A obra “A Abóbada”, de Alexandre Herculano, é um conto histórico publicado em 1839 na revista “O Panorama”. A narrativa centra-se na construção do grandioso Mosteiro da Batalha e nos dramas pessoais e nacionalistas que se desenrolam em torno de sua imponente abóbada. O enredo é ambientado em 1401, sob o reinado de D. João I, um período de consolidação da identidade portuguesa após a crise de 1383-1385.
O protagonista é Afonso Domingues, o mestre arquiteto português responsável pelo projeto original da abóbada do Mosteiro da Batalha. Afonso, um veterano da Batalha de Aljubarrota e homem de profundo amor pela pátria, concebeu uma abóbada de engenhosidade ímpar. Contudo, a cegueira o atinge em 1401, e o rei D. João I, influenciado por conselheiros, decide entregar a conclusão da obra a um arquiteto estrangeiro, o irlandês Mestre Ouguet.
Mestre Ouguet, com sua arrogância e desdém pelo trabalho do arquiteto cego, altera o projeto original da abóbada. No entanto, o destino intercede: a abóbada desaba logo após ser concluída, ferindo Ouguet. Diante do desastre, D. João I, em um gesto de reconhecimento, restitui Afonso Domingues ao seu posto. Afonso aceita, mas em um ato final de dedicação e prova de sua genialidade, permanece em jejum por três dias sob a abóbada, certificando-se de que sua concepção original era segura, e morre sereno, com a convicção de sua obra.
O conto é uma poderosa manifestação do nacionalismo romântico de Herculano. Ele exalta o gênio português, a bravura e a honra de Afonso Domingues, contrastando-o com a figura do estrangeiro, Mestre Ouguet, que, apesar de inicialmente desdenhoso, acaba por se render à superioridade do talento nacional. O desabamento da abóbada de Ouguet e a consagração final de Afonso Domingues servem como uma alegoria da vitória do espírito português sobre influências externas.
O tema central é o nacionalismo e a exaltação do gênio português contra a influência estrangeira, simbolizados na arte e arquitetura.
Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo (1810-1877) foi uma das mais proeminentes figuras do Romantismo português. Além de um notável escritor, foi historiador, jornalista e político, desempenhando um papel crucial na renovação do estudo da história em Portugal. Suas obras abrangem poesia, drama e romance, mas são seus romances históricos e contos que mais se destacam, nos quais ele habilmente entrelaça elementos históricos com narrativas envolventes. Herculano é reconhecido por seu rigor histórico e por infundir em suas ficções um profundo senso de identidade e valores nacionais, características marcantes em “A Abóbada”.
“A Abóbada” é um conto histórico que mergulha nas raízes da identidade portuguesa através da saga da construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como Mosteiro da Batalha. Publicado em 1839, este conto é um exemplo primoroso do estilo de Alexandre Herculano, que utiliza eventos e figuras históricas para explorar temas universais, como a fé, o patriotismo, o orgulho nacional e a genialidade humana. A obra destaca a importância da criação artística como expressão da alma de uma nação, em um contexto pós-revolucionário que buscava consolidar a identidade portuguesa.
| Tempo | 1401, no dia 6 de janeiro, estendendo-se por alguns dias. |
| Espaço | O Mosteiro da Batalha (Santa Maria da Vitória) e seus arredores, em Portugal. |
| Narrador | Terceira pessoa, onisciente, com grande capacidade descritiva e de penetração psicológica dos personagens. |
| Linguagem | Formal, culta, rica em detalhes históricos e descrições poéticas, com toques de grandiloquência, característica do estilo romântico de Herculano. |
O estilo de Herculano em “A Abóbada” é marcadamente romântico, caracterizado pela exaltação do heroísmo nacional e pela idealização de figuras históricas. A linguagem é elaborada, com descrições vívidas da paisagem e da arquitetura, que servem para imergir o leitor no período medieval. O autor utiliza o nacionalismo como um pilar fundamental, personificando-o em Afonso Domingues e na sua paixão pela obra. Há um claro contraste entre o gênio e a alma portuguesa (Afonso) e a superficialidade e a falta de conexão com a pátria (Ouguet). A obra também explora a subjetividade e os sentimentos intensos dos personagens, especialmente a dor e o orgulho de Afonso. A abóbada em si é um poderoso símbolo da identidade e da capacidade criativa da nação.
“A Abóbada” se insere no contexto da construção do Mosteiro da Batalha, um monumento erguido para celebrar a vitória portuguesa na Batalha de Aljubarrota (1385), que garantiu a independência de Portugal sob D. João I e a dinastia de Avis. Herculano, com sua paixão pela história e pela valorização das virtudes nacionais, usa este cenário para tecer uma crítica social à tendência de se superestimar o que é estrangeiro em detrimento do que é nacional. A chegada de Mestre Ouguet e a preterição de Afonso Domingues ecoam discussões da época de Herculano sobre a autonomia cultural e a identidade de Portugal em relação a outras nações europeias. O conto, portanto, é um manifesto em defesa do gênio e da cultura portuguesa, sublinhando que as grandes obras de uma nação devem ser fruto de seu próprio espírito.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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