Sala de estudos

Regência verbal: verbos de dupla regência e casos especiais: o que cai no ENEM e nos vestibulares

Regência verbal aprofundada: verbos de dupla regência com e sem mudança de sentido, casos especiais como esquecer, chegar, preferir e informar, e a ligação direta com a crase — o que cai no ENEM e nos vestibulares.

Capa: ponte colorida em estilo Pixar ligando personagens, simbolizando a regência verbal
Capa: ponte colorida em estilo Pixar ligando personagens, simbolizando a regência verbal
Direto ao assunto
  1. Resumo rápido
  2. Revisão rápida: transitivo, intransitivo e a preposição
  3. Dupla regência COM mudança de sentido
  4. Dupla regência SEM mudança de sentido
  5. Casos especiais que viram questão
  6. Tabela-resumo para revisar na véspera
  7. SAQ — Perguntas e respostas rápidas
  8. Questões comentadas (originais, estilo ENEM)
  9. Dica do professor
  10. Atenção / cuidado
  11. Conexão com outras áreas
  12. Mapa mental

Resumo rápido

Regência verbal é a relação entre o verbo e seus complementos: alguns verbos pedem preposição, outros não, e alguns aceitam as duas construções — mudando ou não o sentido. Os verbos de dupla regência são o ponto mais cobrado do tema, porque a prova testa se o estudante sabe quando a preposição muda o sentido e quando ela é apenas uma variação aceita. Esta matéria aprofundada vai além da versão geral sobre regência verbal: aqui o foco são os verbos de dupla regência e os casos especiais que viram pegadinha no ENEM e nos vestibulares.

Incidência: 🔥 Quente. Regência aparece em questões de gramática, de crase (toda crase depende de uma preposição “a”) e de interpretação, porque trocar a regência pode trocar o sentido da frase.

Revisão rápida: transitivo, intransitivo e a preposição

Verbo transitivo direto (VTD) liga-se ao complemento sem preposição: “Ele leu o livro”. Verbo transitivo indireto (VTI) exige preposição: “Ele gostou do livro”. Verbo transitivo direto e indireto (VTDI) pede os dois: “Ele deu o livro ao amigo”. Verbo intransitivo (VI) não pede complemento: “Ele dormiu”. A regência é, portanto, uma exigência do verbo — e cada verbo tem a sua. Para revisar a estrutura da oração, vale a matéria sobre termos ligados ao verbo e a de classes gramaticais.

O problema começa quando um mesmo verbo aceita duas regências. Há dois grupos bem diferentes, e confundi-los é o erro mais comum: (1) verbos cuja dupla regência muda o sentido; (2) verbos cuja dupla regência não muda o sentido, sendo as duas formas aceitas pela norma culta.

Dupla regência COM mudança de sentido

Assistir

“Assistir o jogo” (VTD) significa presenciar, ver: “Assistimos o jogo na TV”. “Assistir ao jogo” (VTI) também é usado com esse sentido na norma atual, mas o sentido clássico e cobrado de “assistir a” é prestar assistência: “O médico assistiu ao paciente” (ajudou, atendeu). E ainda: “Assiste-lhe o direito de recorrer” (cabe, pertence). Em prova, leia o contexto: se é ver, o direto é o mais seguro; se é ajudar, a preposição é obrigatória.

Aspirar

“Aspirar o ar” (VTD) é sorver, inalar. “Aspirar ao cargo” (VTI) é desejar, pretender: “Ele aspira ao cargo de diretor”. A preposição muda tudo: sem ela, o verbo fala de respiração; com ela, fala de ambição.

Visar

“Visar o documento” (VTD) é pôr o visto, rubricar. “Visar a um objetivo” (VTI) é ter em mira, pretender: “O projeto visa à redução do desperdício”. Note a crase: “visar a + a redução” gera “à”. É por isso que regência e crase andam sempre juntas nas provas.

Proceder

“Proceder o inquérito” (VTD, linguagem jurídica) é realizar, dar andamento. “Proceder de boa família” é originar-se. “Proceder a uma revisão” é realizar. “Proceder” com sentido de “ter fundamento” é intransitivo: “A reclamação não procede”.

Querer, custar, implicar e outros

VerboSem preposiçãoCom preposição
QuererDesejar: “Quero um café”Estimar, querer bem: “Quero a meus pais” (VTI)
CustarTer preço: “O livro custou caro” (VI, com sujeito “o livro”)Ser difícil: “Custou a ele aceitar” (o sujeito é a oração, “ele” é objeto indireto)
ImplicarEnvolver, acarretar: “Isso implica riscos” (VTD)Ter implicância: “Ele implicou com o colega” (VTI, informal, mas cobrado)
ChamarConvocar: “Chamaram o médico”Dar nome: “Chamaram-lhe de traidor” / “Chamaram-no traidor”
AtenderDar atenção: “Atendeu o cliente”Obedecer: “Atendeu ao pedido” (VTI, sentido de deferir)

Dupla regência SEM mudança de sentido

Alguns verbos aceitam as duas construções com o mesmo sentido, e a prova cobra o reconhecimento de que nenhuma das duas está errada. Os mais importantes:

  • Obedecer e desobedecer: na norma culta, são VTI (“Obedeça ao professor”), mas o uso como VTD (“Obedeça o professor”) é tão frequente que muitas provas o aceitam em textos informais — na dúvida, em questão de norma culta, prefira a preposição.
  • Assistir (ver): “Assistir o filme” e “Assistir ao filme” são ambas aceitas hoje para o sentido de presenciar.
  • Pagar e perdoar: “Paguei o funcionário” e “Paguei ao funcionário” (VTDI com objeto direto “o salário” implícito ou explícito). “Perdoou o amigo” e “Perdoou ao amigo” seguem a mesma lógica.
  • Namorar: a norma culta pede VTD (“Namora a colega”), mas “namorar com” é uso corrente na fala; em prova de norma culta, o direto é o esperado.
  • Preferir: aqui NÃO há dupla regência livre: o correto é “Prefiro café a chá” (VTI com “a”, nunca “do que”). “Prefiro mais” é pleonasmo, porque “preferir” já indica preferência.

Casos especiais que viram questão

Esquecer e lembrar

Com pronome, são VTI: “Esqueci-me do compromisso”, “Lembrei-me da prova”. Sem pronome, são VTD: “Esqueci o compromisso”, “Lembrei a prova”. A pegadinha: “Esqueci-me o compromisso” e “Lembrei-me a prova” estão errados — com pronome, a preposição é obrigatória. E o “se” aqui não é reflexivo no sentido pleno; é parte da construção pronominal do verbo.

Chegar, ir e a preposição “em”

“Cheguei em casa” é uso corrente na fala, mas a norma culta exige “Cheguei a casa” — aliás, “Cheguei em casa” com “em” é um dos erros mais marcados em prova. O mesmo vale para “ir”: “Vou ao mercado”, e não “Vou no mercado”, na norma culta. Em textos informais e diálogos, a prova pode aceitar “em”, mas em questão de correção gramatical, “a” é a resposta.

Morar, residir, situar-se

“Moro em São Paulo”, “Resido em Recife”: a preposição é “em”, nunca “a”. E “assistir em” não existe: assistir pede “a” ou nada, nunca “em”.

Verbos com “lhe” e a armadilha do objeto

O pronome “lhe” só substitui objeto indireto (com preposição “a” ou “para”). “Eu lhe vi ontem” está errado — ver é VTD, então o correto é “Eu o vi ontem”. Já “Eu lhe entreguei o livro” está certo, porque entregar é VTDI (“entregar algo a alguém”). A prova adora testar o “lhe”: se o verbo não pede preposição, não cabe “lhe”. Esse ponto se liga ao estudo dos pronomes em a palavra “se” e dos complementos verbais.

Informar, avisar, comunicar

São VTDI com uma regência curiosa: “Informei o aluno da mudança” ou “Informei ao aluno a mudança” — as duas estão certas, desde que um complemento seja direto e o outro indireto. O erro é usar duas preposições (“Informei ao aluno da mudança”) ou nenhum complemento indireto com “de” duplicado. Guarde: um direto, um indireto, sempre.

Simpatizar e antipatizar

Ambos pedem “com”: “Simpatizo com ela”, “Antipatizo com ele”. Nunca “simpatizo ela” na norma culta. O mesmo vale para “concordar com”, “discordar de” e “depender de”.

Tabela-resumo para revisar na véspera

VerboRegência cobradaExemplo certo
Assistir (ver / ajudar)VTD / VTI com “a”Assistimos o jogo; O médico assistiu ao paciente
Aspirar (inalar / desejar)VTD / VTI com “a”Aspirou o perfume; Aspira ao cargo
Visar (rubricar / pretender)VTD / VTI com “a”Visou o cheque; Visa à aprovação
Esquecer / lembrarSem pronome: VTD; com pronome: VTI com “de”Esqueci o nome; Esqueci-me do nome
Chegar / irVTI com “a” (norma culta)Cheguei a casa; Vou ao mercado
PreferirVTI com “a” (nunca “do que”, nunca “mais”)Prefiro silêncio a barulho
ObedecerVTI com “a” (norma culta)Obedeça ao regulamento
InformarVTDI: um direto, um indiretoInformei ao aluno a mudança
Custar (difícil)VI com objeto indiretoCustou-lhe aceitar a derrota
Implicar (acarretar)VTDA decisão implica custos

SAQ — Perguntas e respostas rápidas

1. O que é dupla regência? É quando um verbo aceita duas construções — com ou sem preposição —, podendo ou não mudar de sentido conforme a construção.

2. “Aspirar o ar” e “aspirar ao cargo” têm o mesmo sentido? Não: sem preposição é inalar; com “a” é desejar, pretender.

3. Qual é a regência certa de “esquecer” com pronome? Com pronome, é VTI com “de”: “Esqueci-me do compromisso”. Sem pronome, é VTD: “Esqueci o compromisso”.

4. “Cheguei em casa” está certo na norma culta? Não: o certo é “Cheguei a casa”. “Em” é uso da fala informal.

5. Por que “Prefiro café do que chá” está errado? Porque “preferir” já é VTI com “a”: “Prefiro café a chá”. “Do que” e “mais” são pleonasmos.

6. Quando o “lhe” pode ser usado? Só como objeto indireto, com verbos que pedem preposição “a” ou “para”: “Entreguei-lhe o livro”. Nunca com verbo transitivo direto.

7. “Informei ao aluno da mudança” está certo? Não: informar pede um complemento direto e um indireto. O certo é “Informei ao aluno a mudança” ou “Informei o aluno da mudança”.

Questões comentadas (originais, estilo ENEM)

Questão 1. “O jovem aspira ao cargo de monitor, mas, antes de aspirar o ar puro da manhã, revisa o edital.” A diferença de regência de “aspirar” indica: a) erro nas duas ocorrências; b) o mesmo sentido nas duas; c) inalar na primeira e desejar na segunda; d) desejar na primeira e inalar na segunda; e) apenas variação estilística, sem mudança de sentido.
Resposta: D. Comentário: “aspirar a” (VTI) é pretender; “aspirar” sem preposição (VTD) é sorver, inalar. A preposição muda o sentido.

Questão 2. Assinale a frase correta quanto à regência, na norma culta: a) Cheguei em casa tarde; b) Prefiro mais silêncio do que barulho; c) Esqueci-me do compromisso; d) Eu lhe vi ontem na escola; e) Informei ao aluno da mudança.
Resposta: C. Comentário: com pronome, esquecer é VTI com “de”. As demais: chegar pede “a”; preferir pede “a” sem “mais” nem “do que”; ver é VTD (o vi); informar pede um direto e um indireto.

Questão 3. “Custou ao estudante aceitar o resultado.” Nesse uso, “custar” é: a) transitivo direto, com sujeito “o estudante”; b) intransitivo, com “ao estudante” como objeto indireto e sujeito oracional; c) transitivo indireto com “a” obrigatório; d) verbo de ligação; e) defectivo.
Resposta: B. Comentário: no sentido de “ser difícil”, custar é intransitivo; o sujeito é a oração “aceitar o resultado”, e “ao estudante” é objeto indireto.

Questão 4. “O projeto visa à redução do desperdício.” A crase em “à” se justifica porque: a) “visar” é intransitivo; b) “visar” pede “a” e “redução” admite artigo “a”, fundindo-se as duas vogais; c) todo verbo com “a” exige crase; d) “redução” é palavra feminina, o que basta; e) há preposição “de” oculta.
Resposta: B. Comentário: visar (pretender) é VTI com “a”; somada ao artigo definido feminino de “a redução”, forma-se a crase.

Questão 5. “Obedeça ao regulamento e assista à palestra com atenção.” Sobre a regência, é correto afirmar que: a) os dois verbos são transitivos diretos; b) “obedecer” pede “a” na norma culta e “assistir” (ajudar/presenciar com atenção) admite “a”; c) “assistir” nunca admite preposição; d) “obedecer” é intransitivo; e) as duas frases estão erradas.
Resposta: B. Comentário: obedecer é VTI com “a” na norma culta; assistir admite “a” no sentido de presenciar/prestar atenção, gerando crase antes de “a palestra”.

Dica do professor

Para verbos de dupla regência, pergunte sempre: “a preposição mudou o sentido?”. Se mudou, decore o par (aspirar o ar / aspirar ao cargo; visar o cheque / visar à meta). Se não mudou, saiba que as duas formas existem e escolha a da norma culta em questão de correção. E lembre: toda questão de crase é, no fundo, uma questão de regência — descubra a preposição primeiro.

Atenção / cuidado

Não use “lhe” com verbo transitivo direto (“lhe vi”, “lhe encontrei”) — o pronome certo é “o/a”. Não escreva “prefiro mais” nem “prefiro do que”. Não confunda “assistir em” (não existe) com “assistir a”. E cuidado com “chegar em” e “ir no”: na norma culta das provas, o certo é “chegar a” e “ir ao”.

Conexão com outras áreas

Em Redação, a regência correta é parte da competência de norma culta e evita perdas bobas; em Literatura, autores clássicos usam regências hoje raras (“aspirar a”, “assistir a”), e reconhecê-las ajuda a entender textos de época, como os estudados em versificação e estilística. Em História e nas ciências humanas, documentos oficiais (“o projeto visa à…”, “procedeu-se à apuração”) usam regências formais que a prova pode cobrar em interpretação. E na análise do discurso, a escolha da regência revela o grau de formalidade do texto — tema da matéria sobre análise do discurso.

Interna 1: estudantes ajudando colegas e pessoas, simbolizando verbos que pedem complemento
Interna 1: estudantes ajudando colegas e pessoas, simbolizando verbos que pedem complemento
Interna 2: estudante detetive examinando peças de frase com lupa, simbolizando a análise da regência verbal
Interna 2: estudante detetive examinando peças de frase com lupa, simbolizando a análise da regência verbal

Mapa mental

  • Regência: VTD (sem preposição) — VTI (com preposição) — VTDI (os dois) — VI (sem complemento).
  • Dupla COM mudança de sentido: assistir (ver/ajudar) — aspirar (inalar/desejar) — visar (rubricar/pretender) — proceder (realizar/originar-se) — querer (desejar/estimar) — custar (preço/dificuldade) — implicar (acarretar/implicância).
  • Dupla SEM mudança: assistir (ver) — obedecer/desobedecer — pagar/perdoar — informar (um direto, um indireto).
  • Casos especiais: esquecer/lembrar (com pronome + “de”; sem pronome, direto) — chegar/ir + “a” — preferir + “a” (nunca “do que”/”mais”) — “lhe” só para objeto indireto — simpatizar/antipatizar + “com”.
  • Ligação com crase: verbo que pede “a” + palavra feminina com artigo = crase (“visar à meta”).