“Há certos rios que é preciso rever” é uma obra complexa e densa que mergulha nas profundezas da experiência humana, explorando a solidão, a memória, o amor e a busca por um sentido maior. A narrativa, muitas vezes fragmentada e onírica, acompanha personagens imersos em crises existenciais, confrontando a passagem do tempo e a inevitabilidade da morte. Hilst constrói um universo particular onde o real e o metafísico se entrelaçam, e a linguagem poética é ferramenta essencial para desvendar os meandros da psique.
Os conflitos da obra não se manifestam necessariamente em ações externas, mas sim em embates internos, dilemas morais e espirituais que corroem as personagens. Elas vivem em um estado de constante questionamento, buscando respostas para a dor, o desamparo e a própria condição humana. A solidão é um tema recorrente, muitas vezes intensificada pela incapacidade de comunicação plena e pela sensação de isolamento frente ao mundo.
As personagens de Hilda Hilst são frequentemente figuras atormentadas, pensativas, que habitam espaços de reclusão ou de intensa introspecção. Elas se debatem com o desejo, a culpa, a fé e a descrença, em uma dança existencial que desafia convenções. A dimensão do sagrado e do profano se mistura, e a espiritualidade é abordada de maneira pouco ortodoxa, com questionamentos profundos sobre a existência de Deus e o papel do homem no universo.
A obra convida o leitor a uma imersão profunda na subjetividade, confrontando-o com os próprios medos e anseios. É um texto que exige atenção e sensibilidade, pois a autora não oferece respostas fáceis, mas sim provocações e reflexões sobre a fragilidade da vida e a potência da palavra. A linguagem, por vezes hermética, mas sempre lírica, é um convite à exploração dos limites da experiência e da expressão.
A busca incessante pelo sentido da existência e a reflexão sobre a finitude humana.
Hilda Hilst (1930-2004) foi uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX. Poeta, ficcionista e dramaturga, nasceu em Jaú, São Paulo, e viveu grande parte de sua vida em sua residência, a Casa do Sol, em Campinas. Conhecida por sua prosa densa e poética, e sua poesia marcada pela busca metafísica e erótica, Hilst construiu uma obra singular, que desafia classificações e explora as profundezas da condição humana. Sua escrita aborda temas como o amor, a morte, a loucura, a espiritualidade e o corpo, com uma intensidade e originalidade que a tornaram um ícone da literatura brasileira. Recebeu diversos prêmios literários ao longo de sua carreira, mas o reconhecimento mais amplo de sua obra veio postumamente.
“Há certos rios que é preciso rever”, publicada em 1984, é uma das obras emblemáticas da fase madura de Hilda Hilst, inserindo-se em sua produção que transita entre a prosa poética e a ficção de caráter filosófico. O livro é um exemplo da capacidade da autora de explorar as fronteiras da linguagem e da percepção, apresentando uma narrativa que se desdobra em camadas de significado. A obra reafirma o lugar de Hilst como uma escritora que se recusa a ser categorizada, com um estilo que é ao mesmo tempo árido e luxuriante, denso e límpido, refletindo a complexidade de sua visão de mundo.
| Tempo | Não linear, fragmentado, com saltos entre passado, presente e projeções futuras, muitas vezes em um tempo psicológico e onírico. |
| Espaço | Predominantemente interno e metafórico, como a mente das personagens, ou espaços de reclusão e solidão, como um quarto ou uma casa isolada, servindo como cenários para a introspecção. |
| Narrador | Geralmente em terceira pessoa, mas com forte presença de monólogos interiores e fluxo de consciência que se aproximam do narrador-personagem, borrando as fronteiras entre as vozes. |
| Linguagem | Altamente poética, densa, simbólica e metafórica, com vocabulário erudito e sintaxe complexa, que exige um leitor ativo e atento às nuances. |
O estilo de Hilda Hilst em “Há certos rios que é preciso rever” é marcado pela intensidade lírica e pela profundidade filosófica. A autora emprega uma linguagem rica, muitas vezes hermética, repleta de metáforas, símbolos e alegorias que desafiam a interpretação imediata. O fluxo de consciência é um recurso constante, permitindo ao leitor adentrar os labirintos da mente das personagens. A intertextualidade com referências bíblicas e filosóficas é notável, enriquecendo as camadas de significado. A sonoridade das palavras e o ritmo das frases são cuidadosamente trabalhados, evidenciando sua formação poética. A ambiguidade é uma característica forte, convidando a múltiplas leituras e interpretações.
Publicada nos anos 1980, a obra de Hilda Hilst, embora não faça críticas sociais diretas e explícitas a eventos políticos da época, insere-se em um período pós-ditadura militar no Brasil, onde havia uma efervescência cultural e um questionamento dos valores estabelecidos. A autora, no entanto, transcende o contexto imediato, focando em questões universais e atemporais da existência humana. Suas críticas são mais de ordem existencial e metafísica, questionando a superficialidade das relações humanas, a busca incessante por bens materiais em detrimento do autoconhecimento e a falência de certos dogmas religiosos. A obra pode ser lida como um contraponto à aceleração e à trivialidade da vida moderna, propondo uma pausa para a reflexão profunda.
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.