Auto da compadecida é uma comédia dramática que mistura elementos da literatura de cordel com a religiosidade popular nordestina, ambientada na região nordeste do Brasil.A dupla João Grilo, um estafador humilde, e Chicó, seu amigo medroso, usa espertezas para sobreviver diante de uma sociedade desigual, desafiando autoridades locais e os padrões de honra.No clímax, a Compadecida intercede diante de um julgamento que envolve Jesus, Nossa Senhora e o diabo, revelando uma crítica à hipocrisia e celebrando a misericórdia.
Resumo da obra
“O Auto da Compadecida” é uma das obras mais emblemáticas da literatura brasileira, escrita pelo renomado Ariano Suassuna. Trata-se de uma peça teatral do gênero "auto", que mescla humor, crítica social e elementos da cultura popular nordestina. A história se desenrola na pequena e fictícia cidade de Taperoá, na Paraíba, e tem como protagonistas a dupla de amigos João Grilo, um sertanejo astuto e esperto, e Chicó, seu companheiro medroso e contador de histórias.
O enredo começa com a tentativa de João Grilo e Chicó de convencer o Padre João a benzer o cachorro da mulher do Padeiro, uma figura avarenta e infiel. Diante da recusa inicial do padre, João Grilo, com sua sagacidade peculiar, inventa um testamento falso no qual o cachorro deixaria dinheiro para o padre, o sacristão e até para o bispo, caso o animal fosse enterrado em latim. Essa artimanha expõe a ganância e a hipocrisia das autoridades religiosas e dos poderosos locais, que rapidamente mudam de ideia diante da perspectiva de lucro.
As confusões se intensificam quando a cidade é invadida pelo temível cangaceiro Severino e seu capanga. Em meio ao caos, diversas personagens, incluindo o bispo, o padre, o sacristão, o padeiro e sua esposa, acabam sendo mortas. João Grilo, sempre engenhoso, tenta enganar Severino com uma gaita "abençoada" que ressuscitaria os mortos, em um truque que envolve uma bexiga de sangue e a cumplicidade de Chicó. No entanto, o plano não sai como esperado, e o próprio João Grilo também encontra a morte.
A parte final da peça transporta as personagens para o cenário do Juízo Final, onde são julgadas por uma corte celestial inusitada: o Diabo (o Encourado) atua como acusador, Jesus Cristo (Manuel, representado como um homem negro, o que causa espanto) como juiz, e a Virgem Maria (A Compadecida) como intercessora. É nesse momento que as fraquezas e qualidades humanas são postas à prova, e a misericórdia da Compadecida se torna essencial para atenuar as sentenças, revelando a complexidade da moralidade e a importância da compaixão em um mundo de adversidades.
🧠 Tema central
A obra explora a dualidade entre a astúcia e a sobrevivência do povo nordestino versus a hipocrisia e a ganância das instituições sociais e religiosas.
Mini biografia do autor
Ariano Vilar Suassuna foi um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, nascido em João Pessoa, Paraíba, em 16 de junho de 1927. Sua vida foi dedicada à arte e à cultura popular de sua região, o Nordeste. Formado em Direito e Filosofia, atuou também como professor universitário, advogado e ocupou importantes cargos públicos ligados à cultura, como secretário de Educação e Cultura do Recife e secretário de Cultura do Estado de Pernambuco.
Ariano Suassuna é o idealizador do Movimento Armorial, uma corrente artística que buscava valorizar e desenvolver as formas de expressão populares tradicionais do Nordeste brasileiro, integrando-as à alta cultura. Sua vasta obra abrange teatro, romance e poesia, sempre marcada por um estilo único que combina o erudito com o popular. Faleceu em 23 de julho de 2014, em Recife, deixando um legado cultural imenso e inesquecível.
Apresentação da obra
“O Auto da Compadecida” é uma obra de grande destaque na literatura brasileira, escrita por Ariano Suassuna em 1955 e encenada pela primeira vez em 1956. A peça ganhou notoriedade em 1957, no Rio de Janeiro, e desde então cativou o público com seu estilo inovador. Sua importância literária reside na habilidosa fusão de elementos do teatro popular, dos autos medievais portugueses (como os de Gil Vicente) e da rica literatura de cordel nordestina.
A obra, um "drama nordestino em três atos", transcende o mero entretenimento ao se apresentar como uma poderosa sátira moralizante. Ela denuncia a corrupção, a hipocrisia e a avareza presentes em diferentes camadas da sociedade, desde os religiosos até os poderosos locais, ao mesmo tempo em que exalta a inteligência e a capacidade de sobrevivência do homem sertanejo. A popularidade da peça foi ainda mais ampliada com suas bem-sucedidas adaptações para a televisão (1999) e o cinema (2000), tornando-se um clássico acessível a diferentes gerações.
Personagens principais
- João Grilo: O protagonista da peça. Pobre, astuto e extremamente inteligente, usa sua esperteza para sobreviver e resolver as situações mais complicadas, frequentemente com mentiras e trapaças. Representa a resistência do povo oprimido.
- Chicó: O melhor amigo de João Grilo e seu fiel, embora medroso, companheiro de aventuras. Chicó é conhecido por suas histórias fabulosas e por sua lealdade a João Grilo.
- A Compadecida (Nossa Senhora): Uma figura de imensa bondade e misericórdia, que intercede pelos réus no Juízo Final. Ela representa a esperança e a compaixão divinas, sendo a voz da defesa dos pecadores.
- Manuel (Jesus Cristo): O juiz do Juízo Final. Ele é representado como um homem negro, o que choca algumas personagens. Julga com sabedoria e imparcialidade, mas também com a capacidade de perdoar.
- Encourado (O Diabo): O acusador no Juízo Final. Ele busca a condenação das almas, representando a justiça sem misericórdia e a tentação.
Personagens secundários
- Palhaço: O narrador e apresentador da peça, que interage com o público e anuncia os acontecimentos, criando uma atmosfera circense.
- Padre João: O pároco de Taperoá, avarento e facilmente subornável. Preocupa-se mais com lucros materiais do que com os princípios religiosos.
- Bispo: Autoridade religiosa superior ao padre, igualmente ganancioso e preocupado com o poder e o dinheiro.
- Sacristão: Subalterno do padre, também demonstra interesse em subornos e participa das tramas.
- Padeiro: Homem avarento e explorador, dono da padaria. É facilmente enganado e demonstra pouca compaixão pelos seus empregados.
- Mulher do Padeiro: Mulher adúltera, interesseira e vaidosa. Tem grande apego a bens materiais e animais.
- Severino do Aracaju: O cangaceiro temível que invade a cidade. É um homem violento, mas sua história revela que ele foi levado ao crime por circunstâncias de vida extremas, o que o torna uma vítima da seca e da opressão.
- Cangaceiro (Capanga): O fiel seguidor de Severino, que cumpre suas ordens cegamente e o idolatra.
- Major Antônio Morais: Uma figura autoritária e poderosa na cidade, que representa o coronelismo e a opressão.
Estrutura narrativa
| Tempo | A peça foi escrita em 1955, mas a ação transcorre em um período não especificado, sugerindo a República Velha (1889-1930), época do coronelismo e do cangaço no Nordeste. |
| Espaço | A história se passa integralmente na fictícia cidade de Taperoá, na Paraíba, um cenário que reflete as realidades do sertão nordestino. |
| Narrador | Por ser uma peça teatral, não há um narrador onisciente. O Palhaço assume o papel de apresentador e comentarista, introduzindo a história e os personagens. |
| Linguagem | A linguagem é predominantemente coloquial e regionalista, repleta de expressões e sotaques do Nordeste. O humor e a ironia são constantes, tornando o texto acessível e dinâmico. |
🎨 Estilo e recursos literários
Ariano Suassuna insere "O Auto da Compadecida" no contexto do Modernismo - Geração de 45, ou também da Terceira Fase do Modernismo brasileiro. Sua obra é um exemplo claro de sua dedicação à cultura nordestina e aos princípios do Movimento Armorial, que ele fundou. O estilo do autor é marcado pela fusão do regional com o universal, utilizando a cultura popular como base para reflexões profundas.
A peça é uma comédia dramática que se apropria de elementos do teatro de rua e da literatura de cordel, com uma estrutura que remete aos autos medievais. Suassuna emprega abundantemente a linguagem oral, o regionalismo, a ironia e a sátira para construir seus personagens caricaturais e criticar a sociedade. As figuras de linguagem, como a personificação e a hipérbole, são usadas para acentuar o tom cômico e moralizante, enquanto a caracterização detalhada do Nordeste e seus costumes confere autenticidade à narrativa.
Contexto histórico e críticas sociais
“O Auto da Compadecida” foi escrito em um período de grande efervescência política e social no Brasil (1955), logo após o suicídio de Getúlio Vargas e em meio a um governo provisório. Embora a peça tenha sido concebida nesse contexto, a ação se situa em um tempo que remete à República Velha (1889-1930), um período marcado pelo coronelismo e pelo fenômeno do cangaço no sertão nordestino.
A obra de Suassuna é um espelho das duras realidades do Nordeste brasileiro: a seca, a fome, a miséria e a opressão imposta pelos poderosos coronéis. Através das artimanhas de João Grilo, o autor critica a corrupção da Igreja, a ganância dos ricos e a injustiça social. A figura de Severino, o cangaceiro, é utilizada para humanizar a violência, mostrando que muitos foram compelidos ao banditismo pela ausência de alternativas e pela brutalidade das condições de vida. A peça, portanto, é um poderoso manifesto contra as desigualdades e um clamor por justiça e misericórdia.
Questões que costumam cair em vestibulares
- A função do Palhaço como narrador e elemento da atmosfera circense da peça.
- A caracterização das personagens e a crítica à hipocrisia e ganância de clérigos e ricos.
- O papel de João Grilo como anti-herói e a personificação da inteligência do sertanejo.
- O Juízo Final: a intercessão da Compadecida e a representação de Jesus (Manuel) e do Diabo (Encourado).
- A fusão de elementos da cultura popular (cordel, autos medievais) com a crítica social.
- O regionalismo da obra e sua relação com o contexto histórico e geográfico do Nordeste.
- As adaptações da obra para o cinema e a televisão e sua importância na disseminação da cultura nordestina.
- O humor e a sátira como ferramentas para a crítica social e moral.
📚 Ficha técnica
| Ano de Publicação | 1955 (escrita) / 1956 (primeira encenação) |
| Autor | Ariano Suassuna |
| Gênero | Auto / Comédia Dramática |
| Editora | Nova Fronteira (uma das edições mais conhecidas) |
📌 Dicas para estudar a obra
- Leia a peça: A leitura integral é fundamental para captar o ritmo, o humor e as nuances da linguagem.
- Assista às adaptações: O filme de Guel Arraes é excelente para visualizar as personagens e o cenário, complementando a leitura.
- Estude o contexto: Entenda o coronelismo, o cangaço e as particularidades do Nordeste para compreender as motivações das personagens.
- Analise as personagens: Foque nas dualidades (João Grilo x Poderosos, Justiça x Misericórdia) e nos arquétipos apresentados.
- Atente-se ao estilo: Observe como Ariano Suassuna mistura o erudito e o popular, o cômico e o crítico, e a influência do Movimento Armorial.
- Revise o Juízo Final: Esta é a parte mais alegórica e rica em simbolismo, frequentemente abordada em questões de vestibular.
Ficha Técnica
- Título: Auto da compadecida
- Autor: Ariano Suassuna
- Ano: 1955







