“Uma vela para Dario“, um dos contos mais célebres de Dalton Trevisan, apresenta uma cena chocante e profundamente reflexiva. A narrativa se inicia com a queda de um homem, Dario, em plena rua movimentada de uma cidade. Ele não se levanta. Rapidamente, uma multidão se forma ao redor, curiosa e ávida por espetáculo, mas paralisada pela inação.
O foco do conto não está na figura de Dario, que permanece inerte e anônimo, mas sim na reação das pessoas ao seu redor. Testemunhas observam, comentam, especulam sobre a causa da queda – embriaguez, doença, ataque cardíaco – mas ninguém demonstra iniciativa real para ajudá-lo. A indiferença e a passividade coletiva são os verdadeiros protagonistas desta tragédia urbana.
À medida que o tempo passa, a cena se degrada. Alguns curiosos se aproximam demais, outros se afastam com nojo ou desinteresse. A vida na cidade, com seu ritmo frenético e impessoal, segue seu curso, ignorando o drama humano que se desenrola no chão. A morte iminente de Dario torna-se um mero incômodo, um obstáculo temporário na paisagem urbana.
No desfecho, quando Dario finalmente falece, alguém surge com a ideia de acender uma vela ao lado do corpo. Este gesto, aparentemente piedoso, é permeado pela ironia, pois surge tarde demais e não apaga a mancha da inação e da falta de solidariedade que marcaram os momentos finais do homem. O conto é um poderoso espelho da condição humana e da desumanização nas grandes metrópoles.
A indiferença e a desumanização nas relações sociais urbanas.
Dalton Trevisan, conhecido como “O Vampiro de Curitiba”, é um dos mais importantes contistas da literatura brasileira contemporânea. Nascido em Curitiba, em 1925, Trevisan construiu uma obra vasta e densa, marcada por um estilo conciso, irônico e muitas vezes cruel. Sua escrita explora as profundezas da alma humana, revelando os aspectos sombrios, as fraquezas e as hipocrisias da sociedade, especialmente no ambiente urbano. Avesso a entrevistas e aparições públicas, construiu um mito em torno de sua figura, que apenas reforça a intensidade e a originalidade de sua produção literária.
“Uma vela para Dario” é um conto emblemático de Dalton Trevisan, publicado originalmente na coletânea “Cemitério de Elefantes” (1964) e posteriormente incluído em diversas antologias. A obra sintetiza a maestria do autor em construir narrativas curtas que, em poucas linhas, expõem dramas universais e críticas sociais contundentes. O conto é um microcosmo da sociedade urbana, onde a vida e a morte se entrelaçam com a rotina e a indiferença, convidando o leitor a uma profunda reflexão sobre a solidariedade e a condição humana.
| Tempo | Cronológico e relativamente curto, abrangendo o período da queda de Dario até sua morte. |
| Espaço | Uma rua movimentada de uma cidade grande, cenário que acentua a impessoalidade e a agitação da vida urbana. |
| Narrador | Terceira pessoa, observador e onisciente, que descreve os eventos e as reações da multidão com um tom objetivo, quase jornalístico, mas carregado de ironia e crítica implícita. |
| Linguagem | Seca, concisa, direta, econômica em adjetivos e rica em verbos de ação e observação. Há um tom de coloquialidade e realismo que se mescla com a crueza dos fatos. |
O estilo de Dalton Trevisan em “Uma vela para Dario” é marcado pela sua conhecida concisão e objetividade. O autor emprega uma linguagem enxuta, quase jornalística, que contrasta com a dramaticidade da situação narrada. A ironia é um recurso central, presente na descrição da inação da multidão e no desfecho com a vela. Há um forte uso de detalhes sensoriais (o cheiro, o burburinho) para criar uma atmosfera de realismo cru. A repetição de certas observações sobre a multidão reforça a ideia de conformismo e passividade. A construção da narrativa é um exemplo de minimalismo literário, onde o não dito e as entrelinhas são tão importantes quanto o texto explícito, evidenciando a desumanização e a incapacidade de empatia.
“Uma vela para Dario” é um reflexo das transformações sociais e psicológicas do Brasil nas décadas de 1950 e 1960, período de intensa urbanização e modernização. O conto de Dalton Trevisan critica ferrenhamente a alienação urbana, a perda dos laços comunitários e a crescente individualização nas grandes cidades. A cena da morte de Dario, ignorada pela maioria, é uma metáfora para a banalidade do mal e a perda da solidariedade humana. O autor questiona a moralidade de uma sociedade que prioriza a velocidade e a superficialidade em detrimento da compaixão e do auxílio mútuo. É uma obra que dialoga com a literatura existencialista da época, ao colocar o homem diante de sua própria finitude e da indiferença alheia.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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