Questões Resolvidas

Questões de Português: interpretação de texto — 10 questões com resolução comentada

Dez questões REAIS de Português que já caíram no ENEM 2023 e 2024, sobre interpretação de texto: variação linguística, funções da linguagem, crônica, literatura, cartaz e anúncio publicitário. Transcrição fiel de cada prova, gabarito oficial e resolução comentada.

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Interpretação de texto é o tema que mais aparece na prova de Português do ENEM — quase todas as questões de Linguagens pedem que você leia um texto (reportagem, crônica, romance, cartaz ou anúncio) e entenda o que ele realmente quer dizer. O segredo é ler o comando antes do texto, identificar a ideia central e desconfiar das alternativas que exageram, trocam o sentido ou falam de algo que o texto nem menciona. Abaixo, 10 questões REAIS do ENEM 2023 e 2024 (caderno azul), transcritas fielmente, com fonte, gabarito oficial e resolução comentada. Tente responder antes de abrir o gabarito!

Questão 1

Fonte: ENEM 2024 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q06 (caderno azul)

Expressões e termos utilizados no Amazonas são retratados em livro e em camisetas

“Na linguagem, podemos nos ver da forma mais verdadeira: nossas crenças, nossos valores, nosso lugar no mundo”, afirmou o doutor em linguística e professor da Ufam em seu livro Amazonês: expressões e termos usados no Amazonas. Portanto, o amazonense, com todas as suas “cunhantãs” e “curumins”, acaba por encontrar um lugar no mundo e formar uma unidade linguística, informalmente denominada de português “caboco”, que muito se diferencia do português “mineiro”, “gaúcho”, “carioca” e de tantos outros espalhados pelo Brasil. O livro, que conta com cerca de 1 100 expressões e termos típicos do falar amazonense, levou dez anos para ser construído. Para o autor, o principal objetivo da obra é registrar a linguagem.

Um designer amazonense também acha o amazonês “xibata”, tanto é que criou uma série de camisetas estampadas com o nome de Caboquês Ilustrado, que mistura o bom humor com as expressões típicas da região. A coleção conta com sete modelos já lançados, entre eles: Leseira Baré, Xibata no Balde e Até o Tucupi, e 43 ainda na fila de espera. Para o criador, as camisas têm como objetivo “resgatar o orgulho do povo manauara, do povo do Norte”.

Disponível em: https://g1.globo.com. Acesso em: 15 jan. 2024 (adaptado).

A reportagem apresenta duas iniciativas: o livro Amazonês e as camisetas do Caboquês Ilustrado. Com temática em comum, essas iniciativas

A) recomendam produtos feitos por empreendedores da região Norte.
B) ressaltam diferenças entre o falar manauara e outros falares.
C) reverenciam o trabalho feito por pesquisadores brasileiros.
D) destacam a descontração no jeito de ser do amazonense.
E) valorizam o repertório linguístico do povo do Amazonas.

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Gabarito oficial: E

Resolução: as duas iniciativas têm o mesmo propósito: registrar e celebrar o jeito de falar do Amazonas — o livro reúne 1 100 expressões e as camisetas estampam o “caboquês” para “resgatar o orgulho do povo manauara”. Ou seja, ambas valorizam o repertório linguístico do povo do Amazonas. A alternativa A está errada porque o texto não recomenda a compra de nada; B, porque as diferenças entre os falares são apenas citadas, não são o ponto em comum das iniciativas; C, porque não há reverência a pesquisadores; D, porque a descontração aparece só nas camisetas e não resume as duas iniciativas.

Questão 2

Fonte: ENEM 2024 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q13 (caderno azul)

Diante do pouco dinheiro para produtos básicos de sobrevivência, são as adolescentes o alvo mais vulnerável à precariedade menstrual. Sofrem com dois fatores: o desconhecimento da importância da higiene menstrual para sua saúde e a dependência dos pais ou familiares para a compra do absorvente, que acaba entrando na lista de artigos supérfluos da casa.

A falta do absorvente afeta diretamente o desempenho escolar dessas estudantes e, como consequência, restringe o desenvolvimento de seu potencial na vida adulta.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), do IBGE, revelaram que, das meninas entre 10 e 19 anos que deixaram de fazer alguma atividade (estudar, realizar afazeres domésticos, trabalhar ou, até mesmo, brincar) por problemas de saúde nos 14 dias anteriores à data da pesquisa, 2,88% deixaram de fazê-la por problemas menstruais. Para efeitos de comparação, o índice de meninas que relataram não ter conseguido realizar alguma de suas atividades por gravidez e parto foi menor: 2,55%.

Dados da ONU apontam que, no mundo, uma em cada dez meninas falta às aulas durante o período menstrual. No Brasil, esse número é ainda maior: uma entre quatro estudantes já deixou de ir à escola por não ter absorventes. Com isso, perdem, em média, até 45 dias de aula, por ano letivo, como revela o levantamento Impacto da Pobreza Menstrual no Brasil. O ato biológico de menstruar acaba por virar mais um fator de desigualdade de oportunidades entre os gêneros.

Disponível em: www12.senado.leg.br. Acesso em: 21 jan. 2024 (adaptado).

Esse texto é marcado pela função referencial da linguagem, uma vez que cumpre o propósito de

A) sugerir soluções para um problema de ordem social.
B) estabelecer uma relação entre menstruação e gravidez.
C) comparar o desempenho acadêmico de mulheres e homens.
D) informar o leitor sobre o impacto da pobreza menstrual na vida das mulheres.
E) orientar o público sobre a necessidade de rotinas de autocuidado na adolescência.

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Gabarito oficial: D

Resolução: a função referencial (ou denotativa) é aquela centrada no referente, na informação objetiva — e é exatamente o que o texto faz: apresenta dados do IBGE e da ONU sobre quantas meninas faltam à escola por não terem absorventes. A alternativa A está errada porque o texto não propõe soluções; B, porque a gravidez aparece só como dado de comparação, não como relação estabelecida; C, porque não há comparação entre o desempenho de mulheres e homens; E, porque o texto não orienta ninguém a adotar rotinas de autocuidado.

Questão 3

Fonte: ENEM 2024 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q20 (caderno azul)

Sempre passo nervoso quando leio minha crônica neste jornal e percebo que escapuliu a palavra “coisa” em alguma frase. Acontece que “coisa” está entre as coisas mais deliciosas do mundo.

O primeiro banho da minha filha foi embalado pela minha voz dizendo, ao fundo, “cuidado, ela ainda é uma coisinha tão pequena”. “Viu só que amor? Nunca vi coisa assim”. O amor que não dá conta de explicação é “a coisa” em seu esplendor e excelência. “Alguma coisa acontece no meu coração” é a frase mais bonita que alguém já disse sobre São Paulo. E quando Caetano, citado aqui pela terceira vez pra defender a dimensão poética da coisa, diz “coisa linda”, nós sabemos que nenhuma palavra definiria de forma mais profunda e literária o quão bela e amada uma coisa pode ser.

“Coisar” é verbo de quem está com pressa ou tem lapsos de memória. É pra quando “mexe qualquer coisa dentro doida”. E que coisa magnífica poder se expressar tal qual Caetano Veloso. Agora chega, porque “esse papo já tá qualquer coisa” e eu já tô “pra lá de Marrakech”.

TATI BERNARDI. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 3 jan. 2024 (adaptado).

O recurso utilizado na progressão textual para garantir a unidade temática dessa crônica é a

A) intertextualidade, marcada pela citação de versos de letras de canções.
B) metalinguagem, marcada pela referência à escrita de crônicas pela autora.
C) reiteração, marcada pela repetição de uma determinada palavra e de seus cognatos.
D) conexão, marcada pela presença dos conectores lógicos “quando” e “porque” entre orações.
E) pronominalização, marcada pela retomada de “minha filha” e “um namorado ruim” pelos pronomes “ela” e “lo”.

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Gabarito oficial: C

Resolução: do primeiro ao último parágrafo, a crônica gira em torno da palavra “coisa” e de seus cognatos — “coisinha”, “coisar” — repetidos em quase todas as frases. Essa repetição é a reiteração, o recurso que mantém a unidade temática do texto. A alternativa A está errada porque, embora haja citações de Caetano Veloso, elas não são o recurso que garante a unidade da crônica; B, porque a referência à própria escrita é secundária; D, porque “quando” e “porque” aparecem, mas não sustentam a progressão temática; E, porque não há essa retomada pronominal no texto.

Questão 4

Fonte: ENEM 2024 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q28 (caderno azul)

Data venia

Conheci Bentinho e Capitu nos meus curiosos e antigos quinze anos. E os olhos de água da jovem de Matacavalos atraíram-me, seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito de ser, flor e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador e seu texto, feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito de defesa. Sem acesso ao discurso, usurpado, sutilmente, pela palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro vitimado. Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher, chega a desejar a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar, sem qualquer remorso. No fundo, uma pobre consciência dilacerada, um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e acaba faltando-se a si mesmo.

Retomei inúmeras vezes a triste história daquele amor em desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo, com a crítica do texto; poucos, muito poucos, escapam das bem traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré o beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu atributo consagrador.

Eis que, diante de mais um retorno ao romance, veio a iluminação: por que não dar voz plena àquela mulher, brasileira do século XIX, que, apesar de todas as artimanhas e do maquiavelismo do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas do gênio que foi Machado de Assis? A empresa era temerária, mas escrever é sempre um risco. Apoiado no espaço de liberdade em que habita a Literatura, arrisquei-me.

O resultado: este livro em que, além-túmulo, como Brás Cubas, a dona dos olhos de ressaca assume, à luz do mistério da arte literária e do próprio texto do Dr. Bento Santiago, seu discurso e sua verdade.

PROENÇA FILHO, D. Capitu: memórias póstumas. Rio de Janeiro: Atrium, 1998.

Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de Machado de Assis, o autor desse texto

A) relaciona aspectos centrais da obra original e, então, reafirma o ponto de vista adotado.
B) explica os pontos de vista de críticos da literatura e, por fim, os redimensiona na discussão.
C) introduz elementos relevantes da história e, na sequência, apresenta motivos para refutá-los.
D) justifica as razões pelas quais adotou certa abordagem e, em seguida, reconsidera tal escolha.
E) contextualiza o enredo de forma subjetiva e, na conclusão, explicita o foco narrativo a ser assumido.

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Gabarito oficial: E

Resolução: o autor começa contando, de forma pessoal e subjetiva, como conheceu Bentinho e Capitu aos quinze anos e como se indignou com o narrador que condena a mulher sem lhe dar direito de defesa. Só na conclusão ele explicita o que vai fazer: dar voz a Capitu, que assume “seu discurso e sua verdade” num livro narrado por ela, como Brás Cubas. A alternativa A está errada porque ele não reafirma o ponto de vista de Bentinho — ele o contesta; B, porque ele menciona a crítica, mas não a redimensiona: ele propõe outra leitura; C, porque ele não refuta os elementos da história, ele os usa; D, porque ele não reconsidera a escolha — ele a assume até o fim.

Questão 5

Fonte: ENEM 2024 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q33 (caderno azul)

Cartaz da Campanha do Agasalho da Defesa Civil do Rio Grande do Sul: uma mulher segura um agasalho laranja com a frase 'Vou deixar que você se vá' e o texto 'Deixe suas roupas aquecerem quem mais precisa'
Cartaz da Campanha do Agasalho — Defesa Civil do Rio Grande do Sul (figura original da prova)

Disponível em: https://defesacivil.rs.gov.br. Acesso em: 11 mar. 2024 (adaptado).

Nesse cartaz, a expressão “Vou deixar que você se vá”, em conjunto com os elementos não verbais utilizados, tem a finalidade de

A) incentivar o descarte de itens defeituosos.
B) promover a reciclagem de produtos usados.
C) garantir a conservação de roupas de inverno.
D) relacionar o gesto de doação à ideia de desapego.
E) comparar a peça de roupa ao sentimento de despedida.

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Gabarito oficial: D

Resolução: no cartaz, a mulher segura um agasalho com a frase “Vou deixar que você se vá” — como se a roupa fosse alguém de quem nos despedimos. Junto com o texto “Deixe suas roupas aquecerem quem mais precisa”, a peça constrói um jogo: doar é “deixar ir”, é desapegar-se de algo para aquecer quem precisa. A alternativa A está errada porque não há nada sobre defeito; B, porque não se trata de reciclagem, e sim de doação; C, porque o objetivo não é conservar as roupas; E, porque a comparação entre a roupa e a despedida é o recurso usado, mas a finalidade do cartaz é relacionar a doação ao desapego — e é isso que o comando pergunta.

Questão 6

Fonte: ENEM 2024 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q34 (caderno azul)

Teclado amazônico

Em novembro de 2023, uma professora indígena recebeu uma missão: verter as regras de um jogo de tabuleiro infantil do português para o tukano, sua língua nativa. Com vinte anos de experiência como professora de línguas em Taracuá, no Amazonas, ela já se dedicava à tradução havia tempos. O trabalho ficou mais fácil graças a um aplicativo lançado no ano anterior: com o Linklado em seu computador, ela traduziu as sete páginas das instruções do jogo em dois dias. Sem esse recurso, a tarefa seria bem mais trabalhosa. Antes dele, diz a professora, as transcrições de línguas indígenas exigiam o esforço quase manual de produzir diacríticos (acentos gráficos) e letras que não constam no teclado de aplicativos de mensagens ou programas de texto.

Para a pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), idealizadora do aplicativo, o Linklado representa uma revolução. O programa não restringe combinações de acentos, e isso poderá facilitar a criação de representações gráficas para fonemas que ainda não têm forma escrita. “Eu mirei em uma dor e atingimos várias outras”, diz.

“O Linklado possibilita que o Brasil reconheça a sua diversidade linguística”, afirma uma antropóloga que é colega da pesquisadora no Inpa e faz parte da equipe do aplicativo. Ela defende que escrever na língua materna é uma das principais formas de preservá-la.

Disponível em: https://piaui.folha.uol.com.br. Acesso em: 3 fev. 2024 (adaptado).

De acordo com esse texto, o aplicativo Linklado contribuiu para a

A) criação de fonemas representativos de línguas indígenas no meio digital.
B) democratização do registro escrito de línguas dos povos originários.
C) adaptação de regras de jogos de tabuleiro de origem indígena.
D) divulgação das técnicas de tradução de línguas indígenas.
E) aprendizagem da lingua portuguesa pelos indígenas.

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Gabarito oficial: B

Resolução: o texto mostra que, antes do Linklado, escrever nas línguas indígenas exigia um esforço quase manual, porque os teclados não tinham os acentos e as letras dessas línguas. O aplicativo removeu essa barreira, permitindo que qualquer pessoa registre sua língua materna por escrito — ou seja, democratizou o registro escrito das línguas dos povos originários, o que ajuda a preservá-las. A alternativa A está errada porque o aplicativo não cria fonemas, e sim representações gráficas para fonemas que já existem; C, porque o jogo de tabuleiro é apenas o exemplo usado na reportagem; D, porque o texto não divulga técnicas de tradução; E, porque o aplicativo não ensina português aos indígenas.

Questão 7

Fonte: ENEM 2023 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q08 (caderno azul)

De quem é esta língua?

Uma pequena editora brasileira, a Urutau, acaba de lançar em Lisboa uma “antologia antirracista de poetas estrangeiros em Portugal”, com o título Volta para a tua terra. O livro denuncia as diversas formas de racismo a que os imigrantes estão sujeitos. Alguns dos poetas brasileiros antologiados queixam-se do desdém com que um grande número de portugueses acolhe o português brasileiro. É uma queixa frequente.

“Aqui em Portugal eles dizem / — eles dizem — / que nosso português é errado, que nós não falamos português”, escreve a poetisa paulista Maria Giulia Pinheiro, para concluir: “Se a sua linguagem, a lusitana, / ainda conserva a palavra da opressão / ela não é a mais bonita do mundo. / Ela é uma das mais violentas”.

AGUALUSA, J. E. Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em: 22 nov. 2021 (adaptado).

O texto de Agualusa tematiza o preconceito em relação ao português brasileiro. Com base no trecho citado pelo autor, infere-se que esse preconceito se deve

A) à dificuldade de consolidação da literatura brasileira em outros países.
B) aos diferentes graus de instrução formal entre os falantes de língua portuguesa.
C) à existência de uma língua ideal que alguns falantes lusitanos creem ser a falada em Portugal.
D) ao intercâmbio cultural que ocorre entre os povos dos diferentes países de língua portuguesa.
E) à distância territorial entre os falantes do português que vivem em Portugal e no Brasil.

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Gabarito oficial: C

Resolução: a poetisa citada diz que, em Portugal, afirmam que o português brasileiro “é errado” e que os brasileiros “não falam português”. Isso só faz sentido se quem diz isso acreditar que existe uma única forma certa de falar a língua — a de Portugal —, ou seja, uma língua ideal. É o preconceito linguístico: tratar a variedade do outro como erro. A alternativa A está errada porque o texto não fala da consolidação da literatura brasileira; B, porque não há menção a graus de instrução; D, porque o intercâmbio cultural não explica o preconceito; E, porque a distância territorial não é apontada como causa.

Questão 8

Fonte: ENEM 2023 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q15 (caderno azul)

As cinzas do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, consumido pelas chamas no mês de setembro de 2018, são mais do que restos de fósseis, cerâmicas e espécimes raros. O museu abrigava, entre mais de 20 milhões de peças, os esqueletos com as respostas para perguntas que ainda não haviam sido respondidas — ou sequer feitas — por pesquisadores brasileiros. E o incêndio pode ter calado para sempre palavras e cantos indígenas ancestrais, de línguas que não existem mais no mundo.

O acervo do local continha gravações de conversas, cantos e rituais de dezenas de sociedades indígenas, muitas feitas durante a década de 1960 com antigos gravadores de rolo e que ainda não haviam sido digitalizadas. Alguns dos registros abordavam línguas já extintas, sem falantes originais ainda vivos. “A esperança é que outras instituições tenham registros dessas línguas”, diz a linguista Marilia Facó Soares. A pesquisadora, que trabalha com os índios Tikuna, o maior grupo da Amazônia brasileira, crê ter perdido parte de seu material. “Terei que fazer novas viagens de campo para recompor meus arquivos. Mas obviamente não dá para recuperar a fala de nativos já falecidos, geralmente os mais idosos”, lamenta.

Disponível em: https://brasil.elpais.com. Acesso em: 10 dez. 2018 (adaptado).

A perda dos registros linguísticos no incêndio do Museu Nacional tem impacto potencializado, uma vez que

A) exige a retomada das pesquisas por especialistas de diferentes áreas.
B) representa danos irreparáveis à memória e à identidade nacionais.
C) impossibilita o surgimento de novas pesquisas na área.
D) resulta na extinção da cultura de povos originários.
E) inviabiliza o estudo da língua do povo Tikuna.

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Gabarito oficial: B

Resolução: o impacto é “potencializado” porque os registros perdidos eram únicos: gravações de línguas já extintas, sem falantes vivos, que ainda nem haviam sido digitalizadas. Não dá para regravar a fala de quem já morreu — a perda é irreparável e atinge a memória e a identidade nacionais, pois ali estava parte da história dos povos originários. A alternativa A está errada porque retomar pesquisas é uma consequência, não o impacto em si; C, porque o texto não diz que novas pesquisas ficaram impossíveis; D, porque o incêndio não extinguiu a cultura dos povos originários; E, porque o estudo do Tikuna fica prejudicado, mas o texto não diz que foi inviabilizado — e o impacto apontado é bem mais amplo que um só povo.

Questão 9

Fonte: ENEM 2023 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q16 (caderno azul)

Mandioca, macaxeira, aipim e castelinha são nomes diferentes da mesma planta. Semáforo, sinaleiro e farol também significam a mesma coisa. O que muda é só o hábito cultural de cada região. A mesma coisa acontece com a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Embora ela seja a comunicação oficial da comunidade surda no Brasil, existem sinais que variam em relação à região, à idade e até ao gênero de quem se comunica. A cor verde, por exemplo, possui sinais diferentes no Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo. São os regionalismos na língua de sinais.

Essas variações são um dos temas da disciplina Linguística na língua de sinais, oferecida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) ao longo do segundo semestre. “Muitas pessoas pensam que a língua de sinais é universal, o que não é verdade”, explica a professora e chefe do Departamento de Linguística, Literatura e Letras Clássicas da Unesp. “Mesmo dentro de um mesmo país, ela sofre variação em relação à localização geográfica, à faixa etária e até ao gênero dos usuários”, completa a especialista.

Os surdos podem criar sinais diferentes para identificar lugares, objetos e conceitos. Em São Paulo, o sinal de “cerveja” é feito com um giro do punho como uma meia-volta. Em Minas, a bebida é citada quando os dedos indicador e médio batem no lado do rosto. Também ocorrem mudanças históricas. Um sinal pode sofrer alterações decorrentes dos costumes da geração que o utiliza.

Disponível em: www.educacao.sp.gov.br. Acesso em: 1 nov. 2021 (adaptado).

Nesse texto, a Língua Brasileira de Sinais (Libras)

A) passa por fenômenos de variação linguística como qualquer outra língua.
B) apresenta variações regionais, assumindo novo sentido para algumas palavras.
C) sofre mudança estrutural motivada pelo uso de sinais diferentes para algumas palavras.
D) diferencia-se em todo o Brasil, desenvolvendo cada região a sua própria língua de sinais.
E) é ininteligível para parte dos usuários em razão das mudanças de sinais motivadas geograficamente.

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Gabarito oficial: A

Resolução: o texto inteiro mostra que a Libras varia por região, idade e gênero — exatamente como acontece com as línguas orais (mandioca/macaxeira/aipim é o exemplo de abertura). A ideia central é que a língua de sinais não é universal nem fixa: ela passa pelos mesmos fenômenos de variação linguística que qualquer outra língua. A alternativa B está errada porque a variação não muda o sentido das palavras; C, porque não há mudança estrutural na língua; D, porque as regiões não criam línguas de sinais próprias — é a mesma Libras, com variações; E, porque o texto não diz que a Libras fica ininteligível para os usuários.

Questão 10

Fonte: ENEM 2023 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q24 (caderno azul)

Anúncio da Defensoria Pública: três mulheres de máscara, com o texto '#JuntasSomosMaisFortes — Disque 180. A Defensoria não para! Em tempos de isolamento social por conta da pandemia de covid-19, a Defensoria Pública alerta para o aumento da violência contra a mulher! Não se cale! Denuncie!'
Anúncio da Defensoria Pública de Mato Grosso (figura original da prova)

#JuntasSomosMaisFortes
Disque 180 — A Defensoria não para!
Em tempos de isolamento social por conta da pandemia de covid-19, a Defensoria Pública alerta para o aumento da violência contra a mulher!
Não se cale! Denuncie!

Disponível em: www.defensoriapublica.mt.gov.br. Acesso em: 29 out. 2021 (adaptado).

Esse anúncio publicitário, veiculado durante o contexto da pandemia de covid-19, tem por finalidade

A) divulgar o canal telefônico de atendimento a casos de violência contra a mulher.
B) informar sobre a atuação de uma entidade defensora da mulher vítima de violência.
C) evidenciar o trabalho da Defensoria Pública em relação ao problema do abuso contra a mulher.
D) alertar a sociedade sobre o aumento da violência contra a mulher em decorrência do coronavírus.
E) incentivar o público feminino a denunciar crimes de violência contra a mulher durante o período de isolamento.

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Gabarito oficial: E

Resolução: o anúncio termina com uma ordem direta — “Não se cale! Denuncie!” — e divulga o Disque 180. O aumento da violência durante o isolamento é o contexto, mas a finalidade do anúncio é levar as mulheres a denunciarem. A alternativa A está errada porque divulgar o canal é o meio, não a finalidade; B e C, porque informar sobre a atuação da Defensoria e evidenciar seu trabalho são efeitos secundários do anúncio; D, porque alertar sobre o aumento da violência é o contexto apresentado, não o objetivo final — o objetivo é a denúncia.