“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é a obra-prima que marca o início do Realismo no Brasil, escrita por Machado de Assis. O romance nos apresenta um narrador bastante peculiar: o próprio protagonista, Brás Cubas, que decide contar a história de sua vida após a morte. Essa perspectiva de “defunto autor” permite a ele uma liberdade narrativa sem igual, comentando sua existência sem se preocupar com o julgamento dos vivos, revelando as hipocrisias e futilidades da sociedade do século XIX no Rio de Janeiro.
A narrativa de Brás Cubas é um mosaico de lembranças e digressões. Ele nos leva por sua infância mimada, onde já demonstrava seu caráter egoísta ao maltratar o escravo Prudêncio. A juventude é marcada por um amor passageiro e interesseiro com a cortesã Marcela. Ao retornar da Europa, onde deveria ter estudado, ele mergulha na vida boêmia e na busca por prestígio social, engajando-se em um longo e adúltero romance com Virgília, uma antiga paixão agora casada com o influente político Lobo Neves.
Brás Cubas se mostra um homem volúvel e inconstante, incapaz de se dedicar verdadeiramente a algo. Sua carreira política é um fracasso, e suas ações beneficentes são desprovidas de qualquer paixão genuína. O casamento arranjado com Nhã Loló é interrompido pela morte precoce da moça, e ele nunca chega a ter herdeiros. Toda a sua vida é um reflexo da ociosidade e da superficialidade da elite brasileira da época, que ele mesmo encarna e critica.
Ao final de suas “memórias”, Brás Cubas faz um balanço melancólico e irônico de sua existência, resumindo-a de forma pessimista: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Essa frase encapsula a visão cética do narrador sobre a vida, a humanidade e a inutilidade de sua própria passagem pelo mundo, transformando a obra em uma profunda reflexão sobre o sentido da existência e as convenções sociais.
A futilidade da existência humana, a hipocrisia social e a crítica mordaz às convenções do século XIX.
Joaquim Maria Machado de Assis, nascido em 21 de junho de 1839 e falecido em 29 de setembro de 1908, é universalmente considerado um dos maiores nomes da literatura brasileira e um dos mais importantes escritores de língua portuguesa. Filho de um pintor de paredes e uma lavadeira, ele superou as adversidades de sua origem humilde para se tornar um intelectual autodidata e um funcionário público respeitado. Sua vasta obra abrange diversos gêneros, como romance, conto, poesia e teatro.
Machado de Assis foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, instituição da qual foi um dos fundadores. Sua produção literária é dividida em fases, sendo a segunda, a partir de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), que marca o início do Realismo no Brasil e consolida seu estilo inovador, caracterizado pela ironia fina, pela análise psicológica profunda dos personagens e pela ruptura com a linearidade narrativa. Outras obras fundamentais do autor incluem “Dom Casmurro”, “Quincas Borba” e “O Alienista”.
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é um marco revolucionário na literatura brasileira, publicado em formato de folhetim na “Revista Brasileira” entre março e dezembro de 1880, e posteriormente em livro, em 1881. Sua importância reside no fato de ser a obra inaugural do Realismo no Brasil, rompendo de forma definitiva com os padrões românticos que predominavam na época.
O romance inova ao apresentar um narrador já falecido, o “defunto autor”, que subverte as expectativas do leitor e da crítica literária. Brás Cubas, com sua voz cética e irônica, questiona e relativiza noções como verdade, ciência e razão, pilares do pensamento realista. Essa metalinguagem e a constante interação com o leitor transformam a narrativa em um jogo intelectual, onde a própria forma da escrita é colocada em discussão. A obra é um divisor de águas, não só por sua estética, mas por sua profunda e impiedosa crítica à sociedade e à natureza humana, que ainda hoje ressoa com grande atualidade.
| Tempo | Anacrônico (flashbacks, antecipações e digressões); abrange a segunda metade do século XIX, correspondendo ao Segundo Reinado no Brasil. A juventude de Brás coincide com a Independência do Brasil (1822). |
| Espaço | Principalmente o Rio de Janeiro, com menções a uma temporada de Brás na Europa para estudos. Os cenários são variados, incluindo casarões da elite, ruas da cidade e salões. |
| Narrador | Em primeira pessoa, “defunto autor” (Brás Cubas), onisciente e onipresente em relação à sua própria vida, com um tom irônico, cético e digressivo, que se dirige diretamente ao leitor. |
| Linguagem | Rica, culta, mas com um toque de coloquialidade e humor. Caracterizada pela ironia machadiana, digressões filosóficas e metalinguagem, que quebra constantemente a ilusão da narrativa. |
“Memórias Póstumas de Brás Cubas” é a obra que consagra Machado de Assis como mestre do Realismo brasileiro, embora transcenda as convenções puras do movimento ao incorporar elementos que alguns críticos identificam como modernistas e de realismo mágico. O estilo machadiano é marcado por uma ironia fina e penetrante, que serve como ferramenta para a crítica social e a desconstrução das aparências. O narrador Brás Cubas utiliza essa ironia para expor as hipocrisias da sociedade e os defeitos dos personagens, incluindo os seus próprios.
A metalinguagem e as constantes digressões são recursos literários proeminentes. Brás Cubas não se limita a contar sua história; ele comenta o próprio ato de narrar, dialoga diretamente com o leitor, interrompe o fluxo da narrativa para fazer observações filosóficas ou digressões sobre a vida. Essa quebra da linearidade e da quarta parede confere à obra um caráter inovador e participativo. Além disso, a análise psicológica dos personagens é profunda, revelando suas motivações complexas e muitas vezes contraditórias, uma marca registrada de Machado de Assis.
A ação do romance se desenrola na segunda metade do século XIX, durante o período do Segundo Reinado de D. Pedro II, no Brasil. Essa época foi marcada por grandes transformações sociais, políticas e econômicas, mas também pela manutenção de estruturas arcaicas, como a escravidão, e por uma elite que valorizava as aparências e a ociosidade.
Machado de Assis, através da voz de Brás Cubas, tece uma crítica social mordaz a diversos aspectos dessa sociedade. A obra expõe a hipocrisia da elite carioca, a corrupção política, a superficialidade das relações humanas e a banalização do casamento (transformado em arranjo social). A escravidão é um tema subjacente, não apenas na figura de Prudêncio, mas na forma como a vida da aristocracia é sustentada pelo trabalho alheio e pela crueldade. O “defunto autor” desmascara a futilidade da busca por status e dinheiro, revelando a miséria moral que se esconde por trás da fachada de progresso e civilidade.
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