“O Coronel e o Lobisomem”, de José Cândido de Carvalho, é uma obra fascinante que nos transporta para o interior do Brasil, mergulhando no universo de crendices populares, política local e a formação de um homem. A história narra a trajetória de Ponciano de Azeredo Furtado, um personagem peculiar que, desde a infância, lida com o sobrenatural e as complexidades da vida rural. Criado pelo avô após a perda dos pais, Ponciano demonstra interesse pela política, algo que seu avô, o Coronel Simeão, tenta conter.
O enredo se desenrola com Ponciano enfrentando desafios e aventuras, desde uma paixão frustrada por Branca dos Anjos até sua ascensão inesperada a capitão após uma briga. A morte do avô o transforma em Coronel Ponciano, herdando terras e o desafio de manter o poder em Sobradinho. Em meio a disputas territoriais e a presença constante de jagunços e aliados como o advogado Pernambuco Nogueira, Ponciano constrói sua reputação.
A narrativa é marcada por um tom de realismo fantástico, onde o inusitado se mistura ao cotidiano. Ponciano se vê novamente diante do sobrenatural ao enxergar o fantasma do avô e ao lutar contra um lobisomem, uma experiência que o leva a uma transformação física e de prestígio, adquirindo uma aparência que remete à criatura lendária. Sua vida amorosa é repleta de desilusões, e seus negócios prosperam e decaem, evidenciando a fragilidade da riqueza e do poder.
No final da vida, Ponciano, já falido e debilitado, retorna à fazenda Sobradinho, onde morre e tem uma visão de um pós-vida aventureiro, aceitando a missão de enfrentar o próprio diabo. A obra é um retrato vibrante da cultura brasileira, explorando a dualidade entre o homem civilizado e o sertanejo, o real e o imaginário, com um humor sutil e uma linguagem rica em regionalismos.
A obra explora a formação do caráter e do poder de um homem no interior do Brasil, entre o real e o místico.
José Cândido de Carvalho (1914-1989) foi um renomado escritor brasileiro, nascido em Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro. Formou-se em Direito em 1937, mas logo abandonou a carreira jurídica para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Sua obra mais famosa, “O Coronel e o Lobisomem”, publicada em 1964, tornou-se um best-seller, ganhou o prestigiado Prêmio Jabuti em 1965 e foi adaptada para a televisão e o cinema. Em 1974, José Cândido de Carvalho foi eleito para a cadeira 31 da Academia Brasileira de Letras, onde permaneceu até sua morte. Ele também foi o primeiro presidente da Funarte, Fundação Nacional de Artes, atuando na promoção e financiamento das artes no Brasil.
Publicado em 1964, “O Coronel e o Lobisomem” é um marco da literatura brasileira, inserindo-se no contexto de uma escrita que valorizava o regionalismo e o realismo fantástico. A obra ganhou grande destaque por sua originalidade e pela forma como mescla elementos da cultura popular e do folclore com uma narrativa picaresca e humorística. Sua importância literária reside na capacidade de retratar, de maneira satírica e profunda, as relações de poder, a vida no campo e as crenças do povo brasileiro, contribuindo para a renovação da prosa regionalista.
| Tempo | Linear, com elementos de analepse (flashbacks) na vida de Ponciano. |
| Espaço | Principalmente no interior do Rio de Janeiro, em locais como Sobradinho, Mata-Cavalo, Campos e Ponta Grossa dos Fidalgos, com menção a engenhos e fazendas. |
| Narrador | Em primeira pessoa, o próprio Ponciano, o que confere um tom confessional e pessoal à história, misturando suas experiências e percepções. |
| Linguagem | Rica em regionalismos, oralidade, humor e expressões populares, característica da literatura regionalista brasileira. |
“O Coronel e o Lobisomem” se enquadra na tradição da literatura regionalista moderna brasileira, com fortes traços do realismo fantástico. O autor, José Cândido de Carvalho, emprega uma linguagem que remete à fala do povo do interior, com sintaxe coloquial e vocabulário carregado de expressões locais. O humor é uma ferramenta constante, manifestando-se na ironia, na hipérbole e nas situações insólitas vividas pelo protagonista.
As figuras de linguagem são abundantes, especialmente as metáforas e comparações que enriquecem a descrição de personagens e cenários. O realismo mágico é evidente na forma como elementos sobrenaturais, como fantasmas e o lobisomem, se inserem naturalmente no cotidiano dos personagens, sem que haja uma explicação racional para eles. Essa fusão do real com o fantástico é uma das marcas registradas da obra, que também utiliza a sátira para criticar as estruturas de poder e as hipocrisias sociais.
A obra de José Cândido de Carvalho é um espelho do Brasil rural das primeiras décadas do século XX, especialmente a região norte-fluminense. O período é marcado pelo coronelismo, um sistema de poder local onde grandes proprietários de terras (os “coronéis”) exerciam influência política e econômica, muitas vezes através da força e da intimidação. “O Coronel e o Lobisomem” critica abertamente essa estrutura, expondo a manipulação política, as disputas por terras e a submissão da população.
Além do coronelismo, o livro aborda as crendices populares e o sincretismo religioso presentes na cultura brasileira, mostrando como o medo do sobrenatural se mistura à fé. As relações de gênero e a busca por poder e reconhecimento social também são temas importantes, revelando as mazelas e as peculiaridades de uma sociedade em transição, onde o arcaico e o moderno convivem de forma complexa.
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