“O Santo Inquérito“, peça teatral de Dias Gomes, transporta o público para o Brasil colonial do século XVIII, em um período sombrio marcado pela atuação do Tribunal do Santo Ofício, a Inquisição. A trama centraliza-se na figura de Branca Dias, uma jovem mulher acusada de heresia e judaísmo, que se vê enredada nas malhas da intolerância religiosa e do fanatismo que imperavam na época.
Branca, dotada de uma inteligência e curiosidade notáveis, é conhecida por seus questionamentos e por sua capacidade de cura através de ervas e saberes populares. Sua conduta, interpretada como bruxaria ou desvio da fé católica dominante, a coloca sob os holofotes da Inquisição. Os conflitos da obra emergem da colisão entre a razão e o pensamento crítico de Branca contra o dogmatismo e a irracionalidade da instituição inquisitorial.
O enredo se desenvolve a partir do processo inquisitorial de Branca, que é submetida a interrogatórios cruéis e pressões psicológicas para que se arrependa e confesse seus “crimes”. Sua fé genuína e sua postura inabalável diante das acusações a transformam em um símbolo de resistência individual frente à opressão sistemática. A peça explora as nuances do terror psicológico e da perseguição ideológica.
Os personagens, em especial Branca, o Padre Bernardo e o Inquisidor, representam forças antagônicas: a liberdade de pensamento versus a ortodoxia religiosa, a compaixão versus a crueldade institucionalizada. A obra de Dias Gomes não apenas recria um período histórico, mas também serve como uma alegoria potente sobre a perseguição a minorias e a manipulação do poder para silenciar vozes dissidentes, tornando-a atemporal em sua crítica social.
A intolerância religiosa e o conflito entre a razão e a fé cega em um contexto de repressão.
Alfredo de Freitas Dias Gomes (1922-1999) foi um dos mais influentes dramaturgos e novelistas brasileiros. Nascido em Salvador, Bahia, Dias Gomes destacou-se por sua capacidade de aliar o entretenimento à crítica social e política, tornando-se uma voz fundamental no teatro engajado do Brasil. Sua obra mais conhecida no teatro é “O Pagador de Promessas” (1960), que foi adaptada para o cinema e ganhou a Palma de Ouro em Cannes. Autor de diversas novelas de grande sucesso na televisão brasileira, como “Roque Santeiro” e “Bem Amado”, Dias Gomes frequentemente abordava temas como a liberdade, a justiça social, o poder e a religião, utilizando um estilo que mesclava o realismo com elementos fantásticos e simbólicos. Sua contribuição para a dramaturgia brasileira é inestimável, marcando gerações com suas narrativas profundas e pertinentes.
“O Santo Inquérito” é uma peça teatral escrita por Dias Gomes em 1966, considerada um marco do teatro brasileiro moderno. Ambientada no Brasil colonial do século XVIII, a obra mergulha nos horrores da Inquisição, utilizando a história fictícia de Branca Dias para tecer uma densa trama sobre fanatismo religioso, intolerância e a luta do indivíduo contra a opressão de instituições poderosas. Embora retrate um passado distante, a peça ressoa fortemente com os problemas de seu tempo – a Ditadura Militar no Brasil – e com questões universais sobre liberdade de pensamento e os perigos do autoritarismo. A peça é uma profunda reflexão sobre como o poder pode distorcer a fé e a moral, levando à perseguição e à injustiça em nome de uma suposta verdade.
| Tempo | Século XVIII (Brasil colonial). |
| Espaço | Bahia, especificamente em um ambiente que remete ao Tribunal do Santo Ofício em Salvador. |
| Narrador | Não há um narrador tradicional, pois é uma peça teatral. A história se desenvolve através dos diálogos, monólogos e ações dos personagens. |
| Linguagem | Formal, dramática e por vezes poética, carregada de simbolismo e reflexões filosóficas. Reflete a grandiosidade e a seriedade dos temas abordados. |
Dias Gomes emprega em “O Santo Inquérito” um estilo que mescla o realismo crítico com elementos do teatro épico, influenciado por Bertolt Brecht. Essa abordagem permite ao autor não apenas encenar a história, mas também provocar a reflexão crítica do espectador, evitando uma mera identificação emocional e estimulando a análise racional dos eventos. Os diálogos são densos, repletos de simbolismo e carregados de tensão filosófica, explorando a fundo as complexidades da fé, da razão e do poder.
A peça é estruturada como uma tragédia moderna, onde a protagonista, Branca Dias, representa o indivíduo íntegro que se choca com uma força social avassaladora. O autor utiliza a alegoria para que a crítica à Inquisição no passado sirva como um espelho para as repressões e censuras do presente (especificamente a Ditadura Militar brasileira). A dramaticidade é construída através da dialética entre os personagens, das discussões sobre dogmas religiosos e da representação da crueldade e arbitrariedade do sistema inquisitorial. A escolha do cenário histórico oferece um distanciamento que paradoxalmente intensifica a universalidade da mensagem.
“O Santo Inquérito” é ambientado no Brasil colonial, durante o período de atuação do Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), que se estendeu por séculos, perseguindo e punindo aqueles considerados hereges, judeus convertidos (cristãos-novos) ou praticantes de bruxaria. Este tribunal representava o braço punitivo da Igreja Católica, atuando com grande poder e arbítrio sobre a vida das pessoas, impondo medo e conformidade.
A obra de Dias Gomes, contudo, transcende a mera reconstituição histórica. Ela funciona como uma poderosa crítica social e política, disfarçada sob o véu do passado colonial. Escrita e encenada no contexto da Ditadura Militar brasileira (a partir de 1964), a peça é uma alegoria contundente sobre a repressão de regimes autoritários, a intolerância ideológica e religiosa, a perseguição à liberdade de pensamento e a manipulação do poder para silenciar vozes dissidentes. A Inquisição, nesse sentido, torna-se um símbolo universal de qualquer sistema que cerceia a autonomia individual e impõe uma única “verdade” por meio da força e do terror, ecoando as censuras e perseguições políticas vividas no Brasil da época.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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