
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- O que é o Romantismo
- Contexto histórico: Independência, nacionalismo e a busca de uma identidade
- Gonçalves de Magalhães e o marco inicial: Suspiros Poéticos e Saudades
- Gonçalves Dias: o maior poeta da primeira geração
- O indianismo: o índio idealizado como herói nacional
- A natureza exuberante e o ufanismo
- Canção do exílio: o poema mais famoso da geração
- I-Juca-Pirama: o guerreiro que prefere a morte à desonra
- Linguagem, formas e temas da primeira geração
- Outros autores da primeira geração que podem cair
- O que cai no ENEM e nos vestibulares
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas curtas com respostas
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção/cuidado
- Conexão com outras áreas
- Incidência
Resumo rápido
A primeira geração do Romantismo brasileiro, também chamada de geração nacionalista ou indianista, é o momento em que a nossa literatura começa a se apresentar como brasileira de verdade. Ela vai, aproximadamente, de 1836 a 1852, e tem como marco inicial a publicação do livro Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836. O Brasil tinha acabado de se tornar independente de Portugal, em 1822, e vivia um problema que era também um problema literário: como ser um país novo, com uma cultura própria, se a nossa literatura ainda imitava os modelos portugueses e europeus? A resposta dos poetas dessa geração foi procurar os símbolos do que seria o Brasil: o índio, visto como herói e como primeiro habitante da terra, a natureza tropical, exuberante e diferente da europeia, e o sentimento de amor à pátria, que aparece muitas vezes como saudade do Brasil quando o poeta está longe dele.
O maior poeta dessa geração é Gonçalves Dias, autor de Canção do exílio, um dos poemas mais conhecidos de toda a literatura brasileira, e de I-Juca-Pirama, um longo poema narrativo sobre a coragem de um guerreiro indígena. Ao lado dele, estão Gonçalves de Magalhães, o autor do marco inicial, e outros nomes importantes, como Manuel de Araújo Porto-Alegre e Joaquim Norberto de Sousa Silva. Todos eles compartilham algumas características: o nacionalismo, isto é, a vontade de exaltar o Brasil; o indianismo, que é a idealização do índio como herói nacional; o ufanismo, que é o orgulho exagerado pelas belezas e grandezas da pátria; a religiosidade, com a presença de Deus e da fé cristã; e a valorização da natureza brasileira, descrita com cores fortes, sons, cheiros e imagens grandiosas.
Para a prova, guarde esta ideia central: se o poema falar de índio heroico, de floresta, de palmeira, de sabiá, de saudade da terra natal e de orgulho de ser brasileiro, quase certamente é da primeira geração romântica. Se ele falar de amor impossível, de morte, de sofrimento e de um eu apaixonado que quer morrer, é mais provável que seja da segunda geração, a ultrarromântica. Se falar de crítica social, de luta contra a escravidão e de liberdade, é da terceira geração, a condoreira. Saber separar as três gerações é a habilidade mais cobrada sobre o Romantismo no ENEM e nos vestibulares, e este artigo vai deixar essa separação muito clara para você.
Este artigo foi pensado para a sua revisão de Literatura: linguagem direta, contexto histórico explicado sem complicação, análises dos dois poemas que mais caem, tabelas comparativas para memorizar rápido, perguntas curtas com respostas e questões comentadas no estilo do ENEM, todas originais, para você treinar. Ao final, você encontra ainda um mapa mental, a dica do professor, os erros mais comuns e as conexões da primeira geração romântica com outras matérias. Se quiser situar o Romantismo na sequência das escolas literárias, vale revisar também o Arcadismo, que veio antes dele, e o Barroco, para comparar a linguagem contida dos árcades com a emoção solta dos românticos.
O que é o Romantismo
O Romantismo foi um grande movimento artístico e cultural que nasceu na Europa no final do século XVIII e se espalhou pelo mundo no século XIX. Ele foi, em muitos aspectos, uma reação ao movimento anterior, o Arcadismo, que valorizava a razão, a clareza, o equilíbrio e as regras clássicas. Os românticos fizeram o caminho contrário: valorizaram a emoção, a imaginação, a liberdade de criação, o sentimento individual e a inspiração, em vez das regras rígidas. Para o poeta romântico, a poesia não deveria obedecer a um manual de medidas e de formas: ela deveria expressar o que o poeta sentia de verdade, com sinceridade, mesmo que isso significasse quebrar regras, misturar formas e inventar palavras novas.
Outra marca do Romantismo é a valorização do eu, do indivíduo. O poeta romântico fala de si mesmo, dos seus amores, das suas saudades, das suas dores e das suas esperanças, e usa a primeira pessoa com uma frequência que os árcades evitavam. Além disso, o Romantismo valoriza o nacional, o popular e o passado de cada povo: cada nação deveria ter a sua literatura própria, inspirada nas suas tradições, na sua história, nas suas lendas e na sua natureza. Na Europa, isso significou, por exemplo, o interesse pelas lendas medievais, pelos castelos, pelos cavaleiros e pelo folclore. No Brasil, como veremos, significou o interesse pelo índio, pela floresta e pela história da terra.
Na Europa, os grandes nomes do Romantismo são, entre outros, Victor Hugo na França, Lord Byron na Inglaterra, Goethe na Alemanha e Almeida Garrett em Portugal. No Brasil, o Romantismo chega com atraso, como quase todos os movimentos literários da época, por causa da distância, da censura colonial e da falta de universidades e de imprensa no período colonial. Quando ele chega, porém, encontra um país recém-independente, ansioso por afirmar a sua identidade, e é por isso que o Romantismo brasileiro nasce tão ligado ao nacionalismo. Aqui, o movimento é tradicionalmente dividido em três gerações na poesia: a primeira, nacionalista e indianista; a segunda, ultrarromântica, do amor e da morte; e a terceira, condoreira, da poesia social e abolicionista. Na prosa, o Romantismo produziu o romance indianista, o romance urbano e o romance regionalista, com José de Alencar como maior nome. Para revisar esse panorama, consulte a Literatura na sala de estudo e os temas de vestibulares.
É importante entender que essas três gerações não são caixas separadas, sem comunicação entre elas. Elas são uma forma de organizar o estudo, e os autores nem sempre cabem perfeitamente em uma só geração. Gonçalves Dias, por exemplo, é o grande nome da primeira geração, mas também escreveu poemas de amor que se aproximam da segunda. O que importa para a prova é dominar as características predominantes de cada geração e saber reconhecer, em um poema, qual delas está mais presente. A primeira geração, que é o tema deste artigo, predomina quando o tema central é a pátria, o índio e a natureza brasileira.
Contexto histórico: Independência, nacionalismo e a busca de uma identidade
Para entender a primeira geração romântica, é preciso entender o Brasil das primeiras décadas do século XIX. O país tinha vivido, até 1808, sob o domínio colonial português, com proibição de imprensa, de universidades e de manufaturas. Em 1808, a família real portuguesa veio para o Brasil, fugindo das invasões napoleônicas na Europa, e o Rio de Janeiro virou a capital do império português. Em 1822, Dom Pedro I proclamou a Independência, e o Brasil se tornou um país politicamente separado de Portugal. Mas a independência política não resolveu, sozinha, um problema cultural: o Brasil continuava a se ver, em grande parte, com os olhos de Portugal e da Europa. A língua era a portuguesa, as leis e as instituições vinham de Portugal, e a literatura seguia os modelos europeus.
Foi nesse vazio que entrou o nacionalismo romântico. Os escritores brasileiros da época sentiram que era preciso criar uma cultura brasileira, com símbolos próprios, que mostrasse que o Brasil não era apenas uma cópia de Portugal. Essa tarefa era também política: um país novo precisa de histórias, de heróis e de imagens que unam o seu povo em torno de uma identidade comum. Na Europa, o mesmo processo acontecia em vários países, que buscavam nas suas lendas e no seu passado os símbolos da nação. No Brasil, o problema era mais difícil, porque o país tinha uma história curta como nação independente, uma população formada por indígenas, africanos escravizados e portugueses, e uma elite que ainda se sentia muito europeia.
A solução encontrada pelos românticos foi dupla. Primeiro, eles elegeram o índio como o herói nacional, o símbolo do brasileiro original, anterior à colonização, ligado à terra e dotado de coragem, honra e liberdade. Segundo, eles exaltaram a natureza brasileira, imensa, colorida e diferente de tudo o que existia na Europa, como prova da grandeza do país. Assim, o Brasil passaria a ser reconhecido não pelo que copiava da Europa, mas pelo que tinha de próprio: os seus primeiros habitantes e a sua paisagem. Essa é a lógica do nacionalismo da primeira geração, e ela explica quase tudo o que esses poetas escreveram.
Há, porém, um ponto que a prova gosta de cobrar e que o estudante precisa entender com honestidade: esse índio heroico era, em grande parte, uma idealização, uma invenção literária. O índio real do século XIX vivia uma situação dramática, com a perda de terras, a violência e a marginalização, e quase não aparecia nos debates políticos da elite. O índio dos poemas românticos, ao contrário, é belo, forte, corajoso, honrado e, muitas vezes, fala como um cavaleiro medieval europeu, com valores de honra e de lealdade que lembram os heróis dos romances de cavalaria. Ou seja, os românticos criaram um índio à imagem do herói europeu, mas vestido com penas, arcos e flechas, e colocado na floresta brasileira. Reconhecer essa idealização é fundamental para não cair na armadilha de achar que o Romantismo retratava o índio real. Ele retratava um símbolo, um ideal, e esse símbolo servia ao projeto de construir a identidade nacional.
Além do contexto político, é preciso lembrar o contexto cultural. Nessa época, começam a surgir no Brasil as primeiras revistas literárias, os primeiros jornais e os primeiros grupos de escritores organizados, como o grupo da revista Niterói, publicada em Paris em 1836 por jovens brasileiros que estudavam na Europa. Foi nesse ambiente de jovens intelectuais, muitos deles estudantes em Paris, que nasceu o marco inicial do Romantismo brasileiro. O fato de o marco ter sido publicado em Paris não é um detalhe sem importância: mostra que os primeiros românticos brasileiros estavam em contato direto com o Romantismo europeu, e que a saudade do Brasil, sentida de longe, foi um dos motores da poesia nacionalista. Não é por acaso que o poema mais famoso da geração fala justamente de um brasileiro exilado, longe da sua terra, lembrando das palmeiras e do sabiá.
Gonçalves de Magalhães e o marco inicial: Suspiros Poéticos e Saudades
O marco inicial do Romantismo brasileiro é o livro Suspiros Poéticos e Saudades, de Domingos José Gonçalves de Magalhães, publicado em Paris em 1836. Gonçalves de Magalhães nasceu no Rio de Janeiro em 1811 e morreu em Roma em 1882. Ele foi poeta, dramaturgo, filósofo e diplomata, estudou medicina, viajou pela Europa e participou ativamente da vida intelectual do Segundo Reinado. Além da poesia, ele escreveu a tragédia Antônio José, ou O Poeta e a Inquisição, considerada um dos primeiros textos do teatro romântico brasileiro, e o poema épico A Confederação dos Tamoios, sobre a resistência indígena contra os colonizadores portugueses no século XVI.
Por que Suspiros Poéticos e Saudades é considerado o marco inicial? Porque foi o primeiro livro brasileiro a romper, de forma programática, com as regras do Arcadismo e a apresentar, no seu prefácio, as ideias do Romantismo. No famoso prefácio do livro, Gonçalves de Magalhães defende que a poesia deve ser livre, que o poeta deve seguir a sua inspiração e não as regras dos manuais, e que a literatura brasileira deve ter cor própria, inspirada na natureza e na história do Brasil. O próprio título do livro já é um programa: suspiros e saudades são sentimentos, emoções, e não razões frias. O poeta romântico suspira, sente saudade, chora e se emociona, e a poesia é o lugar onde esses sentimentos se expressam.
É preciso ser honesto com o estudante: a poesia de Gonçalves de Magalhães não é considerada, pela crítica, a melhor da geração. Os seus versos são, muitas vezes, pesados, com um tom de discurso e de lição de moral, e o seu livro mais famoso é mais importante como manifesto e como marco histórico do que como grande poesia. Mas, para a prova, isso não diminui a sua importância. As questões cobram Gonçalves de Magalhães justamente como o autor do marco inicial, do prefácio programático e do poema épico A Confederação dos Tamoios. Se a questão perguntar qual é o marco inicial do Romantismo brasileiro, a resposta é Suspiros Poéticos e Saudades, de 1836. Se ela perguntar quem escreveu o prefácio que defende a liberdade do poeta e a nacionalização da literatura, a resposta é Gonçalves de Magalhães.
Outro ponto que costuma aparecer nas provas é a participação de Gonçalves de Magalhães no grupo da revista Niterói, ao lado de Manuel de Araújo Porto-Alegre e de outros jovens brasileiros em Paris. A revista, publicada em 1836, defendia a criação de uma literatura nacional, com temas brasileiros, e criticava a imitação servil dos modelos europeus. Ou seja, o marco inicial do Romantismo brasileiro não foi um acontecimento isolado de um poeta sozinho: foi parte de um projeto coletivo de jovens intelectuais que queriam inventar o Brasil pela literatura. Guarde o nome da revista, Niterói, e o ano, 1836, porque os dois aparecem com frequência nas questões de contextualização do ENEM e dos vestibulares.
Por fim, vale conhecer A Confederação dos Tamoios, o poema épico de Gonçalves de Magalhães, publicado em 1856. O poema narra a aliança de tribos indígenas, os tamoios, contra os portugueses, no século XVI, e tem como herói o cacique Aimberê. A obra foi alvo de uma famosa polêmica com José de Alencar, que criticou o poema por considerar que ele não retratava com fidelidade os costumes indígenas e que a sua linguagem não era adequada. Essa polêmica é interessante porque mostra que, já no século XIX, havia um debate sobre como representar o índio na literatura: como herói idealizado ou com mais fidelidade aos seus costumes reais. Para a prova, guarde: A Confederação dos Tamoios é um poema épico indianista de Gonçalves de Magalhães, sobre a resistência dos tamoios, e foi criticado por José de Alencar.
Gonçalves Dias: o maior poeta da primeira geração
Se Gonçalves de Magalhães é o autor do marco inicial, Antônio Gonçalves Dias é, sem dúvida, o maior poeta da primeira geração romântica e um dos maiores poetas de toda a literatura brasileira. Ele nasceu em Caxias, no Maranhão, em 1823, filho de um comerciante português e de uma mulher mestiça, e morreu em 1864, em um naufrágio, quando voltava da Europa para o Brasil, perto da costa maranhense. Estudou Direito em Coimbra, em Portugal, onde escreveu Canção do exílio, e depois voltou ao Brasil, onde trabalhou como professor, jornalista e pesquisador, viajando pelo interior do país para estudar as línguas e os costumes indígenas. Essa experiência de contato, ainda que limitado, com as culturas indígenas, deu à sua poesia indianista uma base mais concreta do que a de outros poetas da época.
A obra de Gonçalves Dias é dividida em três livros principais de poesia: Primeiros Cantos, de 1847, Segundos Cantos, de 1848, e Últimos Cantos, de 1851. Nesses livros, estão os seus poemas mais famosos: Canção do exílio, I-Juca-Pirama, Marabá, Leito de folhas verdes e Canção do Tamoio. Além da poesia, ele escreveu o poema épico inacabado Os Timbiras, sobre os povos indígenas do Maranhão, e deixou estudos importantes sobre a língua tupi e sobre as tradições indígenas. O conjunto da obra faz dele o poeta-símbolo do indianismo: ninguém, na primeira geração, tratou do índio com tanta frequência, com tanta emoção e com tanto cuidado com a língua e com os costumes indígenas.
Um aspecto da vida de Gonçalves Dias que ajuda a entender a sua poesia é a sua origem. Ele era mestiço, filho de uma mãe que não era branca nem portuguesa, em uma sociedade escravista e profundamente hierarquizada. Muitos estudiosos veem na sua poesia indianista, e no seu orgulho da terra brasileira, uma forma de afirmar uma identidade que não era a do colonizador europeu. O poeta que canta o índio e a natureza brasileira é também um poeta que está dizendo: eu pertenço a esta terra, e esta terra tem valor próprio. Essa leitura não é obrigatória para resolver questões, mas ajuda a entender por que a poesia de Gonçalves Dias tem uma emoção e uma sinceridade que faltam, muitas vezes, aos versos programáticos de Gonçalves de Magalhães.
Outro ponto importante é que Gonçalves Dias não foi apenas um poeta indianista. Ele também escreveu belos poemas de amor, como Leito de folhas verdes, em que uma mulher indígena espera pelo amado, e Marabá, em que uma mulher indígena, filha de um europeu e de uma indígena, sofre por não ser aceita nem pelo mundo indígena nem pelo mundo europeu. Esses poemas mostram que o indianismo de Gonçalves Dias não era só heroísmo e guerra: era também amor, saudade, solidão e conflito de identidade. Para a prova, porém, o que mais cai são Canção do exílio e I-Juca-Pirama, que analisamos em detalhes nas próximas seções.
Para memorizar Gonçalves Dias, use esta sequência: nasceu no Maranhão em 1823, estudou em Coimbra, escreveu Canção do exílio em Portugal, publicou Primeiros Cantos em 1847, Segundos Cantos em 1848 e Últimos Cantos em 1851, escreveu I-Juca-Pirama e morreu em um naufrágio em 1864, voltando da Europa. Se a questão citar um verso sobre palmeiras, sabiá e saudade da terra, é Gonçalves Dias. Se citar um guerreiro indígena que chora, mas depois prova a sua coragem na morte, é I-Juca-Pirama, também de Gonçalves Dias. Dominar esses dois poemas é dominar metade das questões sobre a primeira geração no ENEM, na sala de estudo e nos vestibulares.
O indianismo: o índio idealizado como herói nacional
O indianismo é a característica mais marcante da primeira geração romântica e, provavelmente, o tema mais cobrado sobre ela. Ele consiste na escolha do índio como herói e como símbolo da nacionalidade brasileira. No lugar do cavaleiro medieval europeu, que era o herói do Romantismo europeu, os românticos brasileiros colocaram o guerreiro indígena, com o seu arco, as suas flechas, as suas penas, a sua coragem e o seu código de honra. O índio indianista é forte, belo, bravo, leal, livre e ligado à natureza. Ele prefere a morte à desonra, defende a sua tribo até o fim e fala com uma dignidade que lembra os heróis das epopeias clássicas.
É fundamental entender que esse índio é idealizado, isto é, ele é uma versão aperfeiçoada, limpa e enobrecida do índio real. O índio dos poemas não tem os problemas, as doenças, as derrotas e as contradições do índio real do século XIX. Ele é, antes de tudo, um símbolo: ele representa o Brasil original, puro, anterior à colonização, e serve para dizer que o Brasil já tinha heróis antes da chegada dos portugueses. Essa idealização tem um nome que aparece em algumas provas: o índio é apresentado como o bom selvagem, uma ideia do filósofo Jean-Jacques Rousseau, segundo a qual o ser humano, em estado natural, longe da civilização, seria bom, puro e livre, e a civilização é que o corromperia. O índio romântico é, em grande parte, esse bom selvagem com penas e arco.
Outro ponto essencial é que o indianismo brasileiro foi, em grande medida, uma resposta ao problema da identidade nacional. Como o Brasil não tinha castelos medievais, nem cavaleiros, nem lendas antigas como as da Europa, os românticos buscaram no passado indígena o equivalente brasileiro do passado medieval europeu. Assim como os europeus se orgulhavam dos seus cavaleiros e das suas lendas, os brasileiros poderiam se orgulhar dos seus guerreiros indígenas e das suas tradições. O índio, portanto, cumpre no Romantismo brasileiro o mesmo papel que o cavaleiro medieval cumpre no Romantismo europeu: ele é o herói do passado nacional, o modelo de coragem e de honra que a nação deve admirar.
Na prática, o indianismo aparece na poesia e na prosa. Na poesia, os maiores exemplos são I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias, e A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães. Na prosa, os maiores exemplos são os romances indianistas de José de Alencar, como O Guarani, com o herói Peri, e Iracema, com a índia que dá nome ao livro. Embora José de Alencar seja mais estudado como romancista, e não como poeta da primeira geração, as provas costumam ligar o indianismo da poesia ao indianismo da prosa, porque os dois fazem parte do mesmo projeto nacionalista. Se a questão falar em índio heroico, em Peri ou em Iracema, ela está falando de indianismo, mesmo que o autor seja Alencar e não Gonçalves Dias. Para aprofundar, revise os gêneros literários e o Trovadorismo na sala de estudo.
Por fim, é preciso saber criticar o indianismo, porque o ENEM, em especial, gosta de questões que pedem uma leitura crítica, e não apenas decorada. A crítica principal é que o indianismo idealizou o índio e, ao mesmo tempo, ignorou o índio real. Enquanto os poemas celebravam guerreiros heroicos do passado, os povos indígenas do presente continuavam a perder terras e a sofrer violência, sem que a literatura ou a política da época enfrentassem esse problema. Além disso, o indianismo quase não tratou de outro grupo fundamental na formação do Brasil: os africanos escravizados e os seus descendentes, que só ganhariam destaque na literatura na terceira geração romântica, com a poesia abolicionista de Castro Alves. Ou seja, o símbolo nacional escolhido pela primeira geração era bonito e emocionante, mas era também seletivo: ele celebrava o índio do passado e silenciava o índio do presente e o negro escravizado. Guardar essa crítica é um diferencial importante para as questões mais difíceis do ENEM.
A natureza exuberante e o ufanismo
Se o índio é o herói da primeira geração romântica, a natureza é o seu cenário e, ao mesmo tempo, a sua prova de grandeza. Os poetas dessa geração descrevem a natureza brasileira com uma exuberância que não existe na poesia árcade. No Arcadismo, a natureza era calma, ordenada e idealizada como um jardim: um campo verde, um riacho, uma sombra. No Romantismo, a natureza é imensa, colorida, sonora e, muitas vezes, selvagem: florestas sem fim, rios caudalosos, palmeiras altíssimas, pássaros de cores vivas, frutos, flores e um céu de um azul profundo. A natureza brasileira aparece como um espetáculo, e o poeta a contempla com admiração e orgulho.
Essa exaltação da natureza está ligada ao ufanismo, que é o orgulho exagerado, às vezes até ingênuo, pelas belezas e grandezas da pátria. A palavra ufanismo vem de ufano, que significa orgulhoso, vaidoso, cheio de si. O poeta ufanista diz, com todas as letras, que o Brasil é o país mais belo do mundo, que as suas palmeiras são mais altas, que os seus pássaros cantam melhor, que os seus rios são maiores e que a sua terra não tem igual. O exemplo mais famoso de ufanismo é a própria Canção do exílio, em que o poeta afirma que as aves que cantam aqui não cantam como as de lá, e que o céu brasileiro tem mais estrelas do que o céu europeu. Esse exagero não é um defeito do poema: ele é proposital, porque o objetivo é afirmar, com emoção, o valor do Brasil diante da Europa.
É importante perceber que o ufanismo não é apenas um sentimento individual do poeta. Ele é parte do projeto nacionalista: para construir a identidade de um país novo, era preciso convencer os brasileiros, e os estrangeiros, de que o Brasil era grande, belo e digno de orgulho. A natureza servia como argumento: um país com uma natureza tão extraordinária não poderia ser um país sem importância. Por isso, as descrições da natureza na primeira geração são tão detalhadas e tão cheias de nomes de plantas, de pássaros e de lugares brasileiros: palmeira, sabiá, mangueira, cajueiro, Amazonas, Guanabara. Cada nome próprio brasileiro é uma afirmação de identidade, um jeito de dizer que esta terra tem nomes, cores e sons que só existem aqui.
Outro aspecto da natureza romântica é que ela não é apenas um cenário: ela participa dos sentimentos do poeta. Quando o poeta está triste, a natureza parece triste; quando ele está com saudade, a natureza lembra a terra distante; quando ele está apaixonado, a natureza parece conspirar a favor do amor. Essa relação entre a natureza e o sentimento do poeta tem um nome que aparece em algumas provas: é a chamada natureza confidente, ou natureza que reflete o estado de espírito do eu lírico. No Arcadismo, a natureza era um cenário ordenado, quase decorativo. No Romantismo, ela é uma companheira emocional do poeta, que chora, canta e se alegra junto com ele.
Para a prova, a dica prática é esta: quando um poema descrever a natureza brasileira com adjetivos fortes, com exagero e com orgulho, e comparar o Brasil com a Europa para dizer que o Brasil é melhor, você está diante de ufanismo e de primeira geração romântica. Cuidado, porém, com uma confusão comum: nem toda descrição de natureza é romântica. A natureza árcade é calma, ordenada e serve de cenário para o amor pastoril. A natureza romântica da primeira geração é exuberante, grandiosa e serve de argumento nacionalista. A diferença está no tom: serenidade e ordem indicam Arcadismo; exagero, cor e orgulho nacional indicam Romantismo de primeira geração. Compare com o Arcadismo e com o Barroco para fixar essa oposição, tão cobrada no ENEM.
Canção do exílio: o poema mais famoso da geração
Canção do exílio, de Gonçalves Dias, foi escrita em Coimbra, em Portugal, em 1843, quando o poeta estudava longe do Brasil, e publicada em Primeiros Cantos, em 1847. É um poema curto, de seis estrofes, com versos simples e musicais, e é, provavelmente, o poema brasileiro mais conhecido de todos os tempos, ao lado de poucos outros. A sua fama é tão grande que ele foi parodiado, citado e reescrito inúmeras vezes, por poetas modernistas, por compositores e por escritores de todas as épocas. Conhecer esse poema de perto é, portanto, uma obrigação para qualquer estudante que vai fazer o ENEM ou um vestibular.
O tema do poema é a saudade da pátria. O poeta, exilado em Portugal, lembra da sua terra e compara o Brasil com a terra onde está. A primeira estrofe já resume o poema inteiro: as palmeiras da sua terra, onde canta o sabiá, são mais belas do que as palmeiras de onde ele está, e o céu brasileiro tem mais estrelas do que o céu europeu. O poema é construído sobre comparações: aqui e lá, o Brasil e a Europa, a terra natal e o exílio. Em todas as comparações, o Brasil vence: as aves cantam melhor, as estrelas brilham mais, as flores são mais belas e a vida é mais feliz na terra natal. No final, o poeta expressa o desejo de voltar e de morrer na sua terra, junto às palmeiras, ouvindo o sabiá.
Do ponto de vista das características românticas, Canção do exílio reúne quase todas as marcas da primeira geração. Primeiro, o nacionalismo: o poema é uma declaração de amor ao Brasil, feita de longe, com orgulho e com saudade. Segundo, o ufanismo: o Brasil é apresentado como superior à Europa em beleza natural, com um exagero assumido e emocionante. Terceiro, a natureza exuberante: palmeiras, sabiá, céu estrelado, flores e rios aparecem como os símbolos da pátria. Quarto, o sentimento individual: o poema é escrito em primeira pessoa, e a saudade é um sentimento pessoal, íntimo, do poeta exilado. Quinto, a simplicidade da linguagem: os versos são curtos, claros e musicais, fáceis de memorizar, o que ajudou o poema a se tornar tão popular.
Um ponto que as provas exploram muito é a relação entre Canção do exílio e as suas releituras. No Modernismo, poetas como Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes reescreveram o poema com ironia, questionando o ufanismo e mostrando um Brasil diferente, com problemas sociais, com cidades e com uma realidade menos idealizada. Na música popular, o poema também foi retomado, inclusive no Hino Nacional, que cita as palmeiras e o sabiá. Para a prova, o importante é entender que Canção do exílio virou um símbolo cultural brasileiro, e que as suas releituras, em geral, servem para criticar o ufanismo ingênuo da primeira geração e para mostrar um Brasil mais complexo e mais real. Se a questão apresentar um poema que cita palmeiras e sabiá de forma irônica ou crítica, ela está, muito provavelmente, dialogando com Gonçalves Dias.
Para memorizar Canção do exílio, guarde esta fórmula: poeta exilado em Coimbra, saudade da terra, comparação entre o Brasil e a Europa, palmeiras e sabiá como símbolos da pátria, ufanismo, desejo de voltar e de morrer na terra natal. Se a questão perguntar qual é o sentimento central do poema, a resposta é a saudade, ou o saudosismo. Se ela perguntar qual é a característica romântica mais evidente, a resposta pode ser o nacionalismo, o ufanismo ou a valorização da natureza brasileira, dependendo do enfoque da questão. E se ela perguntar quem é o autor, a resposta é Gonçalves Dias, sempre Gonçalves Dias.
I-Juca-Pirama: o guerreiro que prefere a morte à desonra
I-Juca-Pirama, também de Gonçalves Dias, é um longo poema narrativo, publicado em Últimos Cantos, em 1851, e é considerado a obra-prima do indianismo brasileiro. O título significa, em tupi, aquele que há de ser morto, ou aquele que deve morrer, e já anuncia o tema do poema: um guerreiro indígena que é feito prisioneiro por uma tribo inimiga, os timbiras, e que deve ser sacrificado em um ritual, segundo os costumes da tribo. O poema tem dez cantos e narra, com grande dramaticidade, o drama desse guerreiro, que chora diante da morte, é libertado por causa das suas lágrimas, mas depois volta para provar a sua coragem e morre lutando, de forma heroica.
A história, em resumo, é a seguinte. Um guerreiro tupi é capturado pelos timbiras e condenado à morte, conforme o ritual da tribo, que previa o sacrifício do prisioneiro após um período de convivência e de festas. Diante da morte, o guerreiro chora, não por medo, segundo ele, mas porque lembra do seu pai, velho, cego e sozinho, que ficará abandonado sem ele. Os timbiras, vendo as lágrimas, consideram o guerreiro indigno, um covarde, e o libertam, porque um prisioneiro que chora não merece ser sacrificado com honra. O guerreiro volta para a sua aldeia, encontra o pai, que o repreende por ter chorado e por ter voltado vivo, e então decide retornar ao campo inimigo para provar a sua coragem. Ele luta bravamente, mata muitos inimigos, mas acaba morrendo, e o seu pai, orgulhoso, canta a sua morte heroica. O poema termina com a celebração do guerreiro que preferiu a morte à desonra.
As características românticas de I-Juca-Pirama são evidentes. Primeiro, o indianismo: o herói é um índio, e os seus valores são a coragem, a honra, a lealdade à tribo e o desprezo pela covardia. Segundo, o nacionalismo: o poema apresenta um herói brasileiro, anterior à colonização, como modelo de virtude para a nação. Terceiro, o drama e a emoção: o poema é construído sobre um conflito emocional forte, entre o amor ao pai e a honra do guerreiro, e o leitor acompanha a angústia do herói. Quarto, o uso de elementos da cultura indígena, como os nomes em tupi, os rituais, as festas e as descrições da floresta, que dão ao poema uma cor local brasileira. Quinto, a forma: o poema mistura narração e lirismo, com versos de medidas variadas, o que é uma liberdade formal típica do Romantismo, contra a rigidez das formas árcades.
Um ponto que as provas cobram com frequência é o significado das lágrimas do guerreiro. É um erro comum achar que o guerreiro chorou por medo da morte. O poema deixa claro que ele chorou por causa do pai, por piedade filial, e não por covardia. O pai, porém, não aceita essa explicação: para o código de honra indígena apresentado no poema, chorar diante do inimigo é uma desonra, qualquer que seja o motivo. Por isso, o guerreiro precisa voltar e morrer lutando, para lavar a sua honra. Essa tensão entre o sentimento individual, o amor ao pai, e o código coletivo, a honra da tribo, é o coração do poema, e é o que faz dele uma obra dramática e não apenas um poema de propaganda nacionalista. Se a questão perguntar por que o guerreiro chorou, a resposta é: por causa do pai velho e cego, e não por medo. Se ela perguntar por que ele voltou, a resposta é: para recuperar a sua honra, provando a sua coragem na luta.
Outro ponto importante é o papel do pai no poema. O velho pai, cego e abandonado, representa a tradição, a lei da tribo e o peso da honra. Quando o filho volta vivo, o pai o rejeita, porque um filho que chorou diante do inimigo envergonhou a família. Quando o filho morre lutando, o pai o celebra, porque a morte heroica apagou a vergonha. Essa figura do pai severo é um dos elementos mais dramáticos do poema e um dos mais cobrados nas análises. Por fim, guarde a informação formal: I-Juca-Pirama tem dez cantos, foi publicado em 1851, em Últimos Cantos, e o seu herói é um guerreiro tupi prisioneiro dos timbiras. Dominar esses dados é garantir pontos nas questões de identificação de obra.
Linguagem, formas e temas da primeira geração
A linguagem da primeira geração romântica é muito diferente da linguagem árcade. Os árcades buscavam a clareza, a medida e a simplicidade, com um vocabulário contido e com formas fixas, como o soneto e a lira. Os românticos da primeira geração buscam a emoção, a musicalidade e a liberdade. Os versos podem ser longos ou curtos, com medidas variadas, e o poeta não se sente obrigado a seguir uma forma fixa. A rima continua existindo, mas com mais liberdade, e a sonoridade do poema, com repetições, com aliterações e com ritmos que imitam sons da natureza, ganha muita importância. É por isso que Canção do exílio é tão musical e tão fácil de memorizar: a música dos versos faz parte do sentido do poema.
Outro traço da linguagem romântica é o uso de vocabulário indígena e de nomes próprios brasileiros. Palavras de origem tupi, como I-Juca-Pirama, Tamoio, Timbira e Marabá, aparecem com frequência, e não apenas como enfeite: elas são uma afirmação de brasilidade, um jeito de dizer que a língua da poesia brasileira pode, e deve, incorporar as línguas dos povos originários. Além disso, os poetas usam muitos adjetivos e muitas imagens sensoriais: cores, sons, cheiros e sabores da natureza tropical. A poesia romântica é uma poesia para os sentidos, e não apenas para a razão. Quando o poeta descreve a floresta, o leitor deve quase ouvir os pássaros, sentir o calor e ver as cores.
Quanto aos temas, a primeira geração romântica gira em torno de quatro eixos principais. O primeiro é a pátria, com o nacionalismo e o ufanismo. O segundo é o índio, com o indianismo e o heroísmo. O terceiro é a natureza, com a exuberância tropical e a natureza confidente. O quarto é a religiosidade, com a presença de Deus, da fé cristã e de uma visão do mundo em que a natureza é uma criação divina. A religiosidade romântica é diferente da religiosidade barroca: no Barroco, Deus aparecia ligado à culpa, ao pecado e ao medo do inferno; no Romantismo, Deus aparece ligado à beleza da criação, à bondade e à esperança. O poeta romântico olha para a natureza e vê nela a mão de Deus, e essa visão dá à sua poesia um tom de reverência e de admiração.
Também vale notar o que a primeira geração romântica não é. Ela não é, predominantemente, uma poesia de amor sofrido e de desejo de morte, como a segunda geração. Ela não é, predominantemente, uma poesia de crítica social e de luta política, como a terceira geração. Ela é, predominantemente, uma poesia de afirmação nacional, de heroísmo e de natureza. É claro que há poemas de amor e poemas religiosos na primeira geração, mas o que define a geração, o que a diferencia das outras, é o nacionalismo indianista. Se você lembrar dessa frase, vai acertar a maioria das questões de classificação: primeira geração é pátria, índio e natureza.
Por fim, um conselho prático de leitura. Quando você ler um poema romântico na prova, faça três perguntas rápidas. Primeira: quem é o eu lírico e o que ele sente? Se ele sente saudade da pátria, orgulho do Brasil ou admiração pela natureza, é primeira geração. Segunda: quem são os personagens? Se há índios heroicos, guerreiros e caciques, é primeira geração. Terceira: qual é o cenário? Se é a floresta, o rio, a palmeira e a terra brasileira exaltada, é primeira geração. Essas três perguntas resolvem, em poucos segundos, a maioria das questões de identificação de geração, e evitam a confusão mais comum, que é classificar como primeira geração qualquer poema romântico, só porque ele é antigo ou porque fala de natureza. Treine esse olhar com as questões de ENEM e de vestibulares da sala de estudo.
Outros autores da primeira geração que podem cair
Além de Gonçalves de Magalhães e de Gonçalves Dias, outros nomes da primeira geração aparecem, com menos frequência, nas provas, sobretudo nos vestibulares mais detalhados. O primeiro deles é Manuel de Araújo Porto-Alegre, nascido no Rio Grande do Sul em 1806 e morto em Lisboa em 1879. Ele foi poeta, pintor, arquiteto e diplomata, participou da revista Niterói e escreveu o poema épico Colombo, sobre o descobridor da América. Porto-Alegre é lembrado como um dos introdutores do Romantismo no Brasil, ao lado de Gonçalves de Magalhães, e como um artista múltiplo, que atuou em várias áreas da cultura brasileira do século XIX.
O segundo nome é Joaquim Norberto de Sousa Silva, nascido no Rio de Janeiro em 1820 e morto em 1891. Ele foi poeta, historiador da literatura e um dos primeiros estudiosos a organizar a história da literatura brasileira. A sua importância para a prova está menos nos seus poemas e mais no seu trabalho de historiador: ele ajudou a construir a ideia de uma literatura nacional, com uma história própria, e defendeu a valorização dos temas brasileiros. Se a questão citar Joaquim Norberto, é provável que ela esteja falando de historiografia literária, isto é, da história da literatura, e não de um poema específico.
O terceiro nome que vale conhecer é José de Alencar, mas com um cuidado importante. Alencar é, sobretudo, um romancista, e a sua obra principal pertence à prosa romântica, não à poesia da primeira geração. No entanto, os seus romances indianistas, O Guarani, de 1857, e Iracema, de 1865, são a continuação, na prosa, do mesmo projeto indianista da poesia da primeira geração. Por isso, as provas costumam associar Alencar ao indianismo, mesmo quando a questão é sobre poesia. Se a questão falar em Peri, o herói de O Guarani, ou em Iracema, a virgem dos lábios de mel, ela está falando de indianismo, e a resposta pode ser Alencar, mesmo que o tema geral seja a primeira geração romântica. O importante é não confundir: Alencar é romancista indianista, Gonçalves Dias é poeta indianista, e os dois fazem parte do mesmo movimento nacionalista.
Também é útil conhecer, de passagem, o nome de Teixeira e Sousa, autor do poema A Independência do Brasil, e de outros poetas menores da época, que escreveram poemas patrióticos e indianistas, mas que raramente são cobrados com detalhes. Para o ENEM, dominar Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias é suficiente. Para vestibulares como a Fuvest, a Unicamp e a UFRGS, vale ampliar para Porto-Alegre, Joaquim Norberto e Alencar, e saber situar o indianismo na prosa. A regra de ouro é: aprofunde nos dois grandes nomes, e conheça os outros pelo nome, pela obra principal e pela relação com o indianismo.
Para situar esses autores no panorama da Literatura brasileira, revise também a sala de estudo e os temas de ENEM e de vestibulares sobre as escolas literárias, porque as questões de Romantismo quase sempre pedem comparação entre gerações e entre escolas.
Tabela comparativa: as três gerações do Romantismo brasileiro
| Aspecto | Primeira geração (1836–1852) | Segunda geração (1853–1869) | Terceira geração (1870–1880) |
|---|---|---|---|
| Nome | Nacionalista ou indianista | Ultrarromântica, ou mal do século | Condoreira, ou social |
| Tema central | Pátria, índio, natureza brasileira | Amor impossível, morte, sofrimento do eu | Liberdade, abolição, crítica social |
| Herói | O guerreiro indígena | O eu apaixonado e sofredor | O escravo, o oprimido, o povo |
| Sentimento dominante | Orgulho nacional, saudade da pátria | Melancolia, tédio, desejo de morte | Indignação, esperança, luta |
| Natureza | Exuberante, argumento nacionalista | Noturna, fúnebre, reflexo da dor | Grandiosa, cenário da luta pela liberdade |
| Principais autores | Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães | Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela | Castro Alves, Tobias Barreto |
| Obras que mais caem | Canção do exílio, I-Juca-Pirama | Lira dos vinte anos, Meus oito anos | O navio negreiro, Vozes d’África |
Tabela comparativa: Arcadismo x Romantismo de primeira geração
| Aspecto | Arcadismo (século XVIII) | Romantismo, primeira geração (século XIX) |
|---|---|---|
| Valor central | Razão, clareza, equilíbrio | Emoção, imaginação, liberdade |
| Herói | O pastor simples e sereno | O guerreiro indígena heroico |
| Natureza | Calma, ordenada, jardim ideal | Exuberante, selvagem, grandiosa |
| Atitude diante do tempo | Carpe diem: aproveitar o presente com moderação | Saudade da pátria e do passado heroico |
| Linguagem | Simples, contida, formas fixas | Emotiva, musical, formas livres |
| Relação com a Europa | Imitação dos modelos clássicos | Afirmação nacional contra a imitação europeia |
| Autores no Brasil | Cláudio Manuel da Costa, Gonzaga, Basílio da Gama | Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães |
Tabela comparativa: os principais autores e obras da primeira geração
| Autor | Obra principal | Ano | O que guardar |
|---|---|---|---|
| Gonçalves de Magalhães | Suspiros Poéticos e Saudades | 1836 | Marco inicial do Romantismo brasileiro; prefácio programático |
| Gonçalves de Magalhães | A Confederação dos Tamoios | 1856 | Poema épico indianista; criticado por José de Alencar |
| Gonçalves Dias | Canção do exílio | 1843 (publicada em 1847) | Saudade da pátria; palmeiras e sabiá; ufanismo |
| Gonçalves Dias | I-Juca-Pirama | 1851 | Guerreiro tupi prisioneiro dos timbiras; honra e morte heroica |
| Gonçalves Dias | Primeiros Cantos | 1847 | Livro que reúne Canção do exílio e outros poemas indianistas |
| Manuel de Araújo Porto-Alegre | Colombo | 1866 | Poema épico; participante da revista Niterói |
| José de Alencar (prosa) | O Guarani e Iracema | 1857 e 1865 | Indianismo na prosa; Peri e Iracema como heróis nacionais |
O que cai no ENEM e nos vestibulares
A primeira geração romântica é um tema de incidência morna: não aparece todos os anos, mas quando aparece, costuma valer uma ou duas questões, e essas questões seguem um padrão bastante previsível. Conhecer esse padrão é a melhor forma de garantir os pontos. A seguir, os cinco tipos de questão mais frequentes, com o que cada um cobra e como resolver.
1. Identificação da geração. A questão apresenta um poema com índio heroico, natureza exuberante, saudade da pátria ou ufanismo, e pergunta a qual geração do Romantismo ele pertence. A resposta é a primeira geração, nacionalista ou indianista. Cuidado com as armadilhas: se o poema falar de amor e de morte, mesmo que cite a natureza, desconfie, porque pode ser da segunda geração. Se falar de escravidão e de liberdade, é da terceira.
2. Identificação do autor e da obra. A questão cita um verso ou um trecho famoso, como as palmeiras e o sabiá, ou a história do guerreiro que chorou e depois morreu lutando, e pergunta quem é o autor ou qual é a obra. As respostas mais frequentes são Gonçalves Dias, Canção do exílio e I-Juca-Pirama. Decorar os dois poemas, com autor, data e tema, resolve a maior parte dessas questões.
3. Características do indianismo. A questão pede para identificar, em um trecho, as marcas do indianismo: o índio idealizado, o heroísmo, a honra, a coragem e a ligação com a natureza. A chave é perceber que o índio do poema não é o índio real, mas um símbolo nacional, um herói construído para representar o Brasil original. Questões do ENEM, em especial, gostam de pedir uma leitura crítica, apontando que essa idealização escondia a situação real dos povos indígenas.
4. Comparação entre gerações e entre escolas. A questão apresenta dois poemas, um da primeira geração e outro da segunda ou da terceira, ou um poema árcade e um poema romântico, e pede para identificar as diferenças. A chave é o tema e o tom: pátria, índio e orgulho nacional indicam primeira geração; amor, morte e sofrimento indicam segunda; luta social e abolição indicam terceira; razão e serenidade indicam Arcadismo. Revisar as tabelas comparativas deste artigo antes da prova é o melhor treino para esse tipo de questão, e vale também revisar o Arcadismo na sala de estudo.
5. Releituras e paródias. A questão apresenta um poema modernista ou contemporâneo que retoma Canção do exílio com ironia, e pergunta qual é a relação entre os dois textos. A resposta, em geral, é que o texto mais recente critica o ufanismo da primeira geração, mostrando um Brasil com problemas sociais, com cidades e com uma realidade menos idealizada. Se a questão falar em intertextualidade, em paródia ou em diálogo entre textos, e citar palmeiras e sabiá, pense em Gonçalves Dias e na crítica ao ufanismo.
Além desses cinco tipos, vale prestar atenção a um detalhe de vocabulário que aparece com frequência: as palavras indianismo, ufanismo, nacionalismo e bom selvagem. Se a questão usar a palavra indianismo, ela está falando da idealização do índio como herói nacional. Se usar ufanismo, está falando do orgulho exagerado pela pátria. Se usar nacionalismo, está falando do projeto de construir uma identidade brasileira pela literatura. E se usar bom selvagem, está falando da ideia de que o índio, em estado natural, seria puro e bom. Dominar esses quatro conceitos é dominar o vocabulário das questões sobre a primeira geração.


Mapa mental
Romantismo — primeira geração (1836–1852), nacionalista e indianista. Contexto: Independência do Brasil em 1822, busca de uma identidade nacional própria, grupo da revista Niterói em Paris. Marco inicial: Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, 1836, com prefácio que defende a liberdade do poeta e a literatura nacional.
Autores e obras: Gonçalves de Magalhães, marco inicial e A Confederação dos Tamoios; Gonçalves Dias, maior poeta da geração, Primeiros Cantos (1847), Segundos Cantos (1848), Últimos Cantos (1851), Canção do exílio e I-Juca-Pirama; Manuel de Araújo Porto-Alegre, revista Niterói e Colombo; José de Alencar, indianismo na prosa, O Guarani e Iracema.
Características: nacionalismo, indianismo (índio idealizado como herói e como bom selvagem), ufanismo (orgulho exagerado pela pátria), natureza exuberante (palmeiras, sabiá, floresta, rios), religiosidade, emoção e liberdade formal, linguagem musical e vocabulário indígena.
Obras-chave: Canção do exílio, saudade da pátria, comparação entre o Brasil e a Europa, desejo de voltar e de morrer na terra natal; I-Juca-Pirama, guerreiro tupi prisioneiro dos timbiras, choro pelo pai velho e cego, libertação, retorno e morte heroica para recuperar a honra.
Para não confundir: primeira geração é pátria, índio e natureza; segunda geração é amor, morte e sofrimento do eu; terceira geração é luta social, abolição e liberdade. Arcadismo é razão, serenidade e campo ordenado; Romantismo é emoção, exagero e natureza grandiosa.
SAQ — Perguntas curtas com respostas
1. Qual é o marco inicial do Romantismo brasileiro e quem é o seu autor? O marco inicial é Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, publicado em Paris em 1836. O livro é importante, sobretudo, pelo seu prefácio, que defende a liberdade do poeta e a criação de uma literatura nacional, com temas brasileiros.
2. O que é o indianismo? O indianismo é a idealização do índio como herói nacional e como símbolo da identidade brasileira. O índio indianista é forte, corajoso, honrado e ligado à natureza, e representa o Brasil original, anterior à colonização portuguesa.
3. O que é o ufanismo? O ufanismo é o orgulho exagerado pelas belezas e grandezas da pátria. O poeta ufanista afirma que o Brasil é o país mais belo do mundo, com as palmeiras mais altas, os pássaros que cantam melhor e o céu com mais estrelas, como acontece em Canção do exílio.
4. Quem escreveu Canção do exílio e qual é o tema central do poema? Canção do exílio foi escrita por Gonçalves Dias, em Coimbra, em 1843. O tema central é a saudade da pátria: o poeta, longe do Brasil, compara a sua terra com a Europa e afirma que o Brasil é mais belo, desejando voltar e morrer na terra natal.
5. Por que o guerreiro de I-Juca-Pirama chorou diante da morte? O guerreiro chorou porque lembrou do seu pai, velho, cego e sozinho, que ficaria abandonado sem ele, e não por medo da morte. O choro, porém, foi visto pelos timbiras como desonra, e o guerreiro precisou voltar e morrer lutando para recuperar a sua honra.
6. Qual é a diferença entre a natureza árcade e a natureza romântica da primeira geração? A natureza árcade é calma, ordenada e idealizada como um jardim, cenário do amor pastoril. A natureza romântica da primeira geração é exuberante, grandiosa e selvagem, com florestas, rios e pássaros coloridos, e serve de argumento nacionalista, provando a grandeza do Brasil.
7. Por que a primeira geração romântica é chamada de nacionalista? Porque o seu projeto central era construir uma identidade nacional brasileira pela literatura, depois da Independência de 1822. Os poetas buscaram símbolos próprios do Brasil, como o índio e a natureza tropical, para mostrar que o país não era apenas uma cópia de Portugal e da Europa.
8. Qual é a principal crítica que se faz hoje ao indianismo? A principal crítica é que o indianismo idealizou o índio do passado e ignorou o índio real do presente, que perdia terras e sofria violência no século XIX. Além disso, o indianismo quase não tratou dos africanos escravizados, que só ganhariam destaque na literatura na terceira geração, com a poesia abolicionista.
Questões comentadas
Questão 1. Leia o trecho inventado a seguir, criado para treino, no estilo da primeira geração romântica: “Longe da minha terra, lembro das palmeiras altas e do canto do sabiá, e nenhuma ave daqui canta como as aves de lá, nem o céu daqui tem tantas estrelas como o céu do meu Brasil.” O sentimento predominante no trecho e a geração do Romantismo a que ele se associa são, respectivamente: a) amor impossível e segunda geração; b) saudade da pátria e primeira geração; c) crítica social e terceira geração; d) serenidade pastoril e Arcadismo; e) ironia modernista e Modernismo. Comentário: a alternativa correta é a letra B. O trecho fala de um poeta longe da sua terra, que lembra das palmeiras e do sabiá e compara o Brasil com a terra onde está, afirmando que o Brasil é mais belo. Isso é saudade da pátria, com ufanismo e nacionalismo, marcas da primeira geração romântica. A alternativa A está errada porque não há amor impossível nem desejo de morte. A alternativa C está errada porque não há crítica social nem luta pela liberdade. A alternativa D está errada porque, embora haja natureza, o tom não é de serenidade pastoril, mas de exaltação nacional. A alternativa E está errada porque não há ironia: o poeta fala com sinceridade e orgulho, e não com deboche.
Questão 2. Um professor pede aos alunos que identifiquem as características do indianismo em um poema. Qual das alternativas apresenta, corretamente, uma característica do indianismo da primeira geração romântica? a) O índio é retratado com fidelidade documental, com os seus problemas sociais do século XIX; b) O índio é idealizado como herói corajoso, honrado e ligado à natureza, símbolo da nacionalidade; c) O índio aparece apenas como coadjuvante, sem importância para o tema do poema; d) O índio é apresentado como inimigo da civilização, que deve ser combatido; e) O índio é retratado como um pastor europeu, sem nenhuma referência à cultura indígena. Comentário: a alternativa correta é a letra B. O indianismo idealiza o índio como herói nacional, forte, corajoso e honrado, ligado à floresta e dotado de um código de honra. A alternativa A está errada porque o indianismo não retrata o índio real com os seus problemas sociais, mas um índio idealizado. A alternativa C está errada porque o índio é o protagonista e o símbolo central do poema indianista. A alternativa D está errada porque o índio é celebrado, e não combatido, como herói. A alternativa E está errada porque, embora o índio indianista tenha traços do herói europeu, ele é caracterizado com elementos da cultura indígena, como o arco, as penas e os nomes em tupi.
Questão 3. Sobre o marco inicial do Romantismo brasileiro, é correto afirmar que: a) foi Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga, em 1792; b) foi Suspiros Poéticos e Saudades, de Gonçalves de Magalhães, em 1836, cujo prefácio defende a liberdade do poeta e a literatura nacional; c) foi O Uraguai, de Basílio da Gama, em 1769; d) foi Primeiros Cantos, de Gonçalves Dias, em 1847; e) foi O Guarani, de José de Alencar, em 1857. Comentário: a alternativa correta é a letra B. Suspiros Poéticos e Saudades, publicado em Paris em 1836, é o marco inicial do Romantismo brasileiro, e o seu prefácio é um manifesto em defesa da liberdade de criação e da nacionalização da literatura. A alternativa A está errada porque Marília de Dirceu é uma obra do Arcadismo. A alternativa C está errada porque O Uraguai também é do Arcadismo, embora já trate do índio. A alternativa D está errada porque Primeiros Cantos é posterior ao marco inicial, embora seja um livro fundamental de Gonçalves Dias. A alternativa E está errada porque O Guarani é um romance indianista, posterior ao marco inicial da poesia romântica.
Questão 4. Em um poema narrativo, um guerreiro indígena, prisioneiro de uma tribo inimiga, chora ao lembrar do pai velho e cego, é libertado por causa das lágrimas, mas volta para lutar e morre heroicamente, recuperando a sua honra. Esse enredo corresponde a: a) Canção do exílio, de Gonçalves Dias; b) A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães; c) I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias; d) Marília de Dirceu, de Tomás Antônio Gonzaga; e) O Uraguai, de Basílio da Gama. Comentário: a alternativa correta é a letra C. O enredo descrito é o de I-Juca-Pirama: o guerreiro tupi, prisioneiro dos timbiras, chora pelo pai, é libertado por ser considerado indigno, volta e morre lutando, provando a sua coragem. A alternativa A está errada porque Canção do exílio é um poema lírico sobre a saudade da pátria, sem narrativa de guerra. A alternativa B está errada porque A Confederação dos Tamoios narra a resistência dos tamoios contra os portugueses, e não essa história individual. A alternativa D está errada porque Marília de Dirceu é um conjunto de liras de amor pastoril. A alternativa E está errada porque O Uraguai narra a guerra guaranítica no sul, com o herói Sepé Tiaraju, e não o drama do guerreiro que chorou.
Questão 5. Compare os dois trechos inventados para treino. Trecho I: “O pastor, à sombra da árvore, junto ao riacho cristalino, canta o seu amor sereno, longe da ambição da cidade.” Trecho II: “Na floresta imensa, o guerreiro de arco e penas jura defender a sua tribo até a morte, e o seu canto celebra a terra brasileira.” A diferença entre os trechos corresponde, respectivamente, a: a) Romantismo de segunda geração e Romantismo de terceira geração; b) Arcadismo e Romantismo de primeira geração; c) Romantismo de primeira geração e Arcadismo; d) Barroco e Romantismo de segunda geração; e) Modernismo e Arcadismo. Comentário: a alternativa correta é a letra B. O trecho I apresenta o pastor, a sombra, o riacho e o amor sereno, longe da cidade, que são marcas do Arcadismo, com fugere urbem e locus amoenus. O trecho II apresenta o guerreiro indígena, a floresta imensa e a celebração da terra brasileira, que são marcas do indianismo da primeira geração romântica. A alternativa A está errada porque nenhum dos trechos fala de amor e morte, nem de luta social. A alternativa C inverte a ordem correta. A alternativa D está errada porque o trecho I não tem as marcas do Barroco, como conflito, culpa e exagero. A alternativa E está errada porque nenhum dos trechos tem as marcas do Modernismo, como a ironia e a fragmentação.
Questão 6. Uma questão do ENEM apresenta um poema contemporâneo que retoma, com ironia, as palmeiras e o sabiá de um famoso poema brasileiro, mostrando um país com favelas, trânsito e problemas sociais. A relação entre o poema contemporâneo e o poema retomado é melhor descrita como: a) uma cópia sem originalidade, que repete o poema antigo sem mudá-lo; b) uma releitura crítica, que dialoga com Canção do exílio, de Gonçalves Dias, questionando o ufanismo da primeira geração romântica; c) uma continuação do Arcadismo, que retoma o pastor e o campo idealizado; d) um exemplo de poesia condoreira, que luta contra a escravidão; e) uma negação completa da literatura brasileira, sem nenhuma relação com o poema antigo. Comentário: a alternativa correta é a letra B. O poema contemporâneo faz intertextualidade com Canção do exílio, de Gonçalves Dias, retomando as palmeiras e o sabiá, mas com ironia, para criticar o ufanismo ingênuo da primeira geração e mostrar um Brasil real, com problemas sociais. A alternativa A está errada porque a releitura transforma o sentido do texto original, e não o copia. A alternativa C está errada porque o diálogo é com o Romantismo, e não com o Arcadismo. A alternativa D está errada porque a terceira geração trata da abolição e da luta social, e não da releitura irônica do ufanismo. A alternativa E está errada porque a ironia só funciona justamente porque há uma relação forte com o poema antigo.
Dica do professor
A dica mais valiosa para a primeira geração romântica é: decore os dois poemas de Gonçalves Dias como se fossem dois cartões de memória. No primeiro cartão, escreva Canção do exílio: poeta exilado em Coimbra, saudade da pátria, palmeiras, sabiá, ufanismo, desejo de voltar e de morrer na terra natal. No segundo cartão, escreva I-Juca-Pirama: guerreiro tupi, prisioneiro dos timbiras, choro pelo pai velho e cego, libertação, retorno e morte heroica pela honra. Se você dominar esses dois cartões, vai resolver a maioria das questões sobre a primeira geração, porque quase todas as provas giram em torno deles. Depois, acrescente um terceiro cartão, com o marco inicial: Suspiros Poéticos e Saudades, Gonçalves de Magalhães, 1836, prefácio programático. Com três cartões, você cobre quase todo o conteúdo cobrado.
Outra dica importante é treinar a comparação entre as gerações. Faça uma tabela, à mão, com três colunas, uma para cada geração, e preencha com tema, herói, sentimento e autor principal. Releia essa tabela todos os dias, por uma semana, antes da prova, e você vai perceber que a classificação de poemas passa a ser quase automática. Por fim, leia Canção do exílio em voz alta, pelo menos uma vez. A musicalidade do poema ajuda a memorizar as suas imagens, e as imagens, palmeiras e sabiá, são os gatilhos que vão fazer você reconhecer o poema na prova, mesmo quando ele aparecer citado de forma indireta ou parodiado.
Atenção/cuidado
O erro mais comum sobre a primeira geração romântica é confundir as três gerações. Muitos estudantes, ao verem um poema romântico, marcam primeira geração só porque ele é antigo ou porque fala de natureza. Cuidado: a segunda geração também fala de natureza, mas de uma natureza noturna e fúnebre, ligada à morte. E a terceira geração também fala da natureza brasileira, mas como cenário da luta pela liberdade. O que define a primeira geração não é a natureza em si, mas a combinação de natureza com pátria, índio e orgulho nacional. Se o poema não tiver esse projeto nacionalista, desconfie da primeira geração.
Outro erro frequente é achar que o guerreiro de I-Juca-Pirama chorou por medo da morte. Ele chorou pelo pai velho e cego, e essa diferença é cobrada com frequência. Um terceiro erro é confundir Gonçalves de Magalhães com Gonçalves Dias: os dois têm Gonçalves no nome, mas Magalhães é o autor do marco inicial, de 1836, e Dias é o autor de Canção do exílio e de I-Juca-Pirama. Para não confundir, lembre-se: Magalhães marca o início, Dias marca a perfeição. Um quarto erro é achar que o índio romântico é o índio real: ele é um índio idealizado, um símbolo, e as questões do ENEM gostam de cobrar essa leitura crítica. Por fim, cuidado com a data de Canção do exílio: o poema foi escrito em 1843, em Coimbra, mas publicado em Primeiros Cantos em 1847. Se a questão perguntar a data de publicação, a resposta é 1847; se perguntar quando foi escrito, é 1843.
Conexão com outras áreas
A primeira geração romântica se conecta diretamente com a História, porque o seu contexto é a Independência do Brasil, em 1822, e a construção da identidade nacional no Primeiro Reinado e no início do Segundo Reinado. Entender a Independência, o nacionalismo e a formação do Estado brasileiro ajuda a entender por que os poetas buscaram símbolos nacionais na literatura. Sem a História, o indianismo parece apenas um gosto exótico pelo índio; com a História, ele se revela como um projeto político e cultural de um país novo.
Há também uma conexão forte com a Geografia, porque a natureza descrita pelos poetas, com florestas, rios, palmeiras e pássaros, é a natureza do território brasileiro, com os seus biomas, como a Mata Atlântica e a Amazônia. Estudar os biomas brasileiros ajuda a visualizar as imagens dos poemas e a entender por que a natureza era um argumento de grandeza nacional. Além disso, a poesia romântica se conecta com as Artes, porque o Romantismo foi também um movimento da pintura e da música, com a valorização da emoção, da natureza e do nacional, e com a Sociologia, porque a idealização do índio e o silêncio sobre o negro escravizado revelam muito sobre a sociedade brasileira do século XIX, com as suas hierarquias e as suas exclusões. Por fim, há uma conexão com a Língua Portuguesa, porque o vocabulário indígena incorporado à poesia romântica, com palavras de origem tupi, faz parte da formação do português brasileiro, que carrega até hoje centenas de palavras de origem indígena.
Incidência
Incidência: Morno. A primeira geração do Romantismo brasileiro tem incidência morna no ENEM e nos vestibulares: não aparece todos os anos, mas quando aparece, costuma valer uma ou duas questões, quase sempre sobre Canção do exílio, I-Juca-Pirama, o indianismo ou a comparação entre as três gerações do Romantismo. Por isso, vale a pena dominar os dois poemas de Gonçalves Dias e o marco inicial de Gonçalves de Magalhães, porque são os pontos que mais retornam nas provas. Para revisar o panorama completo das escolas literárias, volte à Literatura na sala de estudo e aos temas de ENEM e de vestibulares do cliquevestibular.



