“Relicário” de Oswald de Andrade não é uma obra com um enredo linear ou personagens desenvolvidos à maneira de um romance tradicional. Trata-se de uma coletânea póstuma de poemas que abarca diversas fases da produção poética do autor, um dos pilares do Modernismo brasileiro. A obra serve como um panorama multifacetado da mente inquieta e experimental de Oswald, reunindo textos que frequentemente desafiam as convenções literárias de sua época.
Os poemas presentes em “Relicário” exploram a vida urbana, a paisagem brasileira, o passado colonial e a busca por uma identidade nacional autêntica. Através de uma linguagem concisa e muitas vezes telegráfica, Oswald de Andrade constrói imagens fragmentadas que refletem a velocidade e a complexidade da modernidade. Não há um “conflito” central no sentido narrativo, mas sim uma tensão constante entre o antigo e o novo, o estrangeiro e o nacional, o erudito e o popular.
A “personagem” principal, se pudermos assim dizer em um livro de poesia, é a voz lírica que emerge dos textos: um observador agudo, irônico e muitas vezes cético da sociedade e da cultura brasileira. Essa voz se manifesta com humor e um olhar crítico, desconstruindo mitos e celebrando a brasilidade de forma original e sem ufanismo. Os poemas são pequenos instantâneos, “postais” líricos que convidam o leitor a uma reflexão sobre a cultura e a história do Brasil.
A ausência de uma narrativa coesa permite que cada poema brilhe individualmente, funcionando como uma pequena unidade de pensamento e expressão. O conjunto forma um mosaico que revela a amplitude dos interesses de Oswald de Andrade e sua paixão pela experimentação formal, pela síntese e pela capacidade de extrair poesia do cotidiano e do inusitado.
A busca por uma identidade brasileira autêntica através da experimentação linguística e da crítica social.
Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos mais influentes escritores e ideólogos do Modernismo brasileiro. Nascido em São Paulo, teve formação em Direito, mas dedicou-se intensamente à literatura, jornalismo e atividades culturais. Foi um dos principais articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922, evento que marcou o início do movimento modernista no Brasil. Ao lado de Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e outros, buscou uma arte genuinamente brasileira, que rompesse com o academicismo e o colonialismo cultural. É conhecido por manifestos icônicos como o Manifesto Pau-Brasil (1924) e o Manifesto Antropófago (1928), que propunham a “degustação” crítica das culturas estrangeiras para a criação de algo novo e original, tipicamente brasileiro. Sua obra abrange poesia, prosa e teatro, sempre marcada pela irreverência, humor, crítica social e uma constante busca por renovação estética e cultural.
“Relicário” é uma coleção póstuma de poemas de Oswald de Andrade que reúne uma diversidade de textos poéticos escritos em diferentes momentos de sua vida, alguns dos quais talvez inéditos em livro durante sua existência. A obra serve como um inventário do gênio poético de Oswald, apresentando a riqueza de sua linguagem e a profundidade de seu pensamento em relação à cultura brasileira. Longe de ser um livro com um projeto poético único, “Relicário” mostra o poeta em suas múltiplas facetas, desde os poemas-pílula de inspiração pau-brasil até incursões mais reflexivas, sempre com a marca inconfundível do autor: a concisão, a ironia e a reinvenção do fazer poético.
Em “Relicário”, não há personagens secundários definidos. Os elementos que poderiam ser considerados “personagens” são mais a manifestação de tipos sociais, paisagens urbanas ou figuras históricas que pontualmente aparecem nos poemas, servindo como pano de fundo ou objeto de observação e crítica para a voz lírica.
| Tempo | Fragmentado, não-linear, misturando referências históricas (Brasil Colônia, Império) com o presente modernista, dando uma sensação de atemporalidade e relevância contínua. |
| Espaço | Principalmente o espaço urbano de São Paulo e Rio de Janeiro, com referências à paisagem brasileira e ao interior, além de alusões a cenários coloniais e históricos. |
| Narrador | Voz lírica em primeira pessoa (“eu”), que se manifesta de forma irônica, observadora, questionadora e muitas vezes desapegada, refletindo o espírito de concisão e experimentação do modernismo. |
| Linguagem | Coloquial, antiacadêmica, utilizando vocabulário e construções do português falado no Brasil, com uso de gírias, neologismos e uma sintaxe que por vezes imita a fala. É uma linguagem experimental, direta, muitas vezes telegráfica e cheia de humor e ironia. |
O estilo de Oswald de Andrade em “Relicário” é marcado pela ruptura com as normas tradicionais da poesia. Predomina o verso livre e a ausência de rima fixa, permitindo uma liberdade formal que espelha a modernidade de seu tempo. A concisão e a síntese são características marcantes, com poemas muitas vezes curtos e diretos, que funcionam como “pílulas” de significado.
O humor e a ironia são ferramentas constantes, usadas para criticar, questionar e subverter as convenções sociais e literárias. A paródia e a intertextualidade são empregadas para dialogar com obras do passado e elementos da cultura popular. Há uma forte valorização do cotidiano, do popular e do nacional, com a incorporação de elementos da cultura brasileira e de um português genuinamente nacional.
A linguagem é despojada, utilizando vocabulário coloquial e, por vezes, uma sintaxe que simula a fala, buscando uma naturalidade expressiva. A fragmentação de imagens e ideias, a montagem e a justaposição de elementos díspares criam um efeito de colagem, característico da vanguarda modernista.
“Relicário” está inserido no efervescente contexto do Modernismo brasileiro, movimento que eclodiu com a Semana de Arte Moderna de 1922. A primeira metade do século XX no Brasil foi um período de intensas transformações sociais, econômicas e políticas, com a urbanização, a industrialização e a busca por uma identidade nacional em face das influências europeias. Oswald de Andrade foi um dos grandes teóricos e praticantes dessa busca.
As críticas sociais presentes na obra são múltiplas. Há um questionamento da burguesia paulistana e carioca, muitas vezes vista como imitadora da cultura europeia e alheia às particularidades brasileiras. O autor critica o academicismo e o parnasianismo na arte e na literatura, que ele considerava engessados e desconectados da realidade. Através da ironia, Oswald aborda as desigualdades sociais, a exploração do trabalho e as contradições do processo de modernização do país.
A proposta antropofágica, embora mais desenvolvida em outros de seus trabalhos, perpassa a obra de Oswald, sugerindo a “degustação” e a “digestão” crítica das culturas estrangeiras para produzir uma arte original e verdadeiramente brasileira, sem a ingenuidade do nacionalismo ufanista, mas com a inteligência de quem soube assimilar e reelaborar as referências globais. “Relicário” é um espelho poético desse período de intensa reflexão e transformação cultural.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.