma fotografia de cadeira, uma cadeira exposta e um quadro com o verbete “Cadeira”.
Trata-se de um exemplo de arte conceitual que revela o paradoxo entre verdade e imitação, já que a arte
- A) não é a realidade, mas uma representação dela.
- B) fundamenta-se na repetição, construindo variações.
- C) não se define, pois depende da interpretação do fruidor.
- D) resiste ao tempo, beneficiada por múltiplas formas de registro.
- E) redesenha a verdade, aproximando-se das definições lexicais.
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Gabarito oficial: A
Kosuth põe lado a lado três “cadeiras”: o objeto real, sua fotografia e sua definição no dicionário. Nenhuma delas é a cadeira em si — são representações. A arte conceitual, aqui, usa a ideia (e não a forma) para questionar a própria natureza da arte. B fala em repetição com variações, que não é o paradoxo em jogo; C reduz tudo à interpretação do público; D fala em resistência ao tempo; E confunde a definição lexical, que é só um dos três elementos, com a tese da obra.
Questão 6
Fonte: ENEM 2019 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

Utilizando chocolate derretido como matéria-prima, essa obra de Vik Muniz reproduz a célebre fotografia do processo de criação de Jackson Pollock. A originalidade dessa releitura reside na
- A) apropriação parodística das técnicas e materiais utilizados.
- B) reflexão acerca dos sistemas de circulação da arte.
- C) simplificação dos traços da composição pictórica.
- D) contraposição de linguagens artísticas distintas.
- E) crítica ao advento do abstracionismo.
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Gabarito oficial: A
Pollock é o mestre do action painting, com tinta jogada na tela; Vik Muniz refaz a cena usando chocolate derretido — um material banal, comestível, inesperado. A graça (e a originalidade) está justamente nessa apropriação parodística: mesma cena, técnica e material trocados, com humor e crítica. Não se trata de discutir circulação da arte (B), simplificar traços (C), opor linguagens (D) nem criticar o abstracionismo em si (E).
Questão 7
Fonte: ENEM PPL 2019 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
Para que a passagem da produção ininterrupta de novidade a seu consumo seja feita continuamente, há necessidade de mecanismos, de engrenagens.
Uma espécie de grande máquina industrial, incitante, tentacular, entra em ação. Mas bem depressa a simples lei da oferta e da procura segundo as necessidades não vale mais: é preciso excitar a demanda, excitar o acontecimento, provocá-lo, espicaçá-lo, fabricá-lo, pois a modernidade se alimenta disso.
CAUQUELIN, A. Arte contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2005 (adaptado).
No contexto da arte contemporânea, o texto da autora Anne Cauquelin reflete ações que explicitam
- A) métodos utilizados pelo mercado de arte.
- B) investimentos realizados por mecenas.
- C) interesses do consumidor de arte.
- D) práticas cotidianas do artista.
- E) fomentos públicos à cultura.
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Gabarito oficial: A
“Excitar a demanda, fabricar o acontecimento”: o texto descreve a máquina que produz novidade sem parar e precisa criar o desejo de consumo — ou seja, os métodos do mercado de arte. Não fala de mecenas investindo (B), do gosto do consumidor isolado (C), da rotina do artista (D) nem de fomento público (E). Pegadinha clássica: o sujeito da ação é o mercado, não o artista.
Questão 8
Fonte: ENEM 2018 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
TEXTO I

ALMEIDA, H. Dentro de mim, 2000. Fotografia P/B. 132 x 88 cm. Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
TEXTO II
A body art põe o corpo tão em evidência e o submete a experimentações tão variadas, que sua influência estende-se aos dias de hoje. Se na arte atual as possibilidades de investigação do corpo parecem ilimitadas — pode-se escolher entre representar, apresentar, ou ainda apenas evocar o corpo — isso ocorre graças ao legado dos artistas pioneiros.
SILVIA, P. R. Corpo na arte, body art, body modification: fronteiras. II Encontro de História da Arte: IFCH-Unicamp 2006 (adaptado).
Nos textos, a concepção de body art está relacionada à intenção de:
- A) estabelecer limites entre o corpo e a composição.
- B) fazer do corpo um suporte privilegiado de expressão.
- C) discutir políticas e ideologias sobre o corpo como arte.
- D) compreender a autonomia do corpo no contexto da obra.
- E) destacar o corpo do artista em contato com o expectador.
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Gabarito oficial: B
Na body art, o corpo deixa de ser apenas tema e vira o próprio suporte da obra: é nele (e com ele) que a expressão acontece — como na fotografia de Helena Almeida, em que o corpo da artista é a composição. A alternativa A inverte a lógica (a body art borra limites, não os estabelece); C, D e E trazem discussões que o texto II não coloca como definição: política/ideologia, autonomia e contato com o espectador são efeitos possíveis, não a intenção central descrita.
Questão 9
Fonte: ENEM 2017 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias

A instalação Dengo transformou a sala do MAM-SP em um ambiente singular, explorando como principal característica artística a
- A) participação do público na interação lúdica com a obra.
- B) distribuição de obstáculos no espaço da exposição.
- C) representação simbólica de objetos oníricos.
- D) interpretação subjetiva da lei da gravidade.
- E) valorização de técnicas de artesanato.
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Gabarito oficial: A
Dengo (2010), de Ernesto Neto, é uma instalação feita de tecidos e cordas que cria um ambiente imersivo: o público entra, toca, deita e brinca dentro da obra. A característica central é justamente essa participação lúdica do visitante, que deixa de ser espectador passivo e vira parte da obra. As demais alternativas descrevem elementos secundários ou inventados: os tecidos não são “obstáculos” (B), não há simbolismo onírico (C), gravidade subjetiva (D) nem valorização de artesanato (E) como eixo da obra.
Questão 10
Fonte: ENEM 2017 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias
TEXTO I

SPETO. Grafite. Museu Afro Brasil, 2009.
TEXTO II
Speto — Paulo César Silva, mais conhecido como Speto, é um grafiteiro paulista envolvido com o skate e a música. O fortalecimento de sua arte ocorreu, em 1999, pela oportunidade de ver de perto as referências que trazia há tempos, ao passar por diversas cidades do Norte do Brasil em uma turnê com a banda O Rappa.
Revista Zupi, n. 19, 2010.
O grafite do artista paulista Speto, exposto no Museu Afro Brasil, revela elementos da cultura brasileira reconhecidos
- A) na influência da expressão abstrata.
- B) na representação de lendas nacionais.
- C) na inspiração das composições musicais.
- D) nos traços marcados pela xilogravura nordestina.
- E) nos usos característicos de grafismos dos skates.
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Gabarito oficial: D
O grafite de Speto carrega traços fortes, em preto e branco, com hachuras marcadas — a linguagem visual da xilogravura nordestina, presente na literatura de cordel. É essa referência brasileira que a questão pede para reconhecer na obra. O skate e a música fazem parte da trajetória do artista (texto II), mas não são o elemento visual reconhecido no grafite (E e C); expressão abstrata (A) e lendas nacionais (B) não correspondem ao que se vê na imagem.
Resumo para revisar: arte contemporânea no ENEM quase sempre cobra a ideia por trás da obra — ready-made (objeto banal vira arte), arte conceitual (a ideia vale mais que a forma), Land Art (a paisagem vira obra), body art (o corpo é o suporte), instalação (o público participa) e grafite (arte urbana com raízes culturais brasileiras). Na dúvida, volte ao texto da questão: a resposta costuma estar nele, não na sua opinião sobre a obra.



