“A Visão das Plantas”, da aclamada autora Djaimilia Pereira de Almeida, transporta o leitor para Portugal no século XIX, apresentando a vida de Celestino, um antigo capitão de navio negreiro. Após anos dedicados ao transporte de pessoas escravizadas, ele retorna à sua terra natal já idoso, fragilizado e em total isolamento. Sua casa, abandonada e empoeirada, reflete o ostracismo social que o cerca, fruto de seu passado marcado pela crueldade.
Diferente do que se poderia esperar, Celestino não demonstra remorso ou apego às memórias de seus atos passados. Ele se desfaz de quase todos os bens materiais, mantendo apenas o jardim, que se torna o centro de sua atenção. Este presente tranquilo e introspectivo contrasta drasticamente com a violência e a desumanidade que caracterizaram sua vida anterior no mar.
Apesar da aparente indiferença de Celestino, outros personagens surgem, funcionando como catalisadores da memória e do confronto com seu legado. Um padre busca sua confissão para o perdão, enquanto fantasmas de suas vítimas – uma senhora negra e uma menina holandesa – o assombram, representando a inescapabilidade das consequências de seus crimes. Manuel, um jovem primo de um antigo conhecido, é o único a oferecer algum tipo de cuidado, levando-o a uma festa junina e, posteriormente, à praia, antes de sua morte.
O livro culmina na morte de Celestino, que é enterrado com as flores que ele mesmo cultivou. A narrativa simples, mas profundamente filosófica, indaga sobre a capacidade de redenção ou de coexistência da beleza (o jardim) com a barbárie (o passado do capitão). É uma reflexão sobre como mãos outrora sujas de sangue podem agora se sujar de terra e fazer florir, em um contraste que ressalta a complexidade e a brutalidade da história colonial.
A obra explora a violência colonial e a escravidão a partir da perspectiva do colonizador, questionando a ausência de remorso e o silenciamento histórico sobre as injustiças sociais.
Djaimilia Pereira de Almeida é uma escritora angolana-portuguesa nascida em Luanda, Angola. Sua obra tem sido reconhecida e premiada, destacando-se no cenário da literatura contemporânea lusófona. Seu livro “Luanda, Lisboa, Paraíso” foi o vencedor do prestigioso Prêmio Oceanos em 2019. Já “A Visão das Plantas”, objeto deste estudo, conquistou o segundo lugar no mesmo prêmio em 2020. Em 2023, Djaimilia foi agraciada com o Prémio FLUL Alumni, concedido pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde concluiu seu doutorado. Em 2025, recebeu o Prémio Vergílio Ferreira, em reconhecimento ao conjunto de sua obra literária. Atualmente, suas obras são parte das leituras obrigatórias de importantes vestibulares brasileiros, como a Fuvest (Universidade de São Paulo – USP) e a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), consolidando sua relevância acadêmica e cultural.
Publicado em 2019, “A Visão das Plantas” é uma obra marcante de Djaimilia Pereira de Almeida que integra a lista de leituras obrigatórias da Fuvest 2026 e da UFRGS. O livro foi inspirado em um personagem de “Os pescadores”, escrita pelo português Raul Brandão em 1923. A autora, uma voz negra proeminente na literatura, reconstrói a complexa história da colonização e da escravidão através do olhar de um de seus agentes: o colonizador. Ao fazer isso, a obra propõe uma reflexão profunda sobre as marcas deixadas por esse período histórico, a memória individual e coletiva, e a forma como a sociedade lida com o passado violento e as injustiças sociais, sem romantizá-lo ou buscar redenção fácil para seus personagens.
| Tempo | A história se passa em Portugal, durante o século XIX. |
| Espaço | Principalmente na casa abandonada de Celestino e seu jardim em Portugal, com passagens pela cidade, uma festa junina e a praia. |
| Narrador | A obra utiliza um narrador observador, quase onisciente, que narra a maior parte da história em terceira pessoa. Há também breves inserções em primeira pessoa, por meio de fluxos de consciência de Celestino, revelando seus pensamentos e emoções. |
| Linguagem | A linguagem é poética e singela, o que contrasta intencionalmente com o passado sombrio e violento do protagonista. Há um uso central da personificação das plantas, o que enriquece o estilo. |
O estilo de Djaimilia Pereira de Almeida em “A Visão das Plantas” é marcado por uma sensibilidade poética que, paradoxalmente, realça a brutalidade do tema central. A linguagem poética singela contrasta fortemente com o passado obscuro de Celestino, criando uma tensão literária que prende o leitor. Um dos recursos literários mais notáveis e centrais na análise da obra é a personificação das plantas. O jardim de Celestino não é apenas um cenário; as plantas ganham vida, observam, e parecem ter uma “visão” própria, metafórica, sobre os eventos e o caráter do protagonista. Essa personificação é fundamental para a dimensão filosófica do livro, que explora a oposição entre a vida que brota e a morte e a crueldade que moldaram Celestino. O contraste entre o presente calmo e o passado violento é constantemente explorado, seja através da descrição do ambiente, das interações do personagem ou de seus fluxos de consciência, que expõem uma falta perturbadora de remorso.
“A Visão das Plantas” está profundamente enraizada no contexto histórico da colonização e da escravidão, embora aborde o tema de uma perspectiva incomum: a do colonizador. A obra de Djaimilia Pereira de Almeida serve como uma poderosa crítica social, ao expor a violência inerente a esses processos históricos e, principalmente, a impunidade e a ausência de cobrança moral para aqueles que cometeram atrocidades. O livro não busca moralizar, condenar ou defender as ações de Celestino; em vez disso, ele as expõe cruamente, revelando um silenciamento histórico que perdura na sociedade em relação aos genocídios e abusos do passado.
A figura de Celestino, o capitão de navio negreiro que se torna jardineiro, é uma metáfora complexa. Ele representa não apenas o agente da colonização, mas também a ideia de que o “plantar” e o “cultivar” da colonização (exploração de terras, imposição de culturas) podem ser vistos por ele sem qualquer peso na consciência. A obra permite uma interdisciplinaridade rica com a História, a Filosofia e a Sociologia, convidando à reflexão ética sobre a subjetividade do colonizador e o legado da violência colonial. A professora Carla Botteon Catai enfatiza que a obra aborda a violência colonial e a escravização a partir de uma reflexão ética baseada na subjetividade do capitão, desvelando o silenciamento cultivado pela sociedade em relação a esses eventos.
Devido à sua profundidade temática e à sua inclusão em listas de leituras obrigatórias como a da Fuvest 2026, “A Visão das Plantas” é uma obra que oferece vasto material para questões em vestibulares. As perguntas geralmente exploram a interdisciplinaridade com outras áreas do conhecimento, como: História (contexto da colonização, escravidão, legado), Filosofia (reflexão ética sobre o mal, ausência de remorso, humanidade), e Sociologia (estruturas de poder, injustiça social, silenciamento histórico). Os examinadores podem focar na análise do protagonista Celestino e sua falta de arrependimento, na metáfora das plantas e do jardim em contraposição ao seu passado, na crítica à violência colonial, ou na discussão sobre como a narrativa, contada majoritariamente pela perspectiva do colonizador, expõe a complexidade do tema sem romantizações. A compreensão da estrutura narrativa, incluindo o uso do narrador observador e dos fluxos de consciência, também é um ponto recorrente.
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