“Dom Casmurro”, uma das obras mais emblemáticas do renomado Machado de Assis, narra a vida de Bento Santiago, um homem maduro que decide revisitar suas memórias para “atar as duas pontas da vida”, a infância e a velhice. Contudo, rapidamente se percebe que o verdadeiro foco de sua rememoração é o seu complexo relacionamento com Capitu, a enigmática vizinha que se tornaria o grande amor de sua vida e, supostamente, a causa de sua maior amargura.
A narrativa de Bento se inicia com sua infância e a promessa feita por sua mãe, Dona Glória, de que ele se tornaria padre. Essa promessa o afasta de Capitu por um tempo, enviando-o ao seminário, onde conhece e estabelece uma profunda amizade com Escobar. É através de um plano engenhoso, sugerido por Escobar, que Bento consegue escapar do sacerdócio e, finalmente, realizar seu desejo de se casar com Capitu. A vida dos dois casais, Bento e Capitu, e Escobar e Sancha (melhor amiga de Capitu), se entrelaça em uma aparente harmonia.
O ponto de virada da trama ocorre após a morte súbita de Escobar. No velório do amigo, Bento observa o comportamento de Capitu e começa a nutrir uma terrível desconfiança de que foi traído. Essa suspeita é intensificada pela notável semelhança física que ele passa a enxergar entre seu filho, Ezequiel, e o falecido Escobar. A partir desse momento, a vida de Bento é dominada pelo ciúme e pela paranoia, levando-o a se separar de Capitu e Ezequiel, enviando-os para a Europa.
Vivendo em reclusão após a separação, Bento Santiago adota o apelido de “Dom Casmurro”, que, além de significar introspectivo, também carrega o sentido de teimoso. Essa teimosia se manifesta em sua inabalável convicção de ter sido traído, apesar da ausência de provas concretas e irrefutáveis. A obra, assim, instiga o leitor a questionar a verdade apresentada pelo narrador e a refletir sobre a subjetividade das memórias e das acusações.
O tema central de “Dom Casmurro” é o questionamento da verdade e a natureza ambígua do ciúme e da percepção humana.
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é amplamente considerado o maior nome da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, em uma família humilde, autodidata e gago, Machado superou diversas adversidades para se tornar um intelectual respeitado. Foi um observador perspicaz das transformações sociais e políticas do Brasil imperial e republicano, comentando-as de forma sutil e profunda em sua vasta obra. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários, deixando um legado de romances, contos, crônicas e peças teatrais que continuam a ser estudados e admirados pela sua genialidade, ironia e complexidade psicológica.
Publicado em 1899, “Dom Casmurro” é uma das obras-primas do Realismo brasileiro e parte da “Trilogia Realista” de Machado de Assis, que inclui também “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Quincas Borba”. O livro Dom Casmurro destaca-se pela sua estrutura inovadora e pela profundidade psicológica com que explora a mente de seu narrador-personagem, Bento Santiago. A obra é um convite à reflexão sobre a memória, a verdade, o ciúme e as complexas relações humanas, permanecendo relevante e atual mesmo após mais de um século de sua publicação.
| Tempo | Predominantemente psicológico, com o narrador Bento Santiago revisitando o passado a partir de sua velhice, o que confere à memória um papel crucial na construção dos fatos. Abrange o período da adolescência de Bento até sua idade avançada. |
| Espaço | Principalmente o Rio de Janeiro do século XIX, com passagens pelo seminário e, posteriormente, referências à Europa (onde Capitu e Ezequiel vivem após a separação). O ambiente doméstico da Rua de Matacavalos e a posterior casa de Bento na Rua Barão de São Borja são centrais. |
| Narrador | Em primeira pessoa, por Bento Santiago, que é também o protagonista. Sua perspectiva é única e, portanto, tendenciosa, o que leva ao famoso “enigma de Capitu” e ao questionamento da verdade. |
| Linguagem | Elaborada, com um tom irônico e digressivo, característico do estilo machadiano. Machado utiliza uma prosa fluida, com reflexões filosóficas e diálogos com o leitor, convidando-o a participar ativamente da interpretação dos eventos. |
O estilo machadiano em “Dom Casmurro” é marcado por sua singularidade e complexidade. A digressão é um recurso constante, onde o narrador interrompe a história para tecer comentários, reflexões filosóficas ou digressões metalinguísticas, que são discursos sobre a própria arte de narrar. Essa técnica, longe de desviar o leitor, o envolve ainda mais nas particularidades da mente de Bento e nas camadas de significado da obra. A metalinguagem, com o autor comentando sobre o processo de escrita e a construção do romance, reforça a ideia de que a verdade é uma construção narrativa.
A ironia é outro pilar fundamental do estilo, presente tanto nas descrições dos personagens quanto nas situações e nos comentários de Bento. Essa ironia sutil desafia o leitor a não aceitar passivamente a versão dos fatos apresentada. Os “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” de Capitu tornaram-se um dos mais célebres traços da literatura brasileira, exemplificando a maestria de Machado em criar personagens ambíguos e multifacetados, que resistem a classificações simples. A obra é um exemplo notável de como a forma e o estilo contribuem para o significado Dom Casmurro e a sua duradoura relevância.
“Dom Casmurro” está inserido no contexto do Realismo brasileiro da segunda metade do século XIX. Machado de Assis, com sua acuidade, conseguiu extrair dos acontecimentos políticos e sociais da época o significado humano mais profundo. O Brasil vivia um período de transição, com o fim da escravidão e a Proclamação da República, e o estabelecimento de bases capitalistas que conviviam com hábitos e pensamentos conservadores.
A obra, embora focada na temática da traição, vai além do drama individual para tecer críticas sociais veladas. Machado desnudava a miséria moral do ser humano e as hipocrisias da sociedade da época, expondo as relações de poder, a dependência financeira (como no caso dos agregados e da família de Dona Glória) e os valores patriarcais. O questionamento da verdade na obra pode ser lido também como uma crítica à forma como a sociedade constrói seus valores e sua moral, muitas vezes baseada em aparências e preconceitos, refletindo a complexidade de um país em formação e transformação.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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