“Canção para ninar menino grande” é o quinto romance de Conceição Evaristo, publicado inicialmente em 2018 e reeditado em 2022. A obra, agora parte da lista de leituras obrigatórias da Fuvest 2026, é uma profunda exploração da masculinidade tóxica e do racismo estrutural que permeiam a sociedade brasileira.
A narrativa é construída como uma polifonia, um coral de diversas vozes femininas que contam a história de Fio Jasmim, um homem negro de beleza exuberante e caráter galanteador. Fio Jasmim passa a vida seduzindo mulheres, muitas delas enquanto é casado com Pérola Maria. O enredo, que não segue uma ordem cronológica linear, inicia-se quando Fio Jasmim tem quarenta e quatro anos e está casado com Pérola desde os vinte, uma união marcada por suas incessantes infidelidades.
O grande conflito do protagonista reside em um trauma de infância: o desejo frustrado de ser o “Príncipe Negro” em uma peça escolar, papel que lhe foi negado em favor de um menino branco e loiro. Essa mágoa infantil, aliada ao machismo estrutural, molda sua vida adulta, levando-o a buscar validação incessante através da sedução e da performance viril, tratando as mulheres em sua vida como meros objetos de seus desejos carnais e emocionais. Ao longo do livro, a narradora anônima, que se apresenta como uma “amiga confidente”, tece as histórias de Fio Jasmim a partir dos relatos dessas mulheres.
Contrariando a aparente centralidade masculina, a obra é, na verdade, um potente retrato do universo feminino. As mulheres na vida de Fio Jasmim não são apenas vítimas ou coadjuvantes; elas são sujeitos ativos, com seus próprios sonhos, angústias e projetos, cada uma representando um universo simbólico que enriquece a reflexão sobre identidade, gênero, classe e raça. A reedição de 2022, inclusive, visou dar mais voz a essas personagens, especialmente as mulheres negras, que na primeira versão eram apenas citadas.
A masculinidade tóxica e o racismo estrutural são o pano de fundo para a profunda reflexão sobre as vivências de homens e mulheres negras em uma sociedade patriarcal.
Maria da Conceição Evaristo de Brito, nascida em Belo Horizonte (MG) em 1946, é uma das mais proeminentes e influentes escritoras da literatura contemporânea brasileira, especialmente no movimento pós-modernista. Vinda de uma família pobre e criada na favela de Pindura Saia, suas primeiras inspirações literárias foram as histórias e relatos sobre a escravização contados por sua mãe e tias, mulheres cozinheiras, faxineiras e empregadas domésticas, que moldaram sua “escrevivência”.
Na década de 1970, Conceição mudou-se para o Rio de Janeiro, onde se graduou em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Atuou como professora na rede pública de ensino e aprofundou seus estudos acadêmicos, obtendo o título de Mestre em Literatura Brasileira pela PUC do Rio de Janeiro em 1996, com a dissertação “Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade”. Em 2011, defendeu seu doutorado em Literatura Comparada na Universidade Federal Fluminense (UFF) com a tese “Poemas Malungos – Cânticos Irmãos”.
Sua estreia na literatura ocorreu em 1990, com a publicação de contos e poemas na série “Cadernos Negros”. Desde então, sua obra tem conquistado um público crescente, sendo traduzida para diversos idiomas e publicada em países como Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos. Reconhecida por sua contribuição à literatura, Conceição Evaristo recebeu o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais em 2018 pelo conjunto de sua obra e foi homenageada como Personalidade Literária do Ano pelo Prêmio Jabuti em 2019. Seus textos são marcados por posicionar a mulher negra como figura central, abordando temas como memória, ancestralidade, racismo, desigualdade, discriminação de gênero e de classe, e os saberes afro-brasileiros.
“Canção para ninar menino grande” é um romance breve, mas denso, de 134 páginas, que se insere no cânone contemporâneo da literatura brasileira, trazendo à tona discussões cruciais sobre a sociedade. A obra é um convite à reflexão sobre a construção da masculinidade negra, os efeitos corrosivos do racismo e as complexas dinâmicas da solidão afetiva. Conceição Evaristo, com sua sensibilidade e maestria, subverte as expectativas ao apresentar um protagonista masculino, Fio Jasmim, cuja história é contada a partir das perspectivas das inúmeras mulheres com quem ele se relaciona.
Através da inovadora “escrevivência” – conceito cunhado pela autora que entrelaça vivência e escrita – a obra articula a história de um homem negro e de um grupo de oito mulheres, algumas negras, outras não, todas inseridas em uma sociedade estruturalmente racista que as desumaniza e lhes subtrai as subjetividades. O livro demonstra a busca incessante de Fio por validação e reconhecimento, enraizada em um trauma de infância que o impede de se ver como o “príncipe” que almejava ser. Essa busca o leva a uma compulsão pela sedução, onde as mulheres se tornam ferramentas para saciar seu ego, mas paradoxalmente, as narrativas delas o resgatam e o humanizam.
A reedição da obra em 2022 é um testemunho da evolução do projeto literário da autora, que buscou aprimorar a representatividade e a profundidade das vozes femininas, garantindo que as experiências dessas mulheres fossem plenamente contadas. A alteração da capa, que na segunda edição apresenta um homem negro sem rosto e o reflexo de sua nuca, simboliza a objetificação e a falta de subjetividade imposta aos homens negros, bem como a dificuldade de estabelecer laços afetosos genuínos em uma estrutura machista.
| Tempo | Não linear, com as histórias se desenvolvendo no passado, aproximadamente nos anos 1960, período em que o transporte por maria-fumaça estava em declínio. |
| Espaço | O livro não se limita a um único espaço físico, acompanhando as viagens de Fio Jasmim como maquinista, o que permite à narrativa explorar diversos contextos sociais e geográficos do Brasil. |
| Narrador | A narradora é uma voz anônima em primeira pessoa do singular, uma “contadora de histórias” que reúne os relatos de um círculo de mulheres (“amigas confidentes”) que se relacionaram com Fio Jasmim. Ela se sobrepõe ao protagonista ao ter a capacidade de ouvir e interpretar os detalhes íntimos das personagens. |
| Linguagem | A obra se caracteriza por uma linguagem poética e sensível, que habilmente associa o lirismo à reflexão social. O estilo de Conceição Evaristo é único e inovador, marcando a literatura contemporânea com a força da “escrevivência”. |
O estilo de Conceição Evaristo em “Canção para ninar menino grande” é uma manifestação exemplar de sua “escrevivência“, conceito que amalgama a vivência e a escrita para dar voz a experiências históricas e sociais, especialmente as de mulheres e pessoas negras. A autora emprega uma linguagem poética e sensível, que, apesar de tratar de temas densos, mantém um lirismo envolvente.
Um dos recursos mais marcantes é a polifonia narrativa. Embora Fio Jasmim seja o protagonista, sua história é contada a partir de múltiplas perspectivas femininas. Essas vozes não são meros ecos; elas são subjetividades ativas que desconstroem e complexificam a figura de Fio, permitindo ao leitor uma visão caleidoscópica da masculinidade negra e de seus reflexos nas relações afetivas. A própria narradora, uma figura anônima que compila esses testemunhos, é um recurso que reforça a ideia de uma rede de sororidade e memória coletiva feminina.
A simbologia dos nomes dos personagens também é um recurso literário poderoso. Nomes como Pérola Maria, Juventina Maria Perpétua e Eleonora Distinta de Sá carregam significados que enriquecem a compreensão de suas personalidades e seus papéis na trama. O próprio nome Fio Jasmim é multifacetado, evocando a efemeridade (“fio-corte”, “jasmim-flor”) e a imaturidade (“filho”), além da sensualidade e do erotismo.
A narrativa não linear contribui para a complexidade da obra, espelhando a natureza fragmentada da memória e das experiências humanas. A transição da terceira para a primeira pessoa no final, onde a narradora assume a autoria da “canção”, borra as fronteiras entre ficção e realidade, validando a autenticidade das histórias contadas e o poder da criação artística como forma de compreensão e ressignificação da vida.
“Canção para ninar menino grande” está profundamente enraizada em um contexto de racismo estrutural e uma sociedade patriarcal, embora o tempo exato dos acontecimentos seja deliberadamente ambíguo, situado nos anos 1960, época de declínio do transporte ferroviário a vapor. A obra de Conceição Evaristo não apenas reflete esses temas, mas os critica ferrenhamente, desvendando as camadas de opressão e suas consequências.
A construção da masculinidade tóxica em Fio Jasmim é um ponto central. Ele é moldado por uma sociedade que o impede de expressar vulnerabilidades, ensinando-o a valorizar a virilidade acima de tudo. Seu trauma de infância, ao não poder ser o “Príncipe Negro”, traduz-se em uma busca compulsiva por validação através da sedução, transformando mulheres em objetos e reproduzindo um ciclo de dominação masculina que, paradoxalmente, o aprisiona em uma profunda solidão afetiva.
O racismo é abordado de maneira sutil e incisiva. O episódio do “príncipe” na infância de Fio Jasmim e o sobrenome “Paranhos” de Neide, que remete à escravatura, são exemplos claros de como a questão racial permeia as vidas dos personagens, influenciando suas identidades e oportunidades. A obra expõe como a desumanização de pessoas afrodescendentes as priva de subjetividades e as condena a determinados papéis sociais.
A centralização do homem na vida da mulher é outra crítica contundente. A história de Angelina, que comete suicídio após ser abandonada por Fio, ilustra a devastação que a ausência ou o desrespeito masculino pode causar na vida feminina. No entanto, Conceição Evaristo também apresenta a força da sororidade entre as mulheres, que se unem para compartilhar suas dores e resistir à solidão, formando uma rede de apoio que subverte a lógica patriarcal.
A obra também toca em temas como a perda da juventude devido a responsabilidades impostas, o suicídio e a rigidez do capitalismo, que prioriza o “erro maquinário” em detrimento do “erro humano”. No desfecho, a autora demonstra como o machismo também afeta os homens, ilustrado pela capacidade de Fio Jasmim de se abrir e chorar apenas com Eleonora, a única mulher que ele não objetificou.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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