“Missa do Galo”, um dos contos mais célebres de Machado de Assis, narra um episódio singular e carregado de sutilezas na vida do jovem Nogueira, então com dezessete anos. O conto se passa na noite de Natal, enquanto Nogueira, hospedado na casa de um amigo de seu pai, aguarda para ir à tradicional Missa do Galo. Seu anfitrião, o solicitador Menezes, sai para resolver um assunto com seu compadre, deixando Nogueira sozinho na sala.
É nesse cenário de espera que surge Conceição, a esposa de Menezes, uma mulher cerca de dez anos mais velha que Nogueira, descrita como bela, recatada e de comportamento ilibado, mas com uma aura de mistério. Ela entra na sala, inicialmente para ver as horas, e os dois iniciam uma conversa que se estende pela madrugada. O diálogo, aparentemente trivial, é na verdade um complexo jogo de insinuações, silêncios e olhares, onde o não dito assume um papel preponderante.
A interação entre Nogueira e Conceição revela uma tensão velada. Ele, um jovem provinciano, é fascinado pela beleza e pela postura enigmática dela. Conceição, por sua vez, mostra-se atenta e envolvente, com uma serenidade que esconde possíveis sentimentos e frustrações. O enredo é mínimo, mas a riqueza está na exploração psicológica dos personagens, na atmosfera de intimidade criada e na ambiguidade dos sentimentos que parecem surgir entre eles.
O conto explora a efemeridade do momento, a solidão, os desejos reprimidos e a complexidade das relações humanas sob a ótica da sociedade carioca do século XIX. A Missa do Galo, o evento central que aguardam, funciona como um catalisador para a confissão (ou quase confissão) de anseios e a revelação da intimidade que permeia aquele encontro fortuito e inesquecível para Nogueira, que o recorda anos depois com clareza.
A sutil exploração da sexualidade, da solidão e das convenções sociais no Brasil do século XIX.
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) é considerado o maior escritor da literatura brasileira. Nascido no Rio de Janeiro, em uma família humilde, Machado superou diversas adversidades, incluindo a epilepsia e a gagueira, para se tornar um intelectual autodidata de imensa erudição. Sua carreira literária abrangeu diversos gêneros, como poesia, teatro, contos, romances e críticas. Iniciou sua produção sob o Romantismo, mas consolidou-se como o principal representante do Realismo no Brasil, com uma obra marcada pela profundidade psicológica, ironia, pessimismo e crítica social aguda. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e seu primeiro presidente. Sua obra continua a influenciar gerações de escritores e leitores, sendo estudada e reverenciada globalmente.
“Missa do Galo” é um dos contos mais aclamados de Machado de Assis, publicado em 1899 no livro “Páginas Recolhidas”, mas já havia aparecido em periódicos antes. É um exemplo primoroso do realismo machadiano, conhecido por sua concisão, profundidade psicológica e a exploração de temas universais através de situações cotidianas. A obra é um convite à reflexão sobre as aparências, os desejos ocultos e a complexidade da alma humana, elementos característicos da fase madura do autor.
| Tempo | A história se desenrola na noite de Natal, final do século XIX. O tempo da narração é posterior, com Nogueira recordando o evento. |
| Espaço | Acontece na sala da casa de Conceição e Menezes, no Rio de Janeiro, um ambiente que se torna íntimo e carregado de significados. |
| Narrador | O narrador é Nogueira, em primeira pessoa, de forma retrospectiva. Ele conta a história anos depois, o que confere à narrativa um tom de reflexão e análise. |
| Linguagem | A linguagem é refinada, irônica e psicológica, com frases bem construídas e um vocabulário preciso. Machado de Assis utiliza o diálogo para revelar as tensões e os subtextos da interação entre os personagens. |
O estilo de “Missa do Galo” é a epítome do realismo machadiano. Machado emprega uma prosa concisa, mas extremamente rica em detalhes psicológicos. A ambiguidade é um recurso central, permitindo múltiplas interpretações sobre as intenções e os sentimentos de Conceição e Nogueira. A ironia sutil permeia a narrativa, especialmente na descrição dos costumes e das convenções sociais da época. O autor utiliza a introspecção do narrador Nogueira para aprofundar a análise dos pensamentos e sensações dos personagens. O foco está no “não dito”, nos gestos, nos olhares e nos silêncios, que revelam mais do que as palavras explícitas.
“Missa do Galo” está ambientado no final do século XIX, um período de transição no Brasil, mas ainda marcado por fortes convenções sociais e morais, especialmente no que tange ao papel da mulher. A sociedade carioca da época era patriarcal e rígida, com expectativas bem definidas para a conduta feminina, onde a honra e a respeitabilidade eram valores cruciais. Machado de Assis, através do conto, faz uma crítica sutil a essa hipocrisia social e à repressão dos desejos. Conceição, aparentemente a personificação da mulher ideal, pode estar vivendo uma vida de frustrações e anseios velados, comuns a muitas mulheres daquele tempo, cujas emoções eram muitas vezes silenciadas pelas normas sociais. O conto expõe a complexidade da vida interior dos indivíduos em contraste com as aparências exigidas pela sociedade.
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