“O Auto da Compadecida” é uma das obras mais emblemáticas da literatura brasileira, escrita pelo renomado Ariano Suassuna. Trata-se de uma peça teatral do gênero “auto”, que mescla humor, crítica social e elementos da cultura popular nordestina. A história se desenrola na pequena e fictícia cidade de Taperoá, na Paraíba, e tem como protagonistas a dupla de amigos João Grilo, um sertanejo astuto e esperto, e Chicó, seu companheiro medroso e contador de histórias.
O enredo começa com a tentativa de João Grilo e Chicó de convencer o Padre João a benzer o cachorro da mulher do Padeiro, uma figura avarenta e infiel. Diante da recusa inicial do padre, João Grilo, com sua sagacidade peculiar, inventa um testamento falso no qual o cachorro deixaria dinheiro para o padre, o sacristão e até para o bispo, caso o animal fosse enterrado em latim. Essa artimanha expõe a ganância e a hipocrisia das autoridades religiosas e dos poderosos locais, que rapidamente mudam de ideia diante da perspectiva de lucro.
As confusões se intensificam quando a cidade é invadida pelo temível cangaceiro Severino e seu capanga. Em meio ao caos, diversas personagens, incluindo o bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e sua esposa, acabam sendo mortas. João Grilo, sempre engenhoso, tenta enganar Severino com uma gaita “abençoada” que ressuscitaria os mortos, em um truque que envolve uma bexiga de sangue e a cumplicidade de Chicó. No entanto, o plano não sai como esperado, e o próprio João Grilo também encontra a morte.
A parte final da peça transporta as personagens para o cenário do Juízo Final, onde são julgadas por uma corte celestial inusitada: o Diabo (o Encourado) atua como acusador, Jesus Cristo (Manuel, representado como um homem negro, o que causa espanto) como juiz, e a Virgem Maria (A Compadecida) como intercessora. É nesse momento que as fraquezas e qualidades humanas são postas à prova, e a misericórdia da Compadecida se torna essencial para atenuar as sentenças, revelando a complexidade da moralidade e a importância da compaixão em um mundo de adversidades.
A obra explora a dualidade entre a astúcia e a sobrevivência do povo nordestino versus a hipocrisia e a ganância das instituições sociais e religiosas.
Ariano Vilar Suassuna foi um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, nascido em João Pessoa, Paraíba, em 16 de junho de 1927. Sua vida foi dedicada à arte e à cultura popular de sua região, o Nordeste. Formado em Direito e Filosofia, atuou também como professor universitário, advogado e ocupou importantes cargos públicos ligados à cultura, como secretário de Educação e Cultura do Recife e secretário de Cultura do Estado de Pernambuco.
Ariano Suassuna é o idealizador do Movimento Armorial, uma corrente artística que buscava valorizar e desenvolver as formas de expressão populares tradicionais do Nordeste brasileiro, integrando-as à alta cultura. Sua vasta obra abrange teatro, romance e poesia, sempre marcada por um estilo único que combina o erudito com o popular. Faleceu em 23 de julho de 2014, em Recife, deixando um legado cultural imenso e inesquecível.
“O Auto da Compadecida” é uma obra de grande destaque na literatura brasileira, escrita por Ariano Suassuna em 1955 e encenada pela primeira vez em 1956. A peça ganhou notoriedade em 1957, no Rio de Janeiro, e desde então cativou o público com seu estilo inovador. Sua importância literária reside na habilidosa fusão de elementos do teatro popular, dos autos medievais portugueses (como os de Gil Vicente) e da rica literatura de cordel nordestina.
A obra, um “drama nordestino em três atos”, transcende o mero entretenimento ao se apresentar como uma poderosa sátira moralizante. Ela denuncia a corrupção, a hipocrisia e a avareza presentes em diferentes camadas da sociedade, desde os religiosos até os poderosos locais, ao mesmo tempo em que exalta a inteligência e a capacidade de sobrevivência do homem sertanejo. A popularidade da peça foi ainda mais ampliada com suas bem-sucedidas adaptações para a televisão (1999) e o cinema (2000), tornando-se um clássico acessível a diferentes gerações.
| Tempo | A peça foi escrita em 1955, mas a ação transcorre em um período não especificado, sugerindo a República Velha (1889-1930), época do coronelismo e do cangaço no Nordeste. |
| Espaço | A história se passa integralmente na fictícia cidade de Taperoá, na Paraíba, um cenário que reflete as realidades do sertão nordestino. |
| Narrador | Por ser uma peça teatral, não há um narrador onisciente. O Palhaço assume o papel de apresentador e comentarista, introduzindo a história e os personagens. |
| Linguagem | A linguagem é predominantemente coloquial e regionalista, repleta de expressões e sotaques do Nordeste. O humor e a ironia são constantes, tornando o texto acessível e dinâmico. |
Ariano Suassuna insere “O Auto da Compadecida” no contexto do Modernismo – Geração de 45, ou também da Terceira Fase do Modernismo brasileiro. Sua obra é um exemplo claro de sua dedicação à cultura nordestina e aos princípios do Movimento Armorial, que ele fundou. O estilo do autor é marcado pela fusão do regional com o universal, utilizando a cultura popular como base para reflexões profundas.
A peça é uma comédia dramática que se apropria de elementos do teatro de rua e da literatura de cordel, com uma estrutura que remete aos autos medievais. Suassuna emprega abundantemente a linguagem oral, o regionalismo, a ironia e a sátira para construir seus personagens caricaturais e criticar a sociedade. As figuras de linguagem, como a personificação e a hipérbole, são usadas para acentuar o tom cômico e moralizante, enquanto a caracterização detalhada do Nordeste e seus costumes confere autenticidade à narrativa.
“O Auto da Compadecida” foi escrito em um período de grande efervescência política e social no Brasil (1955), logo após o suicídio de Getúlio Vargas e em meio a um governo provisório. Embora a peça tenha sido concebida nesse contexto, a ação se situa em um tempo que remete à República Velha (1889-1930), um período marcado pelo coronelismo e pelo fenômeno do cangaço no sertão nordestino.
A obra de Suassuna é um espelho das duras realidades do Nordeste brasileiro: a seca, a fome, a miséria e a opressão imposta pelos poderosos coronéis. Através das artimanhas de João Grilo, o autor critica a corrupção da Igreja, a ganância dos ricos e a injustiça social. A figura de Severino, o cangaceiro, é utilizada para humanizar a violência, mostrando que muitos foram compelidos ao banditismo pela ausência de alternativas e pela brutalidade das condições de vida. A peça, portanto, é um poderoso manifesto contra as desigualdades e um clamor por justiça e misericórdia.
| Ano de Publicação | 1955 (escrita) / 1956 (primeira encenação) |
| Autor | Ariano Suassuna |
| Gênero | Auto / Comédia Dramática |
| Editora | Nova Fronteira (uma das edições mais conhecidas) |
A Fuvest realiza neste domingo o simulado da 1ª fase para mais de 25 mil estudantes. Confira horários, regras e como será a avaliação de desempenho.