“O Avesso da Pele”, aclamada obra de Jeferson Tenório, mergulha nas profundas questões do racismo estrutural e da identidade negra no Brasil. A narrativa inicia com Pedro, o filho de Henrique, confrontando a trágica notícia do assassinato de seu pai por policiais em uma abordagem de rotina. A partir desse evento doloroso, Pedro se propõe a reconstruir a vida de Henrique, um professor de literatura que lecionava em escolas públicas de Porto Alegre, por meio das memórias e dos objetos que ele deixou.
A trama se desenrola em um cenário de luto e busca por compreensão, onde o narrador tece a história de seu pai e, consequentemente, a sua própria. Henrique, um homem negro, é apresentado em suas múltiplas facetas: professor dedicado, pai carinhoso e um indivíduo constantemente confrontado pelo preconceito racial. As experiências de vida de Henrique revelam as marcas do racismo em diversos âmbitos, desde as relações pessoais e profissionais até a violência perpetrada pelo Estado.
Os conflitos centrais da obra giram em torno da violência policial direcionada a corpos negros, do sucateamento da educação pública e da desigualdade social que atravessa a vida de muitos brasileiros. Tenório expõe como o racismo não é um evento isolado, mas uma estrutura que vitima sistematicamente pessoas negras, passando de geração em geração. A história de Henrique, embora particular, ressoa com as vivências de muitos.
Além das denúncias sociais, “O Avesso da Pele” é uma profunda reflexão sobre o poder da memória e da afetividade na construção da identidade. Pedro se apega às lembranças do pai para entender quem ele era e, assim, moldar sua própria percepção de si. A obra destaca a família como um núcleo de resistência e transmissão de legados, onde o amor e as memórias afetivas se tornam um motor para a reflexão e a (re)construção da identidade.
A obra aborda a persistência do racismo estrutural na sociedade brasileira e a perpetuação da violência racial entre gerações, explorando também o poder da memória e da afetividade na construção da identidade.
Jeferson Tenório, nascido no Rio de Janeiro e radicado em Porto Alegre, é um nome proeminente na literatura contemporânea brasileira. Graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a mesma instituição que incluiu “O Avesso da Pele” em sua lista de leituras obrigatórias, Tenório também atua como professor de literatura na rede pública de ensino. Sua formação acadêmica inclui um Mestrado em Literaturas Luso-africanas e um Doutorado em Teoria da Literatura, demonstrando seu profundo engajamento com os estudos literários e culturais. Tenório lançou seu primeiro livro, “O Beijo na Parede”, em 2013, e sua obra mais recente é “De onde eles vêm”, de 2024. O reconhecimento de seu trabalho culminou com o prestigiado Prêmio Jabuti em 2021 por “O Avesso da Pele”.
“O Avesso da Pele”, um dos mais relevantes romances contemporâneos brasileiros, foi lançado em 2020 pela Companhia das Letras e rapidamente conquistou a crítica e o público. A obra de Jeferson Tenório não só recebeu o renomado Prêmio Jabuti em 2021, mas também foi incluída na lista dos melhores livros brasileiros de literatura do século XXI elaborada pela Folha de S. Paulo. Sua importância e relevância são tamanhas que se tornou leitura obrigatória da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em 2024, a obra ganhou destaque na mídia ao ser alvo de censura em diversos estados brasileiros, como Paraná, Mato Grosso do Sul e Goiás, evidenciando o impacto e a potência de suas temáticas ao provocar debates essenciais sobre o racismo e a violência social.
Embora o foco da narrativa esteja intensamente concentrado nos três personagens principais – Henrique, Pedro e Martha –, a obra de Jeferson Tenório também apresenta figuras secundárias que, embora não desenvolvidas em profundidade, são cruciais para o desdobramento da trama e para a ilustração dos temas abordados. Os policiais envolvidos na morte de Henrique, por exemplo, representam a violência estatal e o racismo institucional. Outras figuras pontuais, como alunos e colegas de trabalho de Henrique, surgem para contextualizar o ambiente profissional do professor e as diversas manifestações do racismo em diferentes esferas da sociedade. Contudo, a riqueza da obra reside na exploração íntima da família e de suas memórias.
| Tempo | A narração é marcada por uma estrutura fragmentada, com constantes saltos temporais e uma mistura de tempos verbais. A história se desenrola principalmente no presente do luto de Pedro, que se volta ao passado para reconstituir a vida de Henrique. O contexto histórico sugere que a obra se passa em torno da década de 1980. |
| Espaço | A história é ambientada em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, uma região do Brasil com menor população negra. Essa escolha geográfica é significativa, pois destaca a presença e a resistência de pessoas negras em um espaço historicamente marcado pela branquitude, pela imigração europeia e pelas profundas desigualdades raciais. |
| Narrador | A obra é narrada em primeira pessoa por Pedro, o filho de Henrique. Ele atua como um narrador testemunha, acompanhando os fatos e estando envolvido neles, mas tendo o pai como personagem central. Um recurso notável é o uso da 2ª pessoa do discurso em determinados trechos, estabelecendo um diálogo direto entre Pedro e o pai já falecido, o que é bastante incomum em romances. |
| Linguagem | A linguagem empregada por Jeferson Tenório é direta, mas ao mesmo tempo profundamente emocional e poética. Essa combinação permite ao leitor uma aproximação íntima com a consciência do narrador, que é uma vítima de uma profunda violência, seja ela a perda do pai ou as opressões do racismo. |
“O Avesso da Pele” se destaca por empregar recursos literários pouco usuais em romances, que contribuem para a profundidade e o impacto da narrativa. A estrutura fragmentada, com seus saltos temporais e a quebra da linearidade, reflete a maneira como a memória é construída, em pedaços e flashes. O diálogo de Pedro com o pai falecido, utilizando a segunda pessoa do singular (“você”), é um artifício poderoso que transcende a barreira da morte, permitindo uma reconstrução íntima e emocional da figura de Henrique.
A linguagem é um ponto chave: direta, quase crua em sua honestidade, mas permeada por uma sensibilidade poética que confere à dor e à reflexão um caráter universal. O uso de objetos como “fantasmas a visitar” o narrador é um simbolismo eficaz para a reconstrução da memória e da identidade paterna.
O próprio título, “O Avesso da Pele”, é uma metáfora carregada de significado. Ele convida à reflexão sobre o que realmente importa: não a cor da pele, um marcador de diferença e muitas vezes de opressão para pessoas negras, mas o “avesso” – o interior, as emoções, os valores e a humanidade que reside em cada indivíduo. A obra, assim, não apenas narra uma história, mas aprofunda-se em questões existencialistas e sociais através de um estilo marcante e inovador.
Ambientado em um contexto que remete à década de 1980 em Porto Alegre, “O Avesso da Pele” é uma obra que se aprofunda em uma série de críticas sociais e reflete sobre o racismo estrutural que persiste na sociedade brasileira. O assassinato de Henrique por policiais não é apenas um evento trágico na vida de Pedro, mas uma denúncia contundente da violência policial que vitima, desproporcionalmente, a população negra. A obra expõe como esse tipo de violência não é isolado, mas sim parte de uma estrutura maior de opressão racial.
Além da violência física, o livro desvenda o impacto do racismo em outros contextos da vida, como o profissional e o pessoal. A trajetória de Henrique como professor de literatura em escolas públicas ilumina o sucateamento da educação e as precárias condições de ensino, revelando como a desigualdade social e racial se manifesta também nesse setor. A obra, portanto, se posiciona como um espelho para as mazelas da sociedade, apontando para a urgência de mudanças estruturais para combater a desigualdade racial. Jeferson Tenório utiliza a literatura como um poderoso instrumento de denúncia e conscientização social, instigando o leitor a uma reflexão crítica sobre o papel do racismo na formação e manutenção das injustiças no Brasil.
Devido à sua relevância social, literária e por ser leitura obrigatória em vestibulares como o da UFRGS, “O Avesso da Pele” é frequentemente abordado em questões que visam testar a compreensão dos estudantes sobre temas complexos e a estrutura narrativa. As perguntas costumam focar em:
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
Estudantes buscam informações sobre os locais de prova do Vestibular Unicentro 2027.