“Levante”, embora menos conhecida que outras obras de Oswald de Andrade, como “Memórias Sentimentais de João Miramar” ou “Serra Talhada”, insere-se profundamente em sua produção modernista e em seu projeto de revisão crítica da cultura brasileira. A obra, de caráter experimental, reflete a efervescência intelectual e política do período em que foi concebida, ecoando as propostas de antropofagia cultural e de desmascaramento das convenções estabelecidas.
O enredo de “Levante” é fragmentado e não linear, característica marcante da prosa oswaldiana. Não há uma trama tradicional com início, meio e fim claramente definidos, mas sim uma sucessão de cenas, reflexões e diálogos que se entrelaçam para construir um panorama da sociedade e da cultura brasileira. Os conflitos abordados são, em sua maioria, de natureza ideológica e existencial, refletindo a busca por uma identidade autêntica em um país que ainda se debatia entre a tradição e a modernidade.
Os personagens, muitas vezes caricatos ou simbólicos, representam diferentes facetas da sociedade brasileira da época. Eles interagem em cenários urbanos e rurais, expondo as contradições e os paradoxos do Brasil. Através de suas vozes, Oswald de Andrade critica o academicismo, o provincianismo, a hipocrisia burguesa e a submissão cultural, propondo uma visão crítica e irreverente do que seria “ser brasileiro”.
A obra, portanto, funciona como um painel multifacetado onde se confrontam ideias, costumes e aspirações. O “levante” do título pode ser interpretado como um levante contra as estruturas arcaicas, uma revolta intelectual e artística em busca de novos caminhos para a expressão cultural e para a própria nação. É um convite à reflexão e à ruptura com o passado colonialista e a busca por uma verdadeira originalidade nacional.
Oswald de Andrade (1890-1954) foi um dos maiores expoentes do Modernismo Brasileiro. Nascido em São Paulo, teve uma formação cosmopolita, com viagens frequentes à Europa, onde entrou em contato com as vanguardas artísticas e literárias do início do século XX. Foi um dos idealizadores e principais articuladores da Semana de Arte Moderna de 1922, evento que marcou o início do Modernismo no Brasil. Autor do “Manifesto Pau-Brasil” (1924) e do “Manifesto Antropófago” (1928), suas ideias revolucionaram a literatura e a cultura nacional, propondo uma digestão crítica das influências estrangeiras para a criação de uma arte genuinamente brasileira. Sua obra abrange poesia, prosa, teatro e ensaio, caracterizando-se pela experimentação formal, pela ironia, pelo humor e pela crítica social, sempre em busca de uma identidade cultural autônoma para o Brasil.
“Levante”, como parte da vasta produção de Oswald de Andrade, alinha-se à sua proposta de Modernismo radical e à sua busca por uma literatura que refletisse a realidade brasileira de forma inovadora e desmistificadora. Embora não seja tão canônica quanto alguns de seus romances mais famosos ou seus manifestos, a obra exemplifica a liberdade criativa e a experimentação formal que o autor defendia. Ela pode ser vista como um exercício de estilo e uma continuação de suas reflexões sobre a sociedade, a política e a cultura do Brasil, mantendo o tom irreverente e a linguagem concisa que são suas marcas registradas. A obra complementa o universo oswaldiano, aprofundando o debate sobre a brasilidade.
Em “Levante”, a distinção entre personagens principais e secundários é fluida devido à estrutura fragmentada. Os personagens secundários são efêmeros, aparecendo em cenas curtas para ilustrar um ponto, personificar uma ideia ou dialogar com as vozes principais. Podem ser burgueses decadentes, políticos oportunistas, figuras folclóricas ou personagens históricos brevemente evocados, todos contribuindo para o panorama crítico e satírico que a obra propõe.
| Tempo | Não linear e fragmentado, com saltos temporais e momentos de simultaneidade, característico do Modernismo e da prosa oswaldiana. |
| Espaço | Diversificado, alternando entre o ambiente urbano (São Paulo, Rio de Janeiro) e o rural, além de evocações de cenários europeus, refletindo a dinâmica cultural do Brasil da época. |
| Narrador | Várias vozes narrativas, muitas vezes em terceira pessoa, mas com forte presença de um “eu” lírico e reflexivo que se confunde com o autor, permeado por ironia e subjetividade. |
| Linguagem | Experimental, concisa, telegráfica, coloquial, com neologismos, frases nominais e um uso irreverente da pontuação, buscando a desformalização da língua e a aproximação com a fala brasileira. |
O estilo de Oswald de Andrade em “Levante” é um reflexo direto de suas proposições modernistas. A linguagem telegráfica e a fragmentação textual são recursos constantes, quebram a linearidade e o tradicionalismo narrativo. A ironia e o humor são utilizados como ferramentas para a crítica social e cultural, desmistificando valores e instituições. Há um uso intenso da paródia e da sátira, especialmente direcionadas ao academicismo e à cultura europeia importada sem senso crítico. A intertextualidade, com referências implícitas e explícitas a obras e figuras históricas e literárias, enriquece o texto e convida o leitor a uma leitura ativa. A oralidade e a brasilidade são buscadas através do uso do coloquialismo e de uma sintaxe que se aproxima da fala brasileira, desprendendo-se das normas gramaticais rígidas em prol da expressividade e da autenticidade.
“Levante” está imersa no conturbado e efervescente contexto do início do século XX no Brasil. Após a Primeira Guerra Mundial, o país vivia um período de intensa urbanização e industrialização, ao mesmo tempo em que a oligarquia rural ainda detinha grande poder político. A obra de Oswald de Andrade surge em meio a um cenário de insatisfação com a República Velha e de busca por uma identidade nacional autêntica. As críticas sociais presentes em “Levante” são multifacetadas: satirizam a burguesia paulistana, tida como provinciana e apegada a valores estrangeiros; denunciam o atraso cultural e a subserviência intelectual do Brasil em relação à Europa; e questionam a moral hipócrita e os costumes arraigados. O autor propõe um “levante” contra essas estruturas opressoras e limitadoras, defendendo uma cultura livre, original e antropofágica, capaz de digerir criticamente as influências externas e produzir algo verdadeiramente brasileiro. A obra reflete o espírito de ruptura e renovação que marcou o Modernismo brasileiro.
Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.