“Triste Fim de Policarpo Quaresma” é uma das obras mais emblemáticas da literatura brasileira, escrita por Lima Barreto. O romance narra a trajetória de Policarpo Quaresma, um funcionário público do Rio de Janeiro que, movido por um nacionalismo exacerbado, dedica sua vida a projetos utópicos para o progresso do Brasil.
A história se desenrola em três fases marcantes na vida do protagonista. Inicialmente, Policarpo, apelidado de Major, vive no Rio de Janeiro e causa estranheza por seu patriotismo ardente e paixão pelos livros. Ele chega a propor ao ministro da Guerra que o tupi-guarani seja reconhecido como a língua oficial do Brasil, alegando que os indígenas seriam os “verdadeiros brasileiros”. Essa atitude, vista como loucura pela sociedade, o leva a ser internado em um hospício, onde apenas sua afilhada Olga e seu amigo Ricardo Coração dos Outros, um violonista talentoso que compartilha de seus ideais, o visitam.
Após a alta do hospital psiquiátrico, Policarpo decide se afastar da vida urbana e se muda para um sítio no interior de Curuzu, batizado de “O Sossego”. Lá, ele se dedica com fervor à agricultura, convencido da fertilidade da terra brasileira e do potencial do país para o sustento próprio. Contudo, sua ingenuidade o faz entrar em conflito com políticos locais e enfrentar burocracias, impostos indevidos e pragas que arruínam suas lavouras, culminando em mais uma profunda decepção com a realidade brasileira.
A terceira e última fase de sua vida o leva de volta ao Rio de Janeiro, onde decide apoiar o governo do Marechal Floriano Peixoto durante a Revolta da Armada. Engaja-se na guerra como Major, mas testemunha a brutalidade dos conflitos e a falta de ética dos líderes. Acusado injustamente de traição pelo próprio Marechal Floriano, que ele percebe ser um ditador, Policarpo é preso e condenado ao fuzilamento. Sua vida, uma série de idealismos e frustrações, termina em desilusão completa, pois a pátria idealizada em seus estudos e sonhos se mostrava um mito distante da dura realidade.
A desilusão de um idealista com a pátria brasileira diante da corrupção e da indiferença social.
Afonso Henriques de Lima Barreto, nascido no Rio de Janeiro em 1881 e falecido na mesma cidade em 1922, foi um dos mais importantes escritores brasileiros do período do Pré-modernismo. Órfão de mãe ainda jovem, teve uma vida marcada por dificuldades financeiras, racismo e problemas de saúde mental, que o levaram a algumas internações em hospícios. Além de romancista, foi jornalista, trabalhou no Ministério da Guerra e produziu sátiras, contos, artigos e crônicas. Sua obra é conhecida pela crítica social, pelo realismo na representação do cotidiano carioca e pela defesa dos marginalizados, sempre com uma linguagem direta e questionadora.
“Triste Fim de Policarpo Quaresma” foi inicialmente publicado em folhetins no “Jornal do Comércio” em 1911 e, posteriormente, em formato de livro em 1915, custeado pelo próprio autor. A obra é considerada um clássico da literatura brasileira e um dos pilares do Pré-modernismo. Sua importância reside na crítica mordaz aos primeiros anos da República, à política nacionalista ingênua e à ineficácia das instituições. Lima Barreto, através do destino trágico de Policarpo, expõe as mazelas de um país que se construía sobre bases frágeis, marcadas pela corrupção e pela distância entre o ideal e a realidade.
| Tempo | A narrativa se passa nos primeiros anos da República no Brasil, especificamente durante o governo de Marechal Floriano Peixoto (1891-1894). A obra foi escrita e publicada por Lima Barreto vinte anos após esse período. |
| Espaço | A história transita entre a efervescência política e social do Rio de Janeiro, capital do país, e a tranquilidade aparente do interior do estado, na fictícia cidade de Curuzu, onde se localiza o Sítio do Sossego. |
| Narrador | O romance é narrado em terceira pessoa, por um narrador onisciente que, sem emitir juízos de valor explícitos, permite ao leitor uma visão crítica da ingenuidade e das idealizações do protagonista, bem como da sociedade da época. |
| Linguagem | A linguagem é predominantemente coloquial e acessível, característica do Pré-modernismo. Lima Barreto utiliza um tom irônico e direto para expressar suas críticas sociais e políticas, aproximando-se da fala do povo brasileiro. |
“Triste Fim de Policarpo Quaresma” é uma obra-prima do Pré-modernismo brasileiro, um período de transição na literatura que se caracteriza pela crítica à realidade social e política do país. O estilo de Lima Barreto é marcado pela linguagem coloquial, que se distancia do academicismo e busca uma comunicação mais próxima do leitor. O autor utiliza o nacionalismo e o regionalismo como pano de fundo para denunciar as mazelas da Primeira República, como a corrupção, o clientelismo e a ineficiência administrativa. A ironia é um recurso literário constante, empregada para ressaltar o contraste entre os ideais de Policarpo e a dura realidade que o cerca. A intertextualidade com obras como “Dom Quixote” também é notável, evidenciando a figura do sonhador que luta contra moinhos de vento em um mundo que não o compreende.
A obra se ambienta nos primeiros anos da República Velha no Brasil, especificamente durante o governo de Marechal Floriano Peixoto, conhecido como “Marechal de Ferro”. Este período foi conturbado, marcado por conflitos como a Revolta da Armada, rebelião naval contra o governo, e a Revolução Federalista. Lima Barreto, através da trajetória de Policarpo Quaresma, tece uma crítica profunda à sociedade brasileira da época. Ele denuncia a fragilidade dos ideais republicanos, a burocracia excessiva, a troca de favores políticos, as injustiças sociais e a corrupção que minavam as esperanças de um país próspero e justo. A ingenuidade de Policarpo e sua desilusão final refletem o próprio desencanto do autor com a realidade política do Brasil.
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