“O Cortiço“, uma das obras mais marcantes do Naturalismo brasileiro, escrita por Aluísio Azevedo e publicada em 1890, é um retrato vívido e, por vezes, brutal da sociedade carioca do final do século XIX. A trama se desenrola em uma habitação coletiva no Rio de Janeiro, o cortiço de São Romão, que, mais do que um cenário, se torna um verdadeiro personagem, reagindo e moldando a vida de seus habitantes.
No centro da narrativa está João Romão, um ambicioso português que, com muita astúcia e pouca moral, ascende socialmente. Ele é dono do cortiço, de uma taverna e de uma pedreira, explorando seus empregados e a escrava Bertoleza, com quem mantém um relacionamento. A história também apresenta o contraste entre a vida humilde e promíscua do cortiço e o sobrado burguês vizinho, habitado por Miranda, um comerciante português casado com a infiel Estela. A rivalidade entre João Romão e Miranda, movida pelo desejo de ascensão social, é um dos conflitos centrais.
A vida no cortiço é um caldeirão de paixões, vícios e lutas pela sobrevivência. Personagens como Rita Baiana, uma mulata sedutora e carismática, personificam a força dos instintos e a influência do ambiente. Seu envolvimento com Jerônimo, um português inicialmente honesto e trabalhador, o leva a abandonar sua esposa Piedade e sua filha, culminando no assassinato do ex-amante de Rita, Firmo, em um acesso de ciúmes. Piedade, por sua vez, sucumbe ao alcoolismo, mostrando a degradação que o meio pode impor.
A tragédia de Bertoleza é um dos momentos mais impactantes: após João Romão forjar uma carta de alforria e se casar com Zulmira, filha de Miranda, para consolidar sua posição social, ele a entrega como fugitiva. Desamparada e desiludida, Bertoleza comete suicídio, simbolizando a crueldade da exploração e a desumanização. O incêndio que atinge o cortiço e sua posterior reconstrução, transformando-o na “Avenida São Romão”, marca a evolução e a indiferença social, mostrando que, mesmo com a mudança física, as estruturas de desigualdade persistem.
A influência determinante do ambiente social e biológico na formação e degradação do indivíduo, além da incessante busca por ascensão social.
Aluísio Tancredo Belo Gonçalves de Azevedo (1857-1913) foi um renomado escritor, jornalista, caricaturista e diplomata brasileiro. Considerado um dos maiores expoentes do Naturalismo no Brasil, suas obras são marcadas por uma observação aguda da sociedade e uma abordagem crítica das relações humanas. Irmão do também escritor Artur Azevedo, Aluísio dedicou-se a retratar a realidade de sua época, com foco nas classes populares e nos determinismos sociais e biológicos que moldavam o comportamento. “O Cortiço” é a sua obra-prima, consolidando-o como um mestre do gênero.
Publicado em 1890, “O Cortiço” de Aluísio Azevedo é um marco na literatura brasileira, sendo a obra mais representativa do Naturalismo no país. O romance se insere em um contexto de grandes transformações sociais e políticas no Brasil, como o período pós-abolição da escravatura e a iminência da Proclamação da República. A importância literária e histórica da obra reside em sua capacidade de retratar, com crueza e detalhes, a vida nas moradias coletivas do Rio de Janeiro, expondo as mazelas sociais, a miséria, os vícios e a degradação humana.
O livro apresenta uma análise profunda das interações entre o indivíduo e o meio, explorando como o ambiente insalubre e a luta pela sobrevivência influenciam os comportamentos, as moralidades e os destinos dos personagens. É uma obra fundamental para compreender as correntes ideológicas e artísticas do final do século XIX e a visão crítica de Aluísio Azevedo sobre a sociedade brasileira.
| Tempo | Linear e cronológico, seguindo a evolução dos acontecimentos ao longo da narrativa. |
| Espaço | Principalmente o cortiço de São Romão (que funciona como um organismo vivo), a pedreira e a taverna de João Romão. Há também o contraste com o sobrado burguês vizinho, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. |
| Narrador | Onisciente e em terceira pessoa, com grande poder de observação e análise dos fatos e da psique dos personagens, muitas vezes com um tom científico e determinista. |
| Linguagem | Descritiva e objetiva, rica em detalhes sobre o ambiente e o comportamento humano. Apresenta forte presença de traços naturalistas, como a animalização dos personagens e o determinismo do meio. |
“O Cortiço” é a obra-prima do Naturalismo no Brasil, movimento literário da segunda metade do século XIX que aplica princípios científicos à arte. O estilo de Aluísio Azevedo é marcadamente descritivo, com uma profusão de detalhes sensoriais que constroem o ambiente do cortiço, quase tornando-o um personagem em si. A linguagem é direta, por vezes crua, sem eufemismos para as paixões e os vícios.
Um dos recursos literários mais evidentes é o zoomorfismo ou animalização dos personagens, que têm seus comportamentos comparados aos de animais, guiados por instintos básicos como fome, sexo e ambição. Isso reforça a ideia do determinismo, onde o meio social (o cortiço) e a raça influenciam diretamente o caráter e as ações dos indivíduos. A obra também utiliza a metáfora do cortiço como um organismo vivo, que “respira”, “cresce” e “pulsa”, espelhando a vida e a degradação de seus moradores.
A obra “O Cortiço” está profundamente inserida no contexto do Brasil do final do século XIX, um período de intensas transformações. A Abolição da Escravatura (1888) e a Proclamação da República (1889) são eventos que marcam essa transição, e a obra reflete as mudanças sociais, econômicas e culturais que elas acarretaram.
Aluísio Azevedo utiliza o cortiço como um microcosmo para criticar a sociedade brasileira da época. Temas como a desigualdade social são evidentes no contraste entre o sobrado burguês e a habitação coletiva. A obra expõe a exploração dos menos favorecidos por figuras como João Romão e a hipocrisia da classe dominante. O determinismo social e biológico é uma crítica central, mostrando como a pobreza, a falta de higiene e a mistura de raças (segundo a visão preconceituosa da época, presente no Naturalismo) levariam à degradação moral e física dos indivíduos. A ascensão social a qualquer custo, exemplificada por João Romão, revela a corrupção e a falta de escrúpulos em busca de poder e riqueza, um espelho de posturas que, infelizmente, ainda podem ser observadas na sociedade atual.
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