
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- O que é o Arcadismo
- Contexto histórico: o Iluminismo e o século XVIII
- Fugere urbem: fugir da cidade
- Carpe diem: aproveitar o dia
- Locus amoenus, bucolismo e pastoral
- Os árcades portugueses: Bocage e a Arcádia Lusitana
- Cláudio Manuel da Costa: o poeta de Vila Rica
- Tomás Antônio Gonzaga e Marília de Dirceu
- Basílio da Gama e O Uraguai
- Outros árcades brasileiros que podem cair
- Características do Arcadismo: o resumo que cai na prova
- A diferença para o Barroco: a comparação que mais cai
- O que cai no ENEM e nos vestibulares
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas curtas com respostas
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção / cuidado
- Conexão com outras áreas
- Incidência
Resumo rápido
O Arcadismo é o movimento literário do século XVIII que propôs uma volta à simplicidade. Depois de um período de exageros, jogos de palavras e sentimentos extremos, os poetas árcades defenderam a clareza, a razão, o equilíbrio e a vida simples no campo. Por isso, o Arcadismo também é chamado de Neoclassicismo: ele retoma os valores da Antiguidade clássica grega e romana, como a medida, a harmonia e a imitação da natureza, mas com os olhos do Iluminismo, o movimento de ideias que valorizava a razão, a ciência e a crítica às autoridades tradicionais.
Na prática, o poeta árcade se apresenta como um pastor. Ele usa um nome pastoril, como Dirceu, Glauceste ou Elmano, e canta a vida no campo, o amor simples, a amada com nome de pastora, como Marília, Nise ou Anarda, e a beleza de uma natureza calma e ordenada. Essa pastora e esse pastor quase nunca são pessoas reais do campo: são máscaras poéticas, personagens que os poetas cultos da cidade criaram para falar de sentimentos, de valores e, muitas vezes, de política, de um jeito disfarçado e elegante.
Três expressões em latim resumem o Arcadismo e caem muito em prova. A primeira é fugere urbem, que significa fugir da cidade: o campo aparece como lugar de paz, longe da corrupção, da ambição e da confusão da vida urbana e da corte. A segunda é carpe diem, que significa aproveitar o dia: como a vida é breve, é preciso aproveitar o presente, sem adiar a felicidade para um futuro incerto. A terceira é locus amoenus, que significa lugar ameno: o cenário ideal do poema árcade, com campo verde, sombra de árvore, riacho cristalino, canto de pássaros e rebanho tranquilo.
Em Portugal, o marco inicial do Arcadismo é a fundação da Arcádia Lusitana, em 1756, uma academia de poetas que queriam renovar a poesia portuguesa, combatendo o exagero barroco. No Brasil, o Arcadismo floresce em Minas Gerais, na segunda metade do século XVIII, em torno de Vila Rica, hoje Ouro Preto, cidade do ouro, das igrejas barrocas e da Inconfidência Mineira. É ali que surgem os nossos maiores poetas árcades: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Basílio da Gama, além de outros nomes importantes, como Silva Alvarenga, Santa Rita Durão e Alvarenga Peixoto.
Para a prova, guarde esta ideia central: o Arcadismo é razão contra exagero, campo contra cidade, simplicidade contra luxo, presente contra a espera infinita. Se o poema falar de pastor, de ovelha, de cajado, de choupana, de rio, de sombra e de um amor tranquilo, quase certamente é árcade. Se ele falar de caveira, de sofrimento extremo, de culpa, de antíteses violentas e de um Deus que pune, é mais provável que seja barroco. Essa oposição entre Barroco e Arcadismo é uma das comparações mais cobradas no ENEM e nos vestibulares, e este artigo vai deixá-la muito clara para você.
Este artigo foi pensado para a sua revisão de Literatura: linguagem direta, exemplos claros, tabelas comparativas para memorizar rápido, perguntas curtas com respostas e questões comentadas no estilo do ENEM, todas originais, para você treinar sem depender de decorar poemas inteiros. Ao final, você encontra ainda um mapa mental, a dica do professor, os erros mais comuns e as conexões do Arcadismo com outras matérias. Se quiser situar o Arcadismo na sequência das escolas literárias, vale revisar também o Barroco, que veio antes dele, e o Trovadorismo, o ponto de partida da nossa tradição poética.
O que é o Arcadismo
O nome Arcadismo vem de Arcádia, uma região da Grécia Antiga que, na imaginação dos poetas, se transformou no símbolo do campo ideal: um lugar de pastores, de rebanhos, de música simples e de vida tranquila, longe das intrigas da cidade. Os poetas do século XVIII não queriam morar de verdade na Arcádia, é claro. Eles usavam a Arcádia como um cenário, um ideal, um modelo de vida boa. Quando um poeta árcade diz que é pastor, ele está dizendo, na verdade, que acredita em uma vida mais simples, mais natural e mais racional.
É por isso que o Arcadismo também recebe o nome de Neoclassicismo, isto é, novo classicismo. Os poetas árcades admiravam os autores gregos e romanos, como Virgílio, Horácio e Ovídio, e tentavam imitar a clareza, a medida e a harmonia deles. Mas atenção: imitar, para os árcades, não significava copiar. Significava seguir bons modelos, aprender com os clássicos e, a partir deles, criar uma poesia própria, equilibrada e útil. A poesia deveria ensinar e agradar ao mesmo tempo: ensinar valores, como a moderação e a honestidade, e agradar pela beleza simples dos versos.
Outra característica central do Arcadismo é a linguagem simples e clara. Contra o rebuscamento barroco, cheio de metáforas complicadas, de inversões e de jogos de palavras, os árcades defenderam frases diretas, vocabulário acessível e versos de leitura fácil. Isso não quer dizer que a poesia árcade seja pobre ou sem beleza. Quer dizer que a beleza dela está na clareza, na musicalidade suave e na imagem bem escolhida, e não no enigma. Um bom poema árcade parece simples quando a gente lê, mas é construído com muito cuidado.
Por fim, o Arcadismo tem um forte caráter de crítica social disfarçada. Muitos poetas árcades eram também funcionários, advogados, magistrados e homens envolvidos com a política do seu tempo. Quando eles louvam a vida simples do campo e criticam o luxo da corte, muitas vezes estão criticando, sem dizer diretamente, a corrupção, a vaidade e a opressão do governo colonial. No Brasil, essa crítica vai se tornar ainda mais séria: vários poetas árcades mineiros participaram da Inconfidência Mineira, o movimento que conspirou contra o domínio português em 1789. A poesia bucólica, portanto, nem sempre é só poesia de campo: às vezes, ela é também um jeito elegante de falar de liberdade.
Contexto histórico: o Iluminismo e o século XVIII
Para entender o Arcadismo, é preciso entender o século XVIII, o chamado Século das Luzes. Nesse período, pensadores iluministas, como Voltaire, Rousseau, Montesquieu e Locke, defenderam que a razão humana, e não a tradição ou a autoridade religiosa, deveria guiar a vida, a política e o conhecimento. Eles criticaram o absolutismo, isto é, o poder sem limites dos reis, defenderam a liberdade, a tolerância e a educação, e acreditaram no progresso: a ideia de que a humanidade poderia melhorar pela razão e pela ciência.
Na Europa, essas ideias circularam em livros, em academias e em salões, e chegaram também a Portugal e ao Brasil, mesmo com a censura e o controle da Coroa portuguesa. Em Portugal, o ministro Marquês de Pombal promoveu reformas que tentaram modernizar o reino, expulsou os jesuítas, reformou a universidade de Coimbra e combateu alguns excessos do Barroco, que ele via como sinal de atraso. Foi nesse ambiente de reforma e de crítica ao passado que nasceu a Arcádia Lusitana, em 1756, reunindo poetas que queriam uma literatura mais clara, mais racional e mais próxima dos modelos clássicos.
No Brasil, o século XVIII é o século do ouro. Minas Gerais vivia o auge da mineração, com uma sociedade urbana rica, com igrejas magníficas, com festas e com uma elite letrada que estudava em Coimbra, lia os iluministas e discutia política. Ao mesmo tempo, essa riqueza vinha acompanhada de impostos pesados, como o quinto, que era a quinta parte do ouro para a Coroa, e da derrama, a cobrança forçada dos impostos atrasados. A insatisfação cresceu e explodiu na Inconfidência Mineira, em 1789, liderada por Tiradentes e com a participação de poetas como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto. O movimento foi descoberto antes de acontecer, seus líderes foram presos, e Tiradentes foi enforcado em 1792. Cláudio Manuel da Costa morreu na prisão, em circunstâncias até hoje discutidas, e Gonzaga foi exilado para Moçambique, na África.
Esse contexto explica por que o Arcadismo brasileiro é diferente do europeu. Na Europa, o Arcadismo é, muitas vezes, uma poesia de salão, elegante e decorativa. No Brasil, e sobretudo em Minas Gerais, ele se mistura com a vida colonial, com o ouro, com a política e com o desejo de liberdade. O poeta árcade mineiro pode cantar o campo e, ao mesmo tempo, ser um conspirador contra a Coroa. Quando a prova cobra Arcadismo brasileiro, ela cobra justamente essa mistura: bucolismo e política, simplicidade e inconfidência, pastor e cidadão.
Fugere urbem: fugir da cidade
A expressão fugere urbem significa, ao pé da letra, fugir da cidade. Para os árcades, a cidade, e sobretudo a corte, era o lugar da corrupção, da vaidade, da ambição, da falsidade e do luxo vazio. A corte era onde as pessoas fingiam ser o que não eram, bajulavam os poderosos e gastavam fortunas com aparências. O campo, ao contrário, era o lugar da sinceridade, da moderação, da amizade verdadeira e da vida honesta. Fugir da cidade, portanto, não era só uma mudança de endereço: era uma escolha moral.
É importante perceber que essa fuga quase nunca era literal. Os poetas árcades moravam, em geral, nas cidades, trabalhavam como funcionários e frequentavam a corte. Quando eles escreviam sobre o campo, estavam construindo um ideal, um modelo de como a vida deveria ser, e criticando, por contraste, como a vida na cidade realmente era. O campo do poema árcade é um campo idealizado: não há seca, não há trabalho pesado, não há miséria. Há sombra, água limpa, rebanho manso e tempo para conversar, cantar e amar. Essa idealização é proposital: o campo serve como espelho em que a cidade pode ver os seus defeitos.
Para a prova, quando um poema árcade opuser campo e cidade, pergunte-se: o que o campo representa aqui? Quase sempre, a resposta será paz, sinceridade, simplicidade e virtude. E o que a cidade representa? Ambição, falsidade, corrupção e inquietação. Se a questão perguntar qual é a expressão latina para essa fuga, a resposta é fugere urbem. Se ela perguntar o que o poeta critica, a resposta é a vida da corte e os vícios urbanos.
Carpe diem: aproveitar o dia
A expressão carpe diem vem de um verso do poeta romano Horácio e significa, ao pé da letra, colher o dia, aproveitar o dia. A ideia é simples e poderosa: a vida é breve, o tempo passa depressa, a juventude não volta, e por isso não vale a pena adiar a felicidade. O poeta árcade convida a amada, e convida o leitor, a aproveitar o presente, a amar agora, a ser feliz agora, sem esperar por um futuro que pode nunca chegar.
Um exemplo clássico desse tema é a imagem da rosa, ou da flor, que desabrocha de manhã e murcha à tarde. A flor é a metáfora da juventude e da beleza: bonita, mas passageira. O poeta diz à amada, com delicadeza, que ela deve aproveitar a sua juventude, assim como se aproveita a flor antes que ela murche. Não se trata de um convite ao exagero ou à bagunça, como às vezes se pensa. O carpe diem árcade é moderado: aproveitar o dia, para o árcade, é viver com equilíbrio, amar com simplicidade e não desperdiçar a vida com ambições vazias.
Compare com o Barroco: no Barroco, a brevidade da vida, lembrada pela caveira e pela morte, gerava culpa, medo e arrependimento. O homem barroco olhava para a morte e pensava no pecado e no castigo. O homem árcade olha para a mesma brevidade e pensa no contrário: já que a vida é curta, vamos vivê-la bem, com alegria e moderação. Essa diferença de atitude diante do tempo é um dos pontos mais cobrados em questões comparativas. Se o poema convida a aproveitar o presente com serenidade, é carpe diem e é árcade. Se ele assusta com a morte e com o inferno, é barroco.
Locus amoenus, bucolismo e pastoral
O locus amoenus, ou lugar ameno, é o cenário padrão da poesia árcade. Ele tem elementos quase fixos, que se repetem de poema para poema: um campo verde, uma árvore frondosa que dá sombra, um riacho de água cristalina, o canto dos pássaros, flores, um rebanho tranquilo e, muitas vezes, uma cabana simples, a choupana. Esse cenário não é descrito para informar, mas para criar uma atmosfera: calma, harmonia, beleza ordenada. É o lugar perfeito para o amor, para a conversa e para a poesia.
O bucolismo é justamente essa poesia da vida no campo, com pastores, rebanhos e natureza idealizada. A palavra vem de bucólico, que se refere ao pastor e ao campo. A poesia pastoral é quase a mesma coisa: pastoral é o adjetivo de pastor, e a poesia pastoral é aquela em que pastores conversam, cantam e se apaixonam. Na prática, para a prova, bucolismo e pastoral podem ser tratados como sinônimos: os dois indicam a idealização da vida campestre. Se a questão falar em bucolismo, ela está falando do campo ideal, dos pastores e da natureza calma.
Vale prestar atenção em um detalhe: o pastor árcade não é um trabalhador rural de verdade. Ele não ordenha, não tosquia, não sofre com a seca. Ele é um poeta disfarçado de pastor, que usa o cajado e o rebanho como símbolos de uma vida simples. Da mesma forma, a pastora não é uma camponesa: ela é, em geral, uma dama da cidade, transformada em pastora pelo poema. Esse disfarce tem um nome técnico, o pseudônimo pastoril: cada poeta adotava um nome de pastor para assinar os seus versos. Tomás Antônio Gonzaga assinava como Dirceu, Cláudio Manuel da Costa como Glauceste Saturnino, Silva Alvarenga como Alcindo Palmireno, e assim por diante. As provas adoram perguntar quem é quem nesses pseudônimos.
Os árcades portugueses: Bocage e a Arcádia Lusitana
Em Portugal, o Arcadismo começa oficialmente com a fundação da Arcádia Lusitana, em 1756, em Lisboa. Era uma academia literária, isto é, um grupo de poetas que se reunia para discutir poesia, criticar o Barroco e defender uma literatura mais simples e racional. Os árcades portugueses combatiam o que eles chamavam de mau gosto barroco: o exagero, a obscuridade, o culto da forma pela forma. Eles queriam versos claros, imitando os clássicos, e uma poesia que servisse à razão e à virtude.
O poeta português mais famoso do período é Manuel Maria Barbosa du Bocage, conhecido simplesmente como Bocage, que viveu entre 1765 e 1805. Bocage é uma figura curiosa, porque a sua obra tem duas faces. De um lado, ele escreveu poemas árcades, com pastores, com o pseudônimo de Elmano Sadino, com sonetos claros e elegantes, seguindo as regras do Arcadismo. De outro lado, ele escreveu poemas satíricos, irreverentes e, muitas vezes, escandalosos para a época, criticando poderosos, padres e costumes, com um humor afiado que lhe rendeu prisões e perseguições.
Por causa dessa dupla face, Bocage é um autor de transição: ele começa árcade e termina anunciando o Romantismo, com poemas mais pessoais, mais emotivos e mais livres. As provas costumam cobrar Bocage justamente por isso: ele é o árcade que não cabe só no Arcadismo. Se a questão mostrar um soneto claro, com tema pastoril e linguagem equilibrada, pode ser o Bocage árcade. Se mostrar uma sátira mordaz, um poema de crítica social ou de confissão pessoal intensa, pode ser o Bocage de transição. Guarde o pseudônimo dele, Elmano Sadino, e a ideia de que ele viveu entre o Arcadismo e o Romantismo.
Outros nomes do Arcadismo português que vale conhecer são Correia Garção, um dos fundadores da Arcádia Lusitana, e Filinto Elísio, também ligado à renovação da poesia portuguesa. Mas, para o ENEM e para a maioria dos vestibulares, Bocage é, de longe, o nome português mais cobrado. Se você tiver que escolher um só autor português do Arcadismo para dominar, escolha Bocage, com as suas duas faces: o pastor Elmano e o satírico irreverente.
Cláudio Manuel da Costa: o poeta de Vila Rica
No Brasil, o primeiro grande poeta árcade é Cláudio Manuel da Costa, nascido em Mariana, Minas Gerais, em 1729, e morto em Vila Rica, em 1789. Ele estudou Direito em Coimbra, em Portugal, voltou para Minas Gerais, trabalhou como advogado e juiz e se tornou uma das figuras centrais da vida intelectual mineira. O seu pseudônimo pastoril era Glauceste Saturnino, e a sua obra principal é o livro Obras, publicado em Coimbra em 1768, que reúne sonetos, éclogas, que são poemas pastorais em forma de diálogo, e outros poemas.
Cláudio Manuel da Costa é considerado o introdutor do Arcadismo no Brasil. A sua poesia tem as marcas clássicas do movimento: linguagem clara, temas pastorais, natureza idealizada, imitação dos clássicos e o elogio da vida simples. Mas ela tem também uma marca pessoal muito forte: o sentimento de deslocamento. Cláudio era um mineiro que estudou na Europa e voltou para uma terra que ele amava, mas que ele sentia como rude e distante dos centros culturais. Em vários poemas, ele fala da aspereza das montanhas de Minas, do contraste entre a beleza natural da terra e a falta de uma vida cultural à altura dela.
Esse contraste aparece em um dos seus temas mais famosos: o poeta canta o campo, mas o campo mineiro não é a Arcádia grega. É uma terra de montanhas duras, de rios revoltos e de mineração, e o poeta sente essa diferença. Por isso, alguns estudiosos dizem que Cláudio Manuel da Costa é um árcade com um pé no Brasil real: ele segue as regras do Arcadismo, mas deixa escapar, nos versos, a paisagem e a melancolia de Minas Gerais. Para a prova, guarde: Cláudio Manuel da Costa, Glauceste Saturnino, Obras de 1768, introdutor do Arcadismo no Brasil e participante da Inconfidência Mineira, morto na prisão em 1789.
Tomás Antônio Gonzaga e Marília de Dirceu
O poeta árcade brasileiro mais cobrado em prova é, sem dúvida, Tomás Antônio Gonzaga, nascido no Porto, em Portugal, em 1744, e morto em Moçambique, em 1810. Ele estudou Direito em Coimbra, veio para o Brasil, foi ouvidor, que era uma espécie de juiz, em Vila Rica, e se envolveu na Inconfidência Mineira, o que lhe custou a prisão e o exílio. O seu pseudônimo pastoril era Dirceu, e a sua obra principal é Marília de Dirceu, um livro de poemas líricos publicado em duas partes, a primeira em 1792 e a segunda em 1799.
Marília de Dirceu é um conjunto de liras, que são poemas líricos curtos, em que o pastor Dirceu canta o seu amor pela pastora Marília. Na vida real, Marília seria Maria Doroteia Joaquina de Seixas, uma jovem de Vila Rica por quem Gonzaga se apaixonou e com quem chegou a ficar noivo. No poema, porém, Marília é uma pastora idealizada, bela, jovem e simples, e Dirceu é o pastor apaixonado que lhe promete uma vida tranquila no campo: uma choupana simples, um rebanho, um jardim, a companhia dos amigos e o amor sem luxo.
O grande tema de Marília de Dirceu é o carpe diem aplicado ao amor. Dirceu convida Marília a aproveitar a juventude, a não esperar, a aceitar o seu amor agora, porque o tempo passa e a beleza murcha como a flor. Mas o livro tem também uma segunda parte muito mais triste: escrita depois da prisão de Gonzaga, ela mostra Dirceu preso, longe de Marília, lamentando a separação e a perda da liberdade. Essa mudança de tom, da alegria pastoril para a dor da prisão, é um dos pontos mais bonitos e mais cobrados da obra. A primeira parte é o Arcadismo em estado puro: campo, amor e presente. A segunda parte é o Arcadismo encontrando a vida real: cadeia, exílio e saudade.
Para a prova, guarde com atenção: Gonzaga é Dirceu, Marília é a pastora amada, a obra é Marília de Dirceu, em liras, e o tema central é o convite ao amor no presente, com a choupana e a vida simples como ideal de felicidade. Se a questão citar uma lira em que o poeta promete a Marília uma casinha simples no campo, longe do luxo da corte, a resposta é Gonzaga, sem dúvida. E se a questão ligar o autor à Inconfidência Mineira, lembre-se: Gonzaga foi preso, degredado para Moçambique, e nunca mais voltou a ver Marília.
Basílio da Gama e O Uraguai
Outro nome essencial do Arcadismo brasileiro é Basílio da Gama, nascido em São José do Rio das Mortes, hoje Tiradentes, em Minas Gerais, em 1740, e morto em Lisboa, em 1795. Ele estudou no Rio de Janeiro e em Coimbra, viveu entre o Brasil e Portugal e escreveu a obra que é considerada o grande poema épico do Arcadismo brasileiro: O Uraguai, publicado em 1769.
O Uraguai é um poema épico, isto é, um poema longo que narra feitos heroicos, mas com uma diferença importante em relação às epopeias clássicas: ele não tem os deuses do Olimpo interferindo na história, nem as máquinas sobrenaturais tradicionais. Em vez disso, ele narra um episódio real e recente: a guerra entre portugueses e espanhóis contra os índios guaranis das missões jesuíticas, no sul do Brasil, na região do rio Uruguai. O poema celebra a vitória luso-espanhola, mas, e isso é muito interessante, trata os índios vencidos com simpatia e dignidade.
Os heróis indígenas de O Uraguai, como Sepé Tiaraju e Cacambo, são apresentados como bravos, nobres e leais, mesmo na derrota. O cacique Sepé, que morre lutando, tornou-se um símbolo da resistência indígena e da dignidade na derrota. Por isso, O Uraguai é lido de dois jeitos: como um poema que celebra a colonização portuguesa, seguindo a posição oficial da época, e, ao mesmo tempo, como um poema que humaniza os índios e critica, nas entrelinhas, a violência da guerra. Essa ambiguidade é justamente o que as provas mais gostam de explorar.
Do ponto de vista do Arcadismo, O Uraguai segue as regras neoclássicas: linguagem clara, versos brancos, isto é, sem rima, mas com medida regular, estrutura em cinco cantos, e uma narração direta, sem os exageros barrocos. Para a prova, guarde: Basílio da Gama, O Uraguai de 1769, poema épico sobre a guerra guaranítica, com heróis indígenas simpáticos, como Sepé Tiaraju, e sem a mitologia clássica tradicional. Se a questão falar em índio heroico no Arcadismo, pense em Basílio da Gama.
Outros árcades brasileiros que podem cair
Além dos três grandes nomes mineiros, vale conhecer outros poetas árcades brasileiros, porque os vestibulares mais detalhados, sobretudo os de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, podem cobrá-los. O primeiro é Silva Alvarenga, nascido em Ouro Preto em 1749, autor de Glaura, um livro de poemas em que o pastor Alcindo Palmireno canta a pastora Glaura. Silva Alvarenga viveu no Rio de Janeiro, fundou a Sociedade Literária do Rio de Janeiro e foi preso por suspeita de conspiração. A sua poesia é tipicamente árcade: pastoral, clara, com o campo como cenário do amor.
O segundo é Santa Rita Durão, nascido em Minas Gerais em 1722, autor de Caramuru, publicado em 1781, um poema épico que narra a história de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, um náufrago português que viveu entre os índios na Bahia, no início da colonização. Caramuru é importante porque retoma o tema do índio e da formação do Brasil, mas com as regras do Arcadismo: clareza, medida e inspiração clássica. Não confunda Caramuru, de Santa Rita Durão, com O Uraguai, de Basílio da Gama: os dois são épicos árcades com índios, mas o primeiro é sobre a Bahia do século XVI e o segundo sobre as missões do sul no século XVIII.
O terceiro é Alvarenga Peixoto, nascido no Rio de Janeiro em 1744, poeta e inconfidente, que assinava como Eureste Fenício e que também foi preso e degredado por causa da Inconfidência Mineira. A sua obra é menor em volume, mas ele é lembrado como um dos poetas da conspiração mineira, ao lado de Gonzaga e de Cláudio Manuel da Costa. Se a questão ligar Arcadismo e Inconfidência, esses três nomes, mais Alvarenga Peixoto, formam o grupo central.
Para situar o Arcadismo entre as outras escolas, revise o panorama de Literatura na sala de estudo e os temas que mais caem no ENEM e nos vestibulares.
Características do Arcadismo: o resumo que cai na prova
Vamos organizar, de forma direta, as características do Arcadismo que você precisa dominar. Primeira: valorização da razão e da clareza, contra o exagero e a obscuridade do Barroco. Segunda: imitação dos modelos clássicos greco-romanos, o Neoclassicismo, com medida, harmonia e equilíbrio. Terceira: linguagem simples, direta e acessível, com vocabulário claro e frases bem construídas.
Quarta: bucolismo e pastoral, com pastores, rebanhos, campo idealizado e pseudônimos pastoris. Quinta: fugere urbem, a fuga da cidade e a crítica aos vícios da corte e ao luxo. Sexta: carpe diem, o convite a aproveitar o presente, porque a vida é breve. Sétima: locus amoenus, o lugar ameno, com sombra, riacho, pássaros e flores. Oitava: objetividade e equilíbrio emocional, contra o sentimentalismo extremo e contra o conflito violento entre corpo e alma que marcava o Barroco.
Nona: temas do cotidiano e do amor simples, com a choupana, o jardim e a vida moderada como ideais de felicidade. Décima: uso de formas clássicas, como o soneto, a lira, a écloga, que é o poema pastoral em diálogo, e a ode, que é o poema de louvor. Décima primeira: caráter pedagógico, isto é, a poesia deve ensinar valores, como a moderação, a honestidade e a virtude, ao mesmo tempo em que agrada. Se você decorar essa lista e souber dar um exemplo para cada item, estará pronto para a maior parte das questões sobre o tema.
A diferença para o Barroco: a comparação que mais cai
A comparação entre Barroco e Arcadismo é, provavelmente, a questão mais frequente sobre o Arcadismo. Os dois movimentos são, em muitos aspectos, opostos, e entender essa oposição é a chave para resolver questões comparativas. O Barroco, do século XVII, vive do conflito: entre o céu e a terra, entre a carne e o espírito, entre o prazer e a culpa, entre a fé e a razão. O homem barroco se sente dividido, angustiado, e expressa essa angústia com exageros, antíteses, metáforas complicadas e um vocabulário rebuscado.
O Arcadismo, do século XVIII, propõe o contrário: equilíbrio, razão, clareza e moderação. Onde o Barroco via conflito, o Arcadismo vê harmonia. Onde o Barroco via culpa, o Arcadismo vê a possibilidade de uma vida boa no presente. Onde o Barroco usava a morte para assustar, o Arcadismo usa a brevidade da vida para convidar ao aproveitamento sereno do dia. Onde o Barroco falava de Deus, de pecado e de inferno, o Arcadismo fala da natureza, da razão e da virtude humana.
Na linguagem, a diferença também é clara. O poema barroco é cheio de inversões, de jogos de palavras, de cultismo, que é o jogo com as palavras, e de conceptismo, que é o jogo com as ideias. O poema árcade é direto, com frases claras, imagens simples e uma musicalidade suave. No Barroco, a mulher amada pode ser, ao mesmo tempo, anjo e demônio, luz e trevas. No Arcadismo, a amada é uma pastora simples, bela e serena, sem contradições violentas. Se a questão opuser um poema cheio de antíteses e de sofrimento a um poema simples e sereno, o primeiro é barroco e o segundo é árcade.
Também muda a atitude diante da natureza. No Barroco, a natureza pode ser um cenário de vaidade, de ruína e de morte: a flor que murcha lembra que tudo passa e que o homem vai morrer e ser julgado. No Arcadismo, a natureza é um modelo de ordem e de harmonia: o campo, o rio e a árvore ensinam ao homem como viver com equilíbrio. A mesma flor pode aparecer nos dois movimentos, mas com sentidos diferentes: no Barroco, ela assusta; no Arcadismo, ela convida a viver. Preste atenção ao tom do poema, e não só à imagem, para decidir.
Tabela comparativa: Arcadismo x Barroco
| Aspecto | Barroco (século XVII) | Arcadismo (século XVIII) |
|---|---|---|
| Ideia central | Conflito, angústia, dualidade | Equilíbrio, razão, harmonia |
| Visão de mundo | Teocêntrica: Deus no centro, culpa e pecado | Iluminista: razão no centro, virtude e progresso |
| Linguagem | Rebuscada, obscura, cheia de jogos de palavras | Simples, clara, direta, acessível |
| Sentimento dominante | Sofrimento extremo, culpa, medo da morte | Serenidade, moderação, prazer equilibrado |
| Natureza | Cenário de vaidade e de morte | Modelo de ordem: campo ideal, locus amoenus |
| Tempo | A brevidade assusta e lembra o juízo final | A brevidade convida ao carpe diem, aproveitar o dia |
| Amor | Amor dividido, sensual e culpado ao mesmo tempo | Amor simples, sereno, pastoril |
| Cidade x campo | A corte e a cidade como palco do conflito | Fugere urbem: o campo como refúgio de virtude |
| Autores no Brasil | Gregório de Matos, Padre Antônio Vieira | Cláudio Manuel da Costa, Gonzaga, Basílio da Gama |
Tabela comparativa: os principais poetas árcades
| Poeta | Pseudônimo pastoril | Obra principal | O que guardar |
|---|---|---|---|
| Cláudio Manuel da Costa | Glauceste Saturnino | Obras (1768) | Introdutor do Arcadismo no Brasil; inconfidente; morto na prisão em 1789 |
| Tomás Antônio Gonzaga | Dirceu | Marília de Dirceu (1792 e 1799) | Liras de amor à pastora Marília; carpe diem; preso e exilado para Moçambique |
| Basílio da Gama | Termindo Sipílio | O Uraguai (1769) | Poema épico sobre a guerra guaranítica; herói indígena Sepé Tiaraju |
| Bocage | Elmano Sadino | Sonetos e sátiras | Poeta português; duas faces: árcade e satírico; transição para o Romantismo |
| Silva Alvarenga | Alcindo Palmireno | Glaura | Pastor que canta a pastora Glaura; atuou no Rio de Janeiro |
| Santa Rita Durão | — | Caramuru (1781) | Poema épico sobre o Caramuru, na Bahia do século XVI |
O que cai no ENEM e nos vestibulares
O Arcadismo é um tema de incidência morna: não aparece todos os anos, mas quando aparece, costuma valer uma ou duas questões, e essas questões seguem um padrão bastante previsível. Conhecer esse padrão é a melhor forma de garantir os pontos. A seguir, os cinco tipos de questão mais frequentes, com o que cada um cobra e como resolver.
1. Identificação do movimento. A questão apresenta um poema com pastor, campo, rebanho, choupana e linguagem clara, e pergunta a qual escola literária ele pertence. A resposta é Arcadismo, sobretudo se houver fugere urbem, carpe diem ou locus amoenus. Cuidado com as armadilhas: se o poema tiver pastor mas também tiver sofrimento extremo, culpa e antíteses violentas, desconfie, porque pode ser uma imitação ou um poema de outro período.
2. Comparação com o Barroco. A questão apresenta dois poemas, ou dois trechos, um barroco e um árcade, e pede para identificar as diferenças. A chave é o tom e a linguagem: exagero, conflito e obscuridade indicam Barroco; clareza, equilíbrio e serenidade indicam Arcadismo. Revisar a tabela comparativa deste artigo antes da prova é o melhor treino para esse tipo de questão, e vale também revisar o Barroco na sala de estudo.
3. Carpe diem e fugere urbem. A questão apresenta um poema em que o poeta convida a amada a aproveitar a juventude, ou em que ele elogia o campo contra a cidade, e pergunta qual é o ideal árcade presente no texto. A resposta será carpe diem, no primeiro caso, e fugere urbem, no segundo. As expressões latinas costumam aparecer nas alternativas, então vale decorar as três: fugere urbem, carpe diem e locus amoenus.
4. Autores e obras. A questão cita Dirceu e Marília, ou Glauceste, ou Sepé Tiaraju, e pergunta quem é o autor ou qual é a obra. A resposta passa pelos pseudônimos e pelas obras principais, que estão na tabela deste artigo. Decore, pelo menos: Dirceu é Gonzaga e Marília de Dirceu; Glauceste é Cláudio Manuel da Costa; Sepé é de O Uraguai, de Basílio da Gama; Elmano é Bocage.
5. Arcadismo e Inconfidência Mineira. A questão relaciona a poesia árcade mineira com a conspiração de 1789, perguntando por que poetas que cantavam o campo estavam envolvidos em um movimento político. A resposta é que o ideal de vida simples e de virtude, contra o luxo e a corrupção da corte, era também uma crítica ao governo colonial, e que os poetas mineiros eram homens letrados, ligados ao Iluminismo, que desejavam mais liberdade para o Brasil. O bucolismo, nesse caso, era também uma linguagem política.
Para fechar a revisão das escolas literárias, vale lembrar que o Arcadismo se situa entre o Barroco e o Romantismo, e que muitas questões cobram essa sequência. Se você dominar a ordem Trovadorismo, Classicismo, Barroco, Arcadismo e Romantismo, com uma característica de cada um, já terá um mapa seguro para as questões de escolas literárias do ENEM e dos vestibulares. O artigo sobre gêneros literários ajuda também a identificar se o texto da questão é lírico, épico ou de outro gênero.
Antes do mapa, vale relembrar a sequência das escolas: o Trovadorismo, o Barroco e o estudo dos gêneros literários ajudam a fixar onde o Arcadismo se encaixa.


Mapa mental
Use este mapa mental para revisar o Arcadismo em poucos minutos, na véspera da prova. Leia do centro para as pontas, e tente completar cada ramo de cabeça antes de conferir.
- ARCADISMO (século XVIII) — Neoclassicismo — volta à simplicidade; razão, clareza e equilíbrio contra o exagero barroco; influência do Iluminismo.
- Contexto: Século das Luzes; Iluminismo; reformas pombalinas; Arcádia Lusitana em 1756; Minas Gerais do ouro; Inconfidência Mineira em 1789.
- Ideias-chave
- Fugere urbem: fugir da cidade; campo como lugar de virtude contra a corrupção da corte.
- Carpe diem: aproveitar o dia; a vida é breve, ame e seja feliz no presente.
- Locus amoenus: lugar ameno; campo verde, sombra, riacho, pássaros, rebanho.
- Bucolismo e pastoral: poesia de pastores; pseudônimos pastoris; natureza idealizada.
- Características: linguagem simples e clara; imitação dos clássicos; equilíbrio emocional; temas do amor simples e da vida moderada; formas como soneto, lira e écloga; poesia que ensina e agrada.
- Autores e obras
- Cláudio Manuel da Costa (Glauceste Saturnino): Obras, 1768; introdutor do Arcadismo no Brasil; inconfidente.
- Tomás Antônio Gonzaga (Dirceu): Marília de Dirceu, 1792 e 1799; liras de amor à pastora Marília; preso e exilado.
- Basílio da Gama: O Uraguai, 1769; épico da guerra guaranítica; herói Sepé Tiaraju.
- Bocage (Elmano Sadino): poeta português; árcade e satírico; transição para o Romantismo.
- Outros: Silva Alvarenga (Glaura); Santa Rita Durão (Caramuru); Alvarenga Peixoto.
- Arcadismo x Barroco: equilíbrio contra conflito; clareza contra obscuridade; serenidade contra culpa; carpe diem contra medo da morte.
- Para a prova: identifique pastor, campo e linguagem clara; decore os pseudônimos; diferencie carpe diem de fugere urbem; ligue os mineiros à Inconfidência.
SAQ — Perguntas curtas com respostas
1. O que é o Arcadismo?
É o movimento literário do século XVIII, também chamado de Neoclassicismo, que defende a razão, a clareza, o equilíbrio e a vida simples no campo, contra o exagero do Barroco, retomando os valores da Antiguidade clássica.
2. O que significam fugere urbem, carpe diem e locus amoenus?
Fugere urbem significa fugir da cidade, buscando no campo a paz e a virtude. Carpe diem significa aproveitar o dia, porque a vida é breve. Locus amoenus significa lugar ameno, o cenário ideal do poema árcade, com campo verde, sombra, riacho e rebanho.
3. O que é o bucolismo?
É a poesia da vida no campo, idealizada, com pastores, rebanhos e natureza calma. O poeta árcade se apresenta como pastor, usando um pseudônimo pastoril, e canta um amor simples em um cenário campestre.
4. Quem são Dirceu e Marília?
Dirceu é o pseudônimo pastoril de Tomás Antônio Gonzaga, e Marília é a pastora amada, inspirada em Maria Doroteia Joaquina de Seixas. Os dois são os protagonistas de Marília de Dirceu, livro de liras publicado em 1792 e 1799.
5. Quem é Cláudio Manuel da Costa e qual é a sua importância?
É o poeta mineiro, de pseudônimo Glauceste Saturnino, autor de Obras, de 1768, considerado o introdutor do Arcadismo no Brasil. Ele participou da Inconfidência Mineira e morreu na prisão em 1789.
6. O que é O Uraguai, de Basílio da Gama?
É um poema épico de 1769 sobre a guerra contra os guaranis das missões, no sul do Brasil. Ele celebra a vitória portuguesa, mas trata os índios vencidos, como Sepé Tiaraju, com simpatia e dignidade, sem usar a mitologia clássica tradicional.
7. Qual é a principal diferença entre Barroco e Arcadismo?
O Barroco vive do conflito, da culpa e do exagero, com linguagem rebuscada e obscura. O Arcadismo defende o equilíbrio, a razão e a moderação, com linguagem simples e clara, e vê na brevidade da vida um convite a aproveitá-la, e não um motivo de medo.
8. Por que os poetas árcades mineiros participaram da Inconfidência Mineira?
Porque eram homens letrados, influenciados pelo Iluminismo, que criticavam o luxo, a corrupção e os impostos pesados da Coroa. O ideal árcade de vida simples e virtuosa era também uma crítica ao governo colonial, e o desejo de liberdade os levou à conspiração de 1789.
Questões comentadas
As questões abaixo são originais, criadas especialmente para este artigo, no estilo do ENEM: texto-base, enunciado, cinco alternativas, gabarito e comentário explicando por que a alternativa correta está certa e por que as outras estão erradas. Resolva primeiro sem olhar o gabarito.
Questão 1. Leia o trecho, criado para esta questão, no estilo de um poema árcade:
“Deixa a corte, Marília, e vem comigo / viver na choupana, junto ao rio claro, / onde o rebanho pasta no campo amigo / e o amor não precisa de luxo raro.”
O trecho acima expressa, principalmente, o ideal árcade do:
a) Cultismo, com jogos complicados de palavras e inversões.
b) Fugere urbem, com a fuga da cidade e a valorização da vida simples no campo.
c) Conceptismo, com o jogo de ideias e o conflito entre corpo e alma.
d) Amor cortês, com o poeta vassalo de uma dama inalcançável.
e) Medo da morte, com a caveira como símbolo do juízo final.
Gabarito: B.
Comentário:A alternativa correta é a B. O poema convida a deixar a corte, que é a cidade e o luxo, e a viver na choupana, junto ao rio, com o rebanho: é exatamente o fugere urbem. As alternativas A e C descrevem recursos do Barroco, não do Arcadismo. A alternativa D descreve o Trovadorismo, e a E descreve o tom barroco diante da morte, e não o convite sereno do poema.
Questão 2. Leia o trecho, criado para esta questão, no estilo de uma lira árcade:
“Aproveita, pastora, a juventude, / que a rosa da manhã à tarde murcha; / não deixes para amanhã a felicidade, / que o tempo voa e nunca mais retorna.”
O tema central desse trecho é o:
a) Carpe diem, o convite a aproveitar o presente porque a vida é breve.
b) Teocentrismo, com a submissão total à autoridade da Igreja.
c) Pessimismo romântico, com a fuga para um mundo de sonhos.
d) Nacionalismo, com a exaltação das riquezas do Brasil.
e) Realismo, com a descrição objetiva e sem idealização da vida no campo.
Gabarito: A.
Comentário:A alternativa correta é a A. A rosa que murcha é a metáfora clássica da juventude passageira, e o convite a não deixar a felicidade para amanhã é o carpe diem. A alternativa B descreve o Barroco e a Idade Média, não o Arcadismo iluminista. A C descreve o Romantismo, a D não é o tema do trecho, e a E está errada porque o campo árcade é idealizado, e não descrito de forma realista.
Questão 3. Sobre o Arcadismo brasileiro, é correto afirmar que:
a) Ele se desenvolveu apenas em Portugal, sem nenhuma produção importante no Brasil.
b) Ele teve como centro Vila Rica, em Minas Gerais, com poetas como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, vários deles ligados à Inconfidência Mineira.
c) Ele defendia a linguagem rebuscada e o exagero, como forma de superar o Classicismo.
d) Ele rejeitava qualquer influência do Iluminismo e defendia o poder absoluto dos reis.
e) Ele foi um movimento do século XVI, anterior ao Barroco.
Gabarito: B.
Comentário:A alternativa correta é a B. O Arcadismo brasileiro floresceu em Minas Gerais, no século XVIII, e vários dos seus poetas participaram da conspiração de 1789. A alternativa A ignora toda a produção mineira. A C descreve o Barroco, que é o oposto do Arcadismo. A D inverte a relação com o Iluminismo, que foi a base de ideias do Arcadismo. A E erra o século: o Arcadismo é do século XVIII, posterior ao Barroco.
Questão 4. Um estudante, ao revisar Literatura, anota: “Dirceu canta Marília, promete uma choupana simples e convida a amada a aproveitar a juventude”. Essa anotação se refere a:
a) Bocage, em seus sonetos satíricos contra a corte de Lisboa.
b) Basílio da Gama, no poema épico O Uraguai, sobre a guerra guaranítica.
c) Tomás Antônio Gonzaga, em Marília de Dirceu, com o pseudônimo pastoril de Dirceu.
d) Gregório de Matos, em seus poemas satíricos sobre a Bahia do século XVII.
e) Santa Rita Durão, no poema épico Caramuru, sobre a Bahia do século XVI.
Gabarito: C.
Comentário:A alternativa correta é a C. Dirceu é Gonzaga, Marília é a pastora amada, e a choupana simples com o convite ao presente é o centro de Marília de Dirceu. Bocage, na alternativa A, é o poeta português Elmano Sadino, e não o autor das liras a Marília. Basílio da Gama, na B, é o autor de um épico de guerra, não de liras de amor. Gregório de Matos, na D, é barroco, e Santa Rita Durão, na E, é o autor de outro épico, Caramuru.
Questão 5. Compare os dois trechos, criados para esta questão. Trecho I: “Entre a luz e as trevas, entre o céu e o inferno, / minha alma dividida chora o seu pecado”. Trecho II: “Sob a sombra da árvore, junto ao rio sereno, / o pastor canta o amor, sem culpa e sem engano”. A comparação correta entre os dois trechos é:
a) Os dois são árcades, porque os dois falam de sentimentos.
b) Os dois são barrocos, porque os dois falam de amor.
c) O trecho I é barroco, pelo conflito e pela culpa, e o trecho II é árcade, pela serenidade e pelo campo ideal.
d) O trecho I é árcade, pela antítese, e o trecho II é barroco, pela simplicidade.
e) O trecho I é romântico, e o trecho II é realista.
Gabarito: C.
Comentário:A alternativa correta é a C. O trecho I tem antítese violenta, alma dividida e pecado: marcas do Barroco. O trecho II tem sombra, rio sereno, pastor e amor sem culpa: marcas do Arcadismo. As alternativas A e B erram porque os dois trechos pertencem a movimentos diferentes. A D inverte a classificação. A E usa rótulos de outros movimentos, que não explicam as marcas dos trechos.
Questão 6. Sobre O Uraguai, de Basílio da Gama, é correto afirmar que:
a) É um poema lírico em que um pastor canta o amor por uma pastora chamada Marília.
b) É um poema épico sobre a guerra contra os guaranis das missões, que apresenta os índios vencidos, como Sepé Tiaraju, com dignidade e bravura.
c) É uma sátira barroca contra os governadores da Bahia no século XVII.
d) É um romance romântico sobre um náufrago português que vive entre os índios.
e) É um livro de sonetos de Bocage, assinado com o pseudônimo de Elmano Sadino.
Gabarito: B.
Comentário:A alternativa correta é a B. O Uraguai é um épico de 1769 sobre a guerra guaranítica, e a sua marca mais famosa é a simpatia pelos heróis indígenas vencidos. A alternativa A descreve Marília de Dirceu, de Gonzaga. A C mistura a sátira barroca de Gregório de Matos com o épico árcade. A D descreve Caramuru, de Santa Rita Durão. A E confunde a obra com a produção de Bocage.
Dica do professor
Se você só tiver dez minutos para revisar Arcadismo antes da prova, decore esta frase: campo contra cidade, presente contra espera, clareza contra exagero. Depois, decore as três expressões latinas: fugere urbem é fugir da cidade, carpe diem é aproveitar o dia, locus amoenus é o lugar ameno. Por fim, decore os quatro nomes com os seus pares: Dirceu ama Marília, Glauceste é Cláudio Manuel da Costa, Sepé é de O Uraguai, Elmano é Bocage. Com essas três listas, você resolve a maioria das questões de Arcadismo. E treine com as questões comentadas deste artigo sem olhar o gabarito antes de tentar: errar no treino e entender o erro vale mais do que acertar por acaso. Não deixe de revisar as outras escolas na sala de estudo, porque as escolas literárias costumam ser cobradas em conjunto, com comparações entre elas, e o panorama de Literatura ajuda a fixar a ordem dos movimentos.
Atenção / cuidado
Cuidado com cinco confusões muito comuns. Primeira: não confunda o pastor árcade com um trabalhador rural de verdade. O pastor do poema é um poeta disfarçado, e a pastora é, em geral, uma dama da cidade transformada em personagem do campo. Segunda: não confunda os pseudônimos. Dirceu é Gonzaga, Glauceste é Cláudio Manuel da Costa, Elmano é Bocage e Alcindo é Silva Alvarenga. Trocar esses nomes é uma armadilha clássica. Terceira: não confunda O Uraguai, de Basílio da Gama, com Caramuru, de Santa Rita Durão. Os dois são épicos árcades com índios, mas o primeiro é sobre as missões do sul e o segundo sobre a Bahia do século XVI.
Quarta: não confunda carpe diem com bagunça ou exagero. O convite árcade a aproveitar o dia é moderado e sereno, e não um convite ao descontrole. Quinta: não confunda Arcadismo com Romantismo. O Romantismo, que vem depois, também fala de natureza e de sentimento, mas com emoção intensa, subjetividade e nacionalismo, enquanto o Arcadismo fala de natureza com razão, medida e equilíbrio. Por fim, cuidado com a ideia de que o Arcadismo brasileiro é só poesia de campo: em Minas Gerais, ele está ligado à política e à Inconfidência, e ignorar essa ligação é perder um dos pontos mais cobrados sobre o tema.
Conexão com outras áreas
O Arcadismo se conecta com a História, porque só se entende plenamente com o Iluminismo, com as reformas pombalinas, com o ciclo do ouro em Minas Gerais e com a Inconfidência Mineira. A poesia árcade mineira é um documento da insatisfação colonial e do desejo de liberdade, e por isso ela aparece também nas questões de História do Brasil sobre o século XVIII. Também se conecta com a Filosofia, porque o Iluminismo, com a defesa da razão, da tolerância e da crítica à autoridade, é a base de ideias do movimento. Estudar Voltaire, Rousseau e Locke ajuda a entender por que os árcades valorizavam tanto a razão e a clareza.
Há ainda uma conexão com a Geografia e com a economia: o ouro de Minas Gerais, os impostos da Coroa, a derrama e a vida urbana de Vila Rica explicam o ambiente em que os poetas mineiros viveram e conspiraram. Na literatura posterior, o Arcadismo reaparece no Romantismo, que retomou a natureza e o sentimento, mas com outra atitude, e no Modernismo, que retomou a simplicidade da linguagem, mas com liberdade formal. Até hoje, quando alguém diz que prefere uma vida simples no campo a uma vida agitada na cidade, está repetindo, sem saber, o fugere urbem dos árcades. Perceber essas pontes ajuda não só na prova de Literatura, mas também nas questões interdisciplinares do ENEM e dos vestibulares.
Incidência
Incidência: Morno. O Arcadismo aparece com frequência moderada no ENEM e nos vestibulares: não é um dos temas mais cobrados da Literatura, mas também não pode ser ignorado, porque quando aparece, costuma vir em questões de identificação do movimento, de comparação com o Barroco, de carpe diem e fugere urbem ou de autores e obras, como Marília de Dirceu e O Uraguai, que são diretas para quem dominou as tabelas deste artigo. Vale a pena incluí-lo na sua revisão de escolas literárias, junto com o Trovadorismo, o Barroco e o estudo dos gêneros literários, para fechar o panorama da literatura em língua portuguesa até o século XVIII.



