Durante a guerra pela posse da terra na região cacaueira do sul da Bahia, os irmãos Badaró enfrentam o coronel Horácio da Silveira. A luta pela subsistência se entrelaça com intrigas políticas, relações amorosas, crimes passionais. Dois romances improváveis se destacam em meio aos tiroteios e tocaias: o do jovem advogado Virgílio e Ester, esposa do coronel Horácio, amor condenado a um desfecho sangrento, e o de Don'Ana, a valente filha de Sinhô Badaró, e o "capitão" João Magalhães, um embusteiro que se faz passar por engenheiro militar. Publicado em 1943, quando Jorge Amado tinha apenas trinta anos, Terras do sem-fim se tornaria um marco do seu "ciclo do cacau", que inclui Gabriela, cravo e canela, Cacau e Tocaia Grande, entre outros.
“Terras do Sem Fim”, uma das obras mais emblemáticas de Jorge Amado, transporta o leitor para o cenário árido e fértil das plantações de cacau no sul da Bahia, no início do século XX. O romance narra a violenta disputa por terras virgens, as chamadas “matas de tabocas”, entre os poderosos coronéis da região. No centro do conflito estão o Coronel Horácio da Silveira, figura astuta e implacável, e a família Badaró, liderada pelo patriarca Sinhô Badaró, que busca expandir seus domínios e influência.
O enredo se desenvolve a partir da chegada de novos personagens que se inserem nesse ambiente hostil, como o jovem advogado Dr. Virgílio Cabral, vindo de Salvador, que inicialmente tenta mediar os conflitos, mas acaba se envolvendo nas tramas de poder e paixão. A busca por riqueza e poder move os coronéis, que não hesitam em usar a força, a pistolagem e a grilagem de terras para garantir a posse das cobiçadas glebas de cacau. A lei, muitas vezes, é feita pelos próprios donos de terras, em um sistema conhecido como coronelismo.
Além da disputa territorial, a obra explora as complexas relações humanas que emergem nesse contexto. A paixão proibida entre D. Ana, esposa de Horácio, e Virgílio, adiciona uma camada de drama pessoal à narrativa. Personagens como Firmo, um jagunço que ascende socialmente, e as mulheres que habitam esse universo, como Don’Ana, representam diferentes facetas da sociedade baiana da época, confrontando moralidades e aspirações individuais com a dureza do coletivo.
Os conflitos são intensos e multifacetados, envolvendo não apenas os coronéis, mas também os trabalhadores rurais, os grileiros, os advogados e as famílias envolvidas. A violência é uma constante, e a luta por cada palmo de terra de cacau se torna um símbolo da ganância humana e da formação de uma nova elite agrária no Brasil. A obra é um retrato visceral de um período de transformação social e econômica, marcado pela brutalidade e pela imposição de uma ordem ainda em formação.
A luta pela posse da terra e o embate entre civilização e barbárie no período de expansão do cacau baiano.
Jorge Amado (1912-2001) foi um dos mais importantes e traduzidos escritores brasileiros. Nascido em Itabuna, Bahia, o autor viveu de perto a realidade das plantações de cacau que viriam a inspirar muitas de suas obras. Sua produção literária é vasta e diversificada, abrangendo desde romances de cunho social e político até narrativas mais leves e com elementos de realismo fantástico. Amado foi um defensor da cultura popular brasileira e um crítico das desigualdades sociais, características presentes em grande parte de seus livros.
Membro da Academia Brasileira de Letras desde 1961, sua obra foi traduzida para dezenas de idiomas e adaptada para cinema, televisão e teatro, consolidando-o como um dos grandes nomes da literatura mundial. Entre seus títulos mais conhecidos estão “Gabriela, Cravo e Canela”, “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, “Capitães da Areia” e “Tieta do Agreste”.
“Terras do Sem Fim”, publicada em 1943, é considerada por muitos críticos como um dos grandes romances do ciclo do cacau de Jorge Amado. A obra se aprofunda na exploração da gênese da fortuna dos coronéis do sul da Bahia, mostrando a brutalidade e a ambição que impulsionaram a ocupação e a exploração das terras férteis da região. É um livro que mergulha nas raízes da formação social e econômica do Brasil rural, evidenciando as relações de poder, a violência e a complexidade dos laços humanos.
| Tempo | Início do século XX (aproximadamente entre 1900 e 1920). |
| Espaço | Ilhéus e as recém-abertas “terras do sem fim” na região cacaueira do sul da Bahia. |
| Narrador | Terceira pessoa, onisciente e onipresente, com conhecimento profundo dos pensamentos e sentimentos dos personagens, além de uma visão panorâmica dos eventos. |
| Linguagem | Rica em regionalismos baianos, vocabulário coloquial e direto, frequentemente descritiva e com tom de denúncia social, refletindo a oralidade e a crueza do ambiente retratado. |
O estilo de Jorge Amado em “Terras do Sem Fim” é marcado pelo realismo social e pela forte regionalidade. O autor emprega uma linguagem vívida e envolvente, que transporta o leitor diretamente para o ambiente das lavouras de cacau e das cidades em efervescência. Há um uso intenso de descrições detalhadas, tanto de paisagens quanto de costumes e personagens, que contribuem para a imersão na cultura baiana.
Entre os recursos literários, destaca-se a onipresença do narrador, que não apenas relata os fatos, mas também comenta e analisa as ações e motivações dos personagens, oferecendo uma perspectiva crítica sobre os eventos. A polifonia é outro recurso importante, com a alternância de pontos de vista e a inserção de falas e pensamentos que revelam a complexidade psicológica dos envolvidos. A simbologia é empregada para representar a terra como fonte de vida e morte, de riqueza e de conflito. A obra também faz uso de hipérboles para enfatizar a grandiosidade e a brutalidade dos acontecimentos, e de metáforas que associam a natureza selvagem à natureza humana.
“Terras do Sem Fim” está profundamente enraizada no contexto histórico do Brasil nas primeiras décadas do século XX. A obra retrata o período áureo da economia cacaueira na Bahia, que gerou imensa riqueza, mas também promoveu uma intensa concentração de terras e poder. Esse boom econômico foi acompanhado por uma série de conflitos agrários, onde a lei do mais forte prevalecia. O sistema do coronelismo é central na narrativa, evidenciando como os grandes proprietários de terra exerciam controle político, social e econômico, com seus próprios exércitos de jagunços e pouca ou nenhuma intervenção do Estado.
As críticas sociais de Amado são explícitas. Ele denuncia a violência agrária, a exploração dos trabalhadores rurais, a corrupção e a ausência de justiça para os mais pobres. A obra expõe a hipocrisia das elites, que, em nome do progresso e da civilização, perpetuavam atos de barbárie e desrespeito aos direitos humanos. Amado também questiona a própria ideia de “progresso” quando este é construído sobre a desapropriação e o sangue, e reflete sobre a formação da identidade brasileira a partir dessas dinâmicas brutais de colonização interna e disputa por recursos.
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A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.