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Realismo/Naturalismo: Machado de Assis e Aluísio Azevedo: o que cai no ENEM e nos vestibulares

Machado de Assis e Aluísio Azevedo expuseram a sociedade do Segundo Reinado: ironia psicológica num, determinismo naturalista noutro. Veja obras e o que cai no ENEM.

Escritor brasileiro do século XIX em estilo Pixar em uma rua do Rio de Janeiro do Segundo Reinado, com casarões, lampiões, carruagens e pessoas de época, observando a vida urbana com olhar crítico.
Escritor brasileiro do século XIX em estilo Pixar em uma rua do Rio de Janeiro do Segundo Reinado, com casarões, lampiões, carruagens e pessoas de época, observando a vida urbana com olhar crítico.
Direto ao assunto
  1. Resumo rápido
  2. Contexto histórico: do sonho romântico à lupa da ciência
  3. Características do Realismo: o que identificar em qualquer texto
  4. Características do Naturalismo — e por que ele não é igual ao Realismo
  5. Tabelas comparativas
  6. Machado de Assis: o realista da ironia e da psicologia
  7. Aluísio Azevedo: o naturalista de O Cortiço
  8. Como o ENEM cobra Realismo e Naturalismo
  9. Mapa mental
  10. SAQ — Perguntas e respostas rápidas
  11. Questões comentadas
  12. Dica do professor
  13. Atenção/cuidado
  14. Conexão com outras áreas

Realismo/Naturalismo: Machado de Assis e Aluísio Azevedo: o que cai no ENEM e nos vestibulares

Imagine um escritor que decide contar a própria vida depois de morto, debochando de tudo e de todos — inclusive de si mesmo. Agora imagine outro que descreve um cortiço como se fosse um organismo vivo, capaz de devorar quem mora nele. Esses dois retratos, tão diferentes, nasceram quase ao mesmo tempo no Brasil do fim do século XIX e formam o coração do Realismo e do Naturalismo. Um observa a alma humana com ironia; o outro observa o ser humano como produto do meio, da herança e dos instintos.

Neste guia, você vai entender o contexto histórico do Realismo e do Naturalismo, as características de cada movimento, por que Machado de Assis é realista e Aluísio Azevedo é naturalista — e por que confundi-los é um erro grave na prova —, e vai analisar as obras que mais caem no ENEM e nos vestibulares: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba, de Machado, e O Cortiço, de Aluísio Azevedo. Ao final, há tabelas comparativas, mapa mental, perguntas rápidas e questões comentadas originais, em estilo ENEM. Este conteúdo faz parte da Literatura da sala de estudo do Clique Vestibular.

Resumo rápido

  • O que é: o Realismo e o Naturalismo são estilos de época da segunda metade do século XIX que substituem a idealização romântica pela observação crítica da realidade, com personagens comuns, defeitos, interesses materiais e conflitos sociais.
  • Contexto: Segunda Revolução Industrial, urbanização, avanço da ciência (Darwin, positivismo, determinismo), crise da monarquia brasileira, abolição da escravidão (1888) e Proclamação da República (1889), temas que dialogam com a História do Brasil.
  • Realismo: retrato objetivo e crítico da sociedade, análise psicológica, ironia, narrador que desmascara aparências, adultério, ambição, hipocrisia e casamento por interesse.
  • Naturalismo: vertente mais radical do Realismo, com base científica: o ser humano é determinado pelo meio, pela herança biológica e pelo momento histórico, com forte presença de instintos, patologias, miséria e zoomorfização — os personagens agem como animais.
  • Machado de Assis (1839–1908): o maior realista brasileiro. Fase realista a partir de 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ironia, pessimismo, narrador não confiável e análise psicológica, sem determinismo biológico.
  • Aluísio Azevedo (1857–1913): o maior naturalista brasileiro. O Cortiço (1890) mostra o cortiço como personagem coletivo que corrompe e determina seus moradores.
  • Como o ENEM cobra: com trechos de romances, pedindo identificação de características, do foco narrativo, da crítica social, do determinismo ou da ironia, e a comparação com o Romantismo.
  • Incidência: 🔥 Quente — Machado de Assis e O Cortiço estão entre os conteúdos de Literatura mais cobrados do ENEM e de vestibulares como Fuvest, Unicamp e Unesp.

Contexto histórico: do sonho romântico à lupa da ciência

Para entender o Realismo, é preciso entender o que ele negava. O Romantismo havia idealizado o amor, o herói e a nação: a mulher era pura, o índio era heroico, o amor era absoluto. Na segunda metade do século XIX, essa visão começou a parecer ingênua diante de um mundo que mudava depressa. As cidades cresciam, as fábricas se multiplicavam, a burguesia consolidava seu poder, a ciência ganhava prestígio com as teorias de Darwin sobre a evolução, com o positivismo de Auguste Comte — que defendia a observação dos fatos — e com o determinismo, a ideia de que o comportamento humano seria explicado por causas físicas, biológicas e sociais.

Na Europa, o marco do Realismo costuma ser a publicação de Madame Bovary (1857), de Gustave Flaubert, na França, e a obra de Eça de Queirós em Portugal, com O Primo Basílio (1878) e O Crime do Padre Amaro (1875). Na literatura, o escritor passa a ser comparado a um cientista: ele observa, registra detalhes, descreve ambientes e analisa comportamentos, sem enfeitar a realidade. O romance deixa de ser uma história de amor ideal para se tornar um documento crítico da sociedade.

No Brasil, esse movimento chega em um momento de crise profunda. O Segundo Reinado entra em decadência: a escravidão, cada vez mais contestada, será abolida em 1888; a monarquia cai em 1889; a vida urbana do Rio de Janeiro — então capital do Império — fervilha de contradições: luxo e miséria lado a lado, salões elegantes e cortiços superlotados, discursos de progresso e práticas de exploração. É essa sociedade, com suas aparências e seus bastidores, que Machado de Assis e Aluísio Azevedo vão dissecar, cada um à sua maneira.

Um detalhe importante para a prova: o Realismo brasileiro não é uma cópia do europeu. Aqui, ele se mistura à escravidão, ao patriarcalismo, ao apadrinhamento e à vida de uma elite que falava em modernidade, mas vivia de privilégios antigos. Quando Machado ironiza um casamento por interesse ou Aluísio descreve a exploração de um dono de cortiço, eles estão falando do Brasil — não de Paris ou de Londres.

Características do Realismo: o que identificar em qualquer texto

1. Objetividade e verossimilhança

O narrador realista busca descrever a realidade como ela é, com detalhes precisos de ambientes, roupas, gestos e falas. Nada de heróis perfeitos: os personagens têm defeitos, dúvidas, interesses mesquinhos e contradições. A história precisa parecer verdadeira, plausível, próxima da vida real.

2. Crítica social e desmascaramento das aparências

O alvo favorito do Realismo é a burguesia: seus casamentos por interesse, sua hipocrisia religiosa, seu culto às aparências, sua moral de fachada. O romance realista mostra o que acontece por trás da porta fechada do salão: adultério, ambição, vaidade, corrupção miúda e grande.

3. Análise psicológica

Mais do que contar o que acontece, o Realismo investiga por que acontece: ciúme, inveja, vaidade, medo, desejo de poder. Em Machado de Assis, essa análise é o centro de tudo: o que importa não é apenas se houve traição, mas como a suspeita corrói a mente de quem desconfia.

4. Narrativa em terceira pessoa ou em primeira pessoa crítica

Muitos romances realistas usam o narrador em terceira pessoa, onisciente, que conhece os pensamentos dos personagens. Machado, porém, inova: usa narradores em primeira pessoa que conversam com o leitor, interrompem a história, ironizam e, sobretudo, não são totalmente confiáveis — o leitor precisa desconfiar do que eles dizem.

5. Linguagem precisa e, em Machado, irônica

A linguagem realista é mais contida e precisa do que a romântica, sem exageros sentimentais. Em Machado, ela ganha um tempero único: a ironia fina, o humor amargo, as frases que dizem uma coisa e insinuam outra. Ler Machado é aprender a ler nas entrelinhas.

Características do Naturalismo — e por que ele não é igual ao Realismo

O Naturalismo nasce dentro do Realismo, mas leva suas premissas ao extremo, com uma tese científica: o ser humano não é livre; ele é determinado por três forças — o meio em que vive, a herança biológica que recebe e o momento histórico. Essa tese, formulada pelo escritor francês Émile Zola, autor de Germinal e do manifesto O romance experimental (1880), transforma o romance em uma espécie de laboratório: coloque um personagem em um ambiente degradado, com uma herança problemática, e observe o que acontece. O resultado, quase sempre, é a degradação.

Por isso, o Naturalismo tem marcas próprias, que você deve saber diferenciar do Realismo:

1. Determinismo: meio, raça e momento

Se no Realismo o personagem ainda escolhe — e paga por suas escolhas —, no Naturalismo ele é empurrado por forças maiores do que ele. O cortiço, a fome, o calor, o alcoolismo herdado, a promiscuidade do ambiente: tudo conspira para determinar o destino. Essa é a diferença teórica mais cobrada na prova.

2. Zoomorfização e instinto

Os personagens naturalistas são comparados a animais: agem por instinto, por fome, por desejo sexual, por violência, sem a mediação da razão. Em O Cortiço, os moradores são descritos como bichos disputando espaço, comida e parceiros. A zoomorfização é a imagem mais forte do Naturalismo.

3. Patologia, miséria e degradação física

Doenças, alcoolismo, loucura, prostituição, violência e pobreza extrema aparecem sem retoques, com descrições detalhadas e às vezes chocantes. O Naturalismo não desvia o olhar do que é feio: ele encara o feio como objeto de estudo.

4. Personagem coletivo e ambiente como protagonista

No Naturalismo, o ambiente pode ser mais importante do que qualquer personagem isolado. O cortiço, a mina, a fábrica ou o prostíbulo funcionam como personagens coletivos, que agem sobre todos os moradores ao mesmo tempo.

5. Linguagem detalhista e científica

Descrições longas e minuciosas, vocabulário ligado ao corpo, à doença e à natureza, e um tom de observador de laboratório, que registra sem julgar moralmente — o que, para a época, já era uma provocação.

Atenção ao ponto central: todo naturalista é, em certo sentido, realista — porque também retrata a realidade com objetividade —, mas nem todo realista é naturalista. Machado de Assis, por exemplo, é realista e jamais aceitaria a tese determinista: seus personagens pensam, dissimulam, ironizam e escolhem, mesmo quando escolhem mal. Colocar Machado no Naturalismo é o erro clássico que a prova adora punir.

Tabelas comparativas

Tabela 1 — Realismo versus Naturalismo

AspectoRealismoNaturalismo
Base teóricaObservação crítica da sociedadeDeterminismo científico: meio, herança e momento
PersonagemTem vontade e responsabilidade, mesmo que falhaÉ determinado pelo meio e pela herança; age por instinto
Temas centraisAdultério, ambição, hipocrisia, casamento por interesseMiséria, patologia, alcoolismo, promiscuidade, degradação
Imagem marcanteA máscara social que caiO homem comparado a animal (zoomorfização)
AmbienteCenário social que revela caráterForça que determina o destino (personagem coletivo)
Principais autores no BrasilMachado de AssisAluísio Azevedo
Obras de referênciaMemórias Póstumas de Brás Cubas, Dom CasmurroO Cortiço, O Mulato

Tabela 2 — Romantismo versus Realismo/Naturalismo

AspectoRomantismoRealismo/Naturalismo
Visão do ser humanoIdealizado, heroico, movido por sentimentos absolutosComum, falho, movido por interesses, instintos e pressões sociais
AmorAbsoluto, puro, impossível ou trágicoInteresse, adultério, desejo, ciúme, cálculo
NarradorEmotivo, participante do sentimentoObservador crítico; em Machado, irônico e não confiável
LinguagemEmotiva, musical, grandiosaObjetiva, detalhista; em Machado, irônica e precisa
SociedadeCenário para o drama do heróiObjeto de crítica e de análise

Tabela 3 — Machado de Assis versus Aluísio Azevedo

AspectoMachado de Assis (Realismo)Aluísio Azevedo (Naturalismo)
FocoPsicologia: ciúme, vaidade, ambição, dissimulaçãoBiologia e ambiente: instinto, herança, meio degradado
NarradorPrimeira pessoa, irônico, não confiável (Brás Cubas, Bentinho)Terceira pessoa, observador quase científico
Personagem centralIndivíduo da elite, com conflitos íntimosColetivo: o cortiço e seus moradores
TomIronia fina, humor amargo, pessimismo eleganteDescrição crua, choque, degradação física e moral
Obra-símboloDom Casmurro (1899)O Cortiço (1890)

Machado de Assis: o realista da ironia e da psicologia

Joaquim Maria Machado de Assis (1839–1908) nasceu no Rio de Janeiro, filho de um pintor mulato e de uma lavadeira açoriana, e tornou-se o maior escritor brasileiro. Antes de 1881, escreveu romances românticos, como Helena (1876). A virada acontece com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), que inaugura o Realismo no Brasil. Depois viriam Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1899) e Memorial de Aires (1908), além de contos antológicos, como “A cartomante”, “O alienista” e “A causa secreta”. Machado também foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

O que faz de Machado um realista — e não um naturalista — é o seu objeto de estudo: não o corpo determinado pela biologia, mas a mente que dissimula. Seus personagens são membros da elite do Rio de Janeiro que falam em amor, honra e amizade, mas agem por vaidade, interesse e ciúme. Machado não precisa de um cortiço para mostrar a degradação: basta um salão elegante, um casamento aparentemente feliz e um narrador disposto a contar a história do seu jeito.

Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881): o defunto-autor

Brás Cubas é um homem rico, sem grandes feitos, que decide escrever suas memórias depois de morto. Sim: o narrador é um defunto-autor, livre das convenções dos vivos, que pode dizer o que os vivos não diriam. Ele conta a vida em ordem não cronológica, interrompe a narrativa para conversar com o leitor (“Leitor, …”), abre capítulos curtíssimos — alguns com poucas linhas —, ironiza os próprios amores, a política, a filosofia e até a sua morte, causada por uma pneumonia contraída ao inventar um emplastro antirreumático que nunca ficou pronto.

O episódio mais famoso é o delírio de Brás Cubas, em que ele viaja montado em um hipopótamo até a origem dos séculos e ouve a Natureza — chamada de Pandora — explicar que a vida humana é um espetáculo de luta e devoração, em que uns vivem à custa dos outros. É uma das passagens mais filosóficas e pessimistas da literatura brasileira. Outro ponto central: o filósofo Quincas Borba, amigo de Brás, criador do “Humanitismo”, uma sátira das filosofias que justificam a opressão: segundo essa doutrina, “ao vencedor, as batatas” — isto é, quem vence na luta pela vida tem razão, e quem perde é apenas o alimento do vencedor. Machado usa o Humanitismo para ironizar o darwinismo social e qualquer filosofia que transforme a exploração em lei da natureza.

Para a prova, grave três coisas sobre Brás Cubas: o narrador-defunto, a ironia constante e o pessimismo — Brás resume a vida como uma soma de fracassos elegantes, e termina o livro com um saldo negativo: não teve filhos, não transmitiu a ninguém a herança da miséria humana, e isso, ironicamente, é apresentado como sua única “virtude”.

Dom Casmurro (1899) e o narrador não confiável

Dom Casmurro é o romance mais discutido do Brasil — e também o mais cobrado em vestibulares. O narrador é Bento Santiago, o Bentinho, já velho e solitário, apelidado de Dom Casmurro por ser calado e fechado. Ele decide escrever suas memórias para “atar as duas pontas da vida”: o seminário, o amor de infância por Capitu, o casamento, o nascimento do filho Ezequiel e a suspeita de que Capitu o traiu com o melhor amigo, Escobar.

A questão que atravessa o livro — Capitu traiu ou não traiu Bentinho? — não tem resposta definitiva, e é exatamente isso que a prova cobra. Bentinho é um narrador não confiável: ele conta a história do seu ponto de vista, já tomado pelo ciúme, seleciona episódios, insinua, sugere sem provar. As famosas “provas” da traição — os olhos de ressaca de Capitu, a semelhança de Ezequiel com Escobar, o comportamento de Capitu no velório de Escobar — são indícios, não certezas. O leitor que aceita a versão de Bentinho sem desconfiar cai na armadilha do narrador.

A leitura crítica mais valorizada hoje é a seguinte: o romance não é sobre a traição de Capitu, mas sobre o ciúme de Bentinho e sobre o poder de quem narra. Bentinho, homem rico e dono da história, constrói a imagem de Capitu como traidora para justificar o próprio abandono da mulher e do filho. Capitu, por sua vez, é inteligente, dissimulada no bom sentido — ela sabe jogar o jogo social — e é punida justamente por não caber no papel de esposa submissa. Por isso, ao responder uma questão sobre Dom Casmurro, nunca afirme a traição como fato: diga que se trata da versão de Bentinho, um narrador ciumento e interessado.

Outro detalhe que cai muito: os “olhos de ressaca” de Capitu. A expressão, inventada por Bentinho, descreve olhos que puxam para dentro, como a ressaca do mar — ao mesmo tempo sedutores e misteriosos. É um exemplo perfeito da linguagem machadiana: uma imagem poética que carrega suspeita, desejo e ambiguidade.

Quincas Borba (1891): a loucura, a herança e as batatas

Quincas Borba retoma o filósofo do Humanitismo, agora rico por herança e enlouquecendo aos poucos, e acompanha Rubião, um ex-professor de Barbacena que herda a fortuna de Quincas e vai para o Rio de Janeiro, onde é explorado por um casal de arrivistas, Cristiano e Sofia Palha. Rubião se apaixona por Sofia, gasta a fortuna em luxos e aparências, enlouquece — chegando a acreditar que é Napoleão III — e morre na miséria, enquanto o cachorro de Quincas, também chamado Quincas Borba, é o único que o acompanha no fim.

O romance é uma sátira feroz da sociedade que devora os ingênuos: Rubião é o provinciano que acredita nas aparências da Corte, e a Corte o consome. O Humanitismo volta como ironia: na luta pelas batatas, Rubião perde. Para a prova, associe Quincas Borba a três temas: ambição e exploração social, loucura como consequência da pressão do meio — sem ser determinismo biológico — e a crítica à elite que vive de aparências.

Ironia e pessimismo: a marca de Machado

Machado é pessimista, mas de um jeito elegante: ele não grita, ele ironiza. Seus narradores dizem uma coisa e deixam entender outra; elogiam para criticar; contam uma anedota para desmontar uma instituição. O pessimismo machadiano não é o determinismo naturalista — “o homem não tem saída porque a biologia o condena” —, mas a constatação de que o ser humano repete, com requinte, os mesmos vícios: vaidade, ciúme, interesse, dissimulação. Por isso Machado continua atual: troque o salão do século XIX por uma rede social e os personagens continuam reconhecíveis.

Aluísio Azevedo: o naturalista de O Cortiço

Aluísio Azevedo (1857–1913), maranhense, começou como romancista romântico e jornalista, e tornou-se o principal nome do Naturalismo brasileiro com O Mulato (1881) — romance que denuncia o preconceito racial no Maranhão — e, sobretudo, com O Cortiço (1890), sua obra-prima.

O Cortiço (1890): o cortiço como personagem

O romance se passa no Rio de Janeiro do fim do século XIX e acompanha a ascensão de João Romão, um português ambicioso, dono de uma venda e, depois, de um cortiço. João Romão explora todos ao redor: rouba o escravo fugido Bertoleza, com quem vive e de quem se apropria do trabalho e das economias; explora os moradores do cortiço, cobrando aluguéis e vendendo fiado na sua venda; e, aos poucos, enriquece, compra uma pedreira, constrói casas melhores e tenta “subir na vida” casando-se com a filha de um barão, abandonando Bertoleza — que, desesperada, se suicida para não voltar à escravidão.

Em paralelo, o romance acompanha dezenas de moradores do cortiço: Rita Baiana, sensual e livre, que encanta Jerônimo, um português sério e trabalhador que se “abrasileira” — isto é, abandona os hábitos europeus, entrega-se à preguiça, à cachaça e ao desejo — e abandona a esposa, Piedade, que se entrega ao alcoolismo; a lavadeira Leocádia, o capoeira Firmo, a prostituta Léonie, entre muitos outros. Nenhum deles tem uma trajetória isolada: todos são arrastados pela vida coletiva do cortiço.

O ponto central para a prova é este: o cortiço é o verdadeiro protagonista. Aluísio o descreve como um organismo vivo, que cresce, respira, sua, fede, ferve ao sol, se agita à noite e contamina quem vive nele. O calor, a promiscuidade, a falta de higiene, a fome e o desejo sexual funcionam como forças determinantes: Jerônimo não “escolhe” se degradar de um dia para o outro; ele é transformado, pouco a pouco, pelo meio. É o determinismo naturalista em estado puro — e é também a zoomorfização: os moradores são descritos como formigas, bichos, feras em disputa por espaço e prazer.

Determinismo, zoomorfização e personagens coletivos

Três conceitos resumem O Cortiço e caem em quase todas as questões sobre a obra. Primeiro, o determinismo: o meio (o cortiço, o calor tropical, a miséria) e a herança (o temperamento, a origem) explicam o comportamento, mais do que a vontade individual. Segundo, a zoomorfização: personagens comparados a animais, movidos por instinto, fome e desejo. Terceiro, o personagem coletivo: não há um herói único; há uma multidão, e o destino individual só se entende dentro do destino do grupo.

Outro tema essencial é a exploração social e racial: João Romão enriquece explorando o trabalho de Bertoleza, mulher negra escravizada que foge e vive como se fosse livre, mas continua presa à exploração do companheiro. A crítica de Aluísio atinge tanto o capitalismo selvagem da época quanto o racismo e a escravidão — e o final trágico de Bertoleza é uma das denúncias mais fortes do romance. Ao mesmo tempo, é preciso ler a obra com senso crítico: o Naturalismo do século XIX carrega estereótipos raciais e de gênero que hoje devem ser reconhecidos como visões datadas, não como verdades científicas. A prova contemporânea valoriza essa leitura dupla: identificar o determinismo e, ao mesmo tempo, perceber seus limites.

O que Aluísio não é: cuidado com a confusão

Aluísio Azevedo não é um psicólogo da elite como Machado. Ele não analisa o ciúme com ironia fina: ele mostra corpos suando, brigando, desejando e adoecendo em um pátio coletivo. Se a questão fala em “narrador irônico e não confiável”, é Machado. Se fala em “meio que determina, zoomorfização e personagem coletivo”, é Aluísio. Essa oposição simples resolve a maioria das questões de classificação.

Como o ENEM cobra Realismo e Naturalismo

O ENEM raramente pede datas ou definições decoradas. O formato mais comum é: um trecho de Dom Casmurro, de Memórias Póstumas ou de O Cortiço, seguido de uma pergunta sobre a característica do movimento, o foco narrativo ou a crítica social presente. Veja os padrões que mais se repetem:

  • Identificação de movimento: dado um trecho com descrição detalhada de um ambiente degradado e personagens agindo por instinto, a resposta é Naturalismo; dado um trecho com ironia e análise de ciúme ou vaidade, a resposta é Realismo machadiano.
  • Foco narrativo: questões sobre narrador em primeira pessoa, não confiável, que conversa com o leitor, apontam para Brás Cubas ou Bentinho; questões sobre narrador onisciente que descreve o coletivo apontam para O Cortiço.
  • Comparação com o Romantismo: o texto realista desidealiza o amor (adultério, interesse, ciúme) onde o romântico idealizava (amor puro, heroína angelical). Saber essa oposição é meio caminho para acertar.
  • Crítica social: questões que pedem a crítica ao casamento por interesse, à hipocrisia burguesa, à exploração do trabalho ou ao racismo costumam ter como base Machado ou Aluísio — e a alternativa correta descreve a crítica, não apenas o enredo.
  • Interpretação de Capitu: questões sobre Dom Casmurro na Literatura quase sempre testam se você percebe que a traição é a versão de Bentinho, não um fato comprovado. Desconfie de alternativas que afirmam a traição com certeza absoluta.

Para treinar, releia os trechos com uma pergunta na cabeça: quem está narrando, ele é confiável, o ambiente determina ou apenas revela o personagem, e o que a cena critica na sociedade? Se você responder essas quatro perguntas, a maioria das questões se resolve. E revise também os outros estilos de época na sala de estudo, porque a comparação entre Romantismo, Realismo e Naturalismo é um clássico da prova de Linguagens.

Narrador elegante do século XIX em estilo Pixar, de cartola, sentado em uma poltrona em sala antiga com livros e janela para o Rio de Janeiro, contando a própria vida com ironia, como o narrador-defunto de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Narrador elegante do século XIX em estilo Pixar, de cartola, sentado em uma poltrona em sala antiga com livros e janela para o Rio de Janeiro, contando a própria vida com ironia, como o narrador-defunto de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Cortiço brasileiro do século XIX em estilo Pixar, com muitas famílias dividindo quartos pequenos, varais de roupas coloridas, crianças no pátio e lavadeiras trabalhando, retratando a vida coletiva e conflituosa de O Cortiço.
Cortiço brasileiro do século XIX em estilo Pixar, com muitas famílias dividindo quartos pequenos, varais de roupas coloridas, crianças no pátio e lavadeiras trabalhando, retratando a vida coletiva e conflituosa de O Cortiço.

Mapa mental

  • Realismo/Naturalismo
    • Contexto: 2ª metade do século XIX, ciência, Darwin, positivismo, urbanização, crise do Segundo Reinado, Abolição (1888), República (1889)
    • Realismo: objetividade, crítica social, análise psicológica, personagens com defeitos, adultério, ambição, hipocrisia
    • Naturalismo: determinismo (meio, herança, momento), zoomorfização, patologia, miséria, personagem coletivo, ambiente como protagonista
    • Machado de Assis (realista): ironia, pessimismo, narrador não confiável, fase realista a partir de 1881
    • Memórias Póstumas de Brás Cubas: narrador-defunto, Humanitismo, “ao vencedor, as batatas”
    • Dom Casmurro: Bentinho, Capitu e os olhos de ressaca, traição não comprovada, ciúme do narrador
    • Quincas Borba: Rubião explorado pela Corte, loucura, sátira social
    • Aluísio Azevedo (naturalista): O Cortiço (1890), João Romão, Bertoleza, Rita Baiana, Jerônimo
    • O Cortiço: cortiço como organismo vivo, determinismo, zoomorfização, exploração social e racial
    • Na prova: diferenciar Realismo de Naturalismo, identificar narrador não confiável, nunca afirmar a traição de Capitu como fato

SAQ — Perguntas e respostas rápidas

  1. Qual é a diferença central entre Realismo e Naturalismo? O Realismo observa e critica a sociedade com análise psicológica; o Naturalismo radicaliza essa observação com a tese determinista de que meio, herança e momento determinam o comportamento humano.
  2. Por que Machado de Assis é realista e não naturalista? Porque seus personagens pensam, dissimulam, ironizam e escolhem, e são analisados psicologicamente — não são determinados pela biologia ou pelo ambiente, como os personagens de Aluísio Azevedo.
  3. O que é um narrador não confiável? É um narrador em primeira pessoa cuja versão dos fatos não pode ser aceita sem desconfiança, porque ele tem interesses, ciúmes ou limitações — como Bentinho, em Dom Casmurro, e Brás Cubas, em Memórias Póstumas.
  4. Capitu traiu Bentinho? Não há prova definitiva no romance: a traição é a versão de Bentinho, um narrador ciumento e interessado. A resposta correta na prova é reconhecer a ambiguidade, não afirmar a traição como fato.
  5. O que é o Humanitismo, em Memórias Póstumas de Brás Cubas? É a filosofia satírica criada por Quincas Borba, segundo a qual a vida é uma luta em que o vencedor fica com as batatas — uma ironia de Machado contra filosofias que justificam a exploração como lei natural.
  6. Por que o cortiço é o protagonista de O Cortiço? Porque o ambiente age como um organismo vivo e coletivo, determinando o comportamento de todos os moradores — é o personagem coletivo do Naturalismo, mais importante do que qualquer morador isolado.
  7. O que é zoomorfização? É a comparação de personagens humanos a animais, agindo por instinto, fome e desejo, sem mediação da razão — marca forte do Naturalismo, presente nas descrições dos moradores do cortiço.
  8. Como o ENEM costuma cobrar Machado e Aluísio? Com trechos de romances, pedindo a identificação do movimento, do foco narrativo, da crítica social ou do determinismo, e a comparação com o Romantismo idealizado.

Questões comentadas

Questão 1 (original, estilo ENEM). Leia o trecho fictício, criado para esta atividade, em estilo realista: “Ele sorriu para o convidado, elogiou-lhe o paletó e, enquanto servia o café, calculou mentalmente quanto poderia lucrar com a amizade daquele homem. Depois, em voz baixa, disse à esposa que o convidado era um tolo útil — e ambos riram, sem que o convidado percebesse.” O trecho exemplifica o Realismo porque:

a) idealiza o amor e o herói, como no Romantismo.
b) mostra personagens movidos por interesse e dissimulação, com crítica às aparências sociais.
c) descreve personagens determinados apenas pela herança biológica.
d) apresenta um narrador-defunto que conta a história depois de morto.
e) compara os personagens a animais guiados pelo instinto.

Resposta: B. O trecho mostra cálculo de interesse, elogio falso e riso dissimulado — a máscara social que o Realismo adora desmontar. A alternativa A descreve o Romantismo; C e E descrevem o Naturalismo determinista e a zoomorfização, ausentes aqui; D é um recurso específico de Memórias Póstumas de Brás Cubas, não uma característica geral do trecho.

Questão 2 (original, estilo ENEM). Em um romance, o narrador, já idoso, decide escrever suas memórias para provar que a esposa o traiu com o melhor amigo, baseando-se em olhares, semelhanças físicas do filho e episódios que ele próprio seleciona e interpreta. Ao analisar esse narrador, o leitor deve considerar que:

a) sua versão é um fato comprovado, pois ele viveu os acontecimentos.
b) sua versão é confiável, pois narradores em primeira pessoa nunca mentem.
c) sua versão é suspeita, pois ele é um narrador não confiável, movido pelo ciúme e pelo interesse em justificar seus próprios atos.
d) sua versão é científica, pois segue o determinismo do Naturalismo.
e) sua versão é romântica, pois idealiza a esposa traída.

Resposta: C. Trata-se do modelo de Bentinho, em Dom Casmurro: narrador em primeira pessoa, ciumento, que seleciona indícios e os apresenta como provas. Quem viveu um fato pode, ainda assim, narrá-lo de forma interessada. As alternativas A e B ignoram a noção de narrador não confiável; D confunde Realismo psicológico com determinismo naturalista; E inverte o sentido, pois Bentinho não idealiza Capitu, mas a acusa.

Questão 3 (original, estilo ENEM). Leia o trecho fictício, criado para esta atividade, em estilo naturalista: “O calor apertava o pátio desde cedo. As portas abertas vomitavam gente, cheiro de comida, roupa molhada e vozes que se atropelavam. No meio daquela fervura, homens e mulheres se empurravam, riam alto, brigavam por um pedaço de sombra, como bichos disputando o mesmo cocho.” A característica naturalista mais evidente no trecho é:

a) a idealização da paisagem tropical.
b) a ironia fina do narrador em primeira pessoa.
c) a zoomorfização e o ambiente coletivo que determina o comportamento.
d) a análise psicológica de um único herói.
e) a contenção clássica da linguagem árcade.

Resposta: C. O pátio fervendo, a multidão, o cheiro, o calor e a comparação explícita com bichos disputando o cocho são as marcas do Naturalismo: ambiente coletivo e zoomorfização. A alternativa A é romântica; B é machadiana, mas o narrador aqui não ironiza em primeira pessoa; D descreve o Realismo psicológico, não o coletivo naturalista; E pertence a outro estilo.

Questão 4 (original, estilo ENEM). Um estudante afirma: “Machado de Assis e Aluísio Azevedo são iguais, porque os dois são naturalistas deterministas.” A melhor correção a essa afirmação é:

a) concordar, pois ambos usam o determinismo biológico.
b) lembrar que Machado é realista psicológico e irônico, enquanto Aluísio é naturalista determinista; confundir os dois apaga a diferença entre análise da mente e determinação pelo meio.
c) dizer que Machado é romântico e Aluísio é parnasiano.
d) afirmar que nenhum dos dois critica a sociedade brasileira.
e) dizer que a diferença entre eles é apenas a época em que escreveram.

Resposta: B. Machado analisa psicologicamente personagens da elite, com ironia e narradores não confiáveis, sem tese determinista; Aluísio constrói personagens determinados pelo meio e pela herança, com zoomorfização. As demais alternativas erram o movimento de um ou de ambos, ou negam a crítica social presente nos dois.

Questão 5 (original, estilo ENEM). Em um romance, um homem pobre e trabalhador muda-se para uma habitação coletiva superlotada e, aos poucos, abandona seus hábitos antigos, entrega-se à bebida e a um novo amor, enquanto sua esposa, abandonada, adoece e se entrega ao alcoolismo. Essa trajetória, em que o ambiente transforma progressivamente os personagens, ilustra, no Naturalismo, o conceito de:

a) idealização romântica do herói.
b) narrador não confiável.
c) determinismo do meio sobre o indivíduo.
d) Humanitismo, de Quincas Borba.
e) ironia machadiana.

Resposta: C. A transformação gradual de Jerônimo e Piedade em O Cortiço é o exemplo clássico da Literatura do determinismo: o meio — calor, promiscuidade, miséria — remodela os personagens. A alternativa A é romântica; B e E são machadianas; D é a sátira filosófica de Memórias Póstumas, não a tese naturalista.

Questão 6 (original, estilo ENEM). Ao comparar um poema romântico, em que a amada é descrita como pura e celestial, com um trecho realista, em que um casamento é discutido em termos de dote, herança e conveniência, o leitor pode concluir que o Realismo, em relação ao Romantismo:

a) mantém a idealização do amor, apenas com linguagem mais simples.
b) desidealiza o amor, mostrando-o atravessado por interesses materiais e aparências sociais.
c) abandona qualquer interesse pela sociedade, concentrando-se só na natureza.
d) retorna ao equilíbrio clássico do Arcadismo.
e) transforma o amor em tema científico, sem nenhuma crítica social.

Resposta: B. O Realismo substitui o amor absoluto e idealizado pelo amor atravessado por dinheiro, conveniência, adultério e hipocrisia — e é justamente essa desidealização que permite a crítica social. As alternativas A, C, D e E negam ou distorcem essa ruptura: o Realismo não mantém a idealização, não abandona a sociedade, não é Arcadismo e sua observação é, sim, crítica.

Dica do professor

Para gabaritar Realismo e Naturalismo, memorize uma frase para cada autor e teste tudo por ela. Machado: “Quem narra, desconfie.” Sempre que o narrador for Bentinho ou Brás Cubas, pergunte o que ele ganha contando a história daquele jeito. Aluísio: “Quem manda é o lugar.” Sempre que o ambiente for um cortiço, uma mina ou uma habitação coletiva, pergunte como o meio transforma os moradores. E, para não confundir os movimentos, use a oposição: psicologia e ironia = Machado, Realismo; biologia, meio e bicho = Aluísio, Naturalismo. Leia pelo menos o resumo detalhado de Dom Casmurro e de O Cortiço, e treine com trechos curtos, marcando o narrador, o ambiente e a crítica — esse treino vale mais do que decorar datas. Para revisar interpretação de textos literários, volte à Língua Portuguesa da sala de estudo.

Atenção/cuidado

  • Não chame Machado de naturalista: ele é realista psicológico. O determinismo biológico é de Aluísio e de Zola, não de Machado.
  • Não afirme a traição de Capitu como fato: é a versão de Bentinho, narrador não confiável e ciumento. A ambiguidade é o ponto da obra.
  • Não confunda narrador-defunto com narrador não confiável em geral: Brás Cubas é defunto-autor; Bentinho é narrador não confiável vivo. Os dois desconfiam do leitor, mas por recursos diferentes.
  • Não reduza O Cortiço a um único personagem: o protagonista é coletivo. Questões que pedem “o herói do cortiço” estão testando se você percebe isso.
  • Não trate o determinismo naturalista como verdade científica atual: era a tese do século XIX. Hoje, lemos O Cortiço reconhecendo seus estereótipos e seus limites, sem deixar de identificar a tese na obra.
  • Não generalize “Realismo” como sinônimo de “texto realista qualquer”: na prova, Realismo é um estilo de época, com características precisas, não apenas um texto que parece verdadeiro.

Conexão com outras áreas

Realismo e Naturalismo conversam com várias disciplinas do ENEM. Com História, pela crise do Segundo Reinado, a Abolição e a República, sem as quais nem Machado nem Aluísio se explicam. Com a Sociologia, pela crítica à burguesia, ao casamento por interesse, à exploração do trabalho e ao racismo — temas de Bertoleza, João Romão e dos salões machadianos. Com a Filosofia, pelo debate entre livre-arbítrio e determinismo, e pela sátira do Humanitismo, que questiona qualquer filosofia que naturalize a desigualdade. Com a Biologia, pelas teorias de Darwin e pela ideia de herança e adaptação, que o Naturalismo importou da ciência para a literatura — com os exageros que hoje reconhecemos. E com a Redação, porque o repertório de Machado e Aluísio — aparências sociais, ciúme e poder de narrar, exploração e moradia precária — rende argumentos fortes em temas sobre desigualdade, moradia, racismo e manipulação da informação, desde que usado com leitura crítica. Estudar esses dois autores, no fim, é aprender a desconfiar das aparências: do narrador que conta a história e do lugar que diz determinar quem somos.