Publicada pela primeira vez em 1940, “Sentimento do Mundo” é a terceira obra de Carlos Drummond de Andrade e reúne um conjunto de 28 poemas marcantes. Este livro assinala uma transição crucial na produção do poeta, que passa a abraçar uma poesia de cunho social mais evidente. A obra reflete profundamente o clima de instabilidade e inquietação que antecedeu a Segunda Guerra Mundial, período entre 1935 e 1940, quando os poemas foram escritos. O mundo tentava se reerguer da Primeira Guerra Mundial enquanto testemunhava a ascensão de regimes totalitários na Alemanha, Espanha, Itália e o advento do Estado Novo de Getúlio Vargas no Brasil.
Neste contexto histórico-social, o poeta, anteriormente mais focado no individualismo de obras como “Alguma Poesia” e “Brejo das Almas”, redireciona seu fazer poético. Ele toma consciência do mundo ao seu redor, voltando-se para a experiência coletiva. Embora a temática do “eu” – abordando a terra natal, o indivíduo e a família – ainda se faça presente, ela é agora permeada por uma pitada de ironia e ganha um sentido mais universal. O “eu” drummondiano não é mais isolado, mas sim conectado e atuante no mundo, buscando novos caminhos para temas existenciais como o amor, a morte e o tempo, renovando a vanguarda modernista.
Drummond, em “Sentimento do Mundo”, reconhece um distanciamento fatal entre os homens, mesmo enquanto anseia por uma união coletiva. Essa busca por uma ligação entre as pessoas é expressa pelo uso constante do vocativo e da terceira pessoa do plural, como se o eu-lírico conclamasse o “nós”. Embora permeada por uma visão pessimista e sombria do presente e descrente em dias melhores, uma utópica esperança emerge do ser coletivo, sugerindo que somente através da união é possível escapar do cenário tenebroso da época.
A obra também apresenta uma crítica à alienação burguesa. O espaço interior, como o “terraço mediocramente confortável” de “Privilégio do Mar”, surge como um símbolo de proteção e privilégio de classe, denunciando a atitude de refúgio em um espaço fechado. A distância social é sentida com dor e angústia, e por vezes expressa com a acidez da ironia, como em “Os Inocentes do Leblon”. O poeta, ao se ver fragmentado e lançado à participação, questiona as potencialidades da poesia política e, sem pudor, expõe suas dúvidas, resultando em um livro tenso e profundamente humano.
A obra explora a transição do indivíduo para a consciência social, a angústia existencial diante dos conflitos mundiais e a busca por solidariedade humana em um contexto de opressão e desalento.
Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais, em 31 de outubro de 1902. Por um breve período, formou-se em Farmácia em Ouro Preto, em 1925. Figura central do Modernismo brasileiro, junto a outros escritores mineiros, fundou “A Revista”, uma importante publicação do movimento. Em 1934, ingressou no serviço público e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde residiu até seu falecimento em 17 de agosto de 1987. A partir dos anos 1950, dedicou-se intensamente à literatura, produzindo uma vasta obra que, além de sua renomada poesia, abrange contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Drummond é reconhecido por sua ironia ímpar e um amargor característico, elementos que permeiam sua abordagem de questões sociais, existencialistas, amorosas e da própria poesia. Suas poesias de cunho social, muitas vezes com forte influência de esquerda, são consideradas sua obra-prima.
“Sentimento do Mundo”, publicado em 1940, é a terceira coletânea poética de Carlos Drummond de Andrade, reunindo 28 poemas escritos entre os anos de 1935 e 1940. A obra representa um marco na trajetória do poeta, consolidando as conquistas do Modernismo brasileiro iniciadas em 1922, mas elevando a um novo patamar a abordagem temática. Longe da poesia panfletária, Drummond opta por expor as tensões e os questionamentos que os acontecimentos globais e nacionais da época impunham aos intelectuais. É um livro que demonstra a maturidade artística do autor, expandindo a perspectiva do “eu” para uma dimensão coletiva e universal.
Em “Sentimento do Mundo”, por ser uma obra poética, não há “personagens” no sentido tradicional da narrativa. O elemento central é o eu-lírico, que se configura como a voz que observa, sente e reflete sobre o mundo. Inicialmente mais voltado para o individualismo em obras anteriores, aqui o eu-lírico evolui para uma consciência coletiva, não mais isolado, mas profundamente conectado às angústias e esperanças da humanidade. Ele se mostra ora pessimista diante da realidade sombria, ora utopicamente esperançoso na união dos homens. Essa figura do eu-lírico é quem expressa a busca por solidariedade, a denúncia da alienação e a reflexão sobre o papel da poesia diante da opressão. Seu diálogo com a coletividade, embora tenso, é um pilar da obra.
Embora não haja personagens secundários definidos, a obra interage com entidades coletivas e simbólicas que funcionam como figuras importantes para o desenvolvimento dos temas. O “nós” e o “povo” são presenças constantes, invocados pelo eu-lírico como uma força de união e esperança para escapar do presente sombrio. Os trabalhadores também são mencionados, especialmente no poema “O Operário no Mar”, representando a classe oprimida e a fonte de um possível movimento transformador. Além disso, a obra faz referência a tipos sociais, como o burguês alienado que busca refúgio em espaços fechados, e figuras como a “princesa que mora numa casa feita de cadáveres” em “Madrigal Lúgubre”, servindo como exemplos da crítica social presente nos poemas.
| Tempo | Os poemas foram escritos entre 1935 e 1940, refletindo o período pré-Segunda Guerra Mundial e a ditadura do Estado Novo no Brasil. O tempo é presente e histórico, com reflexões sobre o passado e projeções utópicas para o futuro coletivo. |
| Espaço | O espaço é amplo, abrangendo o mundo em crise, mas com fortes referências à “mineiridade” do autor e à sua experiência no Rio de Janeiro (como em “Os Inocentes do Leblon”). Há um contraste entre o refúgio do “espaço interior” burguês e o “mundo vasto” que impõe a realidade social e política. |
| Narrador | O eu-lírico, em primeira pessoa, é a voz predominante. No entanto, sua perspectiva se expande para incluir a coletividade, utilizando a terceira pessoa do plural (“nós”) e o vocativo, buscando a união e o engajamento. |
| Linguagem | A linguagem é marcadamente modernista, com predominância de versos livres e brancos, ausência de rima e métricas diversificadas. Há um forte coloquialismo e uma coexistência de imagens simples com outras mais herméticas e de teor surrealista. A ironia e um tom amargo são recorrentes. |
O estilo de Carlos Drummond de Andrade em “Sentimento do Mundo” é um reflexo da segunda fase do Modernismo, caracterizado pela liberdade formal e por uma profundidade temática renovada. O poeta emprega versos livres e brancos, abandonando as rimas tradicionais e utilizando métricas variadas, incluindo um poema em prosa, “O Operário no Mar”. A linguagem é coloquial e direta, mas ao mesmo tempo capaz de construir imagens complexas e, por vezes, de teor surrealista, criando uma rica textura poética.
Um dos recursos mais notáveis é a constante utilização do vocativo e da terceira pessoa do plural (“nós”), o que confere à obra um tom de diálogo e de apelo à união coletiva. A ironia e um certo amargor característico de Drummond permeiam os poemas, servindo como ferramentas para a crítica social e a expressão da angústia existencial. A obra também se destaca pela oscilação entre a reafirmação da necessidade de reação à opressão e a manifestação de um fatalismo diante das dificuldades, conferindo uma tensão e humanidade singulares à sua arte.
“Sentimento do Mundo” está intrinsecamente ligado ao seu contexto histórico, sendo um espelho das angústias e inquietações dos anos de 1935 a 1940. A Europa vivenciava o prelúdio da Segunda Guerra Mundial, com a ascensão de regimes totalitários como o nazismo na Alemanha, o fascismo na Itália e na Espanha. No Brasil, o governo de Getúlio Vargas consolidava-se no poder, culminando no golpe do Estado Novo em 1937, instaurando uma ditadura. Esse cenário de instabilidade política e social impulsionou Drummond a um novo patamar de engajamento.
O poeta, que em obras anteriores explorava temas mais individualistas, agora toma consciência do mundo e de suas mazelas, voltando-se para a experiência coletiva. A obra denuncia o estado opressor, que se manifesta nas ditaduras globais e na miséria que assola a população. Há uma forte crítica social à alienação burguesa, simbolizada por aqueles que se isolam em “espaços interiores” confortáveis enquanto o mundo sofre. Drummond expressa a dor e a angústia da distância social entre os homens, ao mesmo tempo em que deposita uma utópica esperança no movimento transformador dos oprimidos, especialmente dos trabalhadores, apesar das dificuldades de comunicação e compreensão.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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