Os Ratos, obra-prima de Dyonelio Machado, narra a angustiante jornada de Custódio, um homem acossado pela necessidade de quitar uma dívida de 500 mil réis até o final do dia. O enredo se desenrola em um ritmo frenético, acompanhando as tentativas desesperadas de Custódio em conseguir o dinheiro, confrontando-o com a indiferença e a crueldade da sociedade urbana.
A narrativa, marcada por um realismo social pungente, expõe as agruras da vida nas periferias e a exploração do trabalho, ao mesmo tempo em que mergulha nas profundezas da psique do protagonista. A cada porta que se fecha, a cada esperança frustrada, Custódio é corroído pela ansiedade e pela iminência do fracasso, tornando-se uma metáfora da fragilidade humana diante de um sistema opressor.
Mais do que um simples relato de um dia difícil, Os Ratos é uma crítica contundente às desigualdades sociais e à desumanização nas grandes cidades, ecoando dilemas existenciais que transcendem o tempo e o espaço, ressoando com a luta diária de muitos por dignidade e sobrevivência.
“Os Ratos”, obra de Dyonélio Machado publicada em 1935, é um romance que se insere na segunda fase do Modernismo brasileiro (1930-1945). A narrativa acompanha a angústia do protagonista Naziazeno, um trabalhador endividado que precisa conseguir dinheiro para pagar uma dívida ao leiteiro em um prazo de 24 horas. Essa premissa serve como pano de fundo para uma profunda crítica social ao capitalismo e à luta pela sobrevivência em uma sociedade desigual.
A trama se desenrola em Porto Alegre, com Naziazeno percorrendo a cidade em busca dos recursos necessários. Sua peregrinação o leva a solicitar empréstimos de amigos, do patrão e até de agiotas, o que o faz acumular ainda mais débitos. A cada tentativa frustrada ou a cada nova dívida contraída para saldar a anterior, a pressão sobre o personagem aumenta, intensificando seu sofrimento psicológico.
Durante essa busca desesperada, Naziazeno chega a perder o pouco dinheiro que possuía para almoçar em um jogo, acentuando sua situação precária. O clímax da sua angústia é revelado no final do dia, quando, ao se deitar, ele tem alucinações com ratos roendo as cédulas que seriam usadas para pagar o leiteiro. Essa imagem simbólica reforça o desespero e a sensação de impotência do personagem diante de suas obrigações financeiras.
A obra, apesar de ambientada em 1935, durante a Era Vargas, com a promulgação de uma nova Constituição de caráter liberal no Brasil, mantém uma relevância atemporal. Ela reflete a realidade de muitos trabalhadores brasileiros que se veem presos em um ciclo vicioso de dívidas, tornando “Os Ratos” um espelho da fragilidade financeira e da crise social que atravessa gerações.
A crítica contundente ao capitalismo e a representação da angústia existencial do indivíduo na luta pela sobrevivência em uma sociedade desigual.
Dyonélio Tubino Machado (1895-1985) foi um renomado escritor, psiquiatra e ativista político brasileiro, considerado um dos expoentes da segunda geração do Modernismo no Brasil. Nascido em Quaraí, Rio Grande do Sul, Dyonélio enfrentou uma infância de privações, vendendo bilhetes de loteria desde os oito anos para ajudar sua família. Apesar das dificuldades, conseguiu dar continuidade aos estudos, inclusive fundando um jornal, “O Martelo”, aos doze anos.
Estudou Medicina em Porto Alegre (1924-1929) e especializou-se em psiquiatria no Rio de Janeiro, defendendo em 1932 a tese “Uma definição biológica do crime”. Foi um dos principais propagadores da psicanálise no Rio Grande do Sul e traduziu obras importantes na área. Seu interesse pela literatura e jornalismo o levou a frequentar o círculo intelectual conhecido como “grupo da Praça da Harmonia”, em Porto Alegre. Sua carreira literária começou com contos em “Um Pobre Homem” (1927), mas foi com “Os Ratos” (1935) que ganhou maior destaque. Além de sua obra literária, Dyonélio Machado foi um membro dedicado do Partido Comunista Brasileiro (PCB), sendo eleito presidente da seção regional da Aliança Nacional Libertadora (ANL) e, posteriormente, deputado estadual em 1947. Suas posições ideológicas o levaram a ser preso político, mas ele jamais abandonou suas convicções. O aspecto psicológico é uma constante em sua produção, como se observa em “Os Ratos” e “O Louco do Cati”.
“Os Ratos” é uma das obras mais significativas de Dyonélio Machado e um marco da literatura brasileira do século XX, especialmente por sua inserção na segunda fase do Modernismo, também conhecida como Geração de 30. Este período foi marcado por um forte engajamento social e político, com autores explorando temas como a realidade brasileira, as desigualdades sociais e os conflitos psicológicos do indivíduo. A obra de Machado se destaca por sua concisão, seu foco na psicologia de seu personagem e sua crítica incisiva às estruturas capitalistas. É uma leitura obrigatória em importantes vestibulares, como a Fuvest 2025, evidenciando sua relevância contínua para a compreensão da sociedade e da literatura nacional.
| Tempo | Todo o livro se passa em um intervalo de 24 horas. |
| Espaço | As ruas e ambientes urbanos de Porto Alegre. |
| Narrador | Terceira pessoa, com uma perspectiva “colada” ao personagem principal, permitindo ao leitor acompanhar de perto o sofrimento e os pensamentos de Naziazeno (foco narrativo interno). |
| Linguagem | Direta, objetiva e concisa, refletindo a urgência e a tensão da narrativa. Há um uso eficaz de repetições e descrições para intensificar o clima de angústia e o estado psicológico do protagonista, característica do realismo psicológico e social da época. |
O estilo de Dyonélio Machado em “Os Ratos” é marcadamente influenciado pelo realismo social e psicológico, vertentes fortes na segunda fase do Modernismo. A obra se aprofunda na psique do personagem principal, Naziazeno, explorando sua angústia e seu desespero de forma visceral. O narrador, ao estar “colado” ao protagonista, oferece um acesso privilegiado aos seus pensamentos e sentimentos, tornando o leitor cúmplice de seu sofrimento.
Um dos recursos mais notáveis é o simbolismo dos ratos. Eles surgem no final do livro como uma alucinação de Naziazeno, roendo as cédulas que ele usaria para pagar a dívida. Esses animais noturnos e indesejados simbolizam não apenas a destruição do dinheiro, mas também a degradação, a miséria e a incessante pressão que consome o protagonista, corroendo sua paz e sua dignidade. A repetição de pensamentos e a descrição exaustiva da peregrinação de Naziazeno reforçam o ciclo vicioso de suas dívidas e o peso psicológico da situação.
A concisão da narrativa, que se desenrola em apenas 24 horas, intensifica a sensação de urgência e claustrofobia. A linguagem é despojada de floreios, focada em transmitir a crueza da realidade e a intensidade das emoções do personagem. É uma obra que, através de sua forma e conteúdo, demonstra a maestria de Machado em retratar a condição humana diante das adversidades sociais e econômicas.
“Os Ratos” foi escrito em 1935, um período conturbado na história do Brasil, conhecido como Era Vargas (1930-1945). Logo após a promulgação de uma nova Constituição de caráter liberal, o país vivenciava transformações políticas, sociais e econômicas significativas. O livro de Dyonélio Machado emerge nesse cenário, oferecendo uma crítica atemporal ao capitalismo e suas consequências para as camadas mais vulneráveis da sociedade.
A obra ilustra a face perversa de um sistema que, muitas vezes, aprisiona o indivíduo em um ciclo de dívidas e desespero. Naziazeno, o protagonista, representa o trabalhador brasileiro da época, e sua angústia ecoa a de muitos que lutavam pela sobrevivência. A facilidade com que ele se endivida e a dificuldade em quitar seus compromissos, levando-o a contrair novas dívidas, expõem a fragilidade econômica e a falta de oportunidades para os mais pobres. A obra critica a exploração e a indiferença das estruturas sociais e financeiras perante o sofrimento individual.
A relevância da crítica de Machado transcende o tempo, pois os problemas de endividamento e a busca incessante por recursos para “chegar ao fim do mês” continuam sendo uma realidade para muitos brasileiros hoje. Dessa forma, “Os Ratos” não é apenas um registro de uma época, mas um espelho da persistência de certas mazelas sociais, tornando-o uma obra de profundo engajamento social e reflexão sobre a condição humana.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
Resumo por capítulo do livro OS RATOS | Dyonelio Machado | vestibular FUVEST
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