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Figuras de linguagem: aspectos fonético e sintático — o que cai no ENEM e nos vestibulares

Aprenda a reconhecer as figuras de som e de construção e o efeito de sentido que cada uma cria nas questões do ENEM e dos vestibulares.

Estudante em estilo Pixar, com fones de ouvido e sorrindo, enquanto ondas sonoras coloridas e notas musicais flutuam ao seu redor em uma sala de aula com livros sobre a mesa.
Estudante em estilo Pixar, com fones de ouvido e sorrindo, enquanto ondas sonoras coloridas e notas musicais flutuam ao seu redor em uma sala de aula com livros sobre a mesa.
Direto ao assunto
  1. O que são figuras de linguagem fonéticas e sintáticas
  2. Figuras de som: quando o som vira sentido
  3. Como diferenciar as figuras de som
  4. Figuras de sintaxe: quando a construção da frase vira sentido
  5. Como o ENEM e os vestibulares cobram essas figuras
  6. Mapa mental
  7. SAQ — Perguntas e respostas rápidas
  8. Questões comentadas
  9. Dica do professor
  10. Atenção / cuidado
  11. Conexão com outras áreas

Resumo rápido: As figuras de linguagem de aspecto fonético mexem com o som das palavras — repetição de consoantes, de vogais, imitação de ruídos e semelhança sonora entre palavras. As figuras de aspecto sintático mexem com a construção da frase — omissão, repetição, inversão e quebra da estrutura esperada. No ENEM e nos vestibulares, elas quase nunca aparecem sozinhas: vêm dentro de poemas, letras de música, crônicas e propagandas, e a questão pede o efeito de sentido que o recurso cria, não apenas o nome da figura. Se você souber reconhecer o som, a omissão e a ordem das palavras, acerta a maioria das questões desse tema.

Antes de começar, vale lembrar uma divisão importante. As figuras de linguagem costumam ser organizadas em três grandes grupos: figuras de som (ou fonéticas), figuras de construção (ou sintáticas) e figuras de pensamento e de palavras, que formam o grupo semântico. Este artigo trata dos dois primeiros grupos. Se quiser revisar o terceiro grupo depois, vale a pena estudar as figuras de linguagem de aspecto semântico, como metáfora, comparação, ironia e eufemismo, que funcionam por mudança de sentido, e não por som ou por construção da frase.

O que são figuras de linguagem fonéticas e sintáticas

Figura de linguagem é um recurso de estilo: o autor usa a língua de um jeito diferente do uso mais direto e previsível para produzir um efeito — musicalidade, ênfase, humor, suspense, emoção ou crítica. Quando o recurso está no som, chamamos de figura fonética. Quando está na forma como a frase é montada, chamamos de figura sintática ou de construção. Em muitos textos, os dois tipos aparecem juntos: um poema pode repetir sons e, ao mesmo tempo, inverter a ordem das palavras.

Por que isso cai tanto em prova? Porque o ENEM e os vestibulares gostam de textos literários e de gêneros do cotidiano — música, publicidade, crônica — em que o som e a construção são parte do sentido. Não basta decorar definições: é preciso perceber o que a repetição de um som sugere, o que a falta de um termo esconde ou destaca e o que a inversão da ordem provoca no leitor. A boa notícia é que essas figuras têm marcas bastante visíveis. Com treino, você passa a reconhecê-las em segundos.

Um conselho prático desde já: leia o trecho em voz alta, mesmo que mentalmente. As figuras fonéticas aparecem no ouvido; as sintáticas aparecem quando você tenta reorganizar a frase na ordem mais comum e percebe o que mudou. Esse duplo teste — ouvir e reorganizar — resolve grande parte das questões.

Figuras de som: quando o som vira sentido

As figuras fonéticas exploram a materialidade sonora da língua. O som deixa de ser apenas veículo da mensagem e passa a participar dela: ele imita, sugere, embala, incomoda ou emociona. São quatro as principais: aliteração, assonância, onomatopeia e paronomásia.

Aliteração: a repetição de consoantes

Aliteração é a repetição de sons consonantais, iguais ou parecidos, em palavras próximas, geralmente no início das sílabas. O efeito mais comum é a musicalidade e a ênfase, mas o som repetido pode também imitar um ruído ou reforçar uma sensação.

Exemplos originais:

  • “O vento varre a vela, veloz, sobre as vagas.” — a repetição do som de v sugere velocidade e movimento contínuo.
  • “Pedra, poeira e passos na praça parada.” — o som de p marca batidas secas, como passos.
  • “Sussurra a serra, serena, sob a sombra.” — o som de s cria um clima suave, quase de sussurro.

Perceba que a aliteração não depende da letra escrita, e sim do som. Palavras com grafias diferentes podem aliterar se o som for parecido, e a mesma letra pode representar sons diferentes. Na prova, preste atenção ao som, não só à letra. Outro detalhe: a repetição precisa ser perceptível e próxima. Duas palavras com a mesma consoante em um texto longo não configuram aliteração; é preciso um jogo sonoro intencional, em sequência curta.

Assonância: a repetição de vogais

Assonância é a repetição de sons vocálicos em palavras próximas. Enquanto a aliteração trabalha com consoantes, a assonância trabalha com vogais, e seu efeito costuma ser de melodia, de prolongamento do som e, muitas vezes, de lamento, de calma ou de monotonia.

Exemplos originais:

  • “A tarde cai, clara e calma, sobre a casa.” — a vogal a se repete e dá sensação de abertura e tranquilidade.
  • “O sino soou longo, rouco, no morro.” — a vogal o prolonga o som e sugere o eco do sino.
  • “Luz que seduz e conduz o olhar.” — a vogal u cria uma sonoridade fechada e envolvente.

Aliteração e assonância frequentemente aparecem juntas no mesmo verso. Quando isso acontece, a questão pode pedir que você identifique as duas ou que escolha a predominante. Nesse caso, observe qual repetição é mais forte e mais frequente no trecho destacado. Se o enunciado destacar um verso inteiro, vale marcar a figura que o verso inteiro sustenta, e não um detalhe isolado de uma palavra.

Onomatopeia: o som que imita o mundo

Onomatopeia é a palavra ou expressão que imita um som da realidade: ruído de animal, de objeto, de fenômeno da natureza ou de ação humana. É a figura fonética mais fácil de reconhecer, porque o som tenta reproduzir aquilo de que se fala.

Exemplos originais:

  • “O relógio fazia tic-tac na sala silenciosa.”
  • “O trovão ribombou: bum! — e a janela tremeu.”
  • “O gato miou a noite inteira no telhado.”
  • “Pluft! A pedra caiu na água e espirrou gotas para todos os lados.”

Cuidado com um erro comum: nem toda palavra que parece sonora é onomatopeia. Palavras como “sussurrar” e “murmurar” têm origem sonora, mas, no uso cotidiano, já funcionam como verbos comuns. A onomatopeia, na prova, costuma aparecer de forma marcada — em quadrinhos, em letras de música, em narrativas infantis e em poemas — como reprodução direta de um ruído. Por falar em quadrinhos, vale revisar como som, imagem e texto se combinam nas charges e tirinhas, gênero em que onomatopeias como “bum”, “pluft” e “crash” aparecem com frequência e fazem parte da construção do humor e do sentido.

Paronomásia: palavras parecidas, sentidos diferentes

Paronomásia é o uso de palavras de sons parecidos, mas de sentidos diferentes, próximas umas das outras, criando um jogo sonoro e, muitas vezes, um contraste de sentido, um trocadilho ou um efeito de humor e ironia.

Exemplos originais:

  • “Ele não veio para vencer, veio para convencer.” — vencer e convencer soam parecidas, mas apontam para ações diferentes.
  • “Não é a roupa que faz a roupa do homem, é a postura.” — o jogo sonoro chama atenção para o contraste.
  • “Quem canta seus males espanta, mas quem conta seus males aumenta.” — cantar e contar se aproximam no som e se opõem no sentido.

A paronomásia é muito usada em provérbios, slogans e propagandas, justamente porque o som parecido facilita a memorização e o contraste de sentido provoca reflexão ou graça. Na prova, desconfie de paronomásia sempre que duas palavras parecidas no som aparecerem lado a lado com sentidos que se opõem ou se completam de forma surpreendente.

Quem domina as figuras de som costuma entender melhor também as figuras de sentido: enquanto aqui o efeito nasce do som, nas figuras de linguagem de aspecto semântico o efeito nasce da mudança de sentido das palavras. E, como todo recurso sonoro serve a uma intenção de comunicação, vale relacionar esse estudo com as funções da linguagem, que explicam por que o autor escolhe um som e não outro.

Como diferenciar as figuras de som

Aliteração, assonância e paronomásia costumam ser confundidas. Um truque simples ajuda: pergunte o que se repete. Se o que se repete é um som consonantal, é aliteração. Se é um som vocálico, é assonância. Se não há repetição de um mesmo som, mas sim duas palavras inteiras parecidas no som e diferentes no sentido, é paronomásia. Se o som imita um ruído do mundo, é onomatopeia. Essa pergunta — “o que se repete, e o que isso imita?” — já elimina muitas alternativas.

FiguraO que se repete ou se imitaEfeito mais comumExemplo curto
AliteraçãoSom consonantalMusicalidade, ênfase, imitação de ritmo“Vento veloz varre a vela.”
AssonânciaSom vocálicoMelodia, prolongamento, clima emocional“A tarde cai, clara e calma.”
OnomatopeiaRuído do mundo realImitação sonora, vivacidade“Tic-tac, bum, pluft.”
ParonomásiaPalavras parecidas no somTrocadilho, contraste, humor“Vencer e convencer.”

Figuras de sintaxe: quando a construção da frase vira sentido

As figuras sintáticas, também chamadas de figuras de construção, alteram a estrutura esperada da frase. A frase pode perder um termo, repeti-lo, inverter sua ordem, interromper-se ou concordar de um jeito inesperado. O sentido não está apenas nas palavras escolhidas, mas na forma como elas foram organizadas — ou desorganizadas — de propósito.

Para entender essas figuras, é útil lembrar a ordem mais comum da frase em português: sujeito, verbo e complementos. Quando o autor foge dessa ordem, omite um termo ou repete uma palavra, ele está sinalizando algo: pressa, emoção, ênfase, informalidade, quebra de expectativa. A questão de prova quase sempre pergunta qual é esse sinal.

Elipse: a omissão que o contexto completa

Elipse é a omissão de um termo da frase que pode ser facilmente identificado pelo contexto, sem prejudicar a compreensão. O termo omitido pode ser o sujeito, o verbo ou outro elemento, e a omissão dá ritmo, agilidade e, muitas vezes, elegância ao texto.

Exemplos originais:

  • “Na sala, só silêncio.” — omite-se o verbo: “havia só silêncio”.
  • “Ele correu para a escola; eu, para o trabalho.” — omite-se o verbo “corri” na segunda oração.
  • “Chegamos cedo. Saímos tarde. Ninguém reclamou.” — cada frase curta omite elementos que o contexto já informa.

A elipse é uma das figuras mais cobradas porque aparece em textos de todos os gêneros, inclusive em linguagem cotidiana. Sempre que uma frase parecer “incompleta”, mas fizer sentido completo pelo contexto, desconfie de elipse.

Zeugma: a elipse de um termo já dito

Zeugma é um tipo específico de elipse: omite-se um termo que já foi expresso antes, em oração anterior, para não repeti-lo. É como se o termo ficasse “subentendido” porque já apareceu. Por isso, muitos materiais tratam a zeugma como um caso especial da elipse.

Exemplos originais:

  • “Ele gosta de poesia; ela, de romance.” — omite-se “gosta”, já dito na primeira oração.
  • “Eu trouxe o caderno; ele, o livro.” — omite-se “trouxe”.

Na prova, a diferença entre elipse e zeugma costuma ser o ponto decisivo. Se o termo omitido já apareceu antes no texto e foi apenas evitado na repetição, a resposta mais precisa é zeugma. Se o termo omitido nunca foi expresso, mas é recuperável pelo contexto geral, a resposta é elipse. Quando as duas alternativas aparecem juntas, prefira zeugma se houver termo anterior explícito; caso contrário, fique com elipse.

Pleonasmo: a repetição com intenção

Pleonasmo é a repetição de uma ideia, com palavras diferentes ou com a mesma ideia reforçada, para dar ênfase. É importante separar o pleonasmo literário — intencional e expressivo — do pleonasmo vicioso, que é redundância sem efeito, como “subir para cima”, dita sem intenção estilística.

Exemplos originais:

  • “Vi com meus próprios olhos a cena inteira.” — ver já implica os olhos; o reforço dá ênfase ao testemunho.
  • “Ele sorriu um sorriso triste.” — o verbo e o objeto repetem a mesma ideia para intensificá-la.
  • “Chorou lágrimas de alívio.” — chorar e lágrimas se reforçam mutuamente.

Na prova, o pleonasmo aparece quase sempre como recurso de ênfase em texto literário. Se o enunciado destacar uma repetição de ideia em poema ou crônica, e perguntar o efeito, a resposta provável é pleonasmo com função enfática — não “erro de português”. O contexto literário é o que transforma a redundância em figura.

Anáfora: a repetição no início

Anáfora é a repetição de uma mesma palavra ou expressão no início de versos, frases ou orações seguidas, criando ritmo, insistência e ênfase. É muito comum em discursos, poemas e letras de música, e seu efeito é quase musical: a repetição martela uma ideia na cabeça do leitor.

Exemplos originais:

  • “Era uma tarde de espera. Era uma tarde de silêncio. Era uma tarde de despedida.” — a repetição de “era uma tarde” marca o ritmo e a insistência.
  • “Eu quero aprender. Eu quero tentar. Eu quero conseguir.” — a repetição do “eu quero” reforça a determinação.

Não confunda anáfora com simples repetição solta. Na anáfora, a repetição acontece no início de unidades seguidas — versos ou orações em sequência — e funciona como um refrão estrutural do texto. Se a palavra se repete no meio ou no fim das frases, sem esse padrão inicial, pode ser outro tipo de repetição, e não anáfora.

Polissíndeto e assíndeto: o jogo das conjunções

Polissíndeto e assíndeto formam um par oposto, e as provas adoram cobrá-los juntos. No polissíndeto, as conjunções — geralmente o “e” — se repetem entre orações ou termos, criando sensação de acúmulo, de sequência sem fim ou de insistência. No assíndeto, as conjunções são omitidas, e os termos ou orações aparecem justapostos, separados por vírgulas, criando sensação de rapidez, de enumeração seca ou de impacto.

Exemplos originais de polissíndeto:

  • “E correu, e tropeçou, e levantou, e continuou.” — a repetição do “e” dá ideia de sequência que não termina.
  • “E o vento, e a chuva, e o frio chegaram juntos.” — o acúmulo reforça a intensidade.

Exemplos originais de assíndeto:

  • “Chegou, viu, venceu.” — sem conjunção, a frase ganha velocidade e impacto.
  • “Estudou, revisou, descansou, passou.” — a enumeração rápida sugere rotina intensa.

Um macete: se você consegue contar vários “e” seguidos, é polissíndeto; se há vírgulas onde caberia um “e” e a frase parece acelerada, é assíndeto. O efeito é tão importante quanto o nome: polissíndeto alonga e acumula; assíndeto encurta e acelera.

Hipérbato: a inversão da ordem

Hipérbato, também chamado de inversão, é a alteração da ordem direta dos termos da frase — sujeito, verbo e complementos — para dar ênfase a um termo deslocado ou para criar um efeito poético e solene. O termo que vai para o início ou para o fim da frase ganha destaque.

Exemplos originais:

  • “Da janela, observava a rua o menino curioso.” — a ordem direta seria “O menino curioso observava a rua da janela”; o deslocamento destaca “da janela” e “o menino curioso”.
  • “Triste estava a cidade naquela manhã.” — o adjetivo antecipado ganha ênfase emocional.
  • “Ao mar, entregou o pescador suas redes.” — a inversão dá tom solene e literário.

Para identificar o hipérbato, tente reordenar a frase na ordem direta. Se a frase reorganizada ficar mais “normal” e o sentido se mantiver, mas a versão original destacar um termo pelo deslocamento, é hipérbato. Cuidado: nem toda frase fora da ordem direta é hipérbato com função estilística; em textos informais, a inversão pode ser apenas variação natural da fala. Na prova, o hipérbato aparece em poemas e textos literários, com intenção clara de ênfase.

Anacoluto: a quebra da frase

Anacoluto é a interrupção brusca da estrutura sintática: a frase começa com um termo ou uma ideia e, no meio do caminho, muda de rumo, deixando a construção inicial sem conclusão gramatical. O efeito é de oralidade, de emoção, de hesitação ou de pensamento que se atropela.

Exemplos originais:

  • “A prova, eu nem sei se vou conseguir fazer…” — a frase começa com “a prova” como tema, mas não conclui essa construção; muda para outra estrutura.
  • “O meu irmão, quando ele chega, a casa inteira se anima.” — o tema inicial fica solto, e a frase se reorganiza no meio.

O anacoluto é típico da fala espontânea e de narrativas que imitam a oralidade. Na prova, ele pode aparecer em crônicas e em diálogos, sinalizando informalidade ou emoção. Se a frase parecer “quebrada” no meio, com um começo que não se liga gramaticalmente ao fim, desconfie de anacoluto.

Silepse: a concordância com a ideia, não com a palavra

Silepse é a concordância que segue a ideia, e não a forma gramatical da palavra. Ela pode ser de gênero, de número ou de pessoa. O exemplo mais famoso é a silepse de pessoa: “Os brasileiros somos apaixonados por futebol” — o verbo vai para a primeira pessoa do plural porque o falante se inclui no grupo, embora o sujeito esteja na terceira pessoa.

Exemplos originais:

  • Silepse de número: “A multidão gritavam sem parar.” — “multidão” é singular, mas a ideia de muitas pessoas leva o verbo ao plural.
  • Silepse de gênero: “São Paulo é linda à noite.” — a cidade, substantivo masculino, concorda no feminino pela ideia de “cidade”.
  • Silepse de pessoa: “A turma toda vamos viajar amanhã.” — o falante se inclui na turma.

Muita gente confunde silepse com erro de concordância. A diferença está na intenção e na coerência: na silepse, a concordância “errada” segue uma ideia clara e compreensível — o grupo, a cidade, a inclusão do falante. Em textos literários e jornalísticos, a silepse é recurso expressivo, não descuido. Na prova, se a concordância estranha fizer sentido pela ideia, marque silepse.

Repetição: o reforço pelo retorno da palavra

Além da anáfora, a repetição em sentido amplo é um recurso sintático de ênfase: uma palavra ou expressão retorna ao longo do texto para fixar uma ideia, criar ritmo ou expressar insistência e emoção. Ela aparece em refrãos, em discursos e em narrativas em que o narrador não consegue largar um tema.

Exemplos originais:

  • “E ele andava, andava, andava, sem saber para onde.” — a repetição sugere caminhada longa e sem fim.
  • “Nunca, nunca vou esquecer aquele dia.” — a duplicação intensifica a negação.

Quando a repetição acontece no início de versos seguidos, o nome mais preciso é anáfora. Quando acontece em outros pontos da frase, com função de ênfase e ritmo, a prova pode chamá-la simplesmente de repetição. O importante, nos dois casos, é perceber o efeito: insistência, fixação de ideia e ritmo.

Na hora de revisar, vale cruzar este tema com outros gêneros em que som e construção pesam muito: as charges e tirinhas usam onomatopeia e economia de palavras, as funções da linguagem explicam a intenção de cada escolha, e as figuras de linguagem de aspecto semântico completam o quadro com os efeitos de sentido.

Como o ENEM e os vestibulares cobram essas figuras

O padrão das questões é bastante estável. Primeiro, a prova apresenta um texto — poema, trecho de romance, letra de música, crônica ou propaganda — e destaca um verso ou uma frase. Depois, pergunta qual figura está presente ou qual é o efeito de sentido do recurso. As alternativas costumam misturar figuras parecidas: aliteração com assonância, elipse com zeugma, polissíndeto com assíndeto, pleonasmo com repetição. Por isso, decorar a definição não basta; é preciso saber diferenciar os pares.

Outra característica importante: o ENEM raramente pergunta apenas o nome da figura. Com frequência, o enunciado pede a função do recurso — “o recurso sonoro contribui para…”, “a inversão da ordem tem o efeito de…”, “a omissão do termo provoca…”. Nesses casos, mesmo que você não lembre o nome exato, pode acertar pela função: som que imita, repetição que enfatiza, omissão que acelera, inversão que destaca. Ler as alternativas com atenção ao efeito, e não só ao nome, é uma estratégia que salva muitas questões.

Também vale observar o gênero do texto. Em poemas, espere aliteração, assonância, anáfora e hipérbato. Em letras de música e slogans, espere paronomásia, repetição e polissíndeto. Em crônicas e narrativas com marcas de oralidade, espere elipse, anacoluto e silepse. Em quadrinhos e propagandas, espere onomatopeia. Essa expectativa de gênero não substitui a análise, mas orienta o olhar para o recurso mais provável.

Por fim, lembre-se de que as figuras de linguagem nunca andam sozinhas na interpretação. Elas se relacionam com o tema do texto, com a intenção do autor e com o efeito sobre o leitor. É por isso que o estudo de figuras se conecta com o estudo das funções da linguagem: muitas vezes, a repetição sonora ou sintática serve justamente à função poética, quando a mensagem chama atenção para si mesma, ou à função emotiva, quando expressa o sentimento de quem fala. Perceber essa conexão ajuda a responder questões que misturam figura e função.

Figura sintáticaO que acontece na fraseEfeito mais comumNão confundir com
ElipseOmite-se um termo recuperável pelo contextoAgilidade, ritmo, concisãoZeugma
ZeugmaOmite-se um termo já dito antesEvita repetição, dá elegânciaElipse
PleonasmoRepete-se uma ideia para enfatizarÊnfase expressivaRepetição simples
AnáforaRepete-se palavra no início de versos seguidosRitmo, insistênciaRepetição solta
PolissíndetoRepetem-se conjunçõesAcúmulo, sequência sem fimAssíndeto
AssíndetoOmitam-se as conjunçõesRapidez, impactoPolissíndeto
HipérbatoInverte-se a ordem diretaÊnfase no termo deslocadoAnacoluto
AnacolutoQuebra-se a frase no meioOralidade, emoção, hesitaçãoHipérbato
SilepseConcorda-se com a ideia, não com a formaExpressividade, inclusão do falanteErro de concordância
RepetiçãoRetorna-se uma palavra ao longo do textoFixação de ideia, ritmoAnáfora
Megafone amarelo emitindo ondas sonoras coloridas em uma biblioteca, com um estudante sorrindo ao lado.
Megafone amarelo emitindo ondas sonoras coloridas em uma biblioteca, com um estudante sorrindo ao lado.
Professora e estudante montando peças coloridas de quebra-cabeça sobre uma mesa em sala de aula, com um espaço vazio no quebra-cabeça.
Professora e estudante montando peças coloridas de quebra-cabeça sobre uma mesa em sala de aula, com um espaço vazio no quebra-cabeça.

Mapa mental

Figuras de linguagem: aspectos fonético e sintático

  • Fonéticas (som): aliteração (consoantes) — assonância (vogais) — onomatopeia (imita ruído) — paronomásia (palavras parecidas, sentidos diferentes).
  • Sintáticas (construção): elipse (omissão pelo contexto) — zeugma (omissão do já dito) — pleonasmo (repetição de ideia com ênfase) — anáfora (repetição no início) — polissíndeto (muitos “e”) — assíndeto (sem conjunção) — hipérbato (inversão) — anacoluto (quebra) — silepse (concordância com a ideia) — repetição (retorno da palavra).
  • Como identificar: ouça o som; reorganize a frase na ordem direta; pergunte o que falta, o que se repete e o que mudou de lugar.
  • Como cai na prova: texto literário ou cotidiano, figura destacada, pergunta sobre o nome ou o efeito de sentido; pares parecidos nas alternativas.
  • Erros comuns: confundir aliteração com assonância; elipse com zeugma; polissíndeto com assíndeto; silepse com erro de concordância; figura sintática com figura semântica.

SAQ — Perguntas e respostas rápidas

1. O que é aliteração? Repetição de sons consonantais em palavras próximas, criando musicalidade e ênfase.

2. O que é assonância? Repetição de sons vocálicos em palavras próximas, criando melodia e prolongamento do som.

3. O que é onomatopeia? Palavra que imita um som da realidade, como “tic-tac”, “bum” e “pluft”.

4. Qual a diferença entre elipse e zeugma? Na elipse, o termo omitido é recuperável pelo contexto; na zeugma, ele já foi dito antes no texto.

5. Qual a diferença entre polissíndeto e assíndeto? Polissíndeto repete conjunções; assíndeto as omite, deixando os termos justapostos.

6. O que é hipérbato? Inversão da ordem direta da frase para destacar um termo deslocado.

7. O que é silepse? Concordância feita com a ideia, e não com a forma gramatical da palavra, como em “Os brasileiros somos apaixonados por futebol”.

8. Por que pleonasmo literário não é erro? Porque a repetição de ideia é intencional e tem função de ênfase, diferente da redundância sem efeito.

Questões comentadas

Questão 1. Leia o verso: “O vento varre a vela, veloz, sobre as vagas.” O recurso sonoro predominante é:
a) Assonância.
b) Onomatopeia.
c) Aliteração.
d) Paronomásia.
e) Silepse.
Gabarito: C. Comentário: há repetição do som consonantal de v em palavras próximas (“vento”, “varre”, “vela”, “veloz”, “vagas”), o que caracteriza aliteração. Não é assonância, porque o destaque não é vocálico; não é onomatopeia, porque o som não imita um ruído do mundo; não é paronomásia, porque não há duas palavras parecidas com sentidos contrastantes; e silepse é figura sintática, não sonora.

Questão 2. No trecho “Ele gosta de poesia; ela, de romance”, o termo omitido na segunda oração caracteriza:
a) Elipse.
b) Zeugma.
c) Hipérbato.
d) Anacoluto.
e) Pleonasmo.
Gabarito: B. Comentário: o verbo “gosta” foi omitido porque já havia sido expresso na oração anterior. Quando o termo omitido já foi dito antes, o nome mais preciso é zeugma, um caso especial de elipse. Não há inversão de ordem, quebra de frase nem repetição de ideia, o que elimina as demais alternativas.

Questão 3. No verso “Chegou, viu, venceu”, a ausência de conjunções entre os verbos produz efeito de:
a) Acúmulo e lentidão.
b) Rapidez e impacto.
c) Dúvida e hesitação.
d) Ironia e humor.
e) Comparação e contraste.
Gabarito: B. Comentário: a omissão das conjunções caracteriza o assíndeto, que encurta a frase e acelera o ritmo, dando sensação de ação rápida e decisiva. O polissíndeto, ao contrário, alongaria a frase com a repetição do “e” e daria ideia de acúmulo.

Questão 4. Em “Triste estava a cidade naquela manhã”, o recurso sintático presente é:
a) Elipse.
b) Anáfora.
c) Hipérbato.
d) Silepse.
e) Onomatopeia.
Gabarito: C. Comentário: a ordem direta seria “A cidade estava triste naquela manhã”. A antecipação do adjetivo “triste” inverte a ordem esperada e destaca a emoção, o que caracteriza hipérbato. Não há omissão, repetição inicial, concordância com a ideia nem imitação de som.

Questão 5. Na frase “A multidão gritavam sem parar”, a concordância do verbo no plural, apesar de “multidão” ser singular, caracteriza:
a) Erro de concordância sem função estilística.
b) Silepse de número.
c) Pleonasmo.
d) Anacoluto.
e) Assíndeto.
Gabarito: B. Comentário: o verbo concorda com a ideia de muitas pessoas contida em “multidão”, e não com a forma singular da palavra. Essa concordância com a ideia é a silepse de número, recurso expressivo, e não um erro aleatório. Não há repetição de ideia, quebra de frase nem omissão de conjunção.

Questão 6. No slogan “Quem canta seus males espanta, mas quem conta seus males aumenta”, o jogo entre “canta” e “conta” caracteriza:
a) Aliteração.
b) Assonância.
c) Paronomásia.
d) Onomatopeia.
e) Anáfora.
Gabarito: C. Comentário: “canta” e “conta” são palavras parecidas no som, mas diferentes no sentido, colocadas lado a lado para criar contraste e facilitar a memorização. Esse é o traço definidor da paronomásia. Não se trata de simples repetição de consoante ou vogal, nem de imitação de ruído, nem de repetição no início de versos.

Dica do professor

Na hora da prova, faça dois testes rápidos em cada trecho destacado. Primeiro, leia em voz alta e pergunte: “que som se repete ou que ruído está sendo imitado?” Segundo, reorganize a frase na ordem direta e pergunte: “o que falta, o que se repete e o que mudou de lugar?” Se você responder a essas duas perguntas, o nome da figura aparece quase sozinho. E lembre-se: quando estiver em dúvida entre duas figuras parecidas, leia as alternativas procurando o efeito — som que embala, omissão que acelera, repetição que insiste, inversão que destaca. O efeito certo costuma apontar para a figura certa.

Atenção / cuidado

Os erros mais comuns nesse tema são: confundir aliteração (consoantes) com assonância (vogais); marcar elipse quando o termo omitido já foi dito antes — nesse caso, a resposta mais precisa é zeugma; trocar polissíndeto por assíndeto, que são opostos; chamar de erro de concordância o que é silepse intencional; e, principalmente, confundir figuras fonéticas e sintáticas com figuras semânticas. Metáfora, comparação, ironia e eufemismo mudam o sentido das palavras; as figuras deste artigo mudam o som ou a construção da frase. Se a questão destacar um jogo de som ou uma inversão de ordem, não marque metáfora ou ironia só porque o texto é literário. Outro cuidado: nem toda repetição é anáfora — a anáfora exige repetição no início de versos ou orações seguidas. Por fim, não confunda pleonasmo literário, que enfatiza, com redundância sem intenção, que é apenas vício de linguagem.

Conexão com outras áreas

As figuras fonéticas se conectam com a música e a poesia: ritmo, rima e sonoridade são a matéria-prima de letras, raps e poemas, e entender aliteração e assonância ajuda a analisar canções e textos poéticos em Literatura e em Artes. As figuras sintáticas se conectam com a gramática e a redação: saber o que a omissão, a inversão e a repetição provocam ajuda a escrever com mais ritmo e ênfase, e a revisar textos com olhar crítico. Na publicidade, a paronomásia e a repetição são ferramentas de memorização de slogans. Na história da literatura, o hipérbato e o polissíndeto marcam estilos de época, como o tom solene de textos clássicos e o ritmo acumulativo de narrativas barrocas. E, para quem estuda as figuras de linguagem de aspecto semântico em paralelo, a comparação entre os grupos — som, construção e sentido — é o melhor caminho para fixar a classificação inteira de uma só vez.

Incidência: ♨️ Morno. Tema recorrente em questões de interpretação de poemas, letras de música e crônicas, com cobrança frequente de aliteração, assonância, elipse, zeugma, polissíndeto e assíndeto, geralmente pedindo o efeito de sentido do recurso, e não apenas o seu nome.