O poema “Catar feijão”, de João Cabral de Melo Neto, não apresenta um enredo tradicional com personagens e conflitos no sentido novelesco. Em vez disso, a obra se concentra na descrição minuciosa e quase científica do ato de selecionar grãos de feijão. O eu lírico detalha as etapas desse trabalho doméstico, transformando uma atividade rotineira em um objeto de profunda observação e reflexão. A ação central é a separação do bom grão do que é impróprio para consumo, como pedras, grãos estragados ou corpos estranhos.
A “narrativa” do poema se desenrola através de um processo de triagem, onde cada gesto e cada aspecto do feijão são cuidadosamente examinados. Não há um clímax ou uma reviravolta dramática, mas sim a exaltação da precisão e da atenção necessárias para a realização da tarefa. O poema explora a textura, a cor, o peso e a sonoridade dos grãos, convidando o leitor a uma experiência sensorial e tátil da atividade.
Os “conflitos”, se é que podemos chamá-los assim, são intrínsecos à própria natureza do feijão e do trabalho: a impureza versus a pureza, o imprestável versus o comestível. O poema não romanticiza a ação, mas a eleva a um patamar de importância fundamental, revelando a dignidade e a seriedade embutidas em atos aparentemente banais do cotidiano. A paciência e a persistência são elementos implícitos que permeiam toda a execução da tarefa.
As “personagens” são a própria mão que cata e os grãos de feijão, que adquirem quase uma vida própria pela forma como são descritos. O poema é uma ode ao concreto, ao palpável, e ao rigor necessário para transformar a matéria-prima em alimento, sugerindo uma metáfora para a própria criação poética, onde o poeta “cata” e seleciona as palavras com a mesma diligência e precisão.
João Cabral de Melo Neto (1920-1999) foi um dos mais importantes poetas brasileiros da segunda metade do século XX. Nascido no Recife, Pernambuco, sua obra é marcada por uma linguagem concisa, objetiva e antilírica, em oposição ao sentimentalismo romântico. Diplomata de carreira, viveu em diversos países, mas manteve sempre uma forte ligação com o Nordeste brasileiro, que permeia muitas de suas criações. Cabral é conhecido por seu “engenhamento” da palavra, construindo seus poemas com a mesma precisão e rigor de um arquiteto ou engenheiro, valorizando a forma e a estrutura. Sua poesia, frequentemente associada ao Concretismo, aborda temas como a secura, a dureza da vida, a morte e o trabalho, sempre com um olhar penetrante sobre a realidade. Entre suas obras mais célebres, destacam-se “Morte e Vida Severina” e “O Engenheiro”.
“Catar feijão” é um dos poemas mais emblemáticos de João Cabral de Melo Neto, incluído em sua obra “A Educação pela Pedra” (1966). O poema é um exemplo primoroso do estilo cabralino, caracterizado pela objetividade, o foco no concreto e a ausência de sentimentalismo. Nele, o poeta eleva uma tarefa doméstica e rotineira, a de selecionar grãos de feijão, a um objeto de minuciosa observação e rigorosa descrição. A obra demonstra a capacidade do autor de encontrar poesia na banalidade do cotidiano, revelando a complexidade e a dignidade do trabalho manual.
Em “Catar feijão”, não há personagens secundárias no sentido tradicional. A estrutura do poema foca exclusivamente na interação entre o eu lírico (implícito) e o objeto de sua atenção, os grãos de feijão. Qualquer outro elemento é parte do cenário ou da ação, mas não constitui uma figura com papel ativo ou definido.
| Tempo | Presente contínuo, focado na duração e repetição da ação. |
| Espaço | Ambiente doméstico, um espaço de trabalho íntimo e concentrado. |
| Narrador | Eu lírico em terceira pessoa (ou primeira pessoa implícita), observador e descritor objetivo da ação. |
| Linguagem | Precisa, concreta, econômica, objetiva, descritiva e desprovida de adornos retóricos ou sentimentalismos. |
O estilo de “Catar feijão” é paradigmático da poética de João Cabral de Melo Neto. A objetividade é a marca central, com uma linguagem que evita metáforas grandiosas e sentimentalismos. O poema é construído sobre o rigor e a precisão das palavras, que são escolhidas como se fossem os próprios grãos de feijão, um a um, com cuidado e intencionalidade. O autor emprega uma sintaxe clara e direta, buscando a essência do que é descrito.
Entre os recursos literários, destaca-se a descrição sensorial: o poema evoca a visão (cores, formas do feijão e das impurezas), o tato (a aspereza das pedras, a lisura dos grãos), e até a audição (o ruído dos grãos caindo ou sendo separados). Há um forte apelo ao Concretismo, ao valorizar a materialidade da palavra e do objeto. O poema funciona como uma metáfora estendida para o processo de criação artística, onde o poeta, tal qual quem cata feijão, seleciona, limpa e organiza as palavras para construir a obra. A ironia sutil também pode ser percebida na elevação de uma tarefa humilde a um nível de profunda reflexão.
Embora “Catar feijão” seja um poema aparentemente desvinculado de grandes eventos históricos, ele se insere no contexto da produção literária pós-moderna brasileira, onde a experimentação formal e a busca por uma nova forma de lirismo eram valorizadas. A obra reflete a persistência do tema do trabalho e da subsistência, características da realidade nordestina, região natal de Cabral. A própria ação de “catar feijão” remete a uma realidade de carência, onde o alimento é precioso e o trabalho de prepará-lo é essencial para a sobrevivência.
Socialmente, o poema pode ser lido como uma valorização do trabalho manual e da dignidade que reside em tarefas simples, mas vitais. Não há uma crítica social explícita, mas a atenção aos detalhes de uma atividade tão fundamental pode sugerir uma reflexão sobre a vida das camadas sociais menos favorecidas, onde a subsistência depende de um esforço constante e meticuloso. O rigor na escolha dos grãos pode ser visto como um reflexo da necessidade de rigor na própria vida, onde não há espaço para o desperdício ou a negligência, uma metáfora da “dureza” da vida no sertão ou em condições de pobreza.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
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