
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- Por que o SE cai tanto nas provas
- 1. SE como pronome reflexivo
- 2. SE como pronome recíproco
- 3. SE como partícula apassivadora
- 4. SE como índice de indeterminação do sujeito
- 5. SE como conjunção: condicional e causal
- 6. SE como conjunção integrante
- 7. SE como partícula de realce, expletiva e outras funções
- 8. O confronto que mais cai: partícula apassivadora x índice de indeterminação do sujeito
- 9. Tabelas comparativas das funções do SE
- 10. Testes práticos: o passo a passo para a prova
- 11. Armadilhas clássicas do ENEM
- Mapa mental
- SAQ — perguntas e respostas rápidas
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção/cuidado
- Conexão com outras áreas
- Incidência
Resumo rápido
A palavra SE é uma das mais traiçoeiras da língua portuguesa — e justamente por isso é uma das mais cobradas no ENEM e nos vestibulares. Escrita sempre do mesmo jeito, ela pode ser pronome reflexivo, pronome recíproco, partícula apassivadora, índice de indeterminação do sujeito, conjunção condicional, conjunção causal, partícula de realce ou expletiva, pronome integrante e até substantivo. A mesma palavrinha, em frases parecidas, muda completamente de função — e a prova sabe disso.
Em uma frase: não decore listas — faça os testes. Se o SE pode ser trocado por “a si mesmo”, é reflexivo. Se a frase pode virar voz passiva analítica (“é vendido” no lugar de “vende-se”), é partícula apassivadora. Se o verbo fica na terceira pessoa do singular e não há como identificar quem pratica a ação, é índice de indeterminação do sujeito. Se o SE pode ser trocado por “caso” ou “contanto que”, é conjunção condicional.
Incidência: Morno — tema presente no ENEM e nos vestibulares, principalmente em questões de morfologia, sintaxe, voz verbal, concordância e interpretação de texto, em que é preciso perceber o que o SE está fazendo na frase: refletindo a ação, apassivando o verbo, indeterminando o sujeito ou ligando orações.
Por que o SE cai tanto nas provas
As bancas adoram o SE porque ele é um teste perfeito de leitura atenta. Um candidato que só decorou “SE é pronome” erra questões em que o SE é partícula apassivadora, e vice-versa. Além disso, o SE aparece em textos de todos os gêneros — notícias, anúncios, crônicas, poemas, redações —, então ele serve para avaliar morfologia, sintaxe e interpretação ao mesmo tempo.
Outra razão: o SE está no centro de três assuntos que as provas cobram sem parar — os pronomes, a concordância verbal e a sintaxe do período composto, com as orações subordinadas adverbiais e as orações subordinadas substantivas. Dominar as funções do SE é, na prática, dominar boa parte da sintaxe que o ENEM cobra.
Antes de entrar em cada função, guarde uma ideia: o SE quase nunca funciona sozinho. Ele sempre está refletindo uma ação, apassivando um verbo, escondendo o sujeito ou ligando duas orações. Pergunte-se: quem pratica a ação? A ação volta para o próprio sujeito? Dá para passar a frase para a voz passiva? O SE pode ser trocado por “caso”? Essas respostas resolvem a maioria das questões.
1. SE como pronome reflexivo
O SE é pronome reflexivo quando a ação do verbo volta para o próprio sujeito, isto é, quando o sujeito pratica e recebe a ação ao mesmo tempo. É o SE do “a si mesmo”.
- Marcos se machucou no treino. — Marcos machucou a si mesmo.
- A aluna se preparou para a prova. — A aluna preparou a si mesma.
- Ele se olhou no espelho antes de sair. — Ele olhou a si mesmo.
- Os estudantes se vestiram depressa. — Cada um vestiu a si mesmo.
Teste prático: troque o SE por “a si mesmo” (ou “a si mesma”, “a si próprios”). Se a frase continuar fazendo sentido, é reflexivo: “Marcos machucou a si mesmo”, “A aluna preparou a si mesma”. O pronome reflexivo exerce função sintática — geralmente objeto direto ou objeto indireto — e, por isso, aparece na análise sintática como termo da oração. Para revisar essas funções, vale a matéria sobre sujeito e predicado.
Há também o reflexivo com valor de reforço, em verbos que já indicam ação voltada para o próprio sujeito, como “se arrepender”, “se queixar”, “se lembrar”, “se esquecer”, “se alegrar”. Nesses casos, o SE faz parte do verbo, é chamado de pronome reflexivo inerente ou parte integrante do verbo, e não pode ser retirado sem estragar o sentido: ninguém diz “arrependo o erro”, e sim “me arrependo do erro”. Na prova, esse SE costuma ser classificado como parte integrante do verbo.
2. SE como pronome recíproco
O SE é pronome recíproco quando a ação é praticada mutuamente: um sujeito age sobre o outro, e o outro age sobre o primeiro, ao mesmo tempo. É o SE do “um ao outro”.
- Os dois irmãos se abraçaram na formatura. — Um abraçou o outro, e o outro abraçou o primeiro.
- As equipes se cumprimentaram antes do jogo. — Cada equipe cumprimentou a outra.
- Os colegas se ajudaram durante a revisão. — Um ajudou o outro.
Teste prático: troque o SE por “um ao outro” (ou “mutuamente”). Se funcionar, é recíproco: “Os dois irmãos abraçaram um ao outro”. Detalhe importante: a reciprocidade exige sujeito no plural ou coletivo, porque é preciso pelo menos dois participantes para a troca. Um sujeito no singular não permite reciprocidade — “Ele se abraçou” só pode ser reflexivo, nunca recíproco.
Como distinguir reflexivo de recíproco na prova? Olhe o sujeito e o sentido. Se cada um age sobre si mesmo, é reflexivo (“Os alunos se vestiram”: cada um vestiu a si mesmo). Se cada um age sobre o outro, é recíproco (“Os alunos se cumprimentaram”: cada um cumprimentou o outro). Quando a frase for ambígua — “Os dois se olharam” pode significar cada um olhando para si mesmo no espelho ou um olhando para o outro —, o contexto decide, e as bancas costumam escolher o sentido mais natural, que é o recíproco.
3. SE como partícula apassivadora
Esta é a função mais cobrada do SE, ao lado da indeterminação do sujeito — e a que mais confunde os candidatos. O SE é partícula apassivadora quando se junta a um verbo transitivo direto (ou transitivo direto e indireto) na terceira pessoa e forma a voz passiva sintética: o sujeito da frase é paciente, isto é, sofre a ação, e o verbo concorda com ele.
- Vende-se apartamento. — Um apartamento é vendido.
- Alugam-se salas comerciais. — Salas comerciais são alugadas.
- Consertam-se celulares. — Celulares são consertados.
- Entregam-se encomendas todos os dias. — Encomendas são entregues.
Teste prático: passe a frase para a voz passiva analítica, com “ser” mais particípio. Se a transformação funcionar e o sentido se mantiver, é partícula apassivadora: “Vende-se apartamento” vira “Apartamento é vendido”; “Alugam-se salas” vira “Salas são alugadas”. Repare que, na passiva sintética, o verbo concorda com o sujeito paciente: apartamento (singular) pede “vende-se”; salas (plural) pedem “alugam-se”. Por isso, a concordância é o grande teste dessa função — e o grande motivo de erro na redação.
A partícula apassivadora não tem função sintática: ela não é sujeito, nem objeto, nem adjunto. Ela é apenas um marcador de voz passiva. É por isso que, na análise sintática, o SE apassivador aparece como “partícula apassivadora”, sem função, enquanto o sujeito paciente é o termo que concorda com o verbo. E atenção: o SE só é apassivador com verbo transitivo direto (ou direto e indireto). Com verbo intransitivo ou transitivo indireto, ele nunca é apassivador — aí entra a próxima função.
4. SE como índice de indeterminação do sujeito
O SE é índice de indeterminação do sujeito quando se junta a um verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação, na terceira pessoa do singular, e o sujeito fica indeterminado, isto é, não dá para saber — ou não interessa dizer — quem pratica a ação.
- Precisa-se de professores. — Verbo transitivo indireto (“precisar de”): não se sabe quem precisa.
- Mora-se bem nesta cidade. — Verbo intransitivo (“morar”): não se sabe quem mora.
- Chegou-se tarde à reunião. — Verbo intransitivo (“chegar”): não se sabe quem chegou.
- Vive-se bem no interior. — Verbo intransitivo (“viver”): sujeito indeterminado.
- Trata-se de um assunto delicado. — Verbo transitivo indireto (“tratar de”).
Teste prático: tente passar para a voz passiva analítica. Se não funcionar, não é partícula apassivadora. “Precisa-se de professores” não vira “Professores são precisados” — a transformação é impossível, porque não há objeto direto para virar sujeito paciente. Além disso, com índice de indeterminação, o verbo fica sempre na terceira pessoa do singular, não importando o que venha depois: “Precisa-se de professores”, “Precisa-se de mais vagas”, “Precisa-se de calma”. O verbo não concorda com “professores”, “vagas” ou “calma”, porque esses termos não são sujeito — são objeto indireto, ou adjunto, e o sujeito está indeterminado.
Esse é um dos erros mais comuns da língua portuguesa, e as provas o cobram com frequência: escrever “Precisam-se de professores” ou “Aluga-se salas” está errado. O primeiro caso exige o singular (“Precisa-se”), porque é indeterminação; o segundo exige o plural (“Alugam-se”), porque é passiva com sujeito paciente no plural. Guardar essa diferença vale pontos em gramática e em redação.
5. SE como conjunção: condicional e causal
Quando o SE liga duas orações, introduzindo uma oração subordinada adverbial, ele é conjunção. As duas funções mais cobradas são a condicional e a causal.
Conjunção condicional. O SE condicional introduz uma condição, uma hipótese da qual depende o fato expresso na oração principal. Equivale a “caso”, “contanto que”, “desde que”.
- Se estudar todos os dias, passará no vestibular. — Caso estude todos os dias, passará.
- Se chover, a aula será adiada. — Caso chova, a aula será adiada.
- Avise-me se precisar de ajuda. — Avise-me caso precise de ajuda.
Conjunção causal. O SE causal introduz a causa de um fato, equivalendo a “porque”, “já que”, “visto que”. Aparece geralmente quando a oração principal expressa uma consequência, um julgamento ou uma surpresa diante do fato.
- Se não estudou, não reclame da nota. — Já que não estudou, não reclame.
- Se ele é tão dedicado, por que não passou? — Já que ele é tão dedicado, por que não passou?
- Se todos concordam, podemos começar. — Já que todos concordam, podemos começar.
Como distinguir condicional de causal? Pergunte o que o SE está expressando: uma hipótese que ainda pode acontecer (condicional) ou um fato já dado, que explica algo (causal)? Em “Se estudar, passará”, o estudo ainda não aconteceu — é hipótese, é condicional. Em “Se não estudou, não reclame”, o fato de não ter estudado já é dado — é causa, é causal. O tempo verbal ajuda: o condicional costuma vir com futuro do subjuntivo (“se estudar”, “se chover”) ou imperfeito do subjuntivo (“se estudasse”), enquanto o causal costuma vir com indicativo (“se não estudou”, “se todos concordam”).
6. SE como conjunção integrante
O SE também pode ser conjunção integrante, quando introduz uma oração subordinada substantiva, geralmente depois de verbos como “saber”, “perguntar”, “duvidar”, “verificar”, “ignorar” ou expressões como “não sei”, “não importa”. Nesse uso, ele equivale a “se é verdade que” ou “se por acaso”, e a oração introduzida funciona como objeto direto ou sujeito.
- Não sei se ele virá à revisão. — “se ele virá” é objeto direto de “sei” (não sei isso).
- Perguntou se a prova seria adiada. — “se a prova seria adiada” é objeto direto de “perguntou”.
- Duvido se todos comparecerão. — Em uso mais formal, “duvido que todos compareçam” é mais comum, mas a estrutura com SE integrante aparece em contextos de dúvida.
- Não importa se chover ou fizer sol. — “se chover ou fizer sol” é sujeito de “não importa”.
Teste prático: substitua a oração introduzida por SE por “isso”. Se funcionar, é conjunção integrante: “Não sei isso”, “Perguntou isso”, “Não importa isso”. E cuidado com a confusão clássica: em “Não sei se ele virá”, o SE não expressa condição (“caso ele venha”), e sim dúvida sobre um fato — é integrante, não condicional. A pergunta que resolve é: o SE está ligando uma condição a uma consequência, ou está introduzindo o conteúdo de uma dúvida, de uma pergunta? Conteúdo de dúvida ou pergunta é integrante.
7. SE como partícula de realce, expletiva e outras funções
Partícula de realce ou expletiva. Às vezes o SE está na frase só para dar ênfase, e pode ser retirado sem mudar o sentido. É o SE expletivo, parecido com o QUE expletivo da matéria sobre a palavra QUE.
- Ele se foi embora sem despedir-se. — “Ele foi embora” diz a mesma coisa; o SE só reforça.
- Os alunos se riram da situação. — “Os alunos riram” mantém o sentido; o SE é expletivo.
- Ela se lembrou do recado. — Aqui o SE já é parte do verbo “lembrar-se”; em outros verbos, como “rir-se” e “ir-se”, o valor de realce é mais claro.
Teste prático: retire o SE. Se o sentido permanecer praticamente o mesmo, é partícula expletiva. Se a frase desmontar ou mudar de sentido, não é expletivo — é reflexivo, apassivador ou índice de indeterminação.
Pronome integrante ou parte do verbo. Em verbos como “arrepender-se”, “queixar-se”, “vangloriar-se”, “atrever-se” e “dignar-se”, o SE faz parte da própria conjugação do verbo e não pode ser retirado: “arrependo-me”, “queixa-se”, “atreve-se”. Na análise, ele é classificado como parte integrante do verbo, sem função sintática própria.
SE como substantivo. Precedido de artigo ou outro determinante, o SE vira substantivo, com sentido de “um certo algo”, “um porém”, “uma condição”. É o SE das frases “Há um se nessa história” e “O se da questão é o tempo de estudo”. Como substantivo, ele pode ir para o plural — “os ses da questão” — e pode receber adjetivo: “um grande se”. É função rara nas provas, mas vale ponto justamente porque pouca gente a estuda.
SE como advérbio de dúvida ou interrogação indireta. Em perguntas indiretas, o SE integrante já visto acima aparece com valor interrogativo: “Quero saber se você vem” — a pergunta embutida é “Você vem?”. E, em construções exclamativas ou dubitativas mais antigas, o SE pode expressar dúvida ou desejo, como em “Se eu passasse no vestibular!” — uso literário, raro nas provas atuais, mas bom de conhecer.
8. O confronto que mais cai: partícula apassivadora x índice de indeterminação do sujeito
Se o SE tem um confronto clássico no ENEM e nos vestibulares, é este. As duas funções usam o SE na terceira pessoa, com verbo transitivo, e a diferença está na transitividade do verbo e na concordância. O passo a passo é o seguinte:
- Identifique a transitividade do verbo. Verbo transitivo direto (ou direto e indireto) admite passiva — pode ser partícula apassivadora. Verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação não admite passiva — é índice de indeterminação do sujeito.
- Tente a passiva analítica. “Vende-se casa” vira “Casa é vendida” — apassivadora. “Precisa-se de ajuda” não vira “Ajuda é precisada” — indeterminação.
- Observe a concordância. Com partícula apassivadora, o verbo concorda com o sujeito paciente: “Vende-se casa”, “Vendem-se casas”. Com índice de indeterminação, o verbo fica sempre no singular: “Precisa-se de ajuda”, “Precisa-se de mais professores”, “Precisa-se de calma”.
- Pergunte quem é o sujeito. Na passiva, há sujeito paciente (“casas”, em “Vendem-se casas”). Na indeterminação, não há sujeito identificável — a oração é sem sujeito, ou de sujeito indeterminado, conforme a gramática adotada.
Exemplo completo. Frase: “Na feira, vendem-se frutas e precisa-se de troco.” Em “vendem-se frutas”, o verbo é transitivo direto (“vender frutas”), a passiva analítica funciona (“Frutas são vendidas”) e o verbo concorda com “frutas” — é partícula apassivadora, com sujeito paciente “frutas”. Em “precisa-se de troco”, o verbo é transitivo indireto (“precisar de”), a passiva não funciona e o verbo fica no singular — é índice de indeterminação do sujeito. Duas funções, uma frase, exatamente o tipo de questão que o ENEM adora.
9. Tabelas comparativas das funções do SE
Tabela 1 — As funções mais cobradas
| Função | Como reconhecer | Teste | Exemplo |
|---|---|---|---|
| Pronome reflexivo | A ação volta para o próprio sujeito | Trocar por “a si mesmo” | Ele se feriu. |
| Pronome recíproco | Ação mútua, sujeito no plural | Trocar por “um ao outro” | Eles se abraçaram. |
| Partícula apassivadora | Verbo transitivo direto; voz passiva sintética | Passar para a passiva analítica; verbo concorda com o sujeito paciente | Vendem-se casas. |
| Índice de indeterminação | Verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação; sujeito desconhecido | Passiva impossível; verbo sempre no singular | Precisa-se de ajuda. |
| Conjunção condicional | Introduz hipótese, condição | Trocar por “caso” | Se estudar, passará. |
| Conjunção integrante | Introduz o conteúdo de uma dúvida ou pergunta | Trocar a oração por “isso” | Não sei se vem. |
Tabela 2 — As funções menos frequentes
| Função | Como reconhecer | Exemplo |
|---|---|---|
| Conjunção causal | Introduz causa já dada; equivale a “já que” | Se não estudou, não reclame. |
| Partícula expletiva | Só dá ênfase; pode ser retirada | Ele se foi embora. |
| Parte integrante do verbo | Verbo pronominal; SE inseparável | Ele se arrependeu. |
| Substantivo | Vem com artigo; pode ir para o plural | Há um se na história. |
Tabela 3 — Partícula apassivadora x índice de indeterminação: o confronto decisivo
| Partícula apassivadora | Índice de indeterminação | |
|---|---|---|
| Tipo de verbo | Transitivo direto (ou direto e indireto) | Intransitivo, transitivo indireto ou de ligação |
| Passiva analítica | Funciona (“é vendido”) | Não funciona |
| Concordância | Verbo concorda com o sujeito paciente | Verbo sempre na 3ª pessoa do singular |
| Sujeito | Paciente (“casas”, em “Vendem-se casas”) | Indeterminado (não identificável) |
| Função do SE | Sem função sintática (partícula) | Sem função sintática (índice) |
| Exemplo | Alugam-se salas. | Precisa-se de salas. |
10. Testes práticos: o passo a passo para a prova
Quando encontrar um SE na questão, aplique os testes nesta ordem:
- O SE liga duas orações? Se ele introduz uma oração subordinada, é conjunção: troque por “caso” (condicional), por “já que” (causal) ou a oração por “isso” (integrante, conteúdo de dúvida ou pergunta).
- Dá para trocar por “a si mesmo”? Se sim, é pronome reflexivo. Dá para trocar por “um ao outro”? Se sim, com sujeito no plural, é pronome recíproco.
- O verbo é transitivo direto? Tente a passiva analítica. Se funcionar e o verbo concordar com o termo seguinte, é partícula apassivadora.
- O verbo é intransitivo, transitivo indireto ou de ligação? Se o verbo fica no singular e não há sujeito identificável, é índice de indeterminação do sujeito.
- Dá para retirar o SE sem mudar o sentido? Se sim, é partícula expletiva. O SE vem com artigo? (“um se”) É substantivo. O SE é inseparável do verbo? (“arrepender-se”) É parte integrante do verbo.
Exemplo completo. Frase: “Se os alunos se dedicarem, vendem-se mais apostilas e precisa-se de mais professores.” São três SEs. O primeiro liga uma condição (“caso os alunos se dediquem”) — é conjunção condicional. O segundo é reflexivo (“os alunos dedicam a si mesmos” ao estudo). O terceiro grupo tem dois SEs verbais: “vendem-se apostilas” vira “Apostilas são vendidas” e o verbo concorda com “apostilas” — partícula apassivadora; “precisa-se de professores” não vira passiva e o verbo fica no singular — índice de indeterminação. Uma frase, cinco SEs, várias funções — exatamente o tipo de questão que separa quem decora de quem testa.
11. Armadilhas clássicas do ENEM
Armadilha 1 — “Vende-se” com plural errado. “Vende-se casas” está errado; o certo é “Vendem-se casas”, porque o verbo concorda com o sujeito paciente. E “Precisam-se de professores” está errado; o certo é “Precisa-se de professores”, porque o sujeito é indeterminado e o verbo fica no singular. As bancas trocam esses dois casos de propósito.
Armadilha 2 — “Se” condicional confundido com integrante. “Não sei se ele vem” não é condição, é dúvida — integrante. “Se ele vier, avise-me” é condição — condicional. Pergunte sempre: há uma consequência dependendo de uma hipótese, ou há uma dúvida sobre um fato?
Armadilha 3 — Reflexivo confundido com apassivador. Em “Ele se machucou”, o SE é reflexivo, não apassivador: não dá para dizer “Ele é machucado” com o mesmo sentido, e a ação volta para o próprio sujeito. O teste “a si mesmo” resolve na hora.
Armadilha 4 — “Trata-se de” e “cuida-se de”. “Trata-se de um problema grave” e “Cuida-se de idosos” trazem índice de indeterminação, não passiva: os verbos são transitivos indiretos (“tratar de”, “cuidar de”), a passiva não funciona e o verbo fica no singular, mesmo com o termo seguinte no plural — “Trata-se de problemas graves” continua no singular.
Armadilha 5 — Concordância com “se” apassivador e sujeito composto. “Vendem-se casas e apartamentos” pede o plural, porque o sujeito paciente é composto. Já “Precisa-se de casas e apartamentos” pede o singular, porque o sujeito é indeterminado e “casas e apartamentos” são objeto indireto. O número do termo seguinte só manda no verbo quando ele é sujeito paciente.
Armadilha 6 — Colocação pronominal disfarçada de função. A posição do SE — antes do verbo (próclise), no meio (mesóclise) ou depois (ênclise) — não muda a função dele. “Não se vende fiado”, “Vender-se-á” e “Vende-se” podem trazer o mesmo SE apassivador em posições diferentes. Não confunda colocação com classificação.


Mapa mental
- A palavra SE → muda de função conforme a frase → use os testes, não decore.
- Pronome reflexivo → ação volta para o próprio sujeito → teste “a si mesmo” → ex.: “Ele se machucou”.
- Pronome recíproco → ação mútua → sujeito no plural → teste “um ao outro” → ex.: “Eles se abraçaram”.
- Partícula apassivadora → verbo transitivo direto → voz passiva sintética → teste: passiva analítica (“é vendido”) → verbo concorda com o sujeito paciente → ex.: “Vendem-se casas”.
- Índice de indeterminação → verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação → sujeito desconhecido → passiva impossível → verbo sempre no singular → ex.: “Precisa-se de professores”.
- Conjunção condicional → hipótese, condição → teste “caso” → ex.: “Se estudar, passará”.
- Conjunção causal → causa já dada → teste “já que” → ex.: “Se não estudou, não reclame”.
- Conjunção integrante → conteúdo de dúvida ou pergunta → teste “isso” → ex.: “Não sei se vem”.
- Partícula expletiva → só realce → teste: retirar sem mudar o sentido → ex.: “Ele se foi embora”.
- Parte integrante do verbo → verbo pronominal, SE inseparável → ex.: “Ele se arrependeu”.
- Substantivo → com artigo, pode ir para o plural → ex.: “Há um se na história”.
- Passo a passo na prova → liga orações? → teste “a si mesmo” / “um ao outro” → teste da passiva → verbo no singular sem sujeito? → teste da retirada → artigo ou verbo pronominal?
- Confronto decisivo → transitivo direto + passiva possível + concordância = apassivadora · intransitivo ou transitivo indireto + passiva impossível + singular = indeterminação.
SAQ — perguntas e respostas rápidas
1. Como sei se o SE é pronome reflexivo?
Ele indica que a ação volta para o próprio sujeito e pode ser trocado por “a si mesmo”: “Ela se penteou” vira “Ela penteou a si mesma”.
2. Qual é a diferença entre SE reflexivo e SE recíproco?
No reflexivo, cada um age sobre si mesmo (“Eles se vestiram”: cada um vestiu a si mesmo). No recíproco, cada um age sobre o outro (“Eles se abraçaram”: cada um abraçou o outro). O recíproco exige sujeito no plural.
3. Como sei se o SE é partícula apassivadora?
O verbo é transitivo direto, a frase pode virar voz passiva analítica e o verbo concorda com o sujeito paciente: “Vendem-se casas” vira “Casas são vendidas”.
4. Como sei se o SE é índice de indeterminação do sujeito?
O verbo é intransitivo, transitivo indireto ou de ligação, a passiva analítica não funciona e o verbo fica sempre na terceira pessoa do singular: “Precisa-se de professores”, nunca “Precisam-se”.
5. Qual é a diferença entre “Vendem-se casas” e “Precisa-se de casas”?
Em “Vendem-se casas”, “casas” é sujeito paciente e o verbo concorda com ele (partícula apassivadora). Em “Precisa-se de casas”, o sujeito é indeterminado, “casas” é objeto indireto e o verbo fica no singular (índice de indeterminação).
6. Como distinguir SE condicional de SE integrante?
O condicional expressa uma hipótese da qual depende uma consequência (“Se estudar, passará”, trocável por “caso”). O integrante introduz o conteúdo de uma dúvida ou pergunta (“Não sei se vem”, com a oração trocável por “isso”).
7. Quando o SE é partícula expletiva?
Quando pode ser retirado da frase sem mudar o sentido, servindo só para dar ênfase: “Ele se foi embora” vira “Ele foi embora”.
8. O que significa dizer que o SE é parte integrante do verbo?
Significa que o SE faz parte da conjugação de verbos pronominais, como “arrepender-se” e “queixar-se”, e não pode ser retirado sem estragar o sentido: “Ele arrependeu” está incompleto; o certo é “Ele se arrependeu”.
Questões comentadas
As questões abaixo são originais, criadas no estilo do ENEM para treino, e não reproduzem nenhuma prova real.
Questão 1. Leia: “Na papelaria, vendem-se cadernos e precisa-se de atendentes.” Sobre os dois SEs, é correto afirmar que são, respectivamente:
a) partícula apassivadora e índice de indeterminação do sujeito.
b) índice de indeterminação do sujeito e partícula apassivadora.
c) pronome reflexivo e pronome recíproco.
d) pronome recíproco e partícula apassivadora.
e) partícula apassivadora e partícula apassivadora.
Gabarito: A. Em “vendem-se cadernos”, o verbo é transitivo direto, a passiva funciona (“Cadernos são vendidos”) e o verbo concorda com “cadernos” — partícula apassivadora. Em “precisa-se de atendentes”, o verbo é transitivo indireto (“precisar de”), a passiva não funciona e o verbo fica no singular — índice de indeterminação. B inverte as funções. C e D erram porque não há ação voltada para o próprio sujeito nem ação mútua. E erra porque o segundo SE não admite passiva.
Questão 2. Assinale a frase em que o SE é pronome recíproco:
a) A menina se olhou no espelho antes da festa.
b) Os noivos se beijaram ao fim da cerimônia.
c) Vende-se esta bicicleta em ótimo estado.
d) Precisa-se de voluntários para o mutirão.
e) Se chover amanhã, o passeio será cancelado.
Gabarito: B. Em “Os noivos se beijaram”, cada um beijou o outro — ação mútua, trocável por “um ao outro”, com sujeito no plural. Em A, a ação volta para a própria menina (reflexivo). Em C, há voz passiva sintética (apassivadora). Em D, há sujeito indeterminado (índice). Em E, o SE liga uma condição (conjunção condicional).
Questão 3. Assinale a alternativa em que a concordância verbal está correta:
a) Aluga-se apartamentos mobiliados.
b) Precisam-se de novos professores.
c) Consertam-se relógios antigos.
d) Tratam-se de um problema grave.
e) Vende-se casas na praia.
Gabarito: C. “Consertam-se relógios” está correto: verbo transitivo direto, sujeito paciente no plural, verbo no plural — partícula apassivadora. A erra porque “apartamentos” é sujeito paciente no plural e exige “Alugam-se”. B erra porque “precisar de” é transitivo indireto, sujeito indeterminado, verbo no singular (“Precisa-se”). D erra porque “tratar de” é transitivo indireto e pede o singular (“Trata-se”), mesmo com o termo seguinte no plural.
Questão 4. Leia: “Não sei se o resultado já saiu.” Nesse período, o SE é:
a) conjunção condicional, pois expressa uma hipótese.
b) pronome reflexivo, pois a dúvida volta para o sujeito.
c) conjunção integrante, pois introduz o conteúdo de uma dúvida.
d) partícula apassivadora, pois o verbo admite passiva.
e) índice de indeterminação do sujeito, pois não se sabe quem saiu.
Gabarito: C. O SE introduz a oração “se o resultado já saiu”, que funciona como objeto direto de “sei” e pode ser trocada por “isso” (“Não sei isso”) — é conjunção integrante, conteúdo de uma dúvida, não condição. A erra porque não há consequência dependendo de hipótese. B erra porque não há ação reflexiva. D erra porque não há voz passiva. E erra porque o sujeito da subordinada (“o resultado”) está claro.
Questão 5. Observe: “Se não revisou o conteúdo, não adianta reclamar da prova.” O SE destacado é conjunção:
a) condicional, pois a revisão ainda pode acontecer.
b) causal, pois a falta de revisão é um fato já dado que explica a advertência.
c) integrante, pois introduz o conteúdo de uma dúvida.
d) consecutiva, pois expressa o resultado da falta de estudo.
e) comparativa, pois compara dois comportamentos.
Gabarito: B. A falta de revisão já é um fato dado, e o SE equivale a “já que”: “Já que não revisou, não adianta reclamar”. É causal, não condicional, porque não há hipótese futura — a revisão já não aconteceu. C erra porque não há dúvida ou pergunta. D erra porque a oração não expressa resultado, e sim causa. E erra porque não há comparação.
Questão 6. Em “Os candidatos se cumprimentaram e se prepararam para a entrevista”, os dois SEs são, respectivamente:
a) reflexivo e recíproco.
b) recíproco e reflexivo.
c) apassivador e reflexivo.
d) reflexivo e reflexivo.
e) recíproco e recíproco.
Gabarito: B. Em “se cumprimentaram”, cada candidato cumprimentou o outro — recíproco, trocável por “um ao outro”. Em “se prepararam”, cada candidato preparou a si mesmo — reflexivo, trocável por “a si mesmo”. A inverte as funções. C erra porque não há voz passiva. D erra porque o primeiro SE não é reflexivo. E erra porque o segundo SE não é recíproco.
Dica do professor
Na hora da prova, não comece classificando: comece testando. Tente trocar o SE por “a si mesmo” e por “um ao outro”; depois, tente passar a frase para a voz passiva analítica; depois, observe se o verbo fica no singular mesmo com o termo seguinte no plural. Um desses testes quase sempre resolve a questão em segundos. E atenção à transitividade: antes de decidir entre apassivadora e indeterminação, pergunte qual é o tipo do verbo — transitivo direto abre a porta da passiva; intransitivo ou transitivo indireto a fecha. Para treinar, pegue um anúncio de jornal — “Vende-se”, “Aluga-se”, “Precisa-se” — e classifique cada SE.
Atenção/cuidado
Os erros mais comuns com o SE são: escrever “Vende-se casas” em vez de “Vendem-se casas” (o verbo concorda com o sujeito paciente na passiva); escrever “Precisam-se de professores” em vez de “Precisa-se de professores” (com sujeito indeterminado, o verbo fica no singular); confundir SE condicional com SE integrante (“Não sei se vem” é dúvida, não condição); confundir reflexivo com recíproco (reflexivo age sobre si mesmo; recíproco age sobre o outro); e achar que a posição do SE muda a função dele — próclise, mesóclise e ênclise são colocação, não classificação. Outro cuidado: “trata-se de” e “cuida-se de” sempre pedem o singular, mesmo com o termo seguinte no plural. Para revisar a base, volte às classes gramaticais e à análise sintática dos períodos complexos.
Conexão com outras áreas
O SE conecta a gramática à interpretação de texto: perceber se o sujeito está indeterminado ou se a frase está na voz passiva muda o sentido do que se lê — e muitas questões de compreensão dependem disso, sobretudo em notícias e anúncios. Na redação, dominar o SE evita os erros de concordância mais visíveis da norma culta, como “Precisam-se” e “Vende-se casas”. Na literatura, poetas e cronistas exploram o SE reflexivo, o expletivo e o condicional para criar ênfase, ritmo e hipótese. E na argumentação, o SE condicional organiza hipóteses e consequências — “se estudarmos, passaremos” —, a estrutura básica de um bom argumento. Para aprofundar, revise as orações adjetivas, as orações coordenadas e a função sintática dos pronomes relativos.
Incidência
Incidência: Morno — o SE aparece com frequência no ENEM e nos vestibulares, sobretudo em questões de morfologia, sintaxe, voz verbal e concordância, e costuma vir disfarçado: a questão pergunta pela classificação de um termo, pela voz verbal ou pela concordância, e a resposta depende de identificar a função do SE. Vale revisar junto os pronomes pessoais, a concordância verbal e as orações adverbiais.



