Poderoso romance de formação, esta é a história da experiência de duas mulheres, mãe e filha, ambas chamadas Marta, que vivem em um cortiço insalubre, comum no período de crescimento urbano desmedido. Edição com introdução de Anna Faedrich e estabelecimento de texto de Rodrigo Jorge Neves.
Júlia Lopes de Almeida, uma das vozes mais impactantes da literatura brasileira do século XIX, cuja obra vem sendo resgatada, estreou com o folhetim Memórias de Marta em 1888. Neste romance envolvente, a narrativa é conduzida pela voz de Marta, que rememora criticamente suas experiências desde a infância pobre, marcada pela perda do pai, até a vida adulta. Para além de mero registro histórico ou comentário social inquietante, Memórias de Marta possui a força narrativa das grandes ficções, elaborando em poucas páginas um universo pleno e verossímil de figuras brasileiras complexas, em uma leitura prazerosa e de alta voltagem estilística.
“Memórias de Martha”, romance de Júlia Lopes de Almeida, transporta o leitor para o Rio de Janeiro do final do século XIX, apresentando a autobiografia ficcional de sua protagonista, Martha. A narrativa em primeira pessoa revela a trajetória de uma jovem que, após a morte do pai, injustamente acusado de roubo, vê sua vida e a de sua mãe serem drasticamente alteradas pela pobreza. A mãe, uma figura de resiliência, passa a trabalhar como engomadeira e costureira, e as duas se mudam para um cortiço no bairro de São Cristóvão.
Nesse novo e hostil ambiente, Martha é confrontada com a fome, a desigualdade social e as duras realidades da periferia carioca. A educação surge como um farol de esperança, uma chance de ascensão social e de uma vida diferente para ela e sua mãe. Na escola, incentivada por sua professora Dona Aninha, Martha descobre a vocação para o magistério, visualizando-o como o caminho para a independência e a melhoria de suas condições de vida.
Contudo, a jornada de Martha é marcada por desilusões. Uma viagem a Palmares a leva a um amor não correspondido por Luís, primo de sua professora, que contrasta com sua personalidade e origem. Posteriormente, por pressão social e o desejo da mãe de assegurar sua reputação, Martha aceita se casar com Miranda, um viúvo que se encanta por seus escritos. Esse casamento, desprovido de amor, representa uma “vingança” contra as imposições sociais. Logo após a união, sua mãe falece, mergulhando Martha em uma profunda crise existencial e na perda de sentido.
A obra é um retrato sensível e incisivo da condição feminina e das complexas relações sociais no Brasil pós-abolição. Martha, mesmo alcançando certa ascensão, percebe que sua origem humilde permanece uma barreira, e que mérito e esforço nem sempre garantem sucesso em uma sociedade baseada em privilégios e compadrio, expondo a hipocrisia de um sistema que valoriza o esforço individual, mas funciona através de conexões.
A emancipação feminina pela educação e trabalho em uma sociedade brasileira desigual e patriarcal do século XIX.
Júlia Valentim da Silveira Lopes de Almeida (1862-1934) foi uma das mais proeminentes escritoras e intelectuais brasileiras de seu tempo. Nascida no Rio de Janeiro, em uma família culta e abastada de origem portuguesa, teve acesso a uma educação liberal e sofisticada, algo incomum para mulheres da época. Sua estreia literária se deu em Portugal, com o volume de contos “Traços e Iluminuras” (1887), e “Memórias de Martha” (publicado em folhetim em 1888 e em livro em 1889) marcou sua estreia no gênero romance. Além de romancista, foi cronista, teatróloga, escritora de literatura infantil e abolicionista. Sua vasta obra e engajamento intelectual a levaram a ser uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL). Contudo, apesar de sua relevância e participação nas reuniões fundadoras, foi preterida em favor de seu marido, o poeta Filinto de Almeida, para manter a ABL como uma instituição exclusivamente masculina. Júlia Lopes de Almeida faleceu em 1934, vítima de malária.
“Memórias de Martha” é o primeiro romance de Júlia Lopes de Almeida e uma das leituras obrigatórias da Fuvest 2026, além de ser exigida no Vestibular Seriado da UFMG (ciclo 2025-2027). Publicada inicialmente em folhetins entre 1888 e 1889 e em formato de livro em 1899, a obra é um romance de formação (ou Bildungsroman) que narra a trajetória de amadurecimento da protagonista Martha. Através de suas memórias, o leitor é convidado a uma profunda reflexão sobre a sociedade brasileira do final do século XIX, abordando temas universais e ainda contemporâneos como a desigualdade social, o machismo estrutural, a maternidade solo e o papel transformador da educação em vidas marginalizadas. O livro destaca a luta de uma mulher pela sua autonomia em um contexto patriarcal e excludente, onde as convenções sociais frequentemente se sobrepõem aos desejos individuais.
| Tempo | Final do século XIX (entre 1888 e 1899), período da República Velha e pós-abolição. As memórias alternam lembranças da infância com reflexões da maturidade. |
| Espaço | Principalmente o Rio de Janeiro, então capital do Brasil. O cortiço em São Cristóvão é um cenário central, contrastando com outros ambientes sociais que Martha frequenta. |
| Narrador | Primeira pessoa (narrador-personagem), a própria Martha adulta revisitando e recontando os acontecimentos de sua vida. Há intervenções da Martha madura, que compartilha percepções adquiridas com o tempo. |
| Linguagem | Direta, fluida e envolvente. O tom é íntimo e sensível, aproximando o leitor da perspectiva e dos sentimentos da protagonista, carregada de desilusão e pessimismo característicos do Realismo. |
“Memórias de Martha” insere-se na esteira do Realismo brasileiro, manifestando características típicas do estilo folhetinesco, popular na época de sua primeira publicação. A autora emprega uma linguagem clara e objetiva, focando na observação detalhada da realidade social e psicológica das personagens. O uso do narrador em primeira pessoa é um recurso fundamental, conferindo ao romance um tom confessional e íntimo, permitindo ao leitor acessar diretamente os pensamentos, sentimentos e a evolução de Martha.
A obra se distancia, porém, do determinismo naturalista que permeava algumas produções contemporâneas, uma vez que, apesar das condições insalubres do cortiço, Martha e sua mãe não são totalmente “corrompidas” pelo meio. A protagonista, inclusive, mantém uma visão de repulsa pelos demais moradores, o que demonstra um recorte de classe interessante. O contraste é um recurso constante, seja entre a miséria do cortiço e a esperança da escola, seja entre o amor idealizado e o casamento por conveniência. A crítica social é sutil, mas incisiva, exposta através das experiências da protagonista e de sua percepção aguçada sobre as hipocrisias e injustiças da sociedade patriarcal. A melancolia e o pessimismo de Martha são traços psicológicos que ressaltam o impacto da desigualdade social na saúde mental dos indivíduos.
O romance “Memórias de Martha” é um espelho do Brasil do final do século XIX, ambientado no período da República Velha (1889-1930) e em um Rio de Janeiro que passava por significativas transformações urbanas e sociais após a abolição da escravatura. Nesse contexto, os cortiços eram uma realidade marcante, abrigando a população mais pobre, incluindo ex-escravizados e imigrantes, que buscavam trabalho nas grandes cidades e se deparavam com a falta de moradia adequada e condições insalubres.
A obra de Júlia Lopes de Almeida tece uma poderosa crítica social às estruturas que perpetuam a desigualdade no Brasil. Através da trajetória de Martha, o livro evidencia como a mulher pobre era empurrada para papéis limitados e invisibilizada nas esferas de poder. A história explora temas como a maternidade solo, o machismo estrutural, o preconceito de classe e raça – exemplificado na descrição de personagens como Mathilde e na própria repulsa de Martha por seus vizinhos de cortiço – e a precariedade da vida em face de epidemias e da fome. A autora denuncia, sem panfletos, as contradições de uma sociedade que pregava o esforço individual, mas que funcionava na base do “compadrio” e das conexões sociais, limitando o acesso e a ascensão de quem não pertencia às elites. A busca de Martha pela educação e pelo trabalho como professora é uma forma de emancipação e resistência contra um destino imposto pela sociedade patriarcal e excludente.
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Confira um resumo em vídeo sobre esta obra:
Resumo do livro MEMÓRIAS DE MARTHA | Júlia Lopes de Almeida | vestibular Fuvest
A FURG antecipou a data do vestibular 2027 para 22 de novembro de 2026. A medida visa evitar conflitos com outros processos seletivos da região.