Sala de estudos

República Liberal: o que cai no ENEM e nos vestibulares

A República Liberal (1946-1964) foi o período democrático entre o Estado Novo e o golpe de 1964: Constituição de 1946, partidos, eleições, industrialização e crises políticas.

Ilustração estilo Pixar de uma sessão do Congresso Nacional brasileiro nos anos 1950, com deputados em debate e bandeira do Brasil ao fundo, sem texto
Ilustração estilo Pixar de uma sessão do Congresso Nacional brasileiro nos anos 1950, com deputados em debate e bandeira do Brasil ao fundo, sem texto
Direto ao assunto
  1. Resumo rápido
  2. Por que se chama República Liberal?
  3. Os governos do período
  4. Industrialização, urbanização e cultura
  5. As Reformas de Base e o golpe de 1964
  6. Como o tema cai no ENEM e nos vestibulares
  7. Mapa mental
  8. SAQ — Perguntas e respostas rápidas
  9. Questões comentadas
  10. Dica do professor
  11. Atenção/cuidado
  12. Conexão com outras áreas
  13. Incidência

Resumo rápido

A República Liberal, também chamada de Quarta República, vai de 1946, com a promulgação da Constituição de 1946, até 1964, com o golpe civil-militar que depôs João Goulart. É o período democrático entre duas ditaduras: depois do Estado Novo de Getúlio Vargas (1937-1945) e antes da ditadura militar (1964-1985). Nesses dezoito anos, o Brasil viveu eleições regulares para presidente, governadores e Congresso, teve partidos nacionais, imprensa livre e sindicatos atuantes — mas também crises políticas constantes, tentativas de golpe, suicídio de um presidente e renúncia de outro.

Em uma frase: A República Liberal foi a primeira experiência democrática duradoura do Brasil republicano: voto, partidos e Constituição conviveram com instabilidade, anticomunismo, pressões militares e uma industrialização acelerada que mudou o país.

  • Quando: de 1946 a 1964, entre o fim do Estado Novo e o golpe de 1964.
  • Marco inicial: a Constituição de 1946, que restabeleceu a democracia, o voto secreto e os direitos políticos.
  • Presidentes: Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), Getúlio Vargas (1951-1954), Café Filho (1954-1955), Juscelino Kubitschek (1956-1961), Jânio Quadros (1961) e João Goulart (1961-1964).
  • Partidos principais: PSD, UDN e PTB, herdeiros do varguismo e da oposição ao Estado Novo, além do PCB, colocado na ilegalidade em 1947.
  • Marca econômica: industrialização acelerada, com o Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e a construção de Brasília.
  • Fim do período: o golpe de 31 de março de 1964, que depôs João Goulart e abriu a ditadura militar.
  • O que não foi: não foi uma democracia plena para todos: o voto ainda excluía os analfabetos, o que deixava de fora grande parte da população pobre, e o PCB foi cassado em 1947, em plena Guerra Fria.
  • Incidência: ♨️ Morno — aparece no ENEM e nos vestibulares, quase sempre ligado à Constituição de 1946, ao segundo governo Vargas, ao governo JK e às crises que levaram ao golpe de 1964.

Por que se chama República Liberal?

O nome vem da Constituição de 1946, de caráter liberal-democrático: ela restaurou a separação dos poderes, o voto direto e secreto para presidente, a liberdade de imprensa e de organização partidária e sindical, e os direitos individuais suspensos pelo Estado Novo. Depois de oito anos de ditadura varguista, o Brasil voltava a eleger seus governantes e a debater publicamente seus rumos. Por isso, os historiadores chamam o período de República Liberal ou República Populista — populista, porque os presidentes buscavam apoio direto das massas urbanas, com discursos e medidas trabalhistas, sem romper com as estruturas sociais do país.

Mas a democracia de 1946 nasceu com limites claros. O voto continuava proibido para os analfabetos, o que, num país com altíssimas taxas de analfabetismo, excluía milhões de brasileiros, sobretudo no campo. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), que havia eleito deputados e um senador em 1945, teve o registro cassado em 1947, no início da Guerra Fria, e seus parlamentares perderam os mandatos em 1948. E as Forças Armadas mantiveram um papel de árbitro da política: sempre que uma crise se agravava, generais apareciam como tutores da ordem. Essa combinação — democracia eleitoral com exclusões e tutela militar — explica por que o período foi tão instável.

Os governos do período

O primeiro presidente da República Liberal foi o general Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), eleito em 1945 com apoio de Vargas. Seu governo foi marcado pelo alinhamento aos Estados Unidos na Guerra Fria, pela cassação do PCB e por uma política econômica liberal, que abriu o país às importações e gastou as reservas acumuladas durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1951, voltou Getúlio Vargas, agora eleito pelo voto popular, em seu segundo governo (1951-1954). Vargas tentou retomar o nacionalismo econômico, criou a Petrobras em 1953 e aumentou o salário mínimo em 100% em 1954, o que acirrou a oposição da UDN, da imprensa de Carlos Lacerda e de setores militares. Pressionado pela crise do atentado da rua Tonelero, contra Lacerda, Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954, deixando a famosa carta-testamento, em que denunciava as pressões contra seu governo.

Após o breve governo de Café Filho (1954-1955) e uma crise sucessória em novembro de 1955 — quando o ministro da Guerra, Henrique Lott, depôs Café Filho para garantir a posse de Juscelino Kubitschek —, assumiu Juscelino Kubitschek, o JK (1956-1961). Seu governo é lembrado pelo Plano de Metas, sintetizado no slogan “cinquenta anos em cinco”, e pela construção de Brasília, inaugurada em 1960, que transferiu a capital do Rio de Janeiro para o interior. O crescimento foi acelerado, mas com endividamento externo e inflação. Em 1961, Jânio Quadros venceu com a vassoura como símbolo contra a corrupção, mas renunciou após apenas sete meses, em agosto de 1961, esperando voltar nos braços do povo — o que não aconteceu. Seu vice, João Goulart, o Jango, assumiu após a Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, mas sob regime parlamentarista, que limitava seus poderes. O presidencialismo só foi restaurado pelo plebiscito de janeiro de 1963.

Industrialização, urbanização e cultura

Economicamente, a República Liberal foi o período em que o Brasil deixou de ser um país predominantemente agrário. A indústria cresceu com investimentos estrangeiros, sobretudo no setor automobilístico, instalado no ABC paulista no governo JK, e com empresas estatais, como a Petrobras. Milhões de brasileiros migraram do campo para as cidades, especialmente para São Paulo e Rio de Janeiro, e o movimento operário ganhou força, com greves importantes, como a Greve dos 300 mil, em São Paulo, em 1953. Culturalmente, foi a época da bossa nova, do Cinema Novo, do teatro de Arena e da expansão do rádio e da televisão, que começava a chegar aos lares brasileiros.

Para as provas, o ponto central é o custo desse crescimento: a industrialização dependeu de capital estrangeiro e de endividamento, concentrou renda e não resolveu os problemas do campo, onde a miséria e a concentração de terras alimentavam movimentos como as Ligas Camponesas, no Nordeste. Foi essa tensão — crescimento urbano-industrial de um lado, miséria rural e desigualdade do outro — que explodiu no governo João Goulart, com as Reformas de Base.

As Reformas de Base e o golpe de 1964

João Goulart, já com plenos poderes presidenciais a partir de 1963, propôs as Reformas de Base: reforma agrária, reforma urbana, reforma bancária, reforma eleitoral — com voto para analfabetos e soldados — e controle da remessa de lucros das multinacionais para o exterior. As reformas dividiam o país: tinham apoio de sindicatos, estudantes, setores da Igreja e da esquerda, e oposição feroz de empresários, latifundiários, da UDN, de grande parte da imprensa e dos Estados Unidos, em plena Guerra Fria, que temiam uma guinada comunista no Brasil.

Em 13 de março de 1964, Jango fez o comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, defendendo as reformas diante de centenas de milhares de pessoas. A resposta veio com as Marchas da Família com Deus pela Liberdade, organizadas por setores conservadores e pela Igreja, e, em 31 de março de 1964, com o movimento militar que depôs Goulart, que se exilou no Uruguai. Começava a ditadura militar, que duraria 21 anos. Para as provas, vale a síntese: o golpe de 1964 não foi só militar — foi civil-militar, com apoio de empresários, governadores, parlamentares e da imprensa — e não foi só uma reação a Jango, mas o desfecho de quase vinte anos de instabilidade, em que a democracia de 1946 nunca conseguiu se firmar sem tutela militar.

Tabela 1: os presidentes da República Liberal

PresidentePeríodoMarca do governo
Eurico Gaspar Dutra1946-1951Alinhamento aos EUA na Guerra Fria; cassação do PCB em 1947
Getúlio Vargas1951-1954Nacionalismo econômico; criação da Petrobras (1953); suicídio em 1954
Café Filho1954-1955Governo de transição após a morte de Vargas
Juscelino Kubitschek1956-1961Plano de Metas, “cinquenta anos em cinco”; construção de Brasília (1960)
Jânio Quadros1961Vitória com a vassoura; renúncia após sete meses
João Goulart1961-1964Campanha da Legalidade; parlamentarismo; Reformas de Base; deposto em 1964

Como o tema cai no ENEM e nos vestibulares

As provas cobram a Constituição de 1946 e os limites da democracia do período, o segundo governo Vargas e a carta-testamento, o Plano de Metas e Brasília no governo JK, a renúncia de Jânio e a Campanha da Legalidade, e as Reformas de Base como estopim do golpe de 1964. Para revisar História na sala de estudo, vale reler a Era Vargas, o Período Regencial e a República da Espada, para comparar os diferentes regimes republicanos do Brasil.

Ilustração estilo Pixar de eleitores votando em uma eleição brasileira dos anos 1950, com fila na frente de uma escola, sem texto
Ilustração estilo Pixar de eleitores votando em uma eleição brasileira dos anos 1950, com fila na frente de uma escola, sem texto
Ilustração estilo Pixar de uma fábrica brasileira dos anos 1950 com operários e chaminés, símbolo da industrialização, sem texto
Ilustração estilo Pixar de uma fábrica brasileira dos anos 1950 com operários e chaminés, símbolo da industrialização, sem texto

Mapa mental

  • República Liberal (1946-1964)
    • Marco: Constituição de 1946; democracia entre o Estado Novo e a ditadura militar.
    • Limites: voto proibido para analfabetos; PCB cassado em 1947; tutela militar sobre a política.
    • Presidentes: Dutra, Vargas (2º governo), Café Filho, JK, Jânio Quadros e João Goulart.
    • Economia: industrialização acelerada; Plano de Metas; Brasília (1960); endividamento e inflação.
    • Crises: suicídio de Vargas (1954); renúncia de Jânio (1961); Campanha da Legalidade; parlamentarismo (1961-1963).
    • Reformas de Base: agrária, urbana, bancária e eleitoral, propostas por Jango.
    • Fim: golpe civil-militar de 31 de março de 1964; início da ditadura militar (1964-1985).
    • Erro comum: dizer que a República Liberal foi uma democracia plena, sem exclusões, ou que o golpe de 1964 foi só militar.

SAQ — Perguntas e respostas rápidas

  1. O que foi a República Liberal? O período democrático brasileiro de 1946 a 1964, entre o Estado Novo e a ditadura militar, marcado pela Constituição de 1946, por eleições regulares e por crises políticas constantes.
  2. O que estabeleceu a Constituição de 1946? A volta da democracia: voto direto e secreto, separação dos poderes, liberdade de imprensa e de organização partidária, após o Estado Novo.
  3. Por que a democracia de 1946 tinha limites? Porque o voto era proibido para analfabetos, excluindo milhões de brasileiros, e o PCB foi cassado em 1947, em plena Guerra Fria.
  4. O que marcou o segundo governo Vargas (1951-1954)? O nacionalismo econômico, a criação da Petrobras em 1953 e a crise política que terminou com o suicídio de Vargas em 24 de agosto de 1954.
  5. O que foi o Plano de Metas de JK? O programa de Juscelino Kubitschek (1956-1961) para acelerar a industrialização, resumido no slogan “cinquenta anos em cinco”, com destaque para a construção de Brasília, inaugurada em 1960.
  6. Por que Jânio Quadros renunciou em 1961? Após sete meses de governo, Jânio renunciou esperando retornar com mais poderes, mas o Congresso empossou seu vice, João Goulart, após a Campanha da Legalidade.
  7. O que foram as Reformas de Base? As reformas propostas por João Goulart, como a reforma agrária e a reforma eleitoral, com voto para analfabetos, que dividiram o país e acirraram a oposição ao seu governo.
  8. Como terminou a República Liberal? Com o golpe civil-militar de 31 de março de 1964, que depôs João Goulart e abriu a ditadura militar, que duraria até 1985.

Questões comentadas

Questão 1

A Constituição de 1946, marco inicial da República Liberal, é mais bem caracterizada como:

a) a carta que instituiu o Estado Novo e fechou o Congresso.
b) a restauração da democracia, com voto direto e secreto e liberdade partidária, após o Estado Novo.
c) a Constituição que proibiu todos os partidos políticos no Brasil.
d) o texto que implantou o parlamentarismo definitivo no país.
e) a carta outorgada por Getúlio Vargas em 1937.

Gabarito: b) a restauração da democracia, com voto direto e secreto e liberdade partidária, após o Estado Novo.

Comentário: A Constituição de 1946 encerrou o Estado Novo e restaurou a democracia eleitoral. O parlamentarismo só existiu brevemente entre 1961 e 1963, e a carta de 1937 foi a do Estado Novo, outorgada por Vargas.

Questão 2

O segundo governo de Getúlio Vargas (1951-1954) ficou marcado, sobretudo, por:

a) a criação da Petrobras, em 1953, e a crise política que terminou com seu suicídio em 1954.
b) a construção de Brasília e o Plano de Metas.
c) a renúncia após sete meses de governo e a Campanha da Legalidade.
d) a cassação do PCB e o alinhamento total aos Estados Unidos.
e) a proclamação da República e o fim do Império.

Gabarito: a) a criação da Petrobras, em 1953, e a crise política que terminou com seu suicídio em 1954.

Comentário: Brasília e o Plano de Metas são de JK; a renúncia de 1961 é de Jânio; a cassação do PCB é do governo Dutra. Vargas, em seu segundo governo, apostou no nacionalismo econômico, criou a Petrobras e morreu em meio a uma grave crise política.

Questão 3

O governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961) é lembrado, principalmente, por:

a) fechar o Congresso e suspender os direitos políticos.
b) implantar o Plano de Metas e construir Brasília, transferindo a capital para o interior.
c) propor as Reformas de Base e ser deposto em 1964.
d) cassar o registro do PCB em plena Guerra Fria.
e) decretar o Ato Institucional nº 5.

Gabarito: b) implantar o Plano de Metas e construir Brasília, transferindo a capital para o interior.

Comentário: O Plano de Metas, com o slogan “cinquenta anos em cinco”, e Brasília, inaugurada em 1960, são as marcas de JK. As Reformas de Base são de Jango, e o AI-5 é da ditadura militar, de 1968.

Questão 4

A Campanha da Legalidade, em 1961, teve como objetivo:

a) impedir a posse de Juscelino Kubitschek, eleito em 1955.
b) garantir a posse de João Goulart, vice de Jânio Quadros, após a renúncia deste.
c) depor Getúlio Vargas e implantar o Estado Novo.
d) cassar o PCB e fechar os sindicatos.
e) proclamar a República Rio-Grandense.

Gabarito: b) garantir a posse de João Goulart, vice de Jânio Quadros, após a renúncia deste.

Comentário: Com a renúncia de Jânio, setores militares queriam impedir a posse de Jango. A Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola no Rio Grande do Sul, garantiu a posse, mas sob regime parlamentarista, que limitava os poderes do presidente.

Questão 5

O golpe de 1964, que encerrou a República Liberal, pode ser caracterizado como:

a) um movimento exclusivamente militar, sem nenhum apoio civil.
b) um golpe civil-militar, com apoio de empresários, governadores, parlamentares e parte da imprensa, contra as Reformas de Base de João Goulart.
c) uma revolução popular que ampliou o voto aos analfabetos.
d) um movimento liderado por Juscelino Kubitschek para voltar ao poder.
e) uma intervenção estrangeira sem participação de brasileiros.

Gabarito: b) um golpe civil-militar, com apoio de empresários, governadores, parlamentares e parte da imprensa, contra as Reformas de Base de João Goulart.

Comentário: O golpe de 1964 teve liderança militar, mas também amplo apoio civil: empresários, latifundiários, governadores, parlamentares e imprensa conservadora temiam as Reformas de Base e uma suposta guinada comunista, no contexto da Guerra Fria.

Dica do professor

Decore a sequência de presidentes com uma frase: “Dutra, Vargas, Café, JK, Jânio, Jango”. Depois, prenda um fato a cada nome: Dutra cassa o PCB; Vargas cria a Petrobras e se suicida; JK faz Brasília; Jânio renuncia; Jango propõe as Reformas de Base e cai em 1964. Se a questão citar 1946, pense Constituição democrática; se citar 1964, pense fim da República Liberal.

Atenção/cuidado

Cuidado com cinco armadilhas: (1) confundir a Constituição de 1946, democrática, com a de 1937, do Estado Novo; (2) atribuir Brasília e o Plano de Metas a Vargas, quando são de JK; (3) dizer que Jânio foi deposto — ele renunciou, e quem foi deposto em 1964 foi Jango; (4) achar que a democracia de 1946 incluía os analfabetos — eles só votariam depois da Constituição de 1988; (5) dizer que o golpe de 1964 foi só militar, ignorando o apoio civil.

Conexão com outras áreas

O tema conecta História com Geografia (industrialização, urbanização e migração campo-cidade), com Sociologia (partidos, sindicatos, movimentos sociais e Guerra Fria), com Língua Portuguesa (a leitura da carta-testamento de Vargas e dos discursos de JK e Jango) e com Redação (argumentação sobre democracia, desigualdade, reforma agrária e os limites das instituições brasileiras).

Incidência

♨️ Morno — a República Liberal aparece com frequência no ENEM e nos vestibulares, geralmente ligada à Constituição de 1946, ao segundo governo Vargas, ao governo JK e às crises que levaram ao golpe de 1964.