“Eu sou Macuxi e outras histórias“, da autora Julie Dorrico, é uma obra premiada que se destaca por ser um profundo resgate da identidade, da língua e da rica cultura do povo Macuxi. Através de contos narrados em primeira pessoa, a autora tece uma tapeçaria de memórias sensoriais, onde os sabores marcantes das pimentas de cheiro, malagueta e murupi atuam como elos com a ancestralidade. A obra transita habilmente entre o verso e a prosa, adotando uma linguagem que evoca a oralidade, perpetuando assim as reminiscências de um legado milenar.
Um dos grandes méritos do livro é sua abordagem inovadora. Em vez de focar exclusivamente nos conflitos históricos e contemporâneos em terras indígenas, a obra de Dorrico ilumina a cotidianidade das relações, as lembranças transmitidas pelas avós e bisavós, e os elementos que forjam a identidade do povo Macuxi. As lutas apresentadas são travadas com novas ferramentas, como o papel e a caneta, os cantos radiofonizados e as diversas expressões artísticas, mostrando a resiliência e a adaptação cultural.
A autora convida o leitor a experienciar o pantonkan, a ancestral arte de contar histórias sagradas ao redor da fogueira. Em contos como “Makunaima e os manos deuses”, somos introduzidos à cosmogonia Macuxi, a um mundo muitas vezes invisibilizado por opressões e apagamentos culturais. A obra não se furta à crítica, abordando a ganância em “O homem do ouro”, que expõe a busca vazia por riqueza e suas consequências desoladoras para os que restam.
Finalmente, a obra de Julie Dorrico é uma declaração contundente de que não há fronteiras para o pertencimento. O gosto, como um elemento unificador, rompe barreiras geográficas e temporais, conectando descendentes e ancestrais em uma celebração da vida. O eu-lírico se expande para um “nós”, consolidando um ser que se constitui em sua própria vida e na de outros, em uma busca incessante por autoconhecimento e uma nova forma de existir no mundo.
O resgate e a celebração da identidade indígena Macuxi, da ancestralidade e da cultura através da memória, da oralidade e da literatura.
Julie Dorrico nasceu em Guajará-Mirim, Rondônia, conhecida como as “terras da cachoeira pequena”. Sua infância foi marcada pelas margens do Rio Madeira, onde ouvia as histórias de sua mãe sobre as memórias da família e as gentes que viviam no fim do Rio Amazonas. A travessia do rio, ainda na infância, levou-a a conhecer parentes em Boa Vista, Bonfim (Roraima) e Lethen (Guiana), e foi através de sua bisavó que ela teve um encontro profundo com Makunaima e com o povo Macuxi. Julie Dorrico é uma intelectual indígena, doutoranda em Teoria da Literatura pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da PUCRS, e escreve para ocupar um lugar de autoria, historicamente negado aos povos indígenas, utilizando a literatura como ferramenta de afirmação cultural e de visibilidade de suas narrativas.
“Eu sou Macuxi e outras histórias” é uma coletânea de contos que marcou a estreia literária de Julie Dorrico, consolidando-a como uma voz essencial na literatura indígena contemporânea brasileira. Vencedora do 16º concurso FNLIJ/UKA Tamoios em 2019, a obra publicada pela editora Caos e Letras no mesmo ano, transcende a mera ficção ao propor um diálogo profundo com a ancestralidade e a cosmogonia do povo Macuxi. O livro apresenta uma fusão única de poesia e prosa, permeada pela oralidade e pela memória afetiva e sensorial, que convida o leitor a uma imersão na cultura e na luta por reconhecimento e preservação dos povos originários. As ilustrações de Gustavo Caboco complementam a narrativa, oferecendo uma nova camada de interpretação e conexão com o universo retratado.
| Tempo | Não linear, mesclando presente e passado através da memória e das reminiscências ancestrais. As histórias fluem entre o “agora” do cotidiano e as evocações do tempo dos antepassados. |
| Espaço | Multifacetado e simbólico. Abrange as terras Macuxi, Guajará-Mirim, Rio Madeira e outras localidades geográficas (Boa Vista, Bonfim, Lethen), mas também um espaço de pertencimento que transcende fronteiras físicas, unindo o povo. |
| Narrador | Primeira pessoa (eu-lírico), conferindo um caráter íntimo e pessoal às narrativas. A voz que narra é a própria vivência e memória do povo Macuxi. |
| Linguagem | Híbrida, mesclando prosa e poesia, com forte influência da oralidade. É uma linguagem sensorial (especialmente gustativa), evocativa, reinventada e que transmite tanto a crítica quanto a poesia de forma pacífica, mas contundente. |
O estilo de Julie Dorrico em “Eu sou Macuxi e outras histórias” é marcado por uma rica fusão de elementos que a distingue na literatura indígena brasileira. A autora utiliza uma prosa poética que emula a cadência da oralidade, transportando o leitor para a experiência do pantonkan, a arte milenar de contar histórias. A narrativa é profundamente sensorial, com destaque para a memória gustativa, onde sabores como os das pimentas de cheiro, malagueta e murupi funcionam como pontes para o passado e a ancestralidade Macuxi.
A obra explora a intertextualidade com a cosmogonia indígena, trazendo à tona figuras como Makunaima e elementos do sobrenatural, que se integram naturalmente ao cotidiano. A mescla de verso e prosa rompe com as convenções literárias tradicionais, refletindo a fluidez da cultura e da expressão oral dos povos originários. A crítica social é tecida com um tom poético e pacífico, sem perder a força ou o rigor necessário, como se vê no conto “O homem do ouro”. As ilustrações de Gustavo Caboco são um recurso literário visual essencial, oferecendo uma nova dimensão à compreensão das narrativas e fortalecendo a conexão com a cultura visual indígena. A transformação do eu-lírico em um “nós” é um recurso que amplifica a voz individual para representar a coletividade e o sentimento de pertencimento.
“Eu sou Macuxi e outras histórias” emerge em um contexto de crescente reconhecimento e valorização da literatura indígena no Brasil, desafiando narrativas hegemônicas e oferecendo uma perspectiva interna sobre a vida e a cultura dos povos originários. Historicamente, a literatura brasileira abordou os indígenas sob a ótica do colonizador ou em representações estereotipadas. A obra de Julie Dorrico rompe com essa tradição ao dar voz à própria comunidade, apresentando uma “contranarrativa” que foca na cotidianidade, nas relações familiares e na riqueza cultural do povo Macuxi, em oposição à ênfase exclusiva nos conflitos territoriais e na colonização.
As críticas sociais presentes na obra são sutis, porém impactantes. Ela aborda as “feridas incuráveis” e os “déspotas do seu povo”, mas com um tom pacífico e poético que não diminui o rigor de seu discurso. Contos como “O homem do ouro” funcionam como parábolas sobre a ganância e o vazio existencial provocado pela busca desmedida por riqueza, uma crítica velada aos valores materialistas que muitas vezes colidem com as cosmovisões indígenas. A autora também critica o “apagamento (genocídio!) da cultura indígena”, ao visibilizar um mundo que é frequentemente desconhecido ou ignorado pela sociedade não-indígena. Ao escrever, Julie Dorrico assume um papel de protagonismo na “luta travada com papel e caneta”, reivindicando o lugar de autoria indígena e contribuindo para a descolonização do pensamento e da própria literatura brasileira.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.