
Direto ao assunto
- Resumo rápido
- O que são coesão, coerência e concisão?
- Coesão: as costuras do texto
- Coerência: o sentido do texto
- Concisão: dizer mais com menos palavras
- Coesão, coerência e concisão na redação do ENEM
- Mapa mental
- SAQ — Perguntas de autoavaliação
- Questões comentadas
- Dica do professor
- Atenção / cuidado
- Conexão com outras áreas
- Incidência
Coesão, coerência e concisão
Resumo rápido
Coesão, coerência e concisão são as três qualidades que fazem um texto funcionar de verdade. A coesão é a ligação visível entre as partes do texto: pronomes, sinônimos e conectivos que amarram uma frase à outra, como os elos de uma corrente. A coerência é o sentido do conjunto: as ideias precisam se completar, progredir e não se contradizer, de modo que o leitor entenda o que você quis dizer. A concisão é a economia de palavras: dizer o necessário, sem enrolação, sem repetição e sem rodeios. Um texto pode ser coeso sem ser coerente — frases bem ligadas, mas sem sentido — e pode ser coerente na ideia, mas tão enrolado que ninguém consegue acompanhar. Por isso o ENEM e os vestibulares cobram esse trio o tempo todo, tanto nas questões de Língua Portuguesa quanto na redação. Este é um tema 🔥 Quente: aparece em praticamente toda prova, seja para identificar o conectivo adequado, seja para perceber por que um parágrafo não faz sentido, seja para avaliar a clareza de um texto.
Em resumo: coesão é a costura, coerência é o sentido e concisão é o corte do excesso. Se você aprender a reconhecer os mecanismos de coesão, a testar a lógica das suas ideias e a podar palavras desnecessárias, sua escrita melhora em qualquer gênero — da redação dissertativa ao resumo, do e-mail à resposta discursiva. E o melhor: são habilidades que se treinam com revisão, não com decoreba. Ao longo desta matéria, você vai ver definições claras, tabelas de conectivos, exemplos de antes e depois, erros clássicos e questões comentadas no estilo do ENEM para fixar tudo.
O que são coesão, coerência e concisão?
Imagine um texto como uma casa. A coesão são as dobradiças, os pregos e as junções que prendem portas, janelas e paredes umas às outras: sem ela, tudo desmonta. A coerência é o projeto da casa: cada cômodo tem uma função, os corredores levam a algum lugar e nada fica no meio do caminho sem explicação. A concisão é a limpeza da obra: tirar o entulho, os móveis duplicados e tudo o que ocupa espaço sem servir para nada. Um texto bom precisa das três coisas ao mesmo tempo.
A coesão trabalha na superfície do texto, com recursos gramaticais que você consegue apontar com o dedo: um pronome que retoma um nome, um sinônimo que evita a repetição, um conectivo como “portanto” ou “porém” que mostra a relação entre duas ideias. A coerência trabalha no sentido: ela depende do conhecimento de mundo do leitor, da lógica interna do texto e da relação entre o que é dito e o tema proposto. Já a concisão trabalha na medida: nem palavra faltando, nem palavra sobrando. Um texto prolixo cansa; um texto seco demais pode ficar obscuro. O equilíbrio é a meta.
Vale um alerta importante: coesão e coerência não são a mesma coisa, e as provas adoram testar exatamente essa diferença. Veja um exemplo clássico: “O cachorro latiu a noite toda. Ele estava com fome. Por isso, o carteiro fugiu correndo.” As frases estão ligadas — “ele” retoma “o cachorro”, “por isso” marca uma consequência —, mas o sentido falha: por que o carteiro fugiria porque o cachorro estava com fome? Falta uma informação, uma ponte lógica. O texto é coeso, mas incoerente. O contrário também acontece: “A leitura amplia o vocabulário. Ler ajuda a escrever melhor. Quem lê conhece mais mundos.” As frases não têm conectivos nem retomadas explícitas, mas o leitor entende a progressão perfeitamente. O texto é coerente, mesmo com coesão fraca. O ideal, claro, é unir as duas qualidades.
Na prática da redação, esse trio aparece nas competências avaliadas pelo ENEM: a Competência 3 avalia a seleção e a organização das informações e dos argumentos, ou seja, a coerência; a Competência 4 avalia os mecanismos linguísticos que ligam o texto, ou seja, a coesão. A concisão, por sua vez, não tem uma competência só para ela, mas atravessa toda a correção: um texto enrolado perde força argumentativa, repete ideias e corre o risco de fugir do tema ou estourar o limite de linhas. Dominar o trio, portanto, é ganhar pontos em várias frentes ao mesmo tempo.
Coesão: as costuras do texto
A coesão é o conjunto de recursos que ligam palavras, frases, parágrafos e partes inteiras do texto. Os estudiosos costumam dividir a coesão em três grandes tipos: referencial, lexical e por conectivos (também chamada de sequencial). Conhecer essa divisão ajuda tanto a escrever quanto a resolver questões, porque as provas costumam perguntar qual mecanismo foi usado em determinado trecho.
Coesão referencial: apontar para algo já dito (ou que ainda virá)
A coesão referencial acontece quando uma palavra remete a outra, evitando repetições. O caso mais comum é o pronome: “Maria chegou atrasada porque ela perdeu o ônibus.” O pronome “ela” retoma “Maria”. Isso se chama anáfora — retomar algo que já apareceu. Quando a referência aponta para algo que ainda vai aparecer, temos a catáfora: “Quero só isto: que você estude todos os dias.” O pronome “isto” antecipa a oração seguinte. Outros recursos referenciais incluem os pronomes demonstrativos (“esse”, “isso”, “aquilo”), os possessivos (“seu”, “sua”), os advérbios de lugar (“aqui”, “lá”) e até a elipse, que é a omissão de um termo facilmente recuperável: “João gosta de matemática; Pedro, de história.” O verbo “gosta” foi omitido na segunda parte, mas o sentido continua claro.
Cuidado com a ambiguidade, o erro mais comum da coesão referencial. Em “Pedro disse a João que ele passou na prova”, quem passou? Pedro ou João? O pronome “ele” pode se referir aos dois, e o leitor fica sem saber. Na dúvida, repita o nome ou reformule a frase: “Pedro disse a João: ‘Você passou na prova’.” Clareza sempre vence a elegância. Esse tipo de armadilha aparece com frequência nas questões de Língua Portuguesa, que pedem para identificar a que termo um pronome se refere — e, às vezes, para perceber que a referência é ambígua.
Coesão lexical: o vocabulário que amarra o texto
A coesão lexical usa o próprio vocabulário para criar laços. Os recursos principais são a repetição (usada com moderação, para ênfase ou para manter o tema em foco), a sinonímia (trocar uma palavra por outra de sentido próximo: “carro”, “veículo”, “automóvel”), a hiperonímia (usar um termo mais geral: “cachorro” e depois “animal”) e a hiponímia (o caminho inverso: “fruta” e depois “maçã”). Há ainda os campos semânticos: palavras de uma mesma área de sentido — “escola”, “professor”, “prova”, “aprendizado” — que dão unidade ao texto mesmo sem repetir nada. Um texto sobre educação que só repete a palavra “educação” em todas as frases fica pesado; variar com “ensino”, “aprendizagem”, “formação” e “escola” mantém o tema e deixa a leitura mais agradável.
Coesão por conectivos: mostrar a relação entre as ideias
Os conectivos — conjunções, advérbios e expressões de ligação — são os sinalizadores do texto. Eles dizem ao leitor qual é a relação entre duas ideias: soma, oposição, causa, consequência, conclusão, comparação, tempo, finalidade. Sem eles, o leitor precisa adivinhar a relação; com eles, o caminho fica sinalizado. Compare: “Estudou muito. Passou no vestibular.” e “Estudou muito e, por isso, passou no vestibular.” A segunda versão deixa explícita a relação de consequência, e o texto ganha fluidez. A tabela abaixo reúne os conectivos mais cobrados, organizados pela relação que expressam.
| Relação | Conectivos mais usados | Exemplo |
|---|---|---|
| Adição | e, também, além disso, ainda, ademais | Estuda de manhã e trabalha à tarde. |
| Oposição / contraste | mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto | Estudou muito, mas não passou. |
| Causa | porque, pois, já que, visto que, uma vez que | Faltou porque estava doente. |
| Consequência | portanto, logo, assim, por isso, de modo que | Choveu muito, por isso a rua alagou. |
| Conclusão | portanto, enfim, em suma, desse modo, assim | Em suma, ler transforma o leitor. |
| Condição | se, caso, desde que, contanto que | Se estudar, passará na prova. |
| Finalidade | para que, a fim de que, com o objetivo de | Estuda para que passe no exame. |
| Comparação | como, tal qual, assim como, mais que, menos que | Lê tanto quanto escreve. |
| Tempo | quando, enquanto, antes que, depois que, logo que | Quando chegou, a aula já tinha começado. |
| Explicação / esclarecimento | isto é, ou seja, por exemplo, a saber | Precisa de dois materiais, ou seja, lápis e papel. |
Dois cuidados valem ouro aqui. Primeiro: não confunda “mas” com “mais”, nem “porque” com “por que”, “porquê” ou “por quê” — erros de grafia em conectivos custam pontos preciosos na redação. Segundo: evite o “e” em excesso e o “que” repetido. Frases longas ligadas só por “e” e “que” viram um novelo: “O aluno que estudou que passou que comemorou…” Prefira dividir as frases e variar os conectivos. Uma boa revisão consiste justamente em circular todos os “e” e “que” do texto e verificar se algum pode ser substituído ou eliminado.
Antes e depois — coesão na prática. Texto antes: “A leitura é importante. A leitura ajuda no vocabulário. A leitura ajuda na escrita. A leitura é um hábito. O hábito deve ser incentivado.” Texto depois: “A leitura é importante porque amplia o vocabulário e melhora a escrita. Esse hábito, portanto, deve ser incentivado desde cedo.” Repare o que mudou: os pronomes e demonstrativos retomaram o tema sem repetir a palavra “leitura” cinco vezes, e os conectivos “porque” e “portanto” explicitaram as relações de causa e conclusão. O conteúdo é o mesmo; a costura é outra — e o texto ficou mais curto, mais claro e mais elegante ao mesmo tempo.
Coerência: o sentido do texto
Se a coesão é a costura, a coerência é o sentido. Um texto coerente é aquele em que as ideias se encaixam logicamente, progridem sem saltos bruscos e respeitam o tema proposto. A coerência não depende apenas de palavras de ligação: ela depende da organização das ideias, do conhecimento de mundo compartilhado entre autor e leitor e da ausência de contradições. Por isso, um texto pode ter todos os conectivos no lugar e ainda assim ser incoerente — basta que as ideias não conversem entre si.
Os três pilares da coerência
1. Progressão temática. O texto precisa avançar: cada parágrafo deve acrescentar algo novo, sem ficar girando em torno da mesma ideia. Na redação dissertativa, a progressão clássica é: introdução (apresenta o tema e a tese), desenvolvimento (argumentos que sustentam a tese, um por parágrafo) e conclusão (retoma a tese e propõe uma solução). Quando o desenvolvimento apenas repete a introdução com outras palavras, o texto empaca — o corretor percebe na hora. Uma dica prática: depois de escrever cada parágrafo, pergunte-se “o que de novo este parágrafo trouxe?”. Se a resposta for “nada”, reescreva ou corte.
2. Não contradição. O texto não pode afirmar uma coisa e, páginas depois, afirmar o contrário sem explicar a mudança. Exemplo de contradição: “As redes sociais aproximam as pessoas. Por isso, ninguém mais se sente sozinho por causa das redes sociais.” A segunda frase contradiz o que a primeira sugeriu, sem qualquer justificativa. Contradições também aparecem de forma sutil, quando um argumento enfraquece a própria tese: defender que “a tecnologia na escola é sempre positiva” e depois citar um estudo mostrando que o uso excessivo de telas prejudica a concentração, sem rebater esse dado, deixa o texto incoerente. Se um dado contraria sua tese, enfrente-o: reconheça, relativize ou refute — nunca ignore.
3. Relação com o tema e com a situação. Um texto coerente respeita o tema proposto e o gênero pedido. Fugir do tema é o erro mais grave na redação do ENEM: zera a Competência 2. Mas há fugas sutis, que merecem atenção: escrever sobre “combate ao bullying” quando o tema é “os desafios da educação inclusiva”, por exemplo, é tangenciar o tema — falar de algo próximo, mas não do que foi pedido. Outro aspecto é a adequação: um texto formal não combina com gírias, e uma carta pessoal não combina com linguagem de artigo científico. A coerência inclui essa adequação ao leitor, ao objetivo e ao contexto.
Além desses pilares, vale conhecer os tipos de coerência que as questões costumam mencionar. A coerência semântica diz respeito ao sentido das palavras e das frases entre si; a coerência sintática envolve a estrutura das frases (concordância, regência, ordem dos termos); a coerência pragmática refere-se à adequação do texto à situação de comunicação; e a coerência estilística trata da unidade de registro — não misturar linguagem formal e informal sem motivo. Não é preciso decorar esses nomes para escrever bem, mas eles ajudam a entender o que a questão está pedindo quando ela fala em “quebra de coerência”.
| Situação | Coeso? | Coerente? | Diagnóstico |
|---|---|---|---|
| Frases ligadas por conectivos, ideias que se completam | Sim | Sim | Texto ideal: costura e sentido juntos. |
| Frases ligadas, mas ideia sem lógica (“O cachorro estava com fome. Por isso, o carteiro fugiu.”) | Sim | Não | Costura sem sentido: falta a ponte lógica. |
| Ideias claras e progressivas, sem conectivos explícitos | Fraca | Sim | Texto compreensível, mas pode ganhar fluidez com conectivos. |
| Frases soltas, ideias contraditórias, fora do tema | Não | Não | Texto desorganizado: precisa reestruturar as ideias. |
Como testar a coerência do seu próprio texto? Três truques funcionam muito bem. Primeiro, leia em voz alta: o ouvido percebe saltos de sentido que o olho deixa passar. Segundo, resuma cada parágrafo em uma frase e veja se as frases, juntas, formam um raciocínio completo — se alguma frase não se encaixa, o parágrafo correspondente provavelmente está fora do lugar. Terceiro, procure os “porquês”: para cada afirmação importante, pergunte “por quê?” e “e daí?”. Se você não consegue responder com o próprio texto, falta argumentação. Esses truques valem para a redação, para respostas discursivas e para qualquer texto que precise convencer alguém.
Concisão: dizer mais com menos palavras
A concisão é a arte de dizer exatamente o necessário — nem uma palavra a mais, nem uma a menos. Ela não significa escrever pouco: um texto longo pode ser conciso, desde que cada palavra tenha função; e um texto curto pode ser prolixo, se repetir a mesma ideia três vezes. A concisão é, na verdade, uma questão de respeito ao leitor: cada palavra desnecessária é um pequeno obstáculo entre ele e a sua ideia. Nos vestibulares e no ENEM, a concisão ajuda de dois jeitos: o texto fica mais persuasivo, porque o argumento aparece limpo, sem gordura; e o candidato ganha tempo e linhas, porque não desperdiça espaço com rodeios.
Os inimigos da concisão
Redundância. Dizer duas vezes a mesma coisa com palavras diferentes: “subir para cima”, “entrar para dentro”, “repetir de novo”, “elo de ligação”, “surpresa inesperada”, “planejamento prévio”. Em todos esses casos, uma das palavras já contém o sentido da outra. Corte sem dó: “subir”, “entrar”, “repetir”, “elo”, “surpresa”, “planejamento”. Atenção especial a expressões que parecem elegantes, mas são redundantes: “em minha opinião pessoal” (opinião já é pessoal), “a meu ver, eu acho” (dupla marcação de opinião) e “criar novos projetos” (projetos são, por definição, novos — a menos que se trate de recriar algo).
Prolixidade. Dar voltas para dizer algo simples: “Neste presente momento em que vivemos, nos dias atuais da sociedade contemporânea, é de fundamental importância que se faça uma reflexão acerca da questão…” poderia ser simplesmente: “Hoje, é fundamental refletir sobre a questão…” A prolixidade costuma vir disfarçada de formalidade: o autor acha que quanto mais palavras, mais sério o texto parece. É o contrário: textos maduros são diretos. Cuidado também com os “enchimentos” clássicos de redação: “é importante ressaltar que”, “vale salientar que”, “não se pode negar que” — usados uma vez, passam; usados em todos os parágrafos, viram muleta.
Palavras vazias e clichês. Expressões gastas que não acrescentam informação: “cada vez mais”, “nos dias de hoje”, “de forma geral”, “em um mundo globalizado”. Elas ocupam espaço e não dizem nada que o leitor já não saiba. O mesmo vale para o excesso de advérbios em “-mente” (“extremamente”, “fundamentalmente”, “basicamente”) e para substantivos abstratos empilhados (“a efetivação da implementação da promoção da conscientização…”). Prefira verbos fortes e concretos: em vez de “fazer a realização de uma campanha”, escreva “realizar uma campanha” — ou melhor, “lançar uma campanha”.
Antes e depois — concisão na prática. Texto antes: “É de extrema importância e de fundamental relevância que se diga que, nos dias de hoje, em um mundo cada vez mais globalizado, a leitura, que é um hábito muito importante, precisa ser incentivada de forma bastante efetiva pelas escolas, que devem, de fato, promover de maneira concreta essa prática tão essencial.” (62 palavras, muita gordura, pouca informação.) Texto depois: “Hoje, as escolas devem incentivar a leitura, hábito essencial em um mundo globalizado.” (15 palavras, mesma ideia central, muito mais força.) Repare: nada de essencial foi perdido; o que saiu era repetição, muleta e obviedade. Esse é o teste da concisão: depois do corte, a ideia continua completa? Se sim, o corte estava certo.
Mas atenção: concisão não é pressa. Cortar palavras que fazem falta — um conectivo necessário, uma explicação essencial, um dado que sustenta o argumento — prejudica a clareza. O equilíbrio se encontra na revisão: escreva primeiro com liberdade, depois revise com tesoura. Uma técnica útil é a regra dos 20%: na revisão, tente cortar cerca de 20% das palavras do rascunho sem perder nenhuma ideia. Se conseguir, o texto era prolixo; se não conseguir sem estragar o sentido, o texto já estava enxuto. Outra técnica é trocar locuções por palavras únicas: “a fim de” por “para”, “no que diz respeito a” por “sobre”, “por meio de” por “com”, “tendo em vista que” por “pois”. Pequenas trocas, grande economia.
Coesão, coerência e concisão na redação do ENEM
Na redação do ENEM, o trio aparece de forma direta nas competências 3 e 4, mas influencia todas as outras. A Competência 3 avalia se você seleciona, relaciona e organiza informações e argumentos de forma coerente em defesa do seu ponto de vista. Um texto que apenas lista informações soltas, sem hierarquia, ou que apresenta argumentos que não sustentam a tese, perde pontos aqui — mesmo que a gramática esteja perfeita. A Competência 4 avalia o uso de mecanismos linguísticos de coesão: conectivos, pronomes, sinônimos, advérbios e expressões que articulam o texto. Para tirar nota máxima, não basta usar conectivos: é preciso diversificá-los e usá-los com precisão. Um texto que só usa “e”, “mas” e “porque” mostra repertório limitado; um texto que alterna “além disso”, “contudo”, “portanto”, “por conseguinte” e “em contrapartida” mostra domínio — desde que cada conectivo esteja no lugar certo. Conectivo errado é pior que conectivo ausente: “portanto” usado para introduzir uma oposição confunde o leitor e derruba a nota.
Um roteiro prático para aplicar o trio na redação: na introdução, apresente o tema e a tese com frases curtas e diretas, sem rodeios; no desenvolvimento, abra cada parágrafo com um conectivo ou uma expressão que anuncie a função do argumento (“Em primeiro lugar”, “Ademais”, “Em contrapartida”, “Nesse sentido”); dentro do parágrafo, use pronomes e sinônimos para retomar o tema sem repeti-lo à exaustão; e na conclusão, retome a tese com outras palavras — nunca copiando a introdução — e apresente a proposta de intervenção com agente, ação, meio e finalidade, de forma clara e concisa. Na revisão final, faça três passadas rápidas: uma para a coerência (as ideias se sustentam?), uma para a coesão (as ligações estão claras e variadas?) e uma para a concisão (há palavra sobrando?). Três passadas de dois minutos podem valer centenas de pontos.
Para treinar, vale a pena estudar outros conteúdos da sala de estudo do cliquevestibular, especialmente os de Língua Portuguesa e Redação, e praticar reescrevendo parágrafos prolixos ou desconexos que você encontrar em jornais, livros e até nas suas próprias redações antigas. A reescrita é o exercício mais eficiente que existe para esse tema: pegar um texto ruim e deixá-lo bom ensina mais do que ler dez definições. Guarde seus “antes e depois” num caderno — eles viram um ótimo material de revisão na semana da prova.


Mapa mental
- COESÃO — ligações visíveis do texto
- Referencial: pronomes, demonstrativos, elipse (anáfora e catáfora)
- Lexical: sinônimos, hiperônimos, hipônimos, repetição, campo semântico
- Conectivos: adição, oposição, causa, consequência, conclusão, condição, finalidade, comparação, tempo
- COERÊNCIA — sentido do conjunto
- Progressão temática: cada parágrafo acrescenta algo novo
- Não contradição: nada que negue a tese sem justificativa
- Relação com o tema: sem fuga nem tangenciamento
- Coeso ≠ coerente: texto pode ter um sem ter o outro
- CONCISÃO — economia de palavras
- Cortar redundâncias: “subir para cima”, “elo de ligação”
- Cortar prolixidade: rodeios disfarçados de formalidade
- Cortar clichês e palavras vazias: “cada vez mais”, “nos dias de hoje”
- Trocar locuções por palavras únicas: “a fim de” → “para”
- NA REDAÇÃO DO ENEM
- Competência 3: coerência — organizar argumentos em defesa da tese
- Competência 4: coesão — mecanismos linguísticos variados e precisos
- Revisão em 3 passadas: coerência, coesão e concisão
SAQ — Perguntas de autoavaliação
- Qual é a diferença entre coesão e coerência?
Coesão é a ligação visível entre as partes do texto (pronomes, sinônimos, conectivos); coerência é o sentido do conjunto (ideias que se completam, progridem e não se contradizem). - O que é anáfora e o que é catáfora?
Anáfora retoma algo já mencionado (“Maria chegou; ela estava cansada”); catáfora antecipa algo que ainda virá (“Quero isto: sua atenção”). - Um texto pode ser coeso e incoerente ao mesmo tempo?
Sim. Frases bem ligadas por conectivos podem formar um raciocínio sem lógica, como “O cachorro estava com fome. Por isso, o carteiro fugiu.” - Quais são os três pilares da coerência?
Progressão temática, não contradição e relação com o tema e com a situação de comunicação. - Qual é o erro mais comum da coesão referencial?
A ambiguidade do pronome, como em “Pedro disse a João que ele passou”, em que não se sabe quem passou na prova. - O que é redundância? Dê dois exemplos.
É dizer duas vezes a mesma coisa com palavras diferentes, como “subir para cima” e “elo de ligação”. - Concisão significa escrever textos curtos?
Não. Significa não desperdiçar palavras: um texto longo pode ser conciso se cada palavra tiver função, e um texto curto pode ser prolixo se repetir a mesma ideia. - Como a coesão e a coerência aparecem na correção da redação do ENEM?
Na Competência 3 (organização coerente dos argumentos) e na Competência 4 (mecanismos linguísticos de coesão, variados e precisos).
Questões comentadas
As questões a seguir são originais, criadas no estilo do ENEM para treinar este tema. Nenhuma delas foi copiada de provas reais.
Questão 1. Leia o trecho: “A biblioteca da escola foi reformada. Ela ganhou novas estantes. Os alunos, por isso, passaram a frequentar mais o espaço.” O pronome “ela” e a expressão “por isso” estabelecem, respectivamente, coesão
a) lexical e por conectivo de oposição.
b) referencial e por conectivo de consequência.
c) referencial e por conectivo de causa.
d) lexical e por conectivo de conclusão.
e) referencial e por conectivo de adição.
Gabarito: B. “Ela” retoma “a biblioteca”, um termo já mencionado: coesão referencial por anáfora. “Por isso” marca a consequência da reforma (mais frequência dos alunos): conectivo de consequência. As demais alternativas erram o tipo de coesão ou a relação expressa.
Questão 2. Considere o texto: “O uso de bicicletas reduz o trânsito. Ele também diminui a poluição. Contudo, as cidades brasileiras investem pouco em ciclovias.” A função do conectivo “contudo” é introduzir uma ideia de
a) adição.
b) conclusão.
c) oposição.
d) causa.
e) finalidade.
Gabarito: C. “Contudo” é um conectivo adversativo: ele opõe a ideia positiva (benefícios da bicicleta) à constatação negativa (pouco investimento em ciclovias). É o mesmo grupo de “mas”, “porém” e “entretanto”.
Questão 3. Assinale a alternativa em que a reescrita torna o trecho mais conciso sem alterar o sentido original: “É de fundamental importância que se diga que a prática regular de exercícios físicos é muito importante para a saúde das pessoas.”
a) É de fundamental importância que se diga que a prática regular de exercícios físicos é muito importante para a saúde das pessoas, de fato.
b) A prática regular de exercícios físicos é importante para a saúde.
c) Nos dias de hoje, cada vez mais, é de fundamental importância que se diga que a prática regular de exercícios físicos é muito importante.
d) É importante ressaltar que a prática regular de exercícios físicos, que é muito importante, é de fundamental importância para a saúde.
e) A prática regular de exercícios físicos é de fundamental importância e de extrema relevância para a saúde das pessoas em geral.
Gabarito: B. A alternativa B elimina as muletas (“é de fundamental importância que se diga que”), a redundância (“fundamental importância” + “muito importante”) e mantém toda a informação. As demais mantêm ou ampliam a prolixidade e a repetição.
Questão 4. O trecho “O governo anunciou cortes na educação. A medida, entretanto, não afetará as universidades federais. Por isso, os reitores comemoraram a decisão” apresenta um problema de
a) coesão referencial, pois “a medida” é ambígua.
b) coerência, pois a conclusão não decorre das informações apresentadas.
c) concisão, pois há palavras repetidas em excesso.
d) coesão lexical, pois falta um sinônimo para “governo”.
e) coerência, pois o texto foge do tema proposto.
Gabarito: B. Se houve cortes na educação, não há motivo lógico para os reitores comemorarem apenas porque as federais não foram afetadas — a notícia continua ruim para o setor. A relação de consequência marcada por “por isso” não se sustenta: o texto é coeso (há retomadas e conectivos), mas incoerente. Não há ambiguidade em “a medida”, nem repetição excessiva.
Questão 5. Em “Ana revisou o texto três vezes. Ela cortou redundâncias, substituiu locuções por palavras únicas e dividiu frases longas. O resultado foi um texto claro e direto”, a coesão entre as frases é garantida principalmente por
a) repetição da palavra “texto” e uso de conectivos de oposição.
b) coesão referencial (“ela”) e coesão lexical (“resultado” retomando o processo descrito).
c) uso exclusivo de conectivos de causa e consequência.
d) catáfora, pois “ela” antecipa o que será dito depois.
e) hiperonímia, pois “texto” é termo mais geral que “redundância”.
Gabarito: B. “Ela” retoma “Ana” (coesão referencial por anáfora) e “resultado” resume lexicalmente todo o processo de revisão descrito na frase anterior. Não há conectivos de oposição nem de causa no trecho, e “ela” retoma algo já dito, não antecipa — portanto, não é catáfora.
Questão 6. Um estudante escreveu: “Em minha opinião pessoal, eu acho que, nos dias de hoje, a internet, que é uma ferramenta muito importante, é de extrema importância para os estudos.” A melhor reescrita, do ponto de vista da concisão e da clareza, é:
a) Em minha opinião pessoal, eu acho que a internet é importante para os estudos nos dias de hoje.
b) A internet é uma ferramenta importante para os estudos.
c) Nos dias de hoje, cada vez mais, a internet é de extrema importância para os estudos, em minha opinião.
d) Eu acho que a internet, que é uma ferramenta muito importante, é de extrema importância para os estudos.
e) Em minha opinião, a internet é uma ferramenta muito importante e de extrema importância para os estudos.
Gabarito: B. A alternativa B corta a dupla marcação de opinião (“em minha opinião pessoal, eu acho”), o clichê (“nos dias de hoje”) e a redundância (“muito importante” + “extrema importância”), mantendo a ideia completa. As demais preservam pelo menos um desses problemas.
Dica do professor
Na semana da prova, treine a revisão em três passadas, sempre nessa ordem: primeiro, leia o texto perguntando “minhas ideias se sustentam e progridem?” (coerência); depois, circule os conectivos e os pronomes e verifique se cada ligação está clara e se há variedade (coesão); por fim, tente cortar 20% das palavras sem perder nenhuma ideia (concisão). Se você conseguir cortar, o texto estava prolixo; se não conseguir, ele já estava enxuto. Esse ritual de poucos minutos transforma redações medianas em redações competitivas — e funciona também nas respostas discursivas.
Atenção / cuidado
Não confunda quantidade de conectivos com qualidade de coesão: empilhar “ademais”, “outrossim” e “por conseguinte” sem necessidade deixa o texto artificial e pode até mudar o sentido pretendido. Conectivo errado é pior que conectivo ausente. Outro cuidado: nunca copie a introdução na conclusão achando que isso é retomada — retomada se faz com outras palavras. E atenção aos erros clássicos de grafia: “mas” (oposição) não é “mais” (quantidade); “porque” (causa) não é “por que” (pergunta ou fim de frase com sentido de “pelo qual”). Esses deslizes são facilmente evitados na revisão e custam pontos caros.
Conexão com outras áreas
Coesão, coerência e concisão não servem só para a prova de Língua Portuguesa: elas atravessam todas as áreas. Em Redação, decidem boa parte da nota; em Literatura, ajudam a perceber como os autores constroem sentido e estilo; nas Ciências Humanas, sustentam argumentações em História, Geografia, Filosofia e Sociologia; e, na vida profissional, definem a qualidade de e-mails, relatórios e projetos. Quem escreve com clareza pensa com clareza — e isso vale para qualquer carreira. Para continuar estudando, explore outros temas da sala de estudo e revise os conteúdos de interpretação de texto, que dependem diretamente dessas três qualidades.
Incidência
🔥 Quente. Coesão, coerência e concisão aparecem em praticamente todas as edições do ENEM e dos principais vestibulares, tanto nas questões objetivas de Língua Portuguesa — identificação de conectivos, retomadas pronominais e reescritas — quanto, de forma decisiva, na correção da redação, nas Competências 3 e 4. É um tema de altíssima recorrência e de retorno garantido: cada hora investida nele melhora o desempenho em várias questões e na nota da redação ao mesmo tempo. Prioridade máxima na revisão final.



