Sala de estudos

Surgimento da Sociologia: o que cai no ENEM e nos vestibulares

A Sociologia nasceu no século XIX, na Europa, entre a Revolução Industrial e a Revolução Francesa: entenda por que surgiu, quem a fundou e o que Durkheim, Marx e Weber ensinaram, com questões no estilo ENEM.

Ilustração estilo Pixar de cidade industrial ao entardecer, com chaminés, operários saindo da fábrica e um pensador observando a multidão, simbolizando o nascimento da Sociologia.
Ilustração estilo Pixar de cidade industrial ao entardecer, com chaminés, operários saindo da fábrica e um pensador observando a multidão, simbolizando o nascimento da Sociologia.
Direto ao assunto
  1. Resumo rápido
  2. O contexto: um mundo virado do avesso
  3. Auguste Comte e a invenção da palavra “sociologia”
  4. Os clássicos: Durkheim, Marx e Weber
  5. Objeto, método e institucionalização
  6. Tabelas de revisão
  7. Mapa mental
  8. SAQ — Perguntas curtas com respostas
  9. Questões comentadas — estilo ENEM, originais
  10. Dica do professor
  11. Atenção / cuidado — erros comuns
  12. Conexão com outras áreas
  13. Incidência no ENEM e nos vestibulares

Resumo rápido

A Sociologia nasceu no século XIX, na Europa, para responder a uma pergunta nova: por que a vida em sociedade estava mudando tão depressa — e como entender essas mudanças com rigor, e não só com opinião? Seus fundadores observaram um mundo virado do avesso: fábricas substituindo o trabalho artesanal, milhões de pessoas migrando do campo para as cidades, monarquias caindo e novas ideias políticas disputando o futuro. A palavra “sociologia” foi criada por Auguste Comte, mas a disciplina só se consolidou como ciência com Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber, os chamados clássicos da Sociologia.

Se você gravar uma frase, grave esta: a Sociologia estuda a sociedade como algo que existe para além de cada indivíduo, mas que só existe por meio das relações entre as pessoas. Ela investiga padrões — por que certos comportamentos se repetem em grupos inteiros, por que desigualdades persistem, como instituições como a escola, a família e o Estado moldam a vida de todos. No ENEM e nos vestibulares, o surgimento da Sociologia aparece quase sempre ligado ao seu contexto histórico: Revolução Industrial, Revolução Francesa, urbanização, capitalismo e a busca por um método científico para estudar a sociedade.

O contexto: um mundo virado do avesso

Antes do século XIX, a vida da maioria das pessoas mudava pouco de uma geração para outra. Quem nascia camponês, em geral, morria camponês; quem nascia nobre, permanecia nobre. O trabalho era artesanal ou agrícola, a autoridade vinha da tradição e da religião, e as explicações para a ordem social recorriam a Deus, à natureza ou ao costume. Três grandes transformações quebraram essa estabilidade — e é por isso que os livros didáticos chamam esse período de “dupla revolução”, expressão do historiador Eric Hobsbawm.

A primeira foi a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra no fim do século XVIII. A máquina a vapor, o tear mecânico e depois a ferrovia multiplicaram a produção e criaram a fábrica moderna. O artesão, que dominava todo o processo de produção, virou operário: vendia sua força de trabalho, cumpria jornadas longas em condições precárias e recebia um salário. Cidades como Manchester e Londres cresceram de forma explosiva, sem moradia, saneamento ou escolas para tanta gente. Surgiram problemas inéditos: miséria urbana, jornadas de 14 horas, trabalho infantil, epidemias e greves.

A segunda foi a Revolução Francesa (1789) e as revoluções políticas que se seguiram. O lema “liberdade, igualdade, fraternidade” derrubou privilégios da nobreza e do clero e colocou no centro do debate uma ideia explosiva: a sociedade pode ser transformada pela ação humana, e não é uma ordem natural e imutável. Depois dela, pensar a sociedade deixou de ser apenas justificar a ordem existente — passou a ser também criticá-la e projetar outra. O Iluminismo, com sua confiança na razão e na ciência, forneceu as ferramentas intelectuais dessa virada.

A terceira transformação foi a urbanização e a formação da sociedade capitalista. O campo esvaziava-se, as cidades inchavam, e novas classes sociais se definiam: a burguesia, dona das fábricas e do comércio, e o proletariado, que vivia do salário. As relações pessoais e comunitárias do mundo rural, em que todos se conheciam, deram lugar a relações impessoais, mediadas pelo dinheiro e pelo contrato. O sociólogo alemão Ferdinand Tönnies chamou essa passagem de comunidade para sociedade — da convivência baseada em laços afetivos para a convivência baseada em interesses.

Foi nesse cenário que surgiu a necessidade de uma ciência nova. A Física explicava a natureza; a Biologia explicava os seres vivos; mas quem explicaria a fábrica, a cidade, a greve, o crime, a moda, a religião? Os primeiros sociólogos acreditavam que a sociedade também seguia regularidades que podiam ser observadas, comparadas e explicadas — como os fenômenos naturais, mas sem reduzir as pessoas a coisas.

Auguste Comte e a invenção da palavra “sociologia”

Auguste Comte (1798–1857), filósofo francês, cunhou o termo “sociologia” em 1839, no seu Curso de Filosofia Positiva. Antes, ele chamava o novo estudo de “física social”: a ideia era aplicar à sociedade o mesmo método das ciências naturais — observar fatos, buscar leis e prever fenômenos. Comte via a história humana passando por três estados: o teológico (explicações religiosas), o metafísico (explicações abstratas) e o positivo (explicações científicas). No estado positivo, a Sociologia seria a ciência que coroaria todas as outras, porque estudaria o fenômeno mais complexo: a vida social.

Comte, porém, não chegou a fazer pesquisas empíricas sistemáticas como as que hoje associamos à Sociologia. Seu papel foi sobretudo o de batizar e projetar a disciplina. Ele também defendia a ordem e o progresso — lema que, curiosamente, acabou na bandeira do Brasil, por influência de seguidores brasileiros do positivismo. O estudo detalhado de Comte é tema de outro artigo desta sala de estudo, e vale a pena lê-lo em conjunto com este: os dois juntos cobrem quase tudo o que o ENEM cobra sobre as origens da disciplina.

Os clássicos: Durkheim, Marx e Weber

Se Comte deu o nome, foram três pensadores do fim do século XIX e início do XX que deram à Sociologia seu objeto, seu método e seus primeiros grandes resultados. Por isso são chamados de clássicos — não porque concordassem entre si, mas porque fundaram tradições que seguimos debatendo até hoje.

Émile Durkheim (1858–1917) foi o primeiro a ocupar uma cátedra universitária de Sociologia e a definir seu objeto com precisão: o fato social. Para Durkheim, fatos sociais são maneiras de agir, pensar e sentir exteriores ao indivíduo e dotadas de poder de coerção — como as leis, a moral, a religião e a língua. Ninguém inventa sozinho a língua que fala, nem escapa impune de violar uma norma: a sociedade se impõe. Em O Suicídio (1897), ele mostrou que até um ato aparentemente individual varia de forma regular conforme a integração social — prova de que a sociedade tem vida própria. Para Durkheim, a Sociologia deveria tratar os fatos sociais como coisas: observá-los de fora, sem julgá-los moralmente.

Karl Marx (1818–1883) seguiu caminho oposto: em vez de buscar a coesão, investigou o conflito. Para Marx, a história das sociedades é a história da luta de classes — entre quem detém os meios de produção (fábricas, terras, máquinas) e quem só tem a força de trabalho para vender. O capitalismo, dizia ele, produz riqueza e miséria ao mesmo tempo, e a desigualdade não é acidente, mas resultado da própria organização econômica. Ao contrário de Durkheim, Marx não queria apenas explicar a sociedade: queria transformá-la. Sua obra influenciou movimentos operários, partidos e revoluções no mundo inteiro.

Max Weber (1864–1920) abriu uma terceira via. Para Weber, a Sociologia estuda a ação social — a conduta humana dotada de sentido, orientada para o comportamento de outros. Entender uma greve, um ritual religioso ou uma compra não é só contar quantas pessoas participam: é compreender o sentido que os participantes dão ao que fazem. Weber estudou a burocracia, o poder, a dominação e a relação entre religião e capitalismo (em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo). Seu método, a compreensão interpretativa, equilibra explicação e interpretação — e é por isso que ele é tão cobrado em questões que pedem a diferença entre os clássicos.

Objeto, método e institucionalização

Apesar das diferenças, os clássicos concordavam em um ponto decisivo: a sociedade pode ser estudada cientificamente. Isso significava romper com o senso comum — as explicações prontas do dia a dia, como “sempre foi assim” ou “é da natureza humana”. A Sociologia nasce como estranhamento e desnaturalização: estranhar o que parece normal e mostrar que aquilo que parece natural (a desigualdade entre homens e mulheres, por exemplo, ou a divisão entre ricos e pobres) é resultado de processos históricos e sociais, que podem mudar.

A institucionalização veio no fim do século XIX: Durkheim fundou a primeira revista de Sociologia (L’Année Sociologique, 1898) e ocupou a primeira cátedra da disciplina na Universidade de Bordeaux (1895). Aos poucos, a Sociologia entrou nas universidades da Europa e das Américas — no Brasil, chegou com força nas décadas de 1930 e 1940, com a fundação da USP e da Escola Livre de Sociologia e Política, e com pensadores como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Florestan Fernandes. Hoje, no Brasil, a Sociologia é disciplina obrigatória no ensino médio e área de pesquisa consolidada.

É importante não confundir: a Sociologia não é “opinião sobre a sociedade”, nem sinônimo de ativismo, nem uma lista de problemas sociais. Ela produz conhecimento com método — pesquisas de campo, estatísticas, entrevistas, comparação histórica — e suas conclusões podem até contrariar nossas convicções. É essa postura científica, nascida no século XIX, que o ENEM avalia quando pede que o estudante identifique o pensamento sociológico em um texto ou situação.

Tabelas de revisão

TransformaçãoO que mudouEfeito para a Sociologia
Revolução IndustrialFábrica, salário, jornada longaNovos problemas: classe operária, greve, miséria urbana
Revolução FrancesaFim de privilégios, ideia de transformaçãoSociedade passa a ser vista como construção humana
UrbanizaçãoÊxodo rural, cidades inchadasRelações impessoais, anonimato, novos conflitos
CapitalismoBurguesia e proletariadoDesigualdade e luta de classes como objeto de estudo
IluminismoConfiança na razão e na ciênciaModelo de método científico aplicado à sociedade
PensadorObjeto centralIdeia-chave
Auguste ComteA sociedade como ciência positivaOrdem e progresso; lei dos três estados
Émile DurkheimFato socialCoesão social; tratar fatos sociais como coisas
Karl MarxModo de produção e classesLuta de classes; transformação da sociedade
Max WeberAção socialSentido da ação; compreensão interpretativa
Ilustração estilo Pixar com três cenas lado a lado, fábrica com máquinas a vapor, barricada da Revolução Francesa e rua de cidade grande cheia de pessoas, simbolizando as revoluções que originaram a Sociologia.
Ilustração estilo Pixar com três cenas lado a lado, fábrica com máquinas a vapor, barricada da Revolução Francesa e rua de cidade grande cheia de pessoas, simbolizando as revoluções que originaram a Sociologia.
Ilustração estilo Pixar de um sociólogo observando uma praça cheia de pessoas com lupa e caderno de anotações, simbolizando a observação científica da sociedade.
Ilustração estilo Pixar de um sociólogo observando uma praça cheia de pessoas com lupa e caderno de anotações, simbolizando a observação científica da sociedade.

Mapa mental

Surgimento da Sociologia (século XIX, Europa) → Contexto: Revolução Industrial + Revolução Francesa + urbanização + capitalismo → Comte: cria o nome “sociologia” (1839), física social, positivismo → Durkheim: fato social, coesão, método científico → Marx: classes, conflito, transformação → Weber: ação social, sentido, compreensão → Institucionalização: cátedras, revistas, universidades → Conceitos de prova: estranhamento, desnaturalização, senso comum x conhecimento sociológico.

SAQ — Perguntas curtas com respostas

1. Quando e onde surgiu a Sociologia? No século XIX, na Europa, em meio às transformações da Revolução Industrial e da Revolução Francesa.

2. Quem criou o termo “sociologia”? Auguste Comte, em 1839, em seu Curso de Filosofia Positiva.

3. O que é a “dupla revolução”? A combinação da Revolução Industrial (econômica) com a Revolução Francesa (política), que juntas transformaram a sociedade europeia.

4. O que é fato social, para Durkheim? Uma maneira de agir, pensar e sentir exterior ao indivíduo e dotada de coerção, como as leis, a moral e a língua.

5. Qual a diferença central entre Durkheim e Marx? Durkheim foca a coesão e a ordem social; Marx foca o conflito e a luta de classes.

6. O que Weber entende por ação social? A conduta humana dotada de sentido e orientada para o comportamento de outras pessoas.

7. O que é desnaturalização? Mostrar que fenômenos que parecem naturais são, na verdade, construções sociais e históricas.

8. Por que a Sociologia rompe com o senso comum? Porque o senso comum oferece explicações prontas e sem método, enquanto a Sociologia investiga com observação, comparação e teoria.

Questões comentadas — estilo ENEM, originais

Questão 1. No século XIX, cidades industriais inglesas cresceram rapidamente, sem moradia e saneamento para todos os recém-chegados. Operários trabalhavam jornadas de 14 horas e organizavam as primeiras greves. Esse cenário contribuiu para o surgimento da Sociologia porque:

a) provou que a vida social segue leis divinas imutáveis. b) criou problemas sociais novos, que exigiam explicação científica. c) restaurou a ordem feudal nas cidades. d) eliminou os conflitos entre classes sociais. e) tornou desnecessário o estudo da sociedade.

Comentário: Alternativa B. A industrialização gerou fenômenos inéditos — urbanização acelerada, classe operária, greves, miséria urbana — que não podiam ser explicados pelas teorias antigas. A Sociologia surgiu justamente para estudar cientificamente essas novas realidades.

Questão 2. Um estudante afirma que “a desigualdade entre ricos e pobres sempre existiu e sempre existirá, pois faz parte da natureza humana”. Do ponto de vista sociológico, essa afirmação é um exemplo de:

a) fato social. b) desnaturalização. c) senso comum naturalizador. d) ação social racional. e) método positivista.

Comentário: Alternativa C. Tratar um fenômeno social e histórico como “natural” é a marca do senso comum que a Sociologia critica. Desnaturalizar é mostrar que a desigualdade resulta de relações sociais concretas, e não de uma essência imutável.

Questão 3. Durkheim, Marx e Weber são chamados de clássicos da Sociologia. O que justifica esse título, apesar de suas divergências?

a) Eles concordavam sobre a causa da desigualdade. b) Eles fundaram tradições teóricas e definiram objeto e método da disciplina. c) Eles escreveram juntos uma única teoria sociológica. d) Eles negavam a possibilidade de ciência social. e) Eles estudaram apenas a sociedade brasileira.

Comentário: Alternativa B. Os clássicos divergem — coesão, conflito e sentido da ação —, mas todos definiram o que a Sociologia estuda e como ela estuda, fundando tradições que estruturam a disciplina até hoje.

Questão 4. Comte chamou a nova ciência inicialmente de “física social”. Essa expressão revela qual ambição do positivismo?

a) Reduzir a sociedade a fenômenos físicos, sem método próprio. b) Aplicar à sociedade o método de observação e busca de leis das ciências naturais. c) Negar qualquer regularidade na vida social. d) Fundamentar a Sociologia apenas na teologia. e) Substituir a Física pela Sociologia.

Comentário: Alternativa B. O positivismo queria para a sociedade o mesmo rigor das ciências naturais: observar fatos, encontrar regularidades e formular leis, superando explicações teológicas e metafísicas.

Dica do professor

Em prova, quando o enunciado trouxer fábrica, cidade inchada, greve, êxodo rural ou queda de monarquia no século XIX, pense imediatamente em “contexto do surgimento da Sociologia”. E memorize o trio com uma palavra cada: Durkheim = coesão; Marx = conflito; Weber = sentido. Metade das questões sobre os clássicos se resolve com essa distinção.

Atenção / cuidado — erros comuns

Não diga que Comte “fundou a Sociologia sozinho”: ele criou o nome e o projeto, mas a disciplina se consolidou com Durkheim, Marx e Weber. Não confunda Sociologia com socialismo: Marx influenciou o socialismo, mas a Sociologia é uma ciência com várias tradições, incluindo as de Durkheim e Weber, que não eram marxistas. E não reduza o surgimento da disciplina a uma única causa: foram a industrialização, as revoluções políticas, a urbanização e o Iluminismo, juntos.

Conexão com outras áreas

O surgimento da Sociologia conecta-se com a História (Revolução Industrial e Francesa), com a Filosofia (Iluminismo e positivismo), com a Geografia (urbanização e industrialização) e com a Redação (desigualdade, trabalho e cidade são temas constantes). Em Economia, a formação do capitalismo é o pano de fundo comum.

Incidência no ENEM e nos vestibulares

O surgimento da Sociologia é incidência média (♨️ Morno) em Fundamentos da Sociologia, mas aparece com frequência como pano de fundo de questões sobre Durkheim, Marx e Weber: o enunciado descreve a fábrica ou a cidade do século XIX e pede a identificação do autor ou do conceito. Fuvest, Unicamp e UFRGS cobram o tema com regularidade, muitas vezes cruzando Sociologia e História. Dominar o contexto das revoluções e a distinção entre os clássicos resolve a maioria das questões.

Para aprofundar, veja também Karl Marx, Max Weber e Émile Durkheim, além das páginas de Sociologia e da sala de estudo do Clique Vestibular.