“Broquéis”, publicada em 1893, é a obra de estreia de Cruz e Souza e um marco fundamental para o Simbolismo no Brasil. Não possui um enredo tradicional com personagens e conflitos lineares, mas é uma coletânea de poemas que mergulham profundamente na psique humana e em questões existenciais. A “narrativa” lírica se constrói através de uma atmosfera de misticismo, dor, transcendentalismo e uma constante busca pelo absoluto e pelo ideal. O eu lírico se apresenta como um ser em constante agonia, confrontado com a efemeridade da vida e a aspereza do mundo material.
Os poemas exploram uma vasta gama de emoções e sensações, frequentemente utilizando a sinestesia para fundir percepções sensoriais. Cores, sons, odores e toques se entrelaçam para criar imagens poéticas densas e complexas. A dor, o sofrimento e a melancolia são temas recorrentes, abordados não de forma lamentosa, mas como caminhos para a purificação e a elevação espiritual. Há uma fixação pela morte, não como fim, mas como transição para um estado superior de existência, permeada por visões de um além etéreo e inatingível.
Os “conflitos” centrais da obra são de natureza interna, psicológicos e espirituais. O eu lírico se debate entre a matéria e o espírito, a escuridão e a luz, o finito e o infinito. Há uma tentativa de transcender a realidade concreta através da palavra, do símbolo, da musicalidade e da sugestão. Essa luta interna é expressa por uma linguagem rica e hermética, que desafia o leitor a ir além do significado literal e a experimentar as sensações e os mistérios evocados.
Embora não haja personagens no sentido romanesco, o próprio eu lírico é uma figura central, um indivíduo sensível e atormentado que anseia por uma realidade que transcenda o material. Ele é, ao mesmo tempo, um espectador e um participante de suas próprias tormentas e êxtases. Elementos como a “Brancura”, a “Cruz”, o “Mistério” e a “Sombra” assumem quase um caráter personificado, atuando como forças simbólicas que interagem com a consciência do eu lírico.
João da Cruz e Souza (1861-1898) foi um poeta brasileiro, considerado o maior expoente do Simbolismo no país. Nascido em Desterro (atual Florianópolis), filho de escravos alforriados, teve uma vida marcada por dificuldades, preconceito racial e doenças. Apesar das adversidades, destacou-se por sua inteligência e cultura, recebendo apoio de seu antigo senhor. Trabalhou como jornalista e promotor público, e sua vivência de marginalização social e pessoal influenciou profundamente sua obra. Morreu jovem, aos 36 anos, vítima de tuberculose, mas deixou um legado poético que revolucionou a literatura brasileira, abrindo caminho para novas formas de expressão e sensibilidade. Sua obra é caracterizada pela profunda musicalidade, misticismo e exploração de temas como a dor, a morte, o sonho e a busca pelo absoluto.
“Broquéis” é a primeira grande obra de Cruz e Souza, publicada em 1893, no mesmo ano de “Missal” (em prosa poética). Este livro de poemas marca o início do Simbolismo no Brasil, afastando-se drasticamente do racionalismo e da objetividade do Parnasianismo e do Realismo-Naturalismo que dominavam a cena literária da época. A obra é uma coleção de poemas que se destacam pela profunda musicalidade, pela exploração de um vocabulário erudito e pela utilização de símbolos e sugestões para expressar estados de alma e ideias abstratas. “Broquéis” introduziu uma nova estética na poesia brasileira, priorizando a subjetividade, o mistério e a transcendência em detrimento da descrição objetiva da realidade.
Em “Broquéis“, não há personagens secundários no sentido de figuras com papéis definidos em uma trama. A obra, por ser poética e simbolista, foca em estados de alma e em elementos abstratos que adquirem conotação simbólica. Contudo, podemos identificar elementos que funcionam como coadjuvantes na construção do ambiente e dos temas, como figuras etéreas, sombras, brumas, sons e cores (especialmente o branco e o negro), que servem para intensificar as sensações e os sentimentos do eu lírico. Esses “elementos” são mais arquétipos ou símbolos do que personagens em si.
| Tempo | Indeterminado, atemporal, focado no presente da experiência interior do eu lírico e na eternidade. Há uma prevalência de um tempo psicológico e subjetivo sobre o cronológico. |
| Espaço | Principalmente interior (a mente e a alma do eu lírico), onírico, nebuloso, transcendental. Os cenários externos são filtrados e transformados pela subjetividade. |
| Narrador | O eu lírico, em primeira pessoa, de caráter marcadamente subjetivo, expressando suas emoções, visões e reflexões de forma introspectiva. |
| Linguagem | Altamente simbólica, sugestiva, musical, carregada de figuras de linguagem como sinestesia, aliteração, assonância, metáforas e comparações inusitadas. O vocabulário é erudito e muitas vezes busca neologismos para expressar o inefável. |
O estilo de “Broquéis” é o apogeu do Simbolismo brasileiro. A musicalidade é um dos pilares, alcançada através do uso abundante de aliterações (repetição de consoantes) e assonâncias (repetição de vogais), que conferem aos versos um ritmo hipnótico e evocativo, quase uma oração. A sinestesia é outro recurso fundamental, onde diferentes sentidos se misturam, como em “voz veludosa” ou “cheiros de azul”, criando imagens sensoriais ricas e inusitadas.
A linguagem é altamente simbólica e sugestiva, buscando expressar o indizível, o abstrato e o místico. As palavras são escolhidas não apenas pelo seu significado denotativo, mas principalmente pela sua capacidade de evocar sensações, ideias e estados de alma. O vocabulário erudito e o uso de neologismos contribuem para essa atmosfera de hermetismo e busca pelo sublime.
Temas como o misticismo, a dor, a morte, o sonho, o irracional e a busca pela transcendência são recorrentes. Há uma obsessão pelo “branco” como símbolo de pureza, elevação, morte e vazio, contrastando frequentemente com o “negro” ou a “sombra”, que representam a matéria, o sofrimento e o mistério. O estilo de Cruz e Souza é caracterizado pelo nefelibatismo, a tendência a sonhar e a divagar, distanciando-se da realidade concreta para explorar mundos interiores e oníricos.
“Broquéis” surge no final do século XIX, um período conhecido como “fin-de-siècle”, marcado por um clima de pessimismo, desencanto e misticismo na Europa. No Brasil, o Simbolismo de Cruz e Souza representa uma reação estética e ideológica ao positivismo, ao cientificismo e ao materialismo que haviam caracterizado o Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo. Enquanto as escolas anteriores focavam na objetividade, na razão e na representação da realidade social, o Simbolismo volta-se para a subjetividade, a intuição, o espiritual e o transcendental.
Embora a obra de Cruz e Souza não seja explicitamente de crítica social no sentido direto, sua própria existência e sua poesia carregam um profundo teor de contestação. Como negro em uma sociedade ainda marcada pelo racismo pós-abolição, sua escolha por uma poesia de cunho místico, espiritual e introspectivo pode ser interpretada como uma forma de fuga das dores e preconceitos do mundo material, mas também como uma afirmação da riqueza e profundidade de uma alma que se recusava a ser definida por sua condição social ou racial. A dor universal expressa em seus versos, ainda que abstrata, ressoa com as vivências de marginalização e sofrimento enfrentadas pelo autor. Sua obra, ao valorizar a individualidade e a transcendência, contrapõe-se sutilmente às estruturas sociais opressivas da época.
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