“Entre a Espada e a Rosa”, de Marina Colasanti, narra a trajetória de uma princesa confrontada com um casamento arranjado, uma imposição que a faz chorar lágrimas que, ao invés de tristes, transformam-se em algo mágico. Durante seu sono, brota em seu rosto uma barba, inicialmente um espanto, mas que rapidamente se revela como sua salvação e um símbolo de sua autonomia. Esta barba, que a desfigura aos olhos da sociedade patriarcal, torna-se a ferramenta para a princesa escapar de um destino que não escolheu.
Transformada pela barba, a princesa adota uma identidade masculina e se aventura pelo mundo como um guerreiro. Em sua nova pele, ela encontra um jovem rei por quem se apaixona. Os dois desenvolvem uma profunda admiração mútua, compartilhando batalhas e conselhos, e o guerreiro se torna o mais leal e confiável companheiro do rei. Contudo, essa relação de proximidade e a afeição crescente trazem à tona um novo conflito: o rei se vê perturbado por sentimentos que ele não entende, uma atração pelo seu guerreiro de rosto sempre encoberto pelo elmo.
O rei, confuso com seus próprios sentimentos, exige que o guerreiro revele seu rosto, dando-lhe um prazo de cinco dias para abandonar o castelo caso não o faça. Diante da iminência de ser descoberta e da pressão para se conformar, a princesa, desesperada, clama por uma solução em seu quarto. Durante a noite, um novo milagre acontece: a barba desaparece, e em seu lugar surgem rosas rubras e perfumadas.
Com a revelação de sua verdadeira identidade e a transformação de sua “máscara” em beleza feminina, a princesa decide enfrentar o rei. Ela desce as escadas do castelo, exalando um perfume de rosas, pronta para um novo começo. A obra culmina na aceitação de sua identidade feminina e na possibilidade de um amor verdadeiro, agora liberto das imposições e disfarces, marcando sua completa emancipação e a união entre a espada (a força e a luta) e a rosa (a feminilidade e a sensibilidade).
A autoafirmação feminina e a redefinição da identidade em uma sociedade patriarcal.
Marina Colasanti, nascida em 26 de setembro de 1937, na cidade de Asmara, capital da Eritreia, na África, é uma das mais renomadas escritoras brasileiras contemporâneas. Após viver em Trípoli (Líbia) e na Itália, mudou-se para o Brasil em 1948, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Sua formação em artes plásticas, com destaque para a gravura, influenciou profundamente seu estilo literário, marcado pela precisão imagética e pelo simbolismo. Colasanti é autora de mais de 70 títulos publicados no Brasil e no exterior, colecionando diversos prêmios ao longo de sua carreira. Entre os mais importantes, destacam-se vários Prêmios Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, o Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2011) por “Minha Guerra Alheia”, e o Prêmio de Literatura Infantil e Juvenil da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Sua obra transita por contos, poesia, crônicas e literatura infantojuvenil, sempre abordando temas como a condição feminina, o amor, a liberdade e a fantasia com uma linguagem poética e reflexiva. “Entre a Espada e a Rosa” (2001) é uma de suas obras premiadas, recebendo o Prêmio Jabuti em 2002.
“Entre a Espada e a Rosa” é um conto de fadas moderno que subverte os padrões tradicionais do gênero, apresentando uma princesa que se recusa a ser um mero objeto de troca em casamentos arranjados. Marina Colasanti utiliza elementos fantásticos para explorar questões profundas sobre identidade feminina, liberdade de escolha e a construção do próprio destino. A narrativa, rica em simbolismo, desafia as expectativas e convida o leitor a refletir sobre os papéis sociais impostos e a coragem necessária para rompê-los.
| Tempo | Indeterminado (característico de contos de fadas), sugerindo uma atemporalidade que ressalta a universalidade dos temas. |
| Espaço | Ambientes típicos de contos de fadas: castelo, aldeias e campos de batalha. O castelo funciona como um espaço de confinamento e transformação. |
| Narrador | Terceira pessoa, onisciente, com foco nos pensamentos e sentimentos da princesa e, em menor grau, do rei. |
| Linguagem | Poética, rica em metáforas e simbologia. Utiliza uma prosa fluida e envolvente, com descrições detalhadas que evocam imagens e sensações, característica da escrita de Marina Colasanti. |
Marina Colasanti emprega um estilo que mescla a delicadeza poética com a força da metáfora, criando uma atmosfera que remete aos contos de fadas, mas com uma profundidade psicológica contemporânea. A simbologia é um recurso central: a barba representa a ruptura com o feminino idealizado e a adoção de uma persona de poder e liberdade, enquanto a espada e a rosa são ícones que traduzem a dualidade entre a força guerreira e a delicadeza feminina. A narrativa é construída sobre o fantástico, onde eventos mágicos impulsionam a trama e as transformações da protagonista. A intertextualidade com o universo dos contos de fadas é evidente, mas subvertida, desafiando as expectativas do leitor e propondo novas reflexões sobre os arquétipos femininos e masculinos. A prosa de Colasanti é marcada pela elegância e precisão vocabular, contribuindo para a beleza e o impacto de sua mensagem.
Embora se passe em um universo atemporal de conto de fadas, “Entre a Espada e a Rosa” reflete e critica fortemente questões sociais pertinentes ao papel da mulher na sociedade. A obra questiona a subordinação feminina e a ausência de autonomia, especialmente no que tange às escolhas pessoais, como o casamento. A transformação da princesa em guerreiro, impulsionada por uma barba mágica, pode ser interpretada como uma crítica à visão patriarcal que associa poder e liberdade a características masculinas. A história aborda a construção da identidade para além das expectativas de gênero, a busca por um lugar no mundo onde a individualidade seja valorizada acima das convenções. A obra dialoga com o movimento feminista, ao apresentar uma protagonista que desafia e redefine o que significa ser mulher em um mundo que tenta encaixá-la em moldes predefinidos.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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