“A terceira margem do rio“, conto emblemático de João Guimarães Rosa, foi publicado em 1962 na coletânea “Primeiras estórias“. A narrativa breve e enigmática gira em torno de uma decisão inusitada de um pai de família que, subitamente, abandona sua vida terrestre para viver isolado em uma canoa, no meio de um rio, sem nunca mais retornar à terra firme. Este ato inexplicável se torna o cerne de um mistério que acompanha a família e, especialmente, o filho narrador ao longo de anos.
O conto é contado pelo filho não nomeado do protagonista, que se esforça para compreender a escolha de seu pai. Inicialmente, o pai é descrito como um homem comum, sem peculiaridades, levando uma vida rotineira no interior do Brasil. A família, composta por ele, a mãe, o narrador e seus irmãos, vivia de forma tradicional até o momento em que o pai resolve construir uma canoa. A construção é vista com estranheza, mas ninguém antecipa a dimensão da mudança que viria.
Após a canoa ficar pronta, o pai parte para o rio, sem despedidas elaboradas, sem mantimentos ou bagagem, e ali permanece. De nada adiantam os apelos da família e dos amigos; ele se mantém na canoa, tornando-se uma figura distante e envelhecida, uma espécie de ser à parte, transformado pela exposição e pelo tempo. O narrador, com uma mistura de pena e devoção, secretamente envia-lhe comida e roupas, enquanto a mãe tenta reorganizar a vida familiar, com a partida dos outros filhos.
A reviravolta ocorre quando o narrador, já adulto, oferece-se para assumir o lugar do pai na canoa, numa tentativa de libertá-lo daquela existência solitária. Para sua surpresa, o pai aceita. No entanto, diante da iminência da troca e da assustadora realidade de replicar o destino paterno, o filho é tomado por um pavor incontrolável e foge, deixando o desfecho do pai em aberto e multiplicando as indagações sobre o sentido de tal existência e as escolhas humanas.
A incomunicabilidade humana, a busca pelo sentido da existência e a incompreensão das escolhas individuais.
João Guimarães Rosa, um dos maiores nomes da literatura brasileira, nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. Formou-se em medicina em Belo Horizonte e atuou como capitão médico da Força Pública do Estado de Minas Gerais. Sua estreia literária se deu com o conto “O mistério de Highmore Hall”, em 1929. Em 1934, ingressou na carreira diplomática, servindo em cidades como Hamburgo, Bogotá e Paris, o que lhe proporcionou um vasto conhecimento de culturas e línguas. É célebre por sua obra-prima “Grande sertão: Veredas“, publicada em 1956. Guimarães Rosa foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1963, vindo a falecer no Rio de Janeiro, aos cinquenta e nove anos, em 19 de novembro de 1967.
“A terceira margem do rio” é um dos contos mais célebres e estudados da literatura brasileira, parte da antologia “Primeiras estórias“, de 1962. A obra é uma profunda alegoria sobre a condição humana, explorando temas como o isolamento, a incompreensão, o sacrifício e a busca por um propósito que transcende o cotidiano. Inserido no contexto do Modernismo brasileiro (terceira fase), o conto se destaca pela originalidade de sua trama e pela riqueza de sua linguagem, convidando o leitor a múltiplas interpretações sobre o misterioso ato do pai e as reações da família, em especial do filho narrador. A obra demonstra a capacidade de Guimarães Rosa de transformar uma situação aparentemente simples do interior mineiro em uma reflexão de alcance universal.
| Tempo | Atemporal e perene. A narrativa abrange um longo período, acompanhando o envelhecimento do pai e o crescimento da família, mas sem datas ou marcos específicos, conferindo um caráter quase mítico à história. |
| Espaço | O interior do Brasil, especialmente a beira do rio e o próprio rio. O rio funciona como um elemento central, um limite físico e simbólico que separa o pai do mundo “normal”. |
| Narrador | Personagem (primeira pessoa). O filho do protagonista narra a história, compartilhando suas observações, sentimentos e a incapacidade de compreender plenamente o ato do pai. |
| Linguagem | Rica, poética e singular, característica de Guimarães Rosa. Apresenta regionalismos, neologismos e uma sintaxe particular que confere musicalidade e profundidade à prosa, evocando o universo sertanejo e ao mesmo tempo elevando-o a um plano universal. |
O estilo de Guimarães Rosa em “A terceira margem do rio” é um dos pilares da grandeza do conto. Sua linguagem é marcadamente poética e experimental, utilizando-se de neologismos, inversões sintáticas e regionalismos que, longe de dificultar a leitura, enriquecem-na, criando uma atmosfera única. A oralidade é um recurso presente, aproximando o texto da fala coloquial do sertanejo, mas com uma sofisticação que eleva a prosa.
O simbolismo é um recurso literário fundamental. O rio, por exemplo, não é apenas um cenário, mas um elemento metafísico que representa a fluidez do tempo, a separação, o isolamento e, possivelmente, a própria vida ou a morte. A canoa simboliza a existência solitária, a escolha radical e a “terceira margem” (a impossibilidade de retorno, o espaço entre o aqui e o além, ou o próprio mistério da vida). O pai, em sua reclusão, torna-se um símbolo da incomunicabilidade e da busca por um sentido individual que transcende as convenções sociais. A ambiguidade do final, com a fuga do narrador, reforça a ideia de que certas verdades permanecem inatingíveis.
“A terceira margem do rio” insere-se na terceira fase do Modernismo brasileiro, período em que a literatura se aprofunda em questões existenciais e psicológicas, sem, contudo, abandonar a atenção ao regional. Embora não haja críticas sociais explícitas ou diretas, como em outras obras do período, o conto reflete implicitamente a vida no interior do Brasil, com suas tradições familiares e a relação intrínseca do homem com a natureza e seus elementos. A obra, no entanto, transcende o localismo ao focar em temas universais. A incompreensão da atitude do pai pode ser vista como uma metáfora para a dificuldade humana de aceitar e decifrar escolhas que fogem à lógica imposta pela sociedade, provocando uma reflexão sobre a liberdade individual e as imposições coletivas. A ausência e a presença do pai, bem como a forma como a família lida com elas, também podem suscitar discussões sobre estruturas familiares e o impacto de decisões pessoais nos laços afetivos.
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