
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- Por que a dupla ligação trava a molécula
- Cis e trans: a regra básica
- Isomeria geométrica em ciclos: cis e trans no anel
- E/Z: quando não há dois grupos iguais
- Propriedades: por que cis e trans se comportam diferente
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas e respostas curtas
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção / Cuidado
- Conexão com outras áreas
Resumo rápido
Dois compostos podem ter a mesma fórmula molecular e a mesma conectividade — os mesmos átomos ligados aos mesmos vizinhos — e, ainda assim, ser substâncias diferentes. Isso acontece na isomeria geométrica, também chamada de isomeria cis-trans: a diferença está na disposição dos grupos no espaço, de um lado ou do outro de uma dupla ligação ou de um anel. É um tema de incidência ♨️ Morno no ENEM e nos vestibulares, e aparece tanto em questões de nomenclatura (cis, trans, E, Z) quanto em questões sobre propriedades, como o ponto de fusão das gorduras cis e trans — um assunto que sai do livro e entra no rótulo dos alimentos.
A ideia central é simples: a dupla ligação entre dois carbonos não gira livremente, porque girar quebraria a ligação pi. Por isso, os grupos presos a esses carbonos ficam “travados” de um lado ou do outro, e as duas disposições são compostos diferentes, que não se convertem um no outro à temperatura ambiente. O mesmo vale para os anéis: em um cicloalcano, dois grupos podem estar do mesmo lado do plano do anel (cis) ou em lados opostos (trans), sem que a molécula consiga inverter essa posição sem quebrar ligações.
Em resumo: para haver isomeria geométrica em um alceno, cada carbono da dupla precisa ter dois grupos diferentes entre si. Se um dos carbonos tiver dois grupos iguais, não há cis e trans — trocar os lados não muda nada. Quando os dois grupos de referência (iguais, ou de maior prioridade) estão do mesmo lado, é cis; quando estão em lados opostos, é trans. E quando os quatro grupos são todos diferentes, entram as regras de prioridade E/Z, que você vai aprender neste artigo.
Por que a dupla ligação trava a molécula
Para entender a isomeria geométrica, é preciso lembrar como é uma dupla ligação. Ela é formada por uma ligação sigma (ligação frontal, forte) e uma ligação pi (ligação lateral, formada pela sobreposição de orbitais p paralelos). Se a molécula girasse em torno da dupla ligação, os orbitais p deixariam de ficar paralelos e a ligação pi se quebraria — o que custa muita energia. Por isso, à temperatura ambiente, a rotação em torno da dupla ligação está praticamente bloqueada, e os grupos ficam presos nas posições em que estão.
Compare com a ligação simples: nela, a rotação é livre, e os grupos giram o tempo todo. Por isso, um alcano como o butano não tem isomeria geométrica — seus grupos mudam de lado o tempo todo por rotação, e não faz sentido falar em cis ou trans para ele. Já no but-2-eno, a dupla ligação trava a geometria: o cis-but-2-eno (dois grupos metil do mesmo lado) e o trans-but-2-eno (metilas em lados opostos) são compostos estáveis e diferentes, com pontos de ebulição diferentes (cerca de 4 °C para o cis e 1 °C para o trans) e estabilidades diferentes — o trans é mais estável, porque os grupos volumosos ficam mais afastados.
Essa rigidez da dupla ligação é também a base de fenômenos biológicos importantes. Na visão, por exemplo, a molécula de retinal muda de cis para trans quando absorve luz, e essa mudança de forma dispara o sinal nervoso. Na indústria de alimentos, a hidrogenação parcial de óleos vegetais cria ligações duplas trans, que o organismo metaboliza de forma diferente — daí a discussão sobre gordura trans, que você vai ver mais adiante. A geometria, aqui, não é detalhe: ela decide a função da molécula.
Cis e trans: a regra básica
Na nomenclatura cis-trans, comparam-se os dois grupos iguais (ou, quando não há grupos iguais, os de maior prioridade) ligados aos carbonos da dupla. Se eles estão do mesmo lado da dupla ligação, o isômero é cis (do latim, “deste lado”); se estão em lados opostos, é trans (“do outro lado”). O nome vem antes do nome do composto: cis-but-2-eno e trans-but-2-eno, cis-pent-2-eno e trans-pent-2-eno.
Antes de classificar, faça sempre o teste de existência: cada carbono da dupla precisa ter dois ligantes diferentes entre si. Veja os casos: no but-1-eno (CH2=CH–CH2–CH3), o primeiro carbono da dupla tem dois hidrogênios — não há isomeria geométrica. No 2-metilbut-2-eno, um dos carbonos da dupla tem dois grupos metil — também não há. Já no but-2-eno e no pent-2-eno, cada carbono da dupla tem um hidrogênio e um grupo diferente — há cis e trans. Esse teste elimina metade das alternativas erradas em prova, porque as bancas adoram incluir um alceno sem isomeria geométrica no meio das opções.
Um erro comum é confundir isomeria geométrica com isomeria de posição. O but-1-eno e o but-2-eno são isômeros de posição (a dupla mudou de lugar), não geométricos. Já o cis-but-2-eno e o trans-but-2-eno são isômeros geométricos entre si: mesma posição da dupla, mesma conectividade, só a disposição espacial muda. Quando a questão pedir o tipo de isomeria entre dois compostos, compare primeiro a conectividade: se ela for igual e só a geometria mudar, é isomeria geométrica.
Vale notar também que a isomeria geométrica não se limita aos alcenos. Ela aparece em compostos com dupla ligação carbono-nitrogênio (iminas e oximas), em que a posição do grupo –OH em relação ao resto da molécula define os isômeros, e em complexos de coordenação, mas esses casos são mais raros no ENEM e nos vestibulares tradicionais. O foco da sua revisão deve ser alcenos e cicloalcanos.
Isomeria geométrica em ciclos: cis e trans no anel
Nos cicloalcanos, o anel também trava a geometria: dois grupos ligados a carbonos diferentes do anel podem estar do mesmo lado do plano do anel ou em lados opostos, e não há como inverter isso sem quebrar ligações. O exemplo clássico é o 1,2-dimetilciclopropano: no isômero cis, os dois grupos metil estão do mesmo lado do anel; no trans, estão em lados opostos. O mesmo vale para o 1,2-dimetilciclobutano e outros ciclos dissubstituídos.
Nos ciclos, a regra de existência é parecida com a dos alcenos: é preciso haver dois carbonos do anel com substituintes que possam ficar de lados diferentes. No 1,1-dimetilciclopropano, os dois grupos metil estão no mesmo carbono — não há cis e trans, porque os dois grupos saem do mesmo ponto. Já no 1,2-dimetilciclopropano, cada metil está em um carbono diferente, e as duas disposições são possíveis. Observe também que, em anéis pequenos, o isômero trans pode ser muito tensionado ou até impossível: o trans-ciclopropano dissubstituído é instável, e o trans-cicloexeno não existe em anéis pequenos — a geometria trans exige um anel grande o bastante para acomodar a torção.
As propriedades dos isômeros cíclicos também diferem: em geral, o isômero cis, com os grupos do mesmo lado, tem momento dipolar maior e ponto de ebulição um pouco maior, enquanto o trans, mais simétrico, costuma empacotar melhor no estado sólido e ter ponto de fusão maior. Essas tendências aparecem em questões que relacionam estrutura e propriedades — e são as mesmas tendências que valem para os alcenos, como você verá na próxima seção.
E/Z: quando não há dois grupos iguais
A nomenclatura cis-trans só funciona bem quando há dois grupos iguais para comparar. Quando os quatro grupos ligados aos carbonos da dupla são todos diferentes, usa-se o sistema E/Z, baseado nas regras de prioridade de Cahn, Ingold e Prelog — as mesmas usadas na isomeria óptica. Em cada carbono da dupla, compara-se a prioridade dos dois ligantes: o grupo de maior prioridade é aquele cujo átomo diretamente ligado tem maior número atômico; em caso de empate, compara-se o próximo átomo da cadeia, e assim por diante. Se os dois grupos de maior prioridade estão do mesmo lado, o isômero é Z (do alemão zusammen, “juntos”); se estão em lados opostos, é E (entgegen, “opostos”).
Exemplo: no 1-bromo-1-cloro-2-fluoroeteno, cada carbono tem dois grupos diferentes, e não há par de grupos iguais para aplicar cis-trans. Aplicando as prioridades — bromo maior que cloro em um carbono, flúor maior que hidrogênio no outro —, a disposição dos dois grupos prioritários define E ou Z. Outro exemplo clássico é o 2-bromobut-2-eno: em um carbono, bromo tem prioridade sobre o metil; no outro, o etil tem prioridade sobre o hidrogênio (porque o carbono do etil está ligado a outro carbono, enquanto o hidrogênio não está ligado a nada além dele mesmo). Se bromo e etil estão do mesmo lado, é Z; se estão opostos, é E.
Na prática do ENEM, o sistema E/Z aparece menos que o cis-trans, mas cai em vestibulares mais exigentes e em questões de nomenclatura. A dica é: se a questão der um alceno com quatro grupos diferentes e perguntar a configuração, não tente forçar cis-trans — aplique as prioridades. E lembre que cis/trans e E/Z não são sistemas rivais: todo cis pode ser reescrito como E ou Z, dependendo das prioridades, e as bancas costumam aceitar a nomenclatura que a questão pedir explicitamente.
| Situação | Sistema usado | Como decidir |
|---|---|---|
| Dois grupos iguais na dupla | cis-trans | Iguais do mesmo lado = cis; opostos = trans |
| Quatro grupos diferentes | E/Z | Prioritários do mesmo lado = Z; opostos = E |
| Um carbono com dois grupos iguais | — | Não há isomeria geométrica |
| Anel com dois substituintes | cis-trans | Mesmo lado do anel = cis; opostos = trans |
Propriedades: por que cis e trans se comportam diferente
Isômeros geométricos têm propriedades físicas diferentes, e as tendências são previsíveis. O isômero cis costuma ser mais polar: os momentos dipolares dos dois lados se somam parcialmente, em vez de se cancelarem. Por isso, o cis-but-2-eno tem ponto de ebulição um pouco maior que o trans. Já o isômero trans costuma ser mais simétrico, empacotar melhor no cristal e, por isso, ter ponto de fusão maior. Essa dupla tendência — cis ferve mais, trans funde mais — é uma das favoritas das bancas, porque testa se o aluno entende polaridade e empacotamento, não só decora nomes.
A estabilidade também difere: o isômero trans é, em geral, mais estável, porque os grupos volumosos ficam mais afastados e sofrem menos repulsão estérica. A diferença de energia entre cis e trans pode ser medida pelo calor de hidrogenação: o cis libera mais calor ao ser hidrogenado, justamente porque parte de um nível de energia mais alto. Em questões que dão calores de hidrogenação e pedem para identificar o isômero, lembre: maior calor liberado = isômero menos estável = geralmente o cis.
O caso mais famoso é o das gorduras. Os ácidos graxos naturais insaturados são, em geral, cis: a dupla cis cria uma “dobra” na cadeia, que impede o empacotamento compacto e mantém a gordura líquida à temperatura ambiente, como nos óleos vegetais. Na hidrogenação parcial industrial, parte das duplas cis se converte em trans: a cadeia fica reta, empacota melhor e a gordura fica sólida, como na margarina — mas a gordura trans é associada a maior risco cardiovascular, e por isso sua presença deve ser informada nos rótulos. É um exemplo perfeito de como a geometria de uma dupla ligação vira assunto de saúde pública.
Para revisar as bases, volte às matérias vizinhas: os hidrocarbonetos trazem a nomenclatura dos alcenos, a isomeria plana completa o mapa da isomeria constitucional, e a classificação das cadeias carbônicas ajuda a desenhar cadeias e ciclos sem erro. Na lista de Química estão todas as matérias da disciplina, e a sala de estudo reúne o restante do conteúdo.


Mapa mental
- Isomeria geométrica (cis-trans): mesma conectividade, disposição espacial diferente.
- Trava: dupla ligação não gira (ligação pi); anel também trava a geometria.
- Condição de existência: cada carbono da dupla com dois grupos diferentes entre si.
- Cis: grupos de referência do mesmo lado da dupla ou do anel.
- Trans: grupos de referência em lados opostos.
- E/Z: quatro grupos diferentes — prioridades do mesmo lado = Z; opostas = E.
- Propriedades: cis tende a ser mais polar e ferver mais; trans tende a ser mais estável e fundir mais.
- Gorduras: cis natural é dobrada e líquida; trans industrial é reta, sólida e menos saudável.
- Não confundir: posição da dupla (but-1-eno × but-2-eno) é isomeria de posição, não geométrica.
SAQ — Perguntas e respostas curtas
1. O que é isomeria geométrica? É a isomeria em que compostos com a mesma fórmula molecular e a mesma conectividade diferem na disposição espacial dos grupos, em torno de uma dupla ligação ou de um anel.
2. Por que a dupla ligação impede a interconversão entre cis e trans? Porque girar em torno da dupla quebraria a ligação pi, o que exige muita energia; à temperatura ambiente, a geometria fica travada.
3. Qual é a condição para um alceno apresentar isomeria cis-trans? Cada carbono da dupla ligação deve ter dois ligantes diferentes entre si.
4. Por que o but-1-eno não apresenta isomeria geométrica? Porque o primeiro carbono da dupla tem dois átomos de hidrogênio; trocar os lados não gera um composto diferente.
5. Quando se usa E/Z em vez de cis/trans? Quando os quatro grupos ligados à dupla são todos diferentes e não há um par de grupos iguais para comparar; aí se usam as prioridades de Cahn, Ingold e Prelog.
6. Qual isômero é, em geral, mais estável, cis ou trans? O trans, porque os grupos volumosos ficam mais afastados, com menor repulsão estérica.
7. Por que a gordura trans é sólida à temperatura ambiente, enquanto o óleo cis é líquido? Porque a dupla trans deixa a cadeia reta, permitindo empacotamento compacto; a dupla cis cria uma dobra que impede esse empacotamento.
8. O 1,2-dimetilciclopropano apresenta isomeria geométrica? Por quê? Sim: os dois grupos metil podem estar do mesmo lado do anel (cis) ou em lados opostos (trans), e o anel impede a inversão.
Questões comentadas
1. (Estilo ENEM) O composto but-2-eno apresenta dois isômeros geométricos, cis e trans. Isso é possível porque:
a) a dupla ligação gira livremente. b) cada carbono da dupla tem dois ligantes diferentes. c) a cadeia é ramificada. d) há um carbono assimétrico. e) a molécula é cíclica.
Resposta: b. No but-2-eno, cada carbono da dupla está ligado a um hidrogênio e a um grupo metil — dois ligantes diferentes em cada carbono —, permitindo as disposições cis e trans. A dupla não gira livremente; é justamente o travamento dela que torna os isômeros estáveis.
2. (Estilo ENEM) Entre os isômeros cis-but-2-eno e trans-but-2-eno, o de maior ponto de fusão é o trans, porque:
a) é mais polar. b) é mais simétrico e empacota melhor no sólido. c) tem maior massa molar. d) forma ligações de hidrogênio. e) tem cadeia mais longa.
Resposta: b. Os dois têm a mesma massa molar e a mesma fórmula; o trans, mais simétrico, organiza-se melhor no estado sólido, o que eleva seu ponto de fusão. A maior polaridade é característica do cis, e se reflete mais no ponto de ebulição.
3. (Estilo ENEM) Qual dos alcenos abaixo NÃO apresenta isomeria geométrica?
a) pent-2-eno. b) but-2-eno. c) 2-metilbut-2-eno. d) hex-3-eno. e) 1,2-dimetilciclopropano (como ciclo).
Resposta: c) 2-metilbut-2-eno. Um dos carbonos da dupla tem dois grupos metil iguais; trocar os lados não gera um composto novo. Todos os outros têm dois ligantes diferentes em cada carbono da dupla (ou, no caso do ciclo, substituintes em carbonos distintos do anel).
4. (Estilo ENEM) Na hidrogenação parcial de óleos vegetais, parte das duplas ligações cis se converte em trans, e o produto fica sólido à temperatura ambiente. Isso acontece porque a configuração trans:
a) cria dobras na cadeia, impedindo o empacotamento. b) deixa a cadeia mais reta, favorecendo o empacotamento. c) reduz a massa molar do ácido graxo. d) aumenta a polaridade da molécula. e) quebra a cadeia carbônica.
Resposta: b. A cadeia trans é praticamente reta e empacota bem, como uma gordura saturada, tornando o produto sólido; a dobra característica é a da configuração cis.
5. (Estilo ENEM) Um alceno tem quatro grupos diferentes ligados aos carbonos da dupla ligação. A nomenclatura adequada para sua isomeria geométrica é:
a) cis-trans, comparando os grupos iguais. b) E/Z, pelas prioridades dos ligantes. c) R/S, pelo carbono assimétrico. d) de posição, pela numeração da cadeia. e) de cadeia, pela ramificação.
Resposta: b) E/Z. Sem grupos iguais para comparar, aplica-se o sistema E/Z, com as regras de prioridade: prioritários do mesmo lado = Z; em lados opostos = E.
Dica do professor
Antes de classificar, faça o teste de existência: olhe cada carbono da dupla e pergunte se os dois grupos dele são diferentes. Se algum carbono tiver dois grupos iguais, não há cis nem trans — e essa é a alternativa errada mais comum nas provas. Só depois de confirmar a existência, compare os lados e dê o nome.
Atenção / Cuidado
Cuidado para não chamar de geométrica uma isomeria que é de posição: but-1-eno e but-2-eno diferem no lugar da dupla, não na geometria. E cuidado com o desenho: em fórmulas em bastão ou em linha, é fácil desenhar o cis como trans sem perceber. Desenhe a dupla na horizontal, coloque os grupos com clareza acima e abaixo da linha, e só então classifique.
Conexão com outras áreas
A isomeria geométrica conecta a Química com a Biologia e a saúde: a forma cis do retinal dispara a visão, as gorduras trans afetam o risco cardiovascular e a forma das moléculas define o funcionamento de hormônios e medicamentos. Na indústria de alimentos, ela explica a diferença entre óleo, margarina e gordura vegetal hidrogenada — e, na Geografia da produção, ajuda a entender por que certos óleos vegetais são tão disputados como matéria-prima. Um detalhe de desenho, afinal, pode decidir o que vai para a mesa de milhões de pessoas.



