
Direto ao assunto
Cultura é um dos temas mais certos de Sociologia no ENEM — e quase sempre vem junto com a indústria cultural. Quilombos, frevo, patrimônio imaterial, etnocentrismo, identidades na pós-modernidade e a crítica de Adorno e Horkheimer à cultura transformada em mercadoria: tudo isso já caiu na prova de Ciências Humanas (e de Linguagens). O segredo dessas questões é ler o texto com os conceitos na mão: quem produz a cultura, para quem ela serve e o que ela revela sobre a sociedade. Abaixo, 10 questões REAIS do ENEM (2015 a 2020), transcritas fielmente, com fonte, gabarito oficial e resolução comentada. Tente responder antes de abrir o gabarito!
Questão 1
Fonte: ENEM 2019 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
A comunidade de Mumbuca, em Minas Gerais, tem uma organização coletiva de tal forma expressiva que coopera para o abastecimento de mantimentos da cidade do Jequitinhonha, o que pode ser atestado pela feira aos sábados. Em Campinho da Independência, no Rio de Janeiro, o artesanato local encanta os frequentadores do litoral sul do estado, além do restaurante quilombola que atende aos turistas.
ALMEIDA, A. W. B. (Org.). Cadernos de debates nova cartografia social: Territórios quilombolas e conflitos. Manaus: Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia; UEA Edições, 2010 (adaptado).
No texto, as estratégias territoriais dos grupos de remanescentes de quilombo visam garantir:
- A) perdão de dívidas fiscais.
- B) reserva de mercado local.
- C) inserção econômica regional.
- D) protecionismo comercial tarifário.
- E) benefícios assistenciais públicos.
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Gabarito oficial: C
A feira de Mumbuca, o artesanato e o restaurante quilombola de Campinho são atividades produtivas próprias das comunidades: elas geram renda e inserem os quilombolas na economia da região, sem depender de favor do Estado. Por isso a resposta é a inserção econômica regional. Não há perdão de dívidas (A) nem reserva de mercado (B) no texto; protecionismo tarifário (D) é política de comércio exterior, fora do assunto; e benefícios assistenciais (E) seriam ajuda do governo, o oposto da autonomia produtiva descrita.
Questão 2
Fonte: ENEM 2019 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
A maior parte das agressões e manifestações discriminatórias contra as religiões de matrizes africanas ocorrem em locais públicos (57%). É na rua, na via pública, que tiveram lugar mais de 2/3 das agressões, geralmente em locais próximos às casas de culto dessas religiões. O transporte público também é apontado como um local em que os adeptos das religiões de matrizes africanas são discriminados, geralmente quando se encontram paramentados por conta dos preceitos religiosos.
REGO, L. F.; FONSECA, D. P. R.; GIACOMINI, S. M. Cartografia social de terreiros no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2014.
As práticas descritas no texto são incompatíveis com a dinâmica de uma sociedade laica e democrática porque
- A) asseguram as expressões multiculturais.
- B) promovem a diversidade de etnias.
- C) falseiam os dogmas teológicos.
- D) estimulam os rituais sincréticos.
- E) restringem a liberdade de credo.
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Gabarito oficial: E
Num Estado laico e democrático, todo cidadão tem o direito de professar sua fé em público, com suas roupas e símbolos religiosos. As agressões descritas — justamente contra quem está paramentado na rua ou no ônibus — impedem esse direito na prática: restringem a liberdade de credo. As alternativas A e B descrevem o que uma sociedade laica e democrática deveria garantir, não o efeito das agressões; C e D não têm relação com o texto.
Questão 3
Fonte: ENEM PPL 2019 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
O frevo é uma forma de expressão musical, coreográfica e poética, enraizada no Recife e em Olinda, no estado de Pernambuco. O frevo é formado pela grande mescla de gêneros musicais, danças, capoeira e artesanato. É uma das mais ricas expressões da inventividade e capacidade de realização popular na cultura brasileira. Possui a capacidade de promover a criatividade humana e também o respeito à diversidade cultural. No ano de 2012, a Unesco proclamou o frevo como Patrimônio Imaterial da Humanidade.
PORTAL BRASIL. Disponível em: www.brasil.gov.br. Acesso em: 10 fev. 2013.
A característica da manifestação cultural descrita que justifica a sua condição de Patrimônio Imaterial da Humanidade é a
- A) conversão dos festejos em produto da elite.
- B) expressão de sentidos construídos coletivamente.
- C) dominação ideológica de um grupo étnico sobre outros.
- D) disseminação turística internacional dos eventos festivos.
- E) identificação de simbologias presentes nos monumentos artísticos.
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Gabarito oficial: B
O patrimônio imaterial não é um prédio nem um objeto: é uma prática viva, transmitida e recriada por uma comunidade. O frevo nasce da mescla de música, dança, capoeira e artesanato do povo pernambucano — sentidos construídos coletivamente, ao longo de gerações. Por isso ele foi reconhecido pela Unesco. Não é produto da elite (A), não domina ninguém ideologicamente (C), o turismo (D) é consequência e não a justificativa, e não há monumentos envolvidos (E).
Questão 4
Fonte: ENEM PPL 2019 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
É amplamente conhecida a grande diversidade gastronômica da espécie humana. Frequentemente, essa diversidade é utilizada para classificações depreciativas. Assim, no início do século, os americanos denominavam os franceses de “comedores de rãs”. Os índios kaapor discriminam os timbiras chamando-os pejorativamente de “comedores de cobra”. E a palavra potiguara pode significar realmente “comedores de camarão”. As pessoas não se chocam apenas porque as outras comem coisas variadas, mas também pela maneira que agem à mesa. Como utilizamos garfos, surpreendemo-nos com o uso dos palitos pelos japoneses e das mãos por certos segmentos de nossa sociedade.
LARAIA, R. Cultura: um conceito antropológico. São Paulo: Jorge Zahar, 2001 (adaptado).
O processo de estranhamento citado, com base em um conjunto de representações que grupos ou indivíduos formam sobre outros, tem como causa o(a)
- A) reconhecimento mútuo entre povos.
- B) etnocentrismo recorrente entre populações.
- C) comportamento hostil em zonas de conflito.
- D) constatação de agressividade no estado de natureza.
- E) transmutação de valores no contexto da modernidade.
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Gabarito oficial: B
Chamar o outro de “comedor de rãs” ou “comedor de cobra” é julgar a cultura alheia a partir dos padrões da própria cultura — e ainda por cima com tom depreciativo. Esse é o conceito clássico de etnocentrismo, central em Roque de Barros Laraia. O antídoto dele, que o ENEM cobra junto, é o relativismo cultural: entender cada prática dentro do seu próprio contexto. Não há reconhecimento mútuo (A) — há julgamento; não é conflito armado (C), nem estado de natureza (D), nem mudança de valores moderna (E).
Questão 5
Fonte: ENEM PPL 2019 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
Quanto mais a vida social se torna mediada pelo mercado global de estilos, lugares e imagens, pelas viagens internacionais, pelas imagens da mídia e pelos sistemas de comunicação interligados, mais as identidades se tornam desvinculadas — desalojadas — de tempos, lugares, histórias e tradições específicos e parecem “flutuar livremente”. Somos confrontados por uma gama de diferentes identidades (cada qual nos fazendo apelos, ou melhor, fazendo apelos a diferentes partes de nós), dentre as quais parece possível fazer uma escolha.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
Do ponto de vista conceitual, a transformação identitária descrita resulta na constituição de um sujeito
- A) altruísta.
- B) dependente.
- C) nacionalista.
- D) multifacetado.
- E) territorializado.
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Gabarito oficial: D
Para Stuart Hall, a identidade na pós-modernidade não é fixa nem única: ela é fragmentada, feita de várias identidades que convivem e se alternam — o sujeito é multifacetado. As identidades “flutuam livremente”, desvinculadas de um território ou de uma tradição só. Por isso não é um sujeito nacionalista (C), preso a uma nação, nem territorializado (E), preso a um lugar; altruísta (A) e dependente (B) não descrevem o processo do texto.
Questão 6
Fonte: ENEM 2018 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
Outra importante manifestação das crenças e tradições africanas na Colônia eram os objetos conhecidos como “bolsas de mandinga”. A insegurança tanto física como espiritual gerava uma necessidade generalizada de proteção: das catástrofes da natureza, das doenças, da má sorte, da violência dos núcleos urbanos, dos roubos, das brigas, dos malefícios de feiticeiros etc. Também para trazer sorte, dinheiro e até atrair mulheres, o costume era corrente nas primeiras décadas do século XVIII, envolvendo não apenas escravos, mas também homens brancos.
CALAINHO, D. B. Feitiços e feiticeiros. In: FIGUEIREDO, L. História do Brasil para ocupados. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013 (adaptado).
A prática histórico-cultural de matriz africana descrita no texto representava um(a)
- A) expressão do valor das festividades da população pobre.
- B) ferramenta para submeter os cativos ao trabalho forçado.
- C) estratégia de subversão do poder da monarquia portuguesa.
- D) elemento de conversão dos escravos ao catolicismo romano.
- E) instrumento para minimizar o sentimento de desamparo social.
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Gabarito oficial: E
As bolsas de mandinga eram amuletos de proteção: num mundo de doenças, violência, roubos e má sorte, escravizados — e até homens brancos — carregavam esses objetos para se sentirem menos desamparados. A função é simbólica e psicológica: dar segurança diante da insegurança generalizada. Não é festa (A), não serve para submeter ninguém ao trabalho (B — é o contrário: era um recurso dos próprios cativos), não é um ato político contra a monarquia (C) e não converte ninguém ao catolicismo (D).
Questão 7
Fonte: ENEM 2017 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
E venham, então, os alegres incendiários de dedos carbonizados! Vamos! Ateiem fogo às estantes das bibliotecas! Desviem o curso dos canais, para inundar os museus! Empunhem as picaretas, os machados, os martelos e deitem abaixo sem piedade as cidades veneradas!
MARINETTI, F. T. Manifesto futurista. Disponível em: www.sibila.com.br. Acesso em: 2 ago. 2012 (adaptado).
Que princípio marcante do Futurismo e comum a várias correntes artísticas e culturais das primeiras três décadas do século XX está destacado no texto?
- A) A tradição é uma força incontornável.
- B) A arte é expressão da memória coletiva.
- C) A modernidade é a superação decisiva da história.
- D) A realidade cultural é determinada economicamente.
- E) A memória é um elemento crucial da identidade cultural.
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Gabarito oficial: C
Queimar bibliotecas, inundar museus e demolir as “cidades veneradas”: o Manifesto Futurista de Marinetti prega a destruição do passado para abrir caminho ao novo — velocidade, máquina, futuro. É a ideia de que a modernidade supera decisivamente a história. A alternativa A diz o oposto (a tradição como força incontornável); B e E valorizam a memória, que o texto quer destruir; D traz determinismo econômico, que não é o tema do trecho.
Questão 8
Fonte: ENEM 2015 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
Só num sentido muito restrito, o indivíduo cria com seus próprios recursos o modo de falar e de pensar que lhe são atribuídos. Fala o idioma de seu grupo; pensa à maneira de seu grupo. Encontra a sua disposição apenas determinadas palavras e significados. Estas não só determinam, em grau considerável, as vias de acesso mental ao mundo circundante, mas também mostram, ao mesmo tempo, sob que ângulo e em que contexto de atividade os objetos foram até agora perceptíveis ao grupo ou ao indivíduo.
MANNHEIM, K. Ideologia e utopia. Porto Alegre: Globo, 1950 (adaptado).
Ilustrando uma proposição básica da sociologia do conhecimento, o argumento de Karl Mannheim defende que o(a)
- A) conhecimento sobre a realidade é condicionado socialmente.
- B) submissão ao grupo manipula o conhecimento do mundo.
- C) divergência é um privilégio de indivíduos excepcionais.
- D) educação formal determina o conhecimento do idioma.
- E) domínio das línguas universaliza o conhecimento.
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Gabarito oficial: A
Mannheim é um dos pais da sociologia do conhecimento: o que pensamos — e até as palavras que temos para pensar — vem do grupo social a que pertencemos. O conhecimento sobre a realidade é condicionado socialmente. Não é manipulação (B): condicionar não é o mesmo que manipular; não é privilégio de excepcionais (C) — vale para todo indivíduo; não é a escola formal que determina o idioma (D); e dominar línguas não universaliza o conhecimento (E).
Questão 9
Fonte: ENEM 2016 — Ciências Humanas e suas Tecnologias
Hoje, a indústria cultural assumiu a herança civilizatória da democracia de pioneiros e empresários, que tampouco desenvolvera uma fineza de sentido para os desvios espirituais. Todos são livres para dançar e para se divertir do mesmo modo que, desde a neutralização histórica da religião, são livres para entrar em qualquer uma das inúmeras seitas. Mas a liberdade de escolha da ideologia, que reflete sempre a coerção econômica, revela-se em todos os setores como a liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa.
ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
A liberdade de escolha na civilização ocidental, de acordo com a análise do texto, é um(a)
- A) legado social.
- B) patrimônio político.
- C) produto da moralidade.
- D) conquista da humanidade.
- E) ilusão da contemporaneidade.
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Gabarito oficial: E
A frase-chave é a última: a “liberdade de escolha” revela-se como “a liberdade de escolher o que é sempre a mesma coisa”. Para Adorno e Horkheimer, criadores do conceito de indústria cultural, os produtos culturais são padronizados e vendidos como se fossem diferentes — a escolha do consumidor é uma ilusão, porque a coerção econômica está por trás de tudo. Não é legado (A), patrimônio (B), moralidade (C) nem conquista (D): é ilusão da contemporaneidade.
Questão 10
Fonte: ENEM Digital 2020 — Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Q15
Indústria cultural da felicidade
Tornou-se perigoso o emprego da palavra felicidade desde seu mau uso pela propaganda. Os que se negam a usá-la acreditam liberar os demais dos desvios das falsas necessidades, das bugigangas que se podem comprar em shoppings grã-finos ou em camelôs na beira da calçada, que, juntos, sustentam a indústria cultural da felicidade à qual foi reduzido o que, antes, era o ideal ético de uma vida justa. Infelicidade poderia ser o nome próprio desse novo estado da alma humana que se perdeu de si ao perder-se do sentido do que está a fazer. Desespero é um termo ainda mais agudo quando se trata da perda do sentido das ações pela perda da capacidade de reflexão sobre o que se faz. A felicidade publicitária está ao alcance dos dedos e não promete um depois. Resulta disso a massa de “desesperados” trafegando como zumbis nos shoppings e nas farmácias do país em busca de alento.
TIBURI, M. Disponível em: http://revistacult.uol.com.br. Acesso em: 12 nov. 2014 (adaptado).
Ao reprovar a ação da indústria da felicidade e um comportamento humano, o texto associa a
- A) ansiedade recorrente ao lançamento de novidades no mercado.
- B) visita frequente ao shopping à resolução de problemas cotidianos.
- C) atitude impensada ao atendimento de necessidades emergenciais.
- D) postura consumista à crença na promessa ilusória de anúncios publicitários.
- E) vantagem econômica à venda de produtos falsificados no mercado ambulante.
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Gabarito oficial: D
A “indústria cultural da felicidade” vende a ideia de que comprar traz felicidade — a felicidade “está ao alcance dos dedos” e não promete um depois. Quem acredita nisso vira o “desesperado” que trafega como zumbi pelos shoppings: a postura consumista nasce da crença na promessa ilusória da propaganda. Não é ansiedade por lançamentos (A) — o texto não fala de novidades; não é ir ao shopping resolver problemas (B); não há emergências no texto (C); e os camelôs são citados como parte da mesma indústria, não como vantagem econômica de falsificados (E).
Resumo para revisar: cultura no ENEM é, antes de tudo, conceito aplicado ao texto: etnocentrismo (julgar o outro pelos seus padrões) contra relativismo cultural; patrimônio imaterial como prática viva e coletiva; identidades fragmentadas na pós-modernidade (Hall); conhecimento condicionado pelo grupo (Mannheim); e indústria cultural (Adorno e Horkheimer): cultura padronizada, vendida como mercadoria, em que a “liberdade de escolha” é a liberdade de escolher sempre a mesma coisa — inclusive a felicidade. Na dúvida, volte ao texto: a resposta costuma estar nele, não na sua opinião sobre o tema.



