Prepare-se para mergulhar em um dos clássicos mais divertidos e perspicazes da literatura brasileira: “Memórias de um Sargento de Milícias”. Escrito por Manuel Antônio de Almeida, este romance não é apenas uma leitura obrigatória para estudantes do ensino médio, mas também um espelho fascinante da sociedade carioca do século XIX.
A história de “Memórias de um Sargento de Milícias” começa de um jeito bem inusitado, antes mesmo do nascimento do protagonista, Leonardo. Seus pais, Leonardo Pataca e Maria da Hortaliça, se conhecem no navio que os traz de Portugal ao Brasil, trocando “pisadelas” e “beliscões” que dão início a um romance. Contudo, Maria da Hortaliça abandona o marido e o filho, deixando o pequeno Leonardo aos cuidados do padrinho, o Barbeiro, que o cria com carinho e dedicação.
Leonardo cresce como um garoto esperto e um tanto malandro, com pouca inclinação para os estudos e uma grande facilidade para se meter em confusões. Suas peripécias o levam a ser expulso do posto de coroinha, onde o padrinho via uma chance de futuro para ele. É nesse período que ele conhece Luisinha, uma moça rica por quem se apaixona. No entanto, o interesseiro José Manuel surge e impede o romance, casando-se com ela.
Após a morte do Barbeiro e a herança deixada ao afilhado, Leonardo volta a morar com o pai, mas logo foge de casa devido a desentendimentos. Ele se envolve com Vidinha e passa a ser alvo das perseguições do temido Major Vidigal, uma figura marcante da lei e da ordem no Rio de Janeiro. Para escapar da prisão, Leonardo é forçado a se alistar no exército, onde sua vida toma um novo rumo.
Mesmo no serviço militar, Leonardo não abandona sua índole. Ele continua a se envolver em arruaças e a desobedecer, o que o leva à prisão. Contudo, sua astúcia o salva mais uma vez: com a ajuda de Maria Regalada, uma ex-namorada do Major Vidigal, ele consegue a liberdade e, surpreendentemente, é promovido a sargento da tropa regular. A sorte sorri novamente quando ele reencontra Luisinha, que agora é viúva. O romance entre eles é reacendido e, com a intervenção do Major Vidigal, Leonardo se torna um sargento de milícias e finalmente se casa com sua amada.
O retrato cômico e crítico da sociedade carioca do século XIX através das peripécias de um malandro.
Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) foi um escritor, jornalista e médico brasileiro, mais conhecido por sua única obra romanesca completa, “Memórias de um Sargento de Milícias”. Publicou a obra em folhetins entre 1852 e 1853, utilizando o pseudônimo “Um Brasileiro”. Além da literatura, Almeida também foi administrador da Tipografia Nacional, onde teve contato com Machado de Assis. Sua promissora carreira foi tragicamente interrompida por uma morte precoce aos 31 anos, em um naufrágio na costa de Macaé, quando tentava ingressar na vida política.
“Memórias de um Sargento de Milícias” foi publicada em folhetins no jornal Correio Mercantil entre 1852 e 1853, sendo lançada como livro em 1854. A obra se destaca no cenário romântico brasileiro por subverter as convenções do gênero. Enquanto o Romantismo da época frequentemente idealizava heróis e amores, Almeida optou por um realismo cômico, retratando a vida cotidiana e os tipos populares do Rio de Janeiro joanino. Não é à toa que o livro é considerado um dos maiores clássicos da literatura nacional, oferecendo não só entretenimento, mas também um valioso panorama histórico e cultural do Brasil do início do século XIX.
| Tempo | Início do século XIX (“no tempo do Rei”, especificamente durante o período joanino no Brasil, entre 1808 e 1821). |
| Espaço | Rio de Janeiro, com foco nos bairros populares e na vida cotidiana da cidade. |
| Narrador | Em terceira pessoa, onisciente e com uma postura irônica e bem-humorada, que comenta os acontecimentos e as características das personagens. |
| Linguagem | Leve, coloquial, com diálogos que refletem a fala popular da época, contribuindo para o tom cômico e realista da obra. |
“Memórias de um Sargento de Milícias” é uma obra do Romantismo brasileiro, mas que se desvia das características mais idealistas e sentimentais do movimento. É um romance que inaugura o chamado “Romantismo irreverente” ou “realismo romântico”. O autor utiliza o humor e a ironia como elementos centrais, desconstruindo a figura do herói romântico e elevando as personagens populares ao protagonismo. A técnica da carnavalização, que inverte hierarquias e relativiza valores, é amplamente empregada, mostrando como a lei se confunde com a transgressão e o “bom” e o “mau” são frequentemente questionados. A obra também se destaca pelo registro de costumes, que oferece um panorama detalhado da vida no Rio de Janeiro da época, e pela presença de tipos sociais, ou seja, personagens que representam grupos ou comportamentos específicos da sociedade.
A obra de Manuel Antônio de Almeida é ambientada no Rio de Janeiro do início do século XIX, especificamente durante a presença da corte portuguesa no Brasil. Esse período, conhecido como “tempo do Rei” (D. João VI), foi marcado por intensas transformações na cidade, que se tornou a capital do império. O autor, de forma sutil, mas eficaz, tece críticas sociais à hipocrisia e à corrupção das instituições da época, como o exército e a própria lei, personificadas no Major Vidigal. O livro revela um Brasil em formação, com suas peculiaridades, vícios e virtudes, através do olhar de um narrador que não hesita em expor as contradições da sociedade. A obra é um importante documento da história social e cultural brasileira, apresentando um contraponto aos romances mais idealizados do período.
O Inep liberou a cartilha oficial com diretrizes e critérios para a redação do Enem 2026. Saiba tudo sobre as competências exigidas e evite a nota zero.