Sala de estudos

Trabalho

Na Física, trabalho não é qualquer esforço: trabalho é a energia transferida por uma força ao longo de um deslocamento. Se você empurra uma parede com toda a

Ilustração estilo Pixar de um estudante empurrando uma caixa pesada por uma rampa, com setas indicando a força e o deslocamento.
Ilustração estilo Pixar de um estudante empurrando uma caixa pesada por uma rampa, com setas indicando a força e o deslocamento.
Direto ao assunto
  1. Resumo rápido
  2. O que é trabalho, na Física
  3. Trabalho de uma força constante
  4. Trabalho de uma força variável e a leitura do gráfico força × deslocamento
  5. Trabalho da força peso
  6. Trabalho da força elástica
  7. Trabalho da força de atrito
  8. Teorema do trabalho e da energia cinética
  9. Potência associada ao trabalho
  10. Exemplos resolvidos passo a passo
  11. Mapa mental
  12. SAQ — Perguntas e respostas curtas
  13. Questões comentadas
  14. Dica do professor
  15. Atenção / cuidado
  16. Conexão com outras áreas

Resumo rápido

Na Física, trabalho não é qualquer esforço: trabalho é a energia transferida por uma força ao longo de um deslocamento. Se você empurra uma parede com toda a força e ela não se move, o trabalho é zero, por mais cansado que você fique. Carregar uma sacola em linha reta sobre um chão plano também não realiza trabalho sobre ela: a força para cima é perpendicular ao deslocamento. É um tema 🔥 Quente no ENEM e nos vestibulares, porque liga Física e Matemática em questões sobre energia, potência, rampas, freios, molas e máquinas simples.

A ideia central cabe em uma frase: só a componente da força na direção do deslocamento realiza trabalho. A fórmula principal é \( \tau = F \cdot d \cdot \cos\theta \), em que \( \tau \) é o trabalho, em joules (J), \( F \) é a força, em newtons (N), \( d \) é o deslocamento, em metros (m), e \( \theta \) é o ângulo entre a força e o deslocamento. Quando a força varia, o trabalho é a área sob o gráfico de força em função do deslocamento. E o teorema do trabalho e da energia cinética amarra tudo: o trabalho da força resultante é igual à variação da energia cinética, ou seja, \( \tau_R = \Delta E_c \). Se você dominar essas três ferramentas — a fórmula com o cosseno, a área do gráfico e o teorema —, resolve a imensa maioria das questões de trabalho das provas.

O que é trabalho, na Física

Na Física, a palavra trabalho tem um sentido restrito e preciso. Trabalho é a medida da energia que uma força transfere para um corpo, ou retira dele, enquanto esse corpo se desloca. Empurrar um carro que se move transfere energia para ele; freá-lo retira energia dele. O trabalho do motor é positivo e o do freio, negativo.

Três condições precisam acontecer ao mesmo tempo para existir trabalho de uma força. Primeiro, é preciso haver uma força aplicada. Segundo, é preciso haver deslocamento do ponto em que a força atua. Terceiro, a força precisa ter alguma componente na direção do deslocamento. Se qualquer uma falhar, o trabalho daquela força é zero: segurar uma sacola parada não realiza trabalho, porque o deslocamento é nulo, e a força normal não realiza trabalho em um deslocamento horizontal, porque é perpendicular a ele.

O trabalho é uma grandeza escalar, ou seja, é apenas um número, com sinal — não tem direção própria. O sinal, porém, carrega informação física importante. Trabalho positivo, também chamado de trabalho motor, significa que a força está ajudando o movimento e entregando energia cinética ao corpo. Trabalho negativo, também chamado de trabalho resistente, significa que a força está atrapalhando o movimento e retirando energia cinética do corpo. Trabalho nulo significa que a força não altera a energia cinética do corpo. A unidade de trabalho no Sistema Internacional é o joule, simbolizado por J: \( 1 \, \text{J} = 1 \, \text{N} \cdot \text{m} \).

Trabalho de uma força constante

Para uma força constante \( F \) que atua sobre um corpo que se desloca \( d \), formando um ângulo \( \theta \) com o deslocamento, o trabalho é dado por:

\[ \tau = F \cdot d \cdot \cos\theta \]

Vale entender cada parte dessa fórmula antes de sair aplicando. A força \( F \) deve estar em newtons, o deslocamento \( d \) em metros e o ângulo \( \theta \) é sempre o ângulo entre a direção da força e a direção do deslocamento, medido entre 0° e 180°. O cosseno é o responsável por selecionar apenas a componente da força que está na direção do deslocamento. Uma força inclinada pode ser decomposta em uma componente horizontal, \( F_x = F \cdot \cos\theta \), e uma componente vertical, \( F_y = F \cdot \text{sen}\theta \). Quando o deslocamento é horizontal, só a componente horizontal trabalha, e a fórmula pode ser lida como \( \tau = F_x \cdot d \).

Os valores do cosseno para os ângulos mais usados nas provas valem ser memorizados: \( \cos 0° = 1 \), \( \cos 30° \approx 0,87 \), \( \cos 37° \approx 0,8 \), \( \cos 45° \approx 0,71 \), \( \cos 60° = 0,5 \), \( \cos 90° = 0 \) e \( \cos 180° = -1 \). As provas usam muito 0°, 60° e 90°, e às vezes 37°, porque o triângulo 3, 4 e 5 dá cosseno 0,8 e seno 0,6. Confira se o ângulo dado é entre a força e o deslocamento, e não entre a força e a vertical: se a corda forma 30° com a vertical, o ângulo com o deslocamento horizontal é 60°, e o cosseno correto é 0,5.

Ângulo \( \theta \) entre força e deslocamento\( \cos\theta \)TrabalhoExemplo
0°1Positivo e máximo, motorEmpurrar uma caixa no sentido do movimento
30°0,87PositivoPuxar um carrinho com corda pouco inclinada
60°0,5Positivo, metade do máximoPuxar uma caixa com corda inclinada a 60°
90°0NuloForça normal em deslocamento horizontal; peso em deslocamento horizontal
180°−1Negativo e máximo em módulo, resistenteAtrito, que se opõe ao movimento

Atenção ao deslocamento \( d \): ele não é a distância total percorrida se o corpo voltar atrás. Se um corpo vai 10 m para a direita e volta 10 m para a esquerda, sob uma força constante para a direita, o trabalho na ida é positivo e na volta, negativo, e os dois se cancelam. Em problemas com ida e volta, calcule trecho por trecho.

Quando várias forças atuam ao mesmo tempo, cada uma realiza o seu próprio trabalho, e o trabalho da força resultante é a soma dos trabalhos de todas as forças. Em um bloco puxado sobre uma superfície com atrito, por exemplo, o trabalho da força aplicada é positivo, o trabalho do atrito é negativo, e os trabalhos do peso e da normal são nulos, porque são perpendiculares ao deslocamento horizontal. O trabalho resultante é, então, o trabalho da força aplicada mais o trabalho do atrito. Calcular cada trabalho e somar, ou achar a resultante primeiro, dá o mesmo resultado.

Trabalho de uma força variável e a leitura do gráfico força × deslocamento

Nem sempre a força é constante. A força de uma mola cresce à medida que ela é esticada, e a força aplicada por uma pessoa ao empurrar um objeto nem sempre é a mesma do início ao fim. Quando a força varia, a fórmula \( \tau = F \cdot d \cdot \cos\theta \) não pode ser aplicada diretamente com um único valor de força. A saída é o gráfico de força em função do deslocamento, o gráfico \( F \times d \): o trabalho é numericamente igual à área sob a curva desse gráfico, entre o deslocamento inicial e o final.

A regra da área vale para qualquer força, desde que se considere a componente na direção do deslocamento. Força constante dá uma reta horizontal e área retangular (\( d \times F \), a própria fórmula conhecida); força que cresce linearmente a partir do zero dá um triângulo (metade da base vezes a altura); força que cresce de um valor inicial até um final dá um trapézio (a média das forças vezes o deslocamento). Com vários trechos, some as áreas de cada um, com atenção ao sinal: área abaixo do eixo corresponde a trabalho negativo.

Para ler um gráfico \( F \times d \), siga uma ordem: identifique os eixos e as unidades (deslocamento, em metros, na horizontal; força, em newtons, na vertical), divida o gráfico em trechos simples (retângulos, triângulos e trapézios), calcule a área de cada trecho pelas marcas dos eixos, sem “chutar” valores, e some as áreas, respeitando o sinal de cada trecho. Erros comuns: esquecer de dividir o triângulo por dois, tratar um trapézio como retângulo com a força final e confundir o gráfico \( F \times d \) com o de velocidade em função do tempo, em que a área dá o deslocamento.

Veja um exemplo de leitura de gráfico com dois trechos. Uma força atua sobre um corpo do deslocamento 0 m até 10 m. De 0 m a 4 m, a força é constante e igual a 30 N. De 4 m a 10 m, a força diminui linearmente de 30 N até zero. O trabalho no primeiro trecho é a área do retângulo: \( \tau_1 = 30 \times 4 = 120 \, \text{J} \). O trabalho no segundo trecho é a área do triângulo: \( \tau_2 = \frac{30 \times 6}{2} = 90 \, \text{J} \). O trabalho total é \( \tau = 120 + 90 = 210 \, \text{J} \). Note que a base do triângulo é 6 m, e não 10 m: o segundo trecho vai de 4 m a 10 m. Errar a base do trecho é um deslize frequente.

Outro exemplo, agora com força crescente. Uma força varia linearmente de 20 N até 60 N enquanto o corpo se desloca 10 m. O gráfico forma um trapézio, e o trabalho é a área dele: \( \tau = \frac{20 + 60}{2} \times 10 = 40 \times 10 = 400 \, \text{J} \). Nesse caso de variação linear, a força média é a média aritmética entre a força inicial e a final — o mesmo raciocínio usado no trabalho da força elástica, adiante. E a área do gráfico dá o trabalho daquela força, não necessariamente o trabalho resultante: para ele, some também o trabalho das outras forças, como o atrito, ou use o teorema do trabalho e da energia cinética.

Trabalho da força peso

O peso é uma força constante, vertical e para baixo, de módulo \( P = m \cdot g \). Mas o trabalho do peso tem uma característica especial: ele depende apenas da variação da altura, e não do caminho percorrido. Um corpo que sobe 5 m por uma escada, por uma rampa ou na vertical tem o mesmo trabalho do peso, desde que a altura final seja a mesma. O peso só tem componente vertical, então trechos horizontais não contribuem.

Para um corpo de massa \( m \) que varia sua altura de \( h \), adotando \( g = 10 \, \text{m/s}^2 \), como é comum nas provas, o trabalho da força peso é:

\[ \tau_P = \pm m \cdot g \cdot h \]

O sinal é positivo quando o corpo desce, porque o peso tem o mesmo sentido do deslocamento vertical, e negativo quando o corpo sobe, porque o peso se opõe ao deslocamento. Um corpo de 2 kg que sobe 5 m tem trabalho do peso igual a \( \tau_P = -2 \times 10 \times 5 = -100 \, \text{J} \). Se ele desce os mesmos 5 m, o trabalho é \( \tau_P = +2 \times 10 \times 5 = +100 \, \text{J} \). Na horizontal, sem mudança de altura, o trabalho do peso é zero.

Essa independência do caminho liga o trabalho do peso à energia potencial gravitacional: quando o corpo sobe, o trabalho do peso é negativo e a energia potencial aumenta; quando desce, o trabalho é positivo e a energia potencial diminui. Em símbolos, \( \tau_P = -\Delta E_{pg} \), em que \( E_{pg} = m \cdot g \cdot h \). Ao soltar um objeto, o peso realiza trabalho positivo e a energia potencial se converte em energia cinética.

Nas provas, o trabalho do peso aparece em rampas, escadas, elevadores, saltos e quedas. Cuidado: em uma rampa, não use o comprimento da rampa como se fosse a altura. Se um bloco de 4 kg sobe uma rampa de 10 m de comprimento que eleva sua altura em 6 m, o trabalho do peso é \( \tau_P = -4 \times 10 \times 6 = -240 \, \text{J} \), e não \( -4 \times 10 \times 10 = -400 \, \text{J} \). A altura é a variação vertical, não o caminho inclinado. Se o problema der o ângulo da rampa, a altura pode ser achada por trigonometria: \( h = d \cdot \text{sen}\theta \), em que \( d \) é o comprimento da rampa. Para uma rampa de 10 m inclinada a 30°, por exemplo, \( h = 10 \times 0,5 = 5 \, \text{m} \).

Trabalho da força elástica

Uma mola obedece, dentro do seu limite de elasticidade, à lei de Hooke: a força elástica é proporcional à deformação, \( F_{el} = k \cdot x \), em que \( k \) é a constante elástica da mola, em newtons por metro (N/m), e \( x \) é a deformação, em metros, em relação ao comprimento natural da mola. Quanto maior a deformação, maior a força que a mola faz para voltar ao tamanho natural. Como essa força varia, o seu trabalho é a área do gráfico de força em função da deformação, que é um triângulo.

Quando a mola é deformada do comprimento natural até uma deformação \( x \), a força elástica cresce de zero até \( k \cdot x \), e o trabalho da força elástica nesse processo é negativo, porque a força elástica se opõe à deformação:

\[ \tau_{el} = -\frac{k \cdot x^2}{2} \]

O sinal negativo merece atenção. Ao esticar a mola, quem realiza trabalho positivo é a força externa que a puxa; a força elástica, que puxa de volta, realiza trabalho negativo. A energia entregue fica armazenada como energia potencial elástica, \( E_{pel} = \frac{k \cdot x^2}{2} \), e \( \tau_{el} = -\Delta E_{pel} \).

Quando a mola volta ao comprimento natural, a força elástica realiza trabalho positivo, devolvendo a energia armazenada, como em um estilingue e na suspensão de um carro. Se uma mola de constante elástica \( k = 200 \, \text{N/m} \) é esticada em \( x = 0,20 \, \text{m} \), o trabalho da força elástica durante o esticamento é \( \tau_{el} = -\frac{200 \times (0,20)^2}{2} = -\frac{200 \times 0,04}{2} = -4 \, \text{J} \). A força máxima, no fim do esticamento, é \( F = 200 \times 0,20 = 40 \, \text{N} \), e a área do triângulo do gráfico confirma o valor: \( \frac{40 \times 0,20}{2} = 4 \, \text{J} \), com sinal negativo pelo sentido da força.

Se a mola já está deformada e passa de uma deformação \( x_1 \) para outra \( x_2 \), o trabalho da força elástica é a diferença das energias potenciais: \( \tau_{el} = -\left( \frac{k \cdot x_2^2}{2} – \frac{k \cdot x_1^2}{2} \right) \). Por exemplo, uma mola de \( k = 100 \, \text{N/m} \) que passa de uma deformação de 0,10 m para 0,30 m tem trabalho da força elástica igual a \( \tau_{el} = -\left( \frac{100 \times 0,09}{2} – \frac{100 \times 0,01}{2} \right) = -(4,5 – 0,5) = -4 \, \text{J} \). Não basta usar a deformação final na fórmula simples: é preciso considerar a inicial também. Assim como o peso, a força elástica é conservativa: o seu trabalho depende apenas das deformações inicial e final.

Trabalho da força de atrito

A força de atrito sempre se opõe ao movimento, ou à tendência dele, e por isso o seu trabalho é sempre negativo ou nulo: ela retira energia cinética do corpo, transformando-a em energia térmica. O atrito aquece as pastilhas de freio de um carro, desgasta solas de sapato e faz um bloco lançado sobre uma mesa parar. Nas provas, ele aparece como a força que consome parte do trabalho das outras forças.

Para o atrito cinético, que age enquanto o corpo desliza, o módulo da força é \( F_{at} = \mu \cdot N \), em que \( \mu \) é o coeficiente de atrito cinético e \( N \) é a força normal. Como o atrito é oposto ao deslocamento, o ângulo é 180° e o trabalho é:

\[ \tau_{at} = -F_{at} \cdot d = -\mu \cdot N \cdot d \]

Na horizontal, \( N = m \cdot g \), e \( \tau_{at} = -\mu \cdot m \cdot g \cdot d \). Um bloco de 5 kg que desliza 8 m com \( \mu = 0,2 \) e \( g = 10 \, \text{m/s}^2 \) sofre \( \tau_{at} = -0,2 \times 5 \times 10 \times 8 = -80 \, \text{J} \). Esses 80 J se transformam em calor nas superfícies em contato.

Já o atrito estático, que impede o deslizamento sem que haja movimento, realiza trabalho nulo, porque o deslocamento é zero. É ele que permite caminhar, mas o trabalho sobre o ponto de contato é zero, porque esse ponto não desliza: quem dá energia cinética ao corpo é o trabalho das forças internas dos músculos.

O trabalho do atrito depende do caminho percorrido: quanto maior a distância deslizada, maior o seu módulo. Por isso, o atrito é uma força não conservativa, ou dissipativa: não existe “energia potencial de atrito”, e a energia retirada se dissipa como calor. Com atrito, a energia mecânica não se conserva, e a diferença entre a energia mecânica inicial e a final é o módulo do trabalho do atrito.

Uma aplicação clássica é a distância de frenagem. Como o trabalho do atrito é proporcional à distância e a energia cinética, ao quadrado da velocidade, dobrar a velocidade quadruplica a distância de frenagem. Um carro a 36 km/h (10 m/s) que para após 5 m de frenagem, a 72 km/h (20 m/s) precisa de 20 m para parar, nas mesmas condições de pista.

Teorema do trabalho e da energia cinética

A energia cinética de um corpo de massa \( m \) e velocidade \( v \) é a energia associada ao seu movimento, dada por:

\[ E_c = \frac{m \cdot v^2}{2} \]

A energia cinética depende do quadrado da velocidade: dobrar a velocidade quadruplica a energia cinética. A energia cinética nunca é negativa, mas a sua variação pode ser positiva, negativa ou nula.

O teorema do trabalho e da energia cinética afirma que o trabalho da força resultante sobre um corpo é igual à variação da sua energia cinética:

\[ \tau_R = \Delta E_c = E_{c,\text{final}} – E_{c,\text{inicial}} = \frac{m \cdot v_f^2}{2} – \frac{m \cdot v_i^2}{2} \]

Se o trabalho resultante é positivo, o corpo acelera; se é negativo, ele freia; se é nulo, a velocidade mantém o mesmo módulo, mesmo que a direção mude, como no movimento circular uniforme, em que a força resultante é perpendicular à velocidade. O teorema muitas vezes resolve um problema sem passar pela aceleração nem pelo tempo.

Veja como o teorema simplifica um problema típico. Um bloco de 8 kg, inicialmente em repouso, recebe um trabalho resultante de 400 J. Qual é a sua velocidade final? Pelo teorema, \( \Delta E_c = 400 \, \text{J} \) e, como partiu do repouso, \( E_{c,\text{final}} = 400 \, \text{J} \). Então \( \frac{8 \cdot v^2}{2} = 400 \), logo \( 4v^2 = 400 \), \( v^2 = 100 \) e \( v = 10 \, \text{m/s} \). Não foi preciso saber a força, o tempo nem a aceleração. No sentido inverso, um corpo de 2 kg que passa de 4 m/s para 10 m/s teve \( \Delta E_c = 100 – 16 = 84 \, \text{J} \), logo o trabalho resultante foi de 84 J.

SituaçãoTrabalho resultanteEnergia cinéticaVelocidade
Corpo aceleraPositivoAumentaAumenta em módulo
Corpo freiaNegativoDiminuiDiminui em módulo
Velocidade constante em móduloNuloNão mudaNão muda em módulo
Movimento circular uniformeNuloNão mudaMuda de direção, não de módulo
Corpo parte do repousoPositivoPassa de zero a um valor positivoPassa de zero a um valor positivo

Cuidado essencial: o teorema usa o trabalho da força resultante, não o de uma força qualquer. Usar o trabalho da força aplicada, esquecendo o atrito, dá uma velocidade maior do que a real. E se o problema pedir o trabalho de uma força específica, calcule \( F \cdot d \cdot \cos\theta \) para ela, sem usar o teorema. Não confunda trabalho com impulso: o impulso depende do tempo e muda a quantidade de movimento; o trabalho depende do deslocamento e muda a energia cinética.

Potência associada ao trabalho

Saber quanto trabalho foi realizado nem sempre basta: muitas vezes importa a rapidez com que esse trabalho foi realizado. É aí que entra a potência, que mede o trabalho realizado por unidade de tempo. A potência média é:

\[ P_m = \frac{\tau}{\Delta t} \]

A unidade de potência no Sistema Internacional é o watt, simbolizado por W: \( 1 \, \text{W} = 1 \, \text{J/s} \). Um motor que realiza 1.200 J de trabalho em 4 s tem potência média de \( P_m = \frac{1200}{4} = 300 \, \text{W} \). Outro motor que realiza o mesmo trabalho de 1.200 J em 2 s tem potência de 600 W: ele é duas vezes mais potente, porque faz o mesmo trabalho na metade do tempo.

Quando a força é constante e o corpo se move com velocidade constante, a potência instantânea pode ser calculada diretamente pela força e pela velocidade: \( P = F \cdot v \cdot \cos\theta \), em que \( \theta \) é o ângulo entre a força e a velocidade. Se a força tem o mesmo sentido da velocidade, \( P = F \cdot v \). Um carro que se move a 20 m/s sob a ação de uma força motora de 800 N desenvolve potência de \( P = 800 \times 20 = 16.000 \, \text{W} \), ou 16 kW.

Exemplo completo: um guindaste ergue 500 kg a 12 m em 20 s, com velocidade constante. Como o trabalho resultante é nulo, o trabalho do guindaste tem o mesmo módulo do trabalho do peso, com sinal trocado: \( \tau = 500 \times 10 \times 12 = 60.000 \, \text{J} \). A potência média é \( P_m = \frac{60.000}{20} = 3.000 \, \text{W} \), ou 3 kW. Trabalho mede “quanto”; potência mede “quão rápido”.

A potência também aparece no consumo de energia elétrica, tema frequente no ENEM. A energia consumida é o produto da potência pelo tempo de uso: \( E = P \cdot \Delta t \). Um chuveiro de 5.500 W ligado por 30 minutos (0,5 h) consome \( 5.500 \times 0,5 = 2.750 \, \text{Wh} \), ou 2,75 kWh. Potência é a rapidez, energia é o total — não confunda as duas. E lembre o rendimento: nenhuma máquina converte toda a energia recebida em trabalho útil, pois parte se perde como calor por causa do atrito. O rendimento é a razão entre a potência útil e a total; um motor que recebe 1.000 W e entrega 800 W tem rendimento de 80%.

Exemplos resolvidos passo a passo

Exemplo 1 — Força no mesmo sentido do deslocamento. Uma força de 50 N empurra uma caixa por 10 m, no mesmo sentido do deslocamento. Qual é o trabalho?
Passo 1: o ângulo entre força e deslocamento é \( \theta = 0° \), logo \( \cos\theta = 1 \).
Passo 2: \( \tau = 50 \times 10 \times 1 = 500 \, \text{J} \).
Resposta: 500 J, trabalho motor.

Exemplo 2 — Força inclinada. Uma força de 100 N puxa um bloco por 10 m, com a corda inclinada a 60° em relação ao deslocamento. Qual é o trabalho?
Passo 1: \( \cos 60° = 0,5 \).
Passo 2: a componente da força na direção do deslocamento é \( F_x = 100 \times 0,5 = 50 \, \text{N} \).
Passo 3: \( \tau = 100 \times 10 \times 0,5 = 500 \, \text{J} \).
Resposta: 500 J — o mesmo do exemplo anterior, apesar da força dobrada, porque só metade dela está na direção do deslocamento.

Exemplo 3 — Trabalho do peso na subida e na descida. Um corpo de 2 kg sobe 5 m e depois desce os mesmos 5 m, com \( g = 10 \, \text{m/s}^2 \). Quais são os trabalhos do peso em cada trecho?
Passo 1: na subida, o peso se opõe ao deslocamento, então o trabalho é negativo: \( \tau_P = -2 \times 10 \times 5 = -100 \, \text{J} \).
Passo 2: na descida, o peso tem o mesmo sentido do deslocamento, então o trabalho é positivo: \( \tau_P = +2 \times 10 \times 5 = +100 \, \text{J} \).
Passo 3: no total, \( -100 + 100 = 0 \, \text{J} \).
Resposta: −100 J na subida, +100 J na descida, 0 J no total.

Exemplo 4 — Trabalho da força elástica. Uma mola de constante elástica \( k = 200 \, \text{N/m} \) é esticada em 0,20 m a partir do comprimento natural. Qual é o trabalho da força elástica?
Passo 1: a força máxima no fim do esticamento é \( F = k \cdot x = 200 \times 0,20 = 40 \, \text{N} \).
Passo 2: como a força cresce linearmente de zero até 40 N, o trabalho é a área do triângulo, com sinal negativo, porque a força elástica se opõe à deformação: \( \tau_{el} = -\frac{40 \times 0,20}{2} = -4 \, \text{J} \).
Passo 3: pela fórmula: \( \tau_{el} = -\frac{200 \times (0,20)^2}{2} = -4 \, \text{J} \).
Resposta: −4 J. A energia potencial elástica armazenada na mola é de 4 J.

Exemplo 5 — Trabalho do atrito e distância até parar. Um bloco de 2 kg desliza sobre uma superfície horizontal com velocidade inicial de 10 m/s. A força de atrito cinético é de 10 N. Que distância ele percorre até parar?
Passo 1: a energia cinética inicial é \( E_{c,i} = \frac{2 \times 10^2}{2} = 100 \, \text{J} \).
Passo 2: ao parar, ela é zero, então \( \Delta E_c = -100 \, \text{J} \).
Passo 3: pelo teorema do trabalho, o trabalho resultante, que é o trabalho do atrito, é \( \tau_{at} = -100 \, \text{J} \).
Passo 4: como \( \tau_{at} = -F_{at} \cdot d \), tem-se \( -10 \cdot d = -100 \), logo \( d = 10 \, \text{m} \).
Resposta: 10 m.

Exemplo 6 — Leitura de gráfico com dois trechos. Uma força atua de 0 m a 10 m: de 0 m a 4 m ela é constante e igual a 30 N; de 4 m a 10 m ela diminui linearmente de 30 N até zero. Qual é o trabalho total?
Passo 1: primeiro trecho, área do retângulo: \( \tau_1 = 30 \times 4 = 120 \, \text{J} \).
Passo 2: segundo trecho, área do triângulo, com base \( 10 – 4 = 6 \, \text{m} \): \( \tau_2 = \frac{30 \times 6}{2} = 90 \, \text{J} \).
Passo 3: trabalho total: \( \tau = 120 + 90 = 210 \, \text{J} \).
Resposta: 210 J.

Diagrama de um bloco puxado por uma corda inclinada a 60 graus, com força de 100 newtons, deslocamento de 10 metros e trabalho de 500 joules.
Diagrama de um bloco puxado por uma corda inclinada a 60 graus, com força de 100 newtons, deslocamento de 10 metros e trabalho de 500 joules.
Gráfico de força em função do deslocamento, com força constante de 50 newtons ao longo de 10 metros e área destacada correspondente a 500 joules.
Gráfico de força em função do deslocamento, com força constante de 50 newtons ao longo de 10 metros e área destacada correspondente a 500 joules.

Mapa mental

  • Trabalho
    • Definição: energia transferida por uma força ao longo de um deslocamento
    • Fórmula: \( \tau = F \cdot d \cdot \cos\theta \), em joules (J)
    • Motor: positivo, \( \theta = 0° \) — a força ajuda o movimento
    • Resistente: negativo, \( \theta = 180° \) — a força atrapalha o movimento
    • Nulo: \( \theta = 90° \) ou deslocamento zero — a força não altera a energia cinética
    • Força constante: aplicar a fórmula com o cosseno do ângulo
    • Força variável: trabalho é a área do gráfico \( F \times d \) — retângulo, triângulo ou trapézio
    • Trabalho do peso: depende só da altura, \( \tau_P = \pm m \cdot g \cdot h \) — negativo na subida, positivo na descida
    • Trabalho da força elástica: \( \tau_{el} = -\frac{k \cdot x^2}{2} \) ao deformar a partir do comprimento natural
    • Trabalho do atrito: sempre negativo ou nulo, \( \tau_{at} = -\mu \cdot N \cdot d \) — dissipa energia como calor
    • Energia cinética: \( E_c = \frac{m \cdot v^2}{2} \)
    • Teorema do trabalho e da energia cinética: \( \tau_R = \Delta E_c \)
    • Potência média: \( P_m = \frac{\tau}{\Delta t} \), em watts (W); potência instantânea: \( P = F \cdot v \cdot \cos\theta \)

SAQ — Perguntas e respostas curtas

1. O que é trabalho, na Física?
É a energia transferida por uma força ao longo de um deslocamento, dada por \( \tau = F \cdot d \cdot \cos\theta \).

2. Qual é a unidade de trabalho no Sistema Internacional?
O joule (J), sendo \( 1 \, \text{J} = 1 \, \text{N} \cdot \text{m} \).

3. Quando o trabalho de uma força é nulo?
Quando a força é perpendicular ao deslocamento (\( \theta = 90° \)) ou quando não há deslocamento.

4. O que diz o teorema do trabalho e da energia cinética?
Que o trabalho da força resultante é igual à variação da energia cinética: \( \tau_R = \Delta E_c \).

5. Como se calcula o trabalho a partir de um gráfico de força em função do deslocamento?
Pela área sob o gráfico, entre o deslocamento inicial e o final, respeitando o sinal de cada trecho.

6. O trabalho do peso depende do caminho percorrido?
Não, depende apenas da variação da altura: \( \tau_P = \pm m \cdot g \cdot h \), negativo na subida e positivo na descida.

7. Por que o trabalho do atrito é sempre negativo ou nulo?
Porque o atrito sempre se opõe ao movimento, formando 180° com o deslocamento, e dissipa energia cinética como calor.

8. Qual é a diferença entre trabalho e potência?
Trabalho mede quanta energia foi transferida; potência mede a rapidez dessa transferência, \( P_m = \frac{\tau}{\Delta t} \), em watts.

Questões comentadas

As questões abaixo são inéditas, criadas para esta matéria no estilo do ENEM, com situações do cotidiano e leitura de gráficos. Para continuar praticando, veja também as provas e as dicas da sala de estudo.

Questão 1. Um entregador empurra um carrinho de 60 kg por 20 m em um corredor plano, aplicando uma força horizontal constante de 40 N, no mesmo sentido do deslocamento. Desprezando o atrito, o trabalho realizado pela força aplicada é de:
a) 40 J.
b) 80 J.
c) 400 J.
d) 800 J.
e) 1.200 J.
Gabarito: D. A força é horizontal e o deslocamento também, então \( \theta = 0° \) e \( \cos\theta = 1 \). Logo, \( \tau = 40 \times 20 \times 1 = 800 \, \text{J} \). Quem marcou 40 J confundiu força com trabalho.

Questão 2. Uma estudante puxa uma mala com uma corda que forma 60° com o chão, aplicando uma força de 80 N, e a mala se desloca 6 m na horizontal. O trabalho realizado pela força aplicada sobre a mala é de:
a) 120 J.
b) 240 J.
c) 480 J.
d) 960 J.
e) 0 J.
Gabarito: B. Como \( \cos 60° = 0,5 \), tem-se \( \tau = 80 \times 6 \times 0,5 = 240 \, \text{J} \). A componente vertical não trabalha. Quem marcou 480 J esqueceu o cosseno.

Questão 3. Um pedreiro eleva um balde de 5 kg do chão até uma altura de 4 m, com velocidade constante, em um local em que \( g = 10 \, \text{m/s}^2 \). O trabalho realizado pela força peso sobre o balde durante a subida é de:
a) +200 J.
b) −200 J.
c) +20 J.
d) −20 J.
e) 0 J.
Gabarito: B. Na subida, o peso se opõe ao deslocamento, então o trabalho é negativo: \( \tau_P = -5 \times 10 \times 4 = -200 \, \text{J} \). O trabalho da força do pedreiro, aqui, é +200 J; não confunda os dois.

Questão 4. O gráfico de força em função do deslocamento de um corpo mostra uma força constante de 40 N atuando do deslocamento 0 m até 8 m. O trabalho realizado por essa força, dado pela área do gráfico, é de:
a) 5 J.
b) 32 J.
c) 48 J.
d) 320 J.
e) 640 J.
Gabarito: D. A área do retângulo é base vezes altura: \( \tau = 40 \times 8 = 320 \, \text{J} \). Quem marcou 5 J dividiu em vez de multiplicar.

Questão 5. Uma mola de constante elástica \( k = 300 \, \text{N/m} \) é comprimida em 0,10 m a partir do seu comprimento natural. O trabalho realizado pela força elástica durante essa compressão é de:
a) −1,5 J.
b) +1,5 J.
c) −15 J.
d) +30 J.
e) 0 J.
Gabarito: A. O trabalho da força elástica ao deformar a mola a partir do comprimento natural é \( \tau_{el} = -\frac{k \cdot x^2}{2} = -\frac{300 \times (0,10)^2}{2} = -\frac{300 \times 0,01}{2} = -1,5 \, \text{J} \). O sinal é negativo porque a força elástica se opõe à compressão.

Questão 6. Um bloco de 4 kg, inicialmente em repouso sobre uma superfície sem atrito, recebe um trabalho resultante de 200 J. A velocidade final do bloco é de:
a) 5 m/s.
b) 10 m/s.
c) 20 m/s.
d) 25 m/s.
e) 50 m/s.
Gabarito: B. Pelo teorema do trabalho e da energia cinética, \( \Delta E_c = 200 \, \text{J} \) e, como o bloco partiu do repouso, \( \frac{4 \cdot v^2}{2} = 200 \), logo \( 2v^2 = 200 \), \( v^2 = 100 \) e \( v = 10 \, \text{m/s} \). Quem marcou 50 m/s não usou a energia cinética.

Dica do professor

Antes de calcular qualquer trabalho, faça três perguntas em voz alta: qual força estou analisando, qual é o deslocamento e qual é o ângulo entre eles? Se o ângulo for 90°, o trabalho já é zero, sem conta nenhuma. Se o problema der velocidades inicial e final, pense no teorema do trabalho e da energia cinética antes de procurar a aceleração: ele costuma encurtar a questão pela metade. E se o problema der um gráfico, identifique os eixos e divida-o em retângulos, triângulos e trapézios antes de calcular as áreas. Mais dicas de estudo como essa estão na sala de estudo, junto com as outras matérias de Física e de Matemática.

Atenção / cuidado

  • Não confunda esforço com trabalho: sem deslocamento, o trabalho é zero, mesmo que a pessoa fique cansada.
  • Não esqueça o cosseno do ângulo: só a componente da força na direção do deslocamento realiza trabalho, e a componente perpendicular não trabalha.
  • Confira se o ângulo dado é entre a força e o deslocamento, e não entre a força e a vertical ou outro referencial.
  • No trabalho do peso, use a variação da altura, e não o comprimento da rampa ou da escada.
  • No gráfico de força em função do deslocamento, divida o triângulo por dois, use a largura de cada trecho, e não a posição final, e respeite o sinal das áreas abaixo do eixo.
  • Na força elástica, o trabalho é negativo ao deformar a mola e positivo quando ela retorna; se a mola não parte do comprimento natural, use a diferença das energias potenciais.
  • O trabalho do atrito nunca é positivo: ele retira energia cinética e a dissipa como calor.
  • O teorema do trabalho usa o trabalho da força resultante, e não o trabalho de uma única força, salvo quando o problema pede exatamente aquele trabalho.

Conexão com outras áreas

Matemática: trigonometria para decompor forças e achar alturas em rampas, geometria para calcular áreas de retângulos, triângulos e trapézios nos gráficos, e funções para descrever como a força varia com o deslocamento. Biologia e Educação Física: o trabalho muscular, o gasto de energia ao correr, saltar e levantar pesos, e por que segurar um peso parado cansa sem realizar trabalho físico sobre ele. Engenharia e tecnologia: motores, guindastes, rampas de acessibilidade, freios, suspensões com molas e o rendimento das máquinas, que relaciona trabalho útil, trabalho total e perdas por atrito. Energia e meio ambiente: potência, consumo de energia elétrica, conta de luz e eficiência energética, que dependem diretamente da diferença entre trabalho, potência e tempo de uso. Esporte: arremessos, saltos e levantamento de peso. Para continuar, explore as matérias de Física, de Matemática e as dicas da sala de estudo.

Incidência: 🔥 Quente — cai no ENEM e nos vestibulares. Matéria: Física 1 | Disciplina: Energia e Trabalho | Tema: Trabalho.