Úrsula é um romance da escritora maranhense Maria Firmina dos Reis publicado em 1859. É considerado o primeiro romance escrito por uma mulher no Brasil.
A narrativa se articula a partir de um triângulo amoroso formado por Adelaide, Tancredo e seu pai. Esse triângulo é desfeito com a derrota de Tancredo. Cria-se, então, um segundo triângulo formado por Tancredo, Úrsula e seu tio. Mas há, também, uma tríade, formada por três personagens negros, que vão aparecendo ao longo da narrativa, cuja importância vai tomando proporções cada vez maiores: Túlio, Mãe Susana e Antero que, juntamente com o jovem Tancredo, dão o tom diferente à narrativa.
Úrsula, publicado em 1859, é uma obra seminal da literatura brasileira, escrita por Maria Firmina dos Reis, e reconhecida como o primeiro romance abolicionista e o primeiro romance publicado por uma mulher no Brasil. A narrativa, aparentemente um melodrama romântico, serve como um veículo poderoso para a crítica social e a denúncia das atrocidades da escravidão. O enredo principal gira em torno do amor puro e idealizado entre Tancredo, um jovem de família abastada, e Úrsula, uma moça órfã de pai que vive com sua mãe doente, em condições financeiras modestas.
No entanto, a felicidade do casal é constantemente ameaçada pelo vilão Fernando P., tio de Úrsula, um homem mesquinho, violento e rancoroso, que nutre sentimentos obsessivos pela sobrinha e maltrata cruelmente seus escravos. Este conflito romântico, típico do Romantismo, é habilmente entrelaçado com a representação vívida e dolorosa da realidade dos cativos, dando voz a personagens negros que, pela primeira vez na literatura brasileira, são retratados com profundidade e humanidade a partir de uma perspectiva interna.
A história ganha camadas adicionais através de um trio de personagens negros: Túlio, o cativo que salva a vida de Tancredo e, ao ser libertado, usa sua voz para clamar por respeito aos seus irmãos escravizados; Suzana, cuja história trágica no navio negreiro e a dolorosa separação de sua família na África ilustram a brutalidade da diáspora; e Antero, o velho guardião que, sob o fardo do trabalho incessante, encontra na bebida e na desobediência uma forma de resistência e sobrevivência. Suas narrativas não são meros adornos, mas o coração pulsante da obra, revelando a experiência escrava com uma sensibilidade e realismo até então inéditos.
O desfecho da obra é profundamente trágico, distanciando-se do final feliz convencional do romance romântico e aproximando-se do gótico. Em um ato de ciúmes insano, Fernando P. assassina Tancredo na noite de seu casamento com Úrsula, levando a protagonista à loucura e à morte. O vilão, consumido pelo remorso, eventualmente liberta seus escravos e se recolhe a um convento, morrendo em penitência. Esse final sombrio intensifica a mensagem crítica, buscando provocar uma profunda reflexão e empatia no leitor sobre as injustiças retratadas.
A crueldade da escravidão e a hipocrisia social, denunciadas através de um enredo romântico que subverte as convenções da época.
Maria Firmina dos Reis (1825-1917) foi uma escritora, professora e compositora brasileira. Nascida em São Luís, no Maranhão, de uma mãe negra e um pai branco, ela foi uma mulher afrodescendente em uma sociedade escravocrata e patriarcal do século XIX. Sua origem e experiência de vida a posicionaram de forma única para abordar a questão da escravidão em sua obra. Publicou Úrsula em 1859 sob o pseudônimo “uma maranhense”, uma escolha que denota a cautela de uma mulher que ousava adentrar o cenário literário da época, especialmente com uma temática tão transgressora. Além de escritora, Maria Firmina destacou-se por sua atuação na educação, fundando a primeira escola mista e gratuita do Maranhão, demonstrando seu compromisso com a inclusão social e o saber. Sua vida e obra são testemunhos de uma inteligência aguda e de um espírito combativo que desafiou as normas de seu tempo.
Úrsula é amplamente celebrado por sua importância histórica e literária. Lançado em 1859, este romance é um marco por ser não apenas o primeiro escrito por uma mulher no Brasil, mas também por sua abordagem pioneira e corajosa da temática abolicionista. Antes mesmo de figuras como Castro Alves, Maria Firmina dos Reis deu voz aos silenciados, expondo as dores e injustiças da escravidão a partir de uma perspectiva interna dos negros. O livro, embora inserido no movimento do Romantismo brasileiro, rompe com algumas de suas convenções ao oferecer uma visão crítica e realista da sociedade da época, especialmente no que tange à condição dos escravos e das mulheres. A autora utiliza a estrutura do romance popular para cativar o leitor, mas subverte suas expectativas ao rechear o enredo com denúncias contundentes e reflexões profundas sobre a humanidade e a dignidade. É um texto essencial para compreender a formação da literatura afro-brasileira e a luta pela abolição da escravatura.
| Tempo | O enredo se desenvolve em um tempo linear, típico do Romantismo, com alguns recuos temporais para aprofundar as histórias dos personagens, especialmente as de Túlio, Suzana e Antero. |
| Espaço | A história se passa no Maranhão do século XIX, em ambientes que variam entre a casa simples de Úrsula, a residência de Tancredo e as propriedades onde a escravidão é praticada, contrastando a beleza natural com a feiura da opressão. |
| Narrador | A narrativa é conduzida em terceira pessoa, com um narrador onisciente que tem acesso aos pensamentos e sentimentos dos personagens, permitindo ao leitor uma visão abrangente dos acontecimentos e das críticas sociais. |
| Linguagem | A linguagem é marcada por características do Romantismo, com traços de idealização e sentimentalismo, mas também com um tom direto e crítico ao abordar a escravidão. Apresenta grafia e vocabulário da época, como “dous” em vez de “dois”, o que confere autenticidade histórica à obra. |
O estilo de Maria Firmina dos Reis em Úrsula é notável por sua habilidade em mesclar as convenções do romance romântico com uma profunda carga de crítica social. A autora emprega uma linearidade narrativa tradicional, com personagens que, à primeira vista, podem parecer sem grande complexidade psicológica, o que era comum nos romances populares da época. Contudo, essa aparente simplicidade serve como uma estratégia para atrair e manter o leitor, enquanto a mensagem abolicionista é sutilmente tecida na trama.
Um dos recursos mais impactantes é o uso da empatia. Ao apresentar as histórias de Túlio, Suzana e Antero, Maria Firmina força o leitor a se colocar no lugar dos escravos, sentindo suas dores e compreendendo a desumanidade do sistema. A sensibilidade feminina da autora é evidente na descrição detalhada e emotiva do sofrimento dos cativos, especialmente no relato de Suzana. Além disso, a obra se apropria de elementos do romance gótico em seu desfecho trágico, com mortes e loucura, para intensificar o impacto emocional e promover a reflexão sobre as consequências da maldade humana. O tom didático e a intenção de denúncia social são constantemente presentes, mesmo sob o véu do enredo amoroso, revelando uma autora engajada e consciente de seu papel na sociedade.
Úrsula emerge em um Brasil do século XIX marcado pela manutenção da escravidão e por um cenário literário dominado por vozes masculinas e uma visão idealizada da sociedade. Publicado em 1859, o romance antecede importantes movimentos abolicionistas e a própria Lei Áurea (1888), tornando-se um precursor da temática e um dos primeiros gritos literários contra a escravatura. A obra de Maria Firmina dos Reis se distingue por sua autoria feminina e afrodescendente, trazendo à tona uma perspectiva interna e genuína sobre o sofrimento dos negros, algo raro em um período em que a maioria das representações era feita por autores brancos.
As críticas sociais de Úrsula são multifacetadas: primeiramente, denuncia a barbaridade da escravidão, não apenas através da exploração física, mas também pela desestruturação familiar, a perda da identidade e a violência psicológica sofridas pelos cativos. Em segundo lugar, a autora confronta a ideia vigente de que o negro era inferior ou “ruim por natureza”, ao apresentar personagens como Túlio, Suzana e Antero com complexidade, bondade e dignidade. A obra também se afasta do nacionalismo exacerbado do Romantismo da época, que focava na construção de uma identidade nacional branca, para dar destaque às vozes e culturas africanas. Além disso, Maria Firmina critica a posição social da mulher no século XIX, ao assinar a obra com um pseudônimo e, no prólogo, expressar a submissão de sua voz feminina, ao mesmo tempo em que a subverte com o conteúdo corajoso de seu romance. A história de amor serve, portanto, como um pano de fundo para iluminar as profundas desigualdades e injustiças sociais do Brasil imperial.
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Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
RESUMO da obra ÚRSULA, de Maria Firmina dos Reis | Análise e comentários | Vestibular UFSC
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